Crescent Valley
1 Prólogo
Notas iniciais
Correndo.
Minha respiração fazia meus pulmões queimarem ao se encher de ar, como se eu estivessem inalando fumaça pura, mas era apenas o ar. O ar inalado de alguém que corria em uma velocidade sobre humana. Meus pés se enroscaram em raízes quase me levando ao chão enquanto eu fugia.
Mas do que eu estava fugindo?
Parei por um momento e olhei ao redor procurando por algum tipo de ameaça que colocasse a minha vida em risco, mas tudo o que encontrei foram arvores e um céu noturno. Uma gargalhada abafada ecoou na escuridão fazendo o de vento varrer a copa das arvores. Uma anomalia no céu fisgou a minha atenção e pude avistar uma nuvem de areia negra cintilando nos céus. Arvores começaram a partir e rachar, o solo tremia. Raízes se desprendiam da terra e trovejavam ao se partir e voar sem direção. Quando olhei novamente ao redor as arvores tinham se tornado prédios e o solo úmido da floresta em asfalto, que ruía enquanto pedaços de concreto se soltavam das construções e se chocavam com o solo. A massa de asfalto ia em direção aos céus despedaçada enquanto colidia com os destroços dos edifícios que desmoronavam.
Sobre a cadeia de nuvens de areia negra uma figura de olhos vermelhos vestia algum tipo de armadura negra, com um elmo ornado de chifres voltados para baixo. Era demoníaca a forma como ele manipulava a matéria negra a sua vontade como se nada fosse capaz de pará-lo.
O que era aquilo? Porque estava causando tanta destruição? Minha voz não saía.
Um corcel feito de areia negra se levantou sobre a nuvem enquanto o ser erguia algo como um cetro em direção ao alto, e no instante seguinte meu corpo ficou paralisado. Os olhos vermelhos encontraram os meus como se revirassem a minha alma, fumegavam um poder capaz de subjugar até mesmo os seus sentimentos mais banais.
Ao seu lado outros três corcéis surgiram, mas estes, montados por alguém. Seriam aquilo pessoas ou outros construtos da areia da noite? Era impossível dizer.
—O Jaghar se aproxima. Você não pode escapar de seu destino.
O corcel negro que estava sem cavaleiro deu passos para frente e bateu o casco direito contra a nuvem sob a qual ele estava provocando um som tão alto como o de um trovão que me fez tremer. A criatura começou a me perseguir e outra vez eu estava imerso na floresta, correndo com o coração batendo na garganta e a respiração irregular me fazendo tropeçar em algumas raízes e quase cair, ate ver uma nuvem de areia negra tomando conta do céu da noite.
Estava se repetindo.
Subitamente parei de correr notando que era algo do qual eu não podia fugir. O corcel feito de areia negra estava de frente a mim marchando a passos intimidantes, me fazendo recuar enquanto seus sopros ficavam mais intensos. Virei-me outra vez e comecei a correr mesmo sabendo que estava preso naquele loop infinito de perseguição.
Meu coração batia cada vez mais forte, estava se tornando impossível aguentar a força com que ele bombeava o sangue que parecia ferro derretido nas veias. Tive a impressão de ter tropeçado em uma raiz, mas quando olhei para baixo ela estava prendendo meu pé, subindo perna acima como uma serpente. Um olhar mais atento e preocupado me fez ver que não era uma raiz, e sim uma gavinha de areia negra cintilante que estava me imobilizando.
O ser com o elmo ornado de chifres surgiu a somente alguns centímetros de mim, seus olhos de areia vermelha cintilante moviam-se nos próprios orbes de forma perturbadora e foi então que senti todo o ar escapar dos meus pulmões e meus batimentos aumentarem ainda mais. Uma dor indescritível colocou meu sangue em chamas eu queria explodir em mil pedaços só para fazer aquilo parar. Minha cabeça doía com tanta força que eu sentia vontade de abri-la com minhas próprias garras só para me livrar da tortura.
A voz do ser soou como um raio contra mim, fazendo toda a minha estrutura tremer.
—Vocês não podem escapar do destino.
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