Crianças pagãs
1 único
Zoro cresceu rápido demais.
Ou pelo menos no seu interior.
Era um garoto de 9 anos de idade e de cabelos verdes com pele morena, mas que possuía um dom (talvez maldição) por conseguir ver a maldade no mundo, muitas vezes presentes nos adultos, ainda tão cedo.
Ele se lembra bem dos dias que passava na casa de Sanji, um garoto pálido com a mesma idade e de cabelos loiros, gostava de chamá-lo de sobrancelha enrolada por conta das espirais que elas formavam. E se lembra principalmente do seu semblante entristecido depois de ouvir um sermão de seu pai. Com 18 anos, Zoro saberia o nome do que sentiu na época: moralismo. Episódios parecidos aconteceriam com frequência, até que um dia o esverdeado se sentiria na obrigação de proteger o seu amigo.
A cidade em que nasceram estava em desenvolvimento, os comércios eram distantes um dos outros e das próprias casas. Eles se lembravam dos campos abertos, sejam de alguém ou não, aos montes e que teriam que atravessar caso quisessem comprar pão e leite. Muitas vezes caminhavam por entre os capins, que se diferenciavam. Uns havia capins altos demais, outros eram mais batidos e davam a sensação de um sertão. Numa dessas caminhadas, Sanji, com os seus 12 anos de idade, parou Zoro pelo ombro e perguntou ao amigo:
— Eu sou estranho?
— Não. — Respondeu rápido e já estava voltando a andar, mas Sanji o parou novamente.
— Fale a verdade.
Zoro suspirou e coçou a cabeça. — É, mas quem não é?
Sanji não ficou satisfeito com a resposta, teve a sensação que ele arrumara um jeito de fugir pela tangente. Ainda que o loiro retomara sua caminhada, Zoro notou sua insatisfação. Nessa época sentia que algo estava acontecendo: Sanji se sentia oprimido. Mas Zoro não sabia o nome e o que era, só conseguia ter o pressentimento. Resolveu pegar na mão do amigo, fazendo o idiota sorrir com o ato. Os sorrisos do sobrancelha enrolada eram os seus favoritos e se sentia igualmente alegre quando Sanji respondia o aperto de mão com a mesma força. Era raro haver carinho na relação entre eles, muitas vezes por serem teimosos e orgulhosos demais. No entanto, Zoro precisava protegê-lo e orgulho nenhum lhe impediria disso.
Aos 16 anos, transaram pela primeira vez. Zoro lembra que naquela época, Sanji não quis mais vê-lo e ele tinha certeza que era por conta de um sentimento que lhe fazia se sentir triste e sujo. Muito perto daquilo que ouvia não só de seu pai, mas de todos os adultos. Zoro achava engraçado os jovens serem acusados como praticantes do paganismo por ouvirem uma música da moda ou ver um filme da temporada, quando eram os adultos que não paravam de falar do diabo. Passou cerca de uma semana para Sanji voltar a ver o esverdeado, ninguém sabia o que fizeram, mas parecia que em sua mente havia um chip que o condenava automaticamente.
Com 17 anos o sentimento de deixar aquela cidade estava grande como nunca. Sanji estava na margem da lagoa e Zoro saia dela somente com o calção para se sentar ao seu lado. A imagem de ver o namorado saindo da água lhe excitou, e já sabendo do negócio, o esverdeado meteu a mão por dentro de seu calção. Porém, Sanji a tapeou, fazendo o outro estranhar sua reação, já que era um verdadeiro depravado, nem parecia que um dia se culpou tanto por ter transado.
— Marimo, — O jeito que Sanji chamava Zoro desde que se conheceram. — Do que sentirá falta quando sairmos daqui?
— De nada.
— Sabe que essa cidade é a nossa visão de mundo, certo? Não tem medo do que pode acontecer lá fora?
Zoro fitava o céu sem nuvens, com os braços atrás da cabeça e deitado na relva da lagoa. — Eu tenho. — Fez uma pausa. — Mas tenho mais de quando descobrirem que somos amantes.
Sanji ouviu o que disse e abraçou suas pernas, pensativo. — Minha irmã descobriu.
— Quê?? — Ergueu o torso bruscamente por estar assustado. — Desde quando??
— Não é só ela, mas Zeff também sabe e falou que se eu precisar de algo é só pedir. — Zeff era um senhor que ensinava Sanji a cozinhar. Com muito custo, seu pai permitiu participar das aulas.
Zoro continuava com o olhar aberto. — Essas pessoas nunca vão nos dedurar...
— Eu pensei o mesmo, mas acho que alguém ruim pode notar um dia... Isso se já não notou. — Se referia aos seus irmãos e ao próprio pai.
— Temos que sair daqui. — Zoro disse num tom mais calmo, observava o outro lado da lagoa. — Talvez eu sinta falta dessa lagoa.. e só.
Sanji riu. — Eu do capim!!
— É só o que tem aqui!
Os dois riram, e o loiro notou a luz do sol bater nos brincos de ouro do esverdeado. Se lembrou que ele havia levado uma coça do pai por ter furado a orelha. Sanji sempre pensa que nesse dia falhou em protegê-lo.
Notas finais
talvez eu deveria ter feito como original, mas eu gosto tanto do ship "/
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