Crianças Da Noite
1 Crianças da Noite
Notas iniciais
Crianças da Noite.
Aquela atmosfera parecia que nunca mais iria mudar. A janela entre aberta que deixava todo o frio do lado de fora invadir o ambiente daquela grande mansão. Só que o tempo passava, passava sem ter piedade, passava... Mesmo sem parecer que passou. E aquele homem ainda esperava que aqueles que amava voltassem; ele estava parado na frente de uma janela na mesma posição, com uma taça de vinho nas mãos. Só que estava parado ali há tanto tempo que o vinho da taça secou tornado-se apenas um pó acinzentado preso ao cristal, todas as flores que adornavam os vasos tomaram formas indiscerníveis e cinzentas, o chão, as paredes e inclusive suas roupas estavam cobertos de poeira. Apesar disso, seu rosto não envelhecera um dia sequer.
Não sabia dizer quando tempo estava ali, semanas, meses, décadas talvez... Isso não mais importava.
Por algum motivo, ele finalmente se mexeu. Talvez o tempo o tivesse feito perceber que sua esposa e seus filhos nunca mais voltariam; já estavam mortos há muito tempo. Mesmo que ele não quisesse aceitar o fato era melhor assim.
Deixou a taça em cima de uma mesa, deu leves batidas em suas roupas para remover um pouco do pó, girou a maçaneta, abriu a porta e saiu. Ao contrario do quarto onde estava antes, todo o resto da mansão estava limpa e bem decorada, os criados ainda cumpriam sua função apenas não se atreviam a abrir aquela porta. – Provavelmente esses mesmos criados se surpreenderiam ao vê-lo rondando o lugar assim novamente – Entrou em um dos quartos para se ajeitar e procurar roupas limpas. Tinham se passado alguns anos. Isso já tinha acontecido outras vezes, mas nunca por tanto tempo. Para um vampiro que viveu por tanto, os anos pareciam meras horas.
Depois de se banhar, tirar toda a poeira de sua pela alva e pálida, lavar seus cabelos compridos e claros que caiam com leves cachos nas pontas, para então, arrumá-los em frente a um espelho encarando seus olhos azuis de tom acinzentado, ao contrario do que se podia pensar, ele talvez tivesse uma alma ali, por mais desgastada e corrompida que fosse... Enfim trocou suas roupas por outras recém lavadas. Ele parecia intacto novamente, mesmo que por dentro tivesse uma grande ferida em seu peito que era escondida por sua expressão fria como o mármore. Se o visem na rua, poderiam dizer falar facilmente que se tratava de um belo jovem na flor da idade.
Leigo engano.
Passou algum tempo fitando a janela e apreciando céu da noite, as estrelas e o luar, essa noite a lua tinha um tom avermelhado estranho e ao mesmo tempo familiar. Pode com clareza um objeto esférico ser arremessado na varanda daquele quarto, parando a poucos metros dele, uma bola obviamente.
Ele quase nunca via ninguém. Lembrou-se de como aquela casa cheia da vida estava tão vazia e triste agora. Ninguém jamais voltaria, estava sozinho.
Até que viu alguém de longe pular um muro e se aproximar, logo em seguida ouviu a pequena figura bater na porta principal, uma batida tímida, porém forte. Desceu as escadas até chegar à porta da frente e a abriu, dispensado o criado que tinha essa função e que se assustou ao vê-lo tão ativo por sinal, esse mesmo criado foi pra cozinha aos burburinhos com alguns outros, coisa que o vampiro ignorou. Olhou pela porta aberta analisando cuidadosamente, em frente a ele, estava parado um garoto que certamente não passara dos nove anos, suas roupas eram simples e gastas e seu cabelo sujo e desgrenhado em tons castanhos caia no rosto.
– O-Olá é que... que... – ele não conseguia falar direito por causa do nervosismo, talvez sentisse que não estava falando com uma pessoa comum e por isso sentia um arrepio percorrer-lhe a espinha, mesmo sem entender o motivo.
– Pode falar, não precisa ter medo. – Parecendo ler aqueles pensamentos turvos, falou de forma calma e fria, mas, transmitindo certa tranquilidade. Talvez realmente os lesse.
– E-eu... eu estava brincando com a minha bola e... — o garoto continuou um pouco menos nervoso – E ela caiu na sua varanda... E-então...
– Você quer pega-la não é isso?
– Quero... – O garoto respondeu ainda tremendo um pouco, aquele homem a sua frente apesar de assustar... Transmitia uma calma estranha, que fazia qualquer um perder todo tipo de receio em pouco tempo, era quase sobrenatural.
– Gostaria de tomar um pouco de chá comigo? – O mais velho perguntou olhando para o garoto e dando um sorriso fraco. – Tu pertences a aquele orfanato que fica perto daqui, não? Entre e coma alguma coisa. Depois disso pode pegar sua bola, sei que lá eles não alimentam vocês direito.
O garoto permanecia ligeiramente apreensivo, mas sua fome falou mais alto. Ele entrou na grande e luxuosa casa e ambos sentaram-se em um dos sofás da sala de estar sem dizer uma só palavra. Apenas um aceno do homem bastou e pouco tempo depois uma criada trazia o chá fino e alguns biscoitos recém preparados.
O pequeno olhou para os biscoitos por alguns segundos, sentindo seu estomago doer, mas, apenas bebericando o chá, ele estava faminto mais mesmo assim não pegou nenhum.
– Não precisa ficar só olhando. – Disse seu anfitrião. – Pode comê-los, sei que está com fome. Aliais, eu também estou.
O garoto então começou comer os biscoitos com rapidez, perdendo qualquer traço de inibição que tinha.
– Meu nome é Alistair. – O vampiro falou, mantendo a expressão enigmática e serena. – Qual é o seu nome?
– Na verdade senhor... Eu não tenho nome. – Ele respondeu alguns segundos depois, talvez um pouco sem graça. – No orfanato não nos deixam ter um, dizem que pessoa que nos adotar nos dará um nome. É meio estranho, não é?
– Entendo... – Alistair falou fitando a xícara de chá em sua mão, vendo seus olhos “mudarem”e se tronarem rubros em seu reflexo no liquido quente, apenas por um segundo até voltarem ao normal – Sabe de uma coisa, você lembra muito um dos meus filhos. Talvez eu possa lhe dar um nome. – Ele agora olhava para o garoto.
– Isso é serio?! – O garoto perguntava surpreso e animado ao mesmo tempo, tudo que queria era sair daquele orfanato a qualquer custo.
– Sim... – Alistair lhe respondia. – É apenas um breve momento de dor para a eternidade.
...
Essa criança foi apenas a primeira de muitas.
oOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo
E quanto a você? Gostaria de tomar um pouco de chá comigo?
Notas finais
Uma coisa que eu queria comentar é sobre o "reflexo no espelho", os mitos sobre vampiros não terem reflexo vem das lendas deles "supostamente não terem alma", por isso fiz aquele comentário naquela parte do espelho; acho que assim consegui passar a mensagem.
Para aqueles que se interessarem: uma nova história original minha será postada em breve e essa será capitulada! Acho que quem curtir essa vai gostar bastante da outra, mas... Sinto que não posso dizer mais que isso.
Muito obrigada por lerem, e se quiserem deixar um review para que eu saiba o que acharam eu vou agradecer muito!
Kareta-Hasu.
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