Crazy Bout' You
34 Capítulo 34 - Old Feelings
Notas iniciais
Chris acordou com um barulho irritante de batidas no quarto. Ele abriu os olhos, virando a cabeça para o lado e encontrou Sam arrumando alguns livros na mochila. O problema mesmo era que ele batia os livros contra os outros de propósito.
– Será que dá pra fazer silêncio? — resmungou o loiro colocando um travesseiro no próprio rosto.
– Não — respondeu de modo grosseiro -, e você devia levantar.
Chris praguejou ao olhar para o relógio, levantou-se rapidamente e saiu rumo ao banheiro.
Sam aproveitou a privacidade para poder se trocar. Ele vestiu uma camiseta cinza com a estampa do Star Trek, um jeans azul, um all star branco e uma blusa xadrez branca e preta. Sam limpava seu óculos distraído, quando ouviu um berro pedindo "socorro" vindo do banheiro. Ele correu para o local encontrando um Wade apenas de cueca, com o braço em torno do pescoço de Chris que parecia totalmente imobilizado.
– Eu achei esse cara escovando os dentes no nosso banheiro! — falou Wade.
– Eu... moro... aqui... merda! — dizia Chris, sufocando.
– Ér... Wade, ele mora aqui agora. Ficou no lugar do Flash.
– Oh! — exclamou Wade o soltando por fim. — Foi mal cara.
– "Foi mal?!" — repetiu Chris indignado.
– Sou Wade Wilson — disse o loiro estendendo a mão.
Chris cruzou os braços, mas logo sentiu uma cotovelada em sua cintura vinda de Sam e praguejou, estendendo a mão por fim.
– Chris Daniels.
Wade franziu o cenho, tendo a impressão de já ter ouvido o nome antes.
– Ele já estudou comigo — contou Sam por fim. Ele não sabia se Wade estava a par dos seus problemas do passado, mas julgando a expressão esclarecida do loiro, ele já deveria estar sabendo.
Wade não sabia da história completa, mas já ouvira alguém comentar sobre um Chris Daniels que fizera algum mal para Sam, e julgando o quanto Sam recusava as investidas de Harry no passado, provavelmente de alguma forma a culpa disso tudo era daquele cara.
Chris engoliu em seco ao observar Wade o encarar com um olhar de poucos amigos.
– Se você fizer alguma coisa com o Sam, não vai ser só o seu pescoço que vai sair quebrado da próxima vez.
Chris deu um assobio assim que Wade voltara para o quarto dele, dando um suspiro de alívio em seguida.
– Tem um ótimo segurança, hein?
– É, ele tem esquizofrenia — falou Sam, indiferente, porém com um sorriso maldoso escapando dos lábios.
– Como é que é? — indagou o loiro alarmado, o seguindo de volta para o quarto.
– É, ele dorme num quarto só pra ele, pra não machucar ninguém.
Sam segurou muito sua vontade de gargalhar diante da expressão assustada de Daniels.
– Ele não pareceu ir muito com a sua cara, então eu ficaria bem longe dele se fosse você.
– Vocês são malucos... — disse Chris piscando várias vezes, tentando absorver ainda a ideia de um esquizofrênico na mesma casa que ele.
– Ou você que é um covarde — retrucou o moreno pegando sua mochila e saindo do quarto, dando antes uma risada um tanto quanto macabra, deixando Chris paralisado.
oOo
Peter esperava meio ansioso a saída de Wade em frente a porta fechada da turma de engenharia mecânica. Ele encostou a cabeça na parede depois de longos dez minutos de espera. Quando a porta finalmente se abriu ele afastou-se observando uma leva de estudantes saindo do local e não pôde deixar de se encolher um pouco quando visualizou Flash saindo da sala.
O loiro o encarou por alguns segundos com o mesmo olhar de ódio de sempre, mas passou por ele sem nenhum tipo de implicância depois de olhar de volta para a sala e logo Peter percebeu que era porque Wade havia saído. Peter engoliu em seco ao ver o loiro o encarar com uma expressão mais dura. Wade foi até o menor à passos pesados, enquanto apertava o celular contra sua mão com força.
– Rick me ligou — disse o loiro num tom raivoso -, porque você fez isso comigo, Petey?
– Eu te disse que faria — defendeu-se. — Além do mais já conversamos sobre isso, você vai sim e sua consulta é ainda hoje.
– Por que me odeia tanto? — dramatizou.
– Para, Wade.
– Eu já tô ótimo! Eu juro! As vozes não voltam já faz um bom tempo, sabia?
– Não quero saber — disse Peter cruzando os braços. — Sua consulta é às duas, então sugiro que vá logo almoçar.
Wade deu um gemido frustrado, batendo o pé em birra e saindo do prédio rapidamente sem nem esperar por Peter, que tentava não rir daquela cena toda.
oOo
Sam estava sentado em frente ao chafariz lendo o livro em sua mão, apesar do sol, já que o chafariz lhe proporcionava uma sombra boa o suficiente para cobrí-lo inteiro. Ele lia tranquilo, sem se importar com as vozes distantes dos estudantes que passavam ali, mas passos pesados chegavam perto dele. Sam não ligou, continuando a focar nas letras em sua frente, porém o livro em suas mãos logo sumiu e ele teve de olhar pra cima, furioso, afim de saber quem havia surrupiado seu livro.
– Quarenta minutos! — gritou o rapaz batendo o pé contra a grama. — Me atrasei quarenta minutos por sua culpa!
– Minha culpa? — desdenhou.
– Sim! Você não me mostrou os prédios, eu me perdi! E levei um sermão ridículo do professor, como se eu fosse um aluno do fundamental!
Sam se levantou, tentando mostrar-se imponente e indiferente às reclamações de Chris, mas a diferença de tamanho entre eles deixava tudo um pouco ridículo.
– Eu te dei uma aula teórica.
– Teórica! Puta que pariu, Samuel! Você tinha que me mostrar tudo! Eu me perdi de novo até achar você aqui!
– Escuta aqui, Christopher, eu acho bom você baixar a sua voz ou não vai saber nem onde fica o banheiro!
Chris bufou, apertando os punhos e dando um longo suspiro.
– Eu acho bom você começar a me mostrar esse lugar agora mesmo.
– Não dá, eu preciso terminar de ler — disse o moreno arrancando rapidamente seu livro das mãos do loiro.
Antes que Sam pudesse se afastar dele, Chris segurou o pulso do menor o trazendo para mais perto.
– Acontece que se eu não conhecer essa universidade agora mesmo, você terá muito o que explicar pro reitor depois que eu for lá dizer o quão incompetente você está sendo.
Chris finalmente o soltou assim que Sam passou a encará-lo de modo assassino. Ele deu um sorriso de canto, provocando o menor e arqueou a sobrancelha em desafio, esperando por uma resposta.
Sam tinha vontade de matá-lo. Quem ele pensava que era o ameaçando daquele jeito? Ele era patético. Sam apertou com firmeza a capa do livro, impulsionando sua mão direita e chocando o livro contra a cabeça do maior.
– AI! Você ficou maluco?! — exclamou Chris com as mãos na cabeça que latejava pela dor do impacto.
– Isso foi por me ameaçar — disse Sam entredentes -, agora vamos antes que eu me arrependa.
Chris encarava o menor com incredulidade enquanto o seguia, Sam havia ficado louco.
– Desde quando você se defende?
– Desde que eu parei de gostar de você, quando finalmente deixei de ser trouxa.
– Sinceramente ainda acho que você está sendo trouxa.
Sam parou de andar, ameaçando bater novamente com o livro na cabeça do loiro.
– Tá bom! Tá bom! Foi mal!
– O que você quis dizer com isso?
– Ah, vamos lá né, Sam, você deixou de gostar de mim pra namorar um cara pior do que eu. Você ao menos para pra ler revistas?
– Eu sei muito bem o que o Harry já fez e quem ele é. E acredite, Christopher, você não é nem metade da pessoa que ele é.
– Se você diz... — falou Chris num tom irônico -, mas ainda acho que você está sendo trouxa, como não seria? Você já caiu nessa uma vez. A não ser que... bem, vocês já tenham transado.
– Cala a boca.
– Oh... então realmente aconteceu? — indagou o loiro encarando o menor com surpresa. — Quem diria, hein?
Sam respirou fundo, fechando seus olhos e os abrindo em seguida, encarando aquele sorriso de zombação que Chris lhe enviava. Ele perdeu toda a paciência que tinha e começou a bater com força o livro contra as costas, peito, braços e cabeça de Chris.
Chris se encolheu no começo, recebendo as agressões apesar de usar as mãos como escudo, mas aquilo era patético, ele sabia muito bem se defender e foi o que ele fez.
Sam ia dar mais uma livrada na cabeça do loiro, mas logo seus pulsos foram segurados pelas mãos fortes dele, deixando-o imobilizado.
– Me solta!
– Não enquanto você não parar!
– Por que tá fazendo isso?
Chris não soube o que responder. Ele também não sabia porque gostava tanto de humilhar o menor, era como se o tempo não tivesse passado.
– Você me humilhou — disse Sam cuspindo as palavras -, e, segundo todos daquela escola, foi porque me queria bem longe de você. Então me responde: por que você não me deixa em paz?!
– Você é o meu guia — respondeu por fim, o largando.
– Exatamente, sou o seu guia, não seu amigo, você não tem o direito de se intrometer na minha vida.
Chris suspirou, obrigando-se a concordar, admitia que estava sendo ridículo e imaturo.
– É, você está certo, desculpe.
Sam franziu o cenho, confuso. Ele esperava tudo menos um pedido de desculpas. Ele encarou o maior com certa desconfiança, mas logo se virou pronunciando um indiferente "tá" e prosseguindo com o tour pela universidade sem mais tocar no assunto.
oOo
As paredes brancas e o silêncio do recinto o deixava nervoso. Era como voltar a ter um pesadelo antigo, que há muito havia achado se livrar. Ele mexia as pernas para cima e para baixo em movimentos rápidos e nervosos, sua cabeça estava à mil e ele tentava ignorar a sensação pesada de estar sendo observado. Ele odiava quando ela o observava daquele jeito.
– Então doutora, quando é que você vai perguntar sobre a minha vida? — disse Wade tentando quebrar aquele silêncio incômodo.
– Você parece nervoso, Wade, tem algo que o aflige?
Wade arqueou a sobrancelha, desacreditando que ela lhe fizera aquela pergunta, era como se ela não trocasse o disco, ela sempre fazia aquela pergunta, ela simplesmente não acreditava que ele batucava a mesa, mexia as pernas e fizesse qualquer outra coisa por livre e espontânea vontade, ela sempre achava que ele estava inquieto e nervoso com algo. Claro que aquilo era verdade, mas a mulher sempre estava certa, era irritante.
O loiro ficou em silêncio invertendo os papéis e observando sua terapeuta com atenção. Ela era asiática, com a pele meio bronzeada, ele lembrava-se dela dizer que era da Califórnia. Os cabelos eram castanhos com algumas mechas mais claras, eram longos e lisos. Ele ficou algum tempo focado na postura reta dela, perguntando-se como ela conseguia ficar numa posição tão certinha por tanto tempo.
– E então? Quer conversar sobre o seu amigo que está te esperando lá fora?
– Só estou aqui por causa dele — respondeu bufando logo em seguida.
– E com certeza por ter feito algo que ele não gostou.
– Olha, se você sabe de tudo por que tá me perguntando essas coisas? — indagou, impaciente.
– Quero ouvir o seu ponto de vista, e não, eu não sei de nada, se o seu amigo quem o trouxe aqui é evidente que algo grave aconteceu entre vocês.
Wade suspirou derrotado e por fim resolveu aceitar a ajuda dela. Ele contou sobre Flash, sobre ter enlouquecido com a atitude dele, sobre as vozes e sobre suas ações impulsivas a partir daí.
– Então voltamos à estaca zero.
– Isso deveria ser ruim, não? — indagou Wade, estranhando a calmaria da mulher.
– Na verdade não, estranho seria se elas nunca mais voltassem, é normal uma recaída, não é como se a esquizofrenia fosse embora para sempre.
– Mas doutora, demorou muito até elas irem embora, foram muitas sessões, eu não quero passar por isso de novo.
– É necessário, Wade, você não pode se deixar controlar por essas vozes, elas não existem.
(É claro que existimos! Ouviu isso?)
[Que grosseria, depois de tudo o que vivemos, Grace...]
Wade deu um gemido frustrado, pousando a cabeça sob a mesa entre ele e a terapeuta.
– Voltaram.
– Com que frequência isso acontece? — perguntou Grace, pegando em seguida seu bloco de notas.
– Na verdade faz um tempo que elas não voltavam... quer dizer, não é tanto, mas considerando que elas nunca me deixam em paz, foi um avanço — disse o loiro pensativo.
– Ótimo, deve ter um padrão aí, alguma razão, se lembra o que aconteceu para elas sumirem?
Wade tentou forçar sua memória, lembrando-se de quando Peter havia o encontrado no beco. Ele ainda as tinha na cabeça e alguma coisa muito importante naquele momento fez com que elas sumissem.
– Lembrei...! — exclamou o maior com um sorriso bobo nos lábios.
– E...?
– Petey disse que me ama.
Wade notou a expressão confusa de Grace e logo tratou de explicar, lembrando-se de que não havia contado o detalhe mais importante.
– Ele é meu namorado.
– É, acho que isso explica tudo — sorriu.
– Na verdade não, o que isso quer dizer?
– Wade, isso tudo é coisa da sua cabeça, faz parte da esquizofrenia, são coisas que só você consegue ouvir porque elas são você.
– Tá me chamando de maluco, doutora? — indagou Wade arqueando a sobrancelha.
– Silêncio, não desvie a minha linha de raciocínio e só preste atenção. Você ama o... como é mesmo o nome dele?
– Peter.
– Sim, você ama o Peter?
– Claro.
– E você esperava que fosse recíproco?
– Sinceramente não.
– E por que não?
– Eu não bato bem da cabeça, como já sabe. Quem amaria uma pessoa assim?
– Exatamente — sorriu Grace.
Wade franziu o cenho, ainda confuso.
– Ainda não entendi.
– Wade, Peter ama você e você não esperava que ele fosse capaz disso, é uma coisa nova pra você já que não bota fé em si mesmo e nós já conversamos sobre essa sua falta de amor próprio — disse Grace num tom severo, fazendo o loiro dar um sorrisinho culpado. — Enfim, as vozes fazem parte do que você é e se você ama o Peter elas automaticamente também o amam.
– Não, elas não... — Wade encarava o vazio, confuso, aquilo ainda não fazia sentido pra ele. — Elas não amam.
[Que insensível, é claro que eu amo.]
(Fale por si.)
– É claro que não do jeito intenso como você lúcido deve sentir, mas do jeito delas. Lembre-se que elas representam a sua insanidade, o jeito delas pode não ser o certo e muito menos saudável, mas é tudo uma questão de controle e agora que compreendemos, tudo será mais fácil.
(Não tô gostando disso...)
– Mais fácil como?
– Acredito que não precisará vir me consultar frequentemente como antes, não cabe mais à mim ajudá-lo diariamente com as vozes.
– Jura...? — disse Wade, esperançoso — então eu tô bem?
– Não, mas com a ajuda certa você pode ficar, se foi o Peter quem conseguiu calar as vozes...
– ...então é ele quem vai me ajudar a sumir com elas — completou o loiro.
– Exato.
– Isso é... perfeito! Muito obrigado, Grace.
Wade se levantou da cadeira, contente, prestes a sair da sala.
– Hã-hã mocinho! — advertiu — ainda não terminei, isso não quer dizer que você nunca mais deva voltar, eu preciso avaliá-lo.
Wade deu um suspiro, mas era melhor do que todos os dias.
– Com que frequência?
– Toda semana.
– Tá — disse o loiro não muito satisfeito com aquilo.
– Já pode ir, até a próxima semana, e peça para que seu namorado venha aqui assim que sair, preciso deixá-lo à par de tudo.
oOo
"Por que eu fui fazer isso...?"
A consciência de Sam fazia um mantra com a mesma pergunta repetidas vezes como punição própria por ter feito aquilo. Naquele momento ele e Chris estavam sentados no gramado do campus, próximos à quadra. Chris e Felícia mantinham uma conversa amigável entre si, enquanto ele fingia prestar atenção no que diziam, ainda frustrado com a calorosa boas-vindas de Felícia.
Ela não era do tipo falsa, mas era aquele tipo de pessoa que não guardava rancor e isso irritava Sam. Tudo bem que ela era popular na escola e falava com Chris às vezes, mas ela podia ter um pouco de consideração com ele, afinal, ela era sua amiga ou não era?
"Ela é amiga de todo mundo"
Sam estava começando a se arrepender muito de ter dito à Chris que Felícia estudava ali. Assim que ele ficara sabendo, praticamente exigiu que o levasse à ela, obviamente por interesse próprio do que por "saudades", afinal, ele não conhecia ninguém ali e saber que conhecia ao menos alguém que o tratasse melhor era muito conveniente.
Quando Sam finalmente deu fim aos seus devaneios percebeu que Chris e Felícia gargalhavam de algo e ele se sentiu incomodado ao receber olhares estranhos dos dois.
– O que foi?
– Estávamos lembrando de quando vocês namoravam — dizia a morena dando risadas.
– Jura, Felícia? Vai mesmo falar sobre isso? Esse namoro nem era real.
Felícia parou de rir, dando de ombros e fingindo fechar a boca com um zíper imaginário.
– Deixa de ser chato, Sam — disse Chris revirando os olhos.
– Deixa de ser otário, Christopher.
– Me chamou do quê?
– O-tá-rio.
– Ei, ei! Chega os dois! — disse Felícia num tom autoritário. — Sam está certo, não devíamos falar disso, o que você fez foi podre, Chris.
Sam deu um sorriso vitorioso, encarando o loiro com desdém.
– Mas... você precisa relaxar, Sam. O que passou, passou e você já está em outro.
Dessa vez foi Chris quem o olhou com desdém, mas nenhum dos dois estava disposto a seguir os conselhos de Felícia.
– Bem, eu já vou andando. Tenho trabalhos a fazer ainda, foi bom te ver de novo, Chris, você parece menos idiota.
– Obrigado, eu acho...
Sam deu uma risada do papel de ridículo do maior.
– Mas você vai me deixar sozinho com ele? — indagou Chris como se Sam fosse um serial killer.
– Boa sorte — disse Felícia levantando-se e se afastando.
– Pois é, parece que seus planos de socializar foram por água abaixo — zombou o moreno -, agora que eu já te mostrei tudo, se vira, eu vou pra república.
– Espera, eu vou também.
Sam bufou à contragosto fazendo Chris dar um riso abafado. O moreno passou a andar rápido, deixando o loiro um pouco para trás no caminho.
Assim que chegaram na república, Sam subiu às escadas de dois em dois, indo para o quarto e se jogando na própria cama, pegando o celular e mandando uma mensagem para Harry.
"Tá ocupado? Tô precisando me distrair (ficar longe do Christopher)"
Em poucos segundos Sam sentiu o celular vibrar com a resposta do namorado.
"Droga, eu tirei essa tarde pra terminar um trabalho (já que o incompetente do nerd que eu paguei pra fazer está doente), mas você podia vir aqui me distrair também, se é que me entende"
Sam não pôde deixar de dar uma gargalhada com a resposta de Harry, balançando a cabeça em negação e digitando em seu celular rapidamente.
"Nem pensar, vai estudar! E bem feito, você não pode usar os nerds desse jeito, seu playboyzinho tarado"
Sam ouviu passos se aproximando e logo fechou a cara ao ver Chris adentrando o quarto, seria difícil se acostumar com aquilo. O celular vibrou e logo ele voltou a dar atenção ao aparelho.
"Você é um chato, eu devia ir até aí te mostrar o quanto eu sou tarado, mas eu preciso entregar essa droga amanhã, tchau (e vê se dá umas livradas no Daniels)"
– O que é tão engraçado? — indagou Chris estranhando o sorriso no rosto de Sam, fazia tempo que ele não o via sorrir daquele jeito.
– Não é da sua conta.
– Aliás, onde eu coloco minhas roupas? — dizia o loiro abrindo o armário e as gavetas da cômoda que já se encontravam cheios.
– Se vira pra achar espaço — Sam deu de ombros enquanto agora jogava algum jogo no celular.
Chris bufou já irritado com o tratamento que recebia do outro. Tudo bem que ele havia sido um completo canalha, mas aquilo já fazia muito tempo, Sam bem que poderia deixar aquilo no passado e parar de tratá-lo feito um verme.
– Mas o que é isso...? — indagou o loiro pegando algo felpudo bem no fundo de uma das gavetas de Sam.
Sam deu pausa do jogo, estranhando o tom de voz de Chris e mirando a peça de roupa que ele agora encarava enquanto segurava.
– Solta isso já! — exclamou Sam se levantando da cama.
Chris ria descontroladamente enquanto observada o pijama em forma de gato, todo peludo e com direito à toca.
– Ah... que bonitinho, White, não sabia que era tão meigo à esse ponto — zombou.
– Devolve! — rosnou o moreno arrancando o pijama da mão de Chris e o guardando de volta no fundo da gaveta. — Foi presente do Wade antes que pergunte a razão de eu ter isso.
– Ficaria uma gracinha nele — disse Chris ainda dando risadas.
Sam se irritou profundamente com a zoação, procurando o livro mais próximo.
Chris percebeu as intenções de Sam assim que avistara um livro de capa dura na mesinha ao lado da cama do moreno e assim que Sam se virou para pegá-lo, ele o segurou pela cintura e o trouxe contra si para afastá-lo da mesinha.
Sam tentava se livrar do aperto de Chris, mas o maior era mais forte que ele. Os braços rodeavam sua cintura, prendendo também os braços.
– Nem pense em me bater de novo com esses seus livros assassinos — falou o loiro bem perto do ouvido do menor.
– Me larga — disse Sam entredentes.
– Claro, assim que prometer parar com toda essa violência.
– Não prometo nada!
– Sabe que agora vou pedir coisa melhor? Quero que pare de me tratar feito lixo.
– Mas é o que você é.
Chris girou o corpo de Sam rapidamente fazendo-o ficar de frente pra ele e o encará-lo.
– Olha, já chega, tá? Você não cansa, não? Se odeia tanto o passado por que simplesmente não o esquece?
Sam estava inquieto, incomodado com a aproximação, eles estavam perto demais, mas o loiro não o soltava para que ele pudesse estabelecer sua zona de conforto.
– Não é uma coisa da qual eu consiga esquecer tão fácil, quem sofreu fui eu, agora será que dá pra me soltar?
Chris o soltou por fim, desconfortável com a situação também.
– Se isso te deixa melhor eu fui bem zoado pelos meus amigos depois, nem eu saí ileso dessa.
– Zoado? — indagou Sam não acreditando em nada. — Até parece.
– Se você não lembra, a gente namorou.
– Sim, mas era parte do seu plano idiota.
– Isso meus amigos entenderam, mas nosso namoro foi como qualquer outro, incluía tudo no pacote, tirando o sexo, é claro.
– E do que exatamente você está falando?
– Dos beijos, Sam — disse o loiro revirando os olhos. — Eles engoliram que eu fizesse isso na frente dos outros, mas um dia quando estava só eu e você, um dos meus amigos viu a gente se beijando, isso não estava nos planos.
– Tá dizendo que me beijou porque quis?
– Não, tô tentando equilibrar as coisas, tudo o que eu fiz foi pensando no plano, eu só me dediquei até demais nisso.
– Vocês é muito babaca mesmo, né?
– O quê?
– Zombou tanto de mim no final, por eu ser gay, mas acabou se sujeitando a ser um também. Você é bem hipócrita.
– Será que dá pra parar de piorar a situação e fazermos logo uma droga de uma trégua?!
– Não vai ter trégua nenhuma, Daniels, eu te odeio.
Chris deu uma risada debochada, se aproximando de Sam e o segurando pelo braço antes que ele se afastasse. Chris colou bem os corpos, encarando-o bem de perto, sentindo que ele havia prendido a respiração com a aproximação.
– Odeia nada — sussurrou o loiro tocando apenas seu nariz ao de Sam, que soltou todo o ar lentamente. Chris podia ouvir as batidas fortes do coração do menor e deu um sorriso de canto. — Ainda sente alguma coisa por mim, White, não adianta esconder.
Sam apertou os olhos recusando-se a encarar o maior, mas como num passe de mágica ele sentiu o corpo de Chris sumir de perto do seu e, quando abriu os olhos, apenas o viu sair do quarto fechando a porta atrás de si. Sam pôs as mãos no rosto, respirando fundo, foi até a porta e a trancou, dando um soco na mesma logo em seguida.
– Idiota! — gritou, frustrado.
O moreno ouviu o celular vibrar em cima da cama e logo o pegou lendo a mensagem recebida.
"Esse trabalho tá um saco, queria que você estivesse aqui"
Sam afundou sua cabeça no travesseiro, sentindo-se terrivelmente culpado. Culpado por ter desejado juntar seus lábios aos de Chris.
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