Notas iniciais
[edit em 2016: tenho o prazer de informar que ano passado eu consegui finalmente assistir a peça do National Theatre quando ela passou nos cinemas Cinesystem no Brazil. Foi incrível, uma das melhores experiências cinematográficas que tive em 2015 junto com a aparesentação de Ivan o Terrível do Ballet Bolshoi.

"Man," I cried, "how ignorant art thou in thy pride of wisdom!"

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Nós, humanos, somos criaturas esquisitas. Estamos sempre testando uns aos outros, testando a nós mesmos, disputando para ver quem é o melhor, fazendo coisas que desafiam a natureza apenas para provarmos que estamos certos. Sou um desses humanos, infelizmente, o que explica a razão de eu estar onde estou, de ter a vida miserável que tenho, de me corroer de arrependimento como me corrôo todo dia e noite.

É terrível ver até onde vamos para alcançar nossos objetivos. Pesquisas insanas, teorias esquisitas e experimentos bizarros... Posso falar muito bem disso, afinal, sou um dos pesquisadores, um dos cientistas que ignoraram todos os avisos que poderiam impedir-me de conquistar o que eu queria. Sou mais um ser humanos tentando igualar-se a Deus.

Quando a idéia surgiu em minha mente, nenhuma de suas conseqüências a seguiu. Não, a única coisa na qual pensei foi na satisfação de conseguir completar meu experimento, no reconhecimento que ganharia caso fizesse tudo funcionar. Era uma idéia incrível... Criar vida a partir de matéria inanimada! Ninguém jamais havia conseguido fazer tal coisa, mas eu sabia como fazê-la. Eu sabia e faria.

Oh, amaldiçoado seja o dia em que decidi tentar brincar de Deus! Amaldiçoado seja o momento em que tal idéia tomou lugar em minha mente! Não fosse por ela, eu estaria tendo uma vida tranqüila, sem nenhum peso na consciência, sem nada para tornar-me o ser miserável que sou agora.

Quando vi minha experiência suceder de maneira tão perfeita, devo admitir que fiquei extasiado! Tudo funcionara, tudo estava ótimo! Mas foi só meus olhos recaírem sobre a criatura que eu havia criado para que eu me desse conta do que havia feito, para que eu me arrependesse de tudo.

Eu havia criado vida, havia criado um Adão, havia criado um monstro. Não sabia o que fazer enquanto olhava aquela criatura monstruosa contorcer-se no chão, acostumando-se com os movimentos de seus membros, aprendendo aos poucos a ficar em pé e a andar, ainda que fosse com passos bambos como os de uma criança... Aquela era a minha criança, a criança que eu havia criado a partir de matéria morta, a criança com um cérebro de um homem adulto, mas, ainda assim, uma criança recém-nascida.

Meu desespero foi tamanho que o abandonei. Não queria ficar perto daquela criatura, não queria ter que olhar para o que havia criado, não queria ter que cuidar daquilo... Não sei o que houve com ele e nem sei se quero saber, apenas espero que ele não volte para me assombra. Espero que minha criação não decida voltar-se contra o seu criador, ou, se ele decidir fazer tal coisa, espero que nunca me encontre.

Vez por outra pego-me pensando sobre o que aquele monstro pensa quando lembra-se de mim. Será que ele sequer se lembra de seu criador? Afinal, o tempo em que fiquei ao seu lado fora muito escasso e fora logo após o seu nascimento...

Mas, se ele tem alguma recordação minha, o que pensa? Será que me vê como um inimigo? Um amigo? Um pai? Um Deus? E, se eu sou seu Deus, o que ele é para mim? Um filho? Adão? Lúcifer? Ou apenas um experimento feito para satisfazer a minha curiosidade?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!