Cravo & Canela
3 Capítulo 2 – A Nobre Residência dos Greengrass
Notas iniciais
Deslocado. Era assim que Draco Malfoy se sentia na sala da residência dos Greengrass. Aquela atmosfera de afetividade que se instalou no cômodo o incomodava. O incomodava muito. Para ele, tudo aquilo era mais uma típica encenação de como as famílias puros-sangues do mundo mágico se idolatravam. Hipócritas. Eles se odiavam. No entanto, nada diziam, pois conservar as aparências era muito mais importante do que dizer o que realmente pensam uns dos outros.
– E então, Draco, soube que você está empenhado em aperfeiçoar as suas habilidades em Poções, não? – disse a voz melosa de Daphne Greengrass, a loira galga, traços fortes e semblante amplo, que tentava a todo custo conquistar a atenção de Draco Malfoy.
– Ah, sim... Isso é verdade, mas não penso em seguir carreira nesta área...
– Deveria repensar sobre isso, Sr. Malfoy. Nos derradeiros tempos, os bruxos que são dotados de habilidades tanto em Poções quanto em Defesa Contras as Artes das Trevas estão sendo muito requisitados – Publius Greengrass, que sentava numa poltrona ao lado de Lucius Malfoy.
– Obrigado, senhor. Vou me lembrar disso – proferiu Draco. O garoto não queria desalentar esta, que seria mais uma chatíssima conversa sobre o que ele gostaria para o seu futuro. Por sorte, sua mãe, Narcissa, que percebeu o seu incômodo, alterou completamente o assunto.
Draco se aprofundou um pouco mais na poltrona em que estava sentado. Para seu desagrado, principiou-se outra chatíssima conversa sobre julgamento, entre seu pai e o Sr. Greengrass — assunto ao qual o loiro não tinha empenho algum em participar, por isso limitou a brincar com a borda do cálice de whisky em suas mãos; e as senhoras iniciaram outra sobre o casamento de Daphne.
Argh, se fosse para ficar abespinhado e enfadado numa cadeira com um copo de whisky de fogo na mão, teria ficado em casa onde poderia fazê-lo muito bem, sozinho, sem ter de aturar conversas tolas e maçantes, pensou.
Não era somente o rapaz que estava intimamente narcotizado com esta situação. Astoria Greengrass, a filha mais nova de Publius e Helena Greengrass, estava absorta em seus devaneios. Alheia a tudo o que Helena, Daphne e Narcissa diziam.
– E então, senhorita Greengrass, é verdade o que estão dizendo? A senhorita está mesmo prometida ao jovem Nott? – indagou Lucius a Daphne.
– Oh, sim, é verdade, Sr. Malfoy. Theodore e eu estamos muito felizes com a escolha de nossos pais em nos unir – disse a loira sorrindo, visivelmente muito emocionada.
– Meus parabéns – disse Malfoy. – Narcissa e eu esperamos desposar Draco em breve – o loiro sorriu produtivo.
Draco quase se asfixiou com o seu whisky de fogo que tinha acabado de levar aos lábios. Casar? Ouvira bem? Seus pais não estavam pensando em instaurar este castigo a ele, estavam? Tossiu levemente mostrando seu descontentamento ao pai, que o repreendeu com um olhar; o loiro corou. Odiava ser repreendido pelo pai em público.
Ao seu lado, Astoria abafou um riso da reação de espanto de Draco com esta ocasião. Engraçado. Foi isso que ela achou do quase afogamento de Draco Malfoy com o seu whisky. Vá com menos sede ao cálice, garotão, se não irá se afogar da próxima vez. Se bem que, se isso acontecesse, não seria nada mal, pensou e riu da expressão inconformada do Malfoy.
Astoria também não estava longe desta circunstância; sabia que seus pais, principalmente sua mãe, tinham o desejo de que a moça se casasse o mais rápido possível. Eles diziam que logo ela teria mais de vinte anos e estaria solteirona, tal como sua tia Gerta Greengrass, irmã mais velha de seu pai, que não conseguira arranjar um pretendente que a quisesse desposar e, desse modo, ficara solteirona pela vida inteira.
E a jovem temia que o mesmo pudesse acontecer a ela.
– Draco, não precisa ficar espantado, querido. Casar não é de todo ruim. Não quando se encontra a pessoa adequada. E tenho certeza que seus pais encontrarão uma boa jovem para que possa fazê-la sua esposa – disse Helena gentilmente ao garoto espantado.
– Obrigado, senhora Greengrass.
E mais uma vez Draco se viu brincando com um copo de whisky, enfadado na poltrona dos Greengrass.
– Lucius, já lhe contei que minha coleção de unicórnios de luxo aumentou? Nasceram mais dois hoje pela manhã – articulou Publius animado. Ele adorava unicórnios.
– Não, Publius. Que bom, unicórnios sempre podem nos trazer soluções vantajosas quando precisamos – disse Malfoy frio.
Tanto Publius como qualquer outra pessoa na sala sabia muito bem o que Lucius quis dizer. Unicórnios eram criaturas caras e realmente muito úteis para o mundo bruxo. Muitos naturalistas os usavam para pesquisas, eram ótimos guardas, etc. E, claro, eles eram criaturas caras para comercializar e um rebanho destes animais traria para o dono uma boa quantia em galeões.
– Importa-se em me acompanhar para ver como estão? Eu ainda não os conheci e infelizmente minhas senhoras não podem me acompanhar até ao bosque atrás da residência – inquiriu Publius se levantando.
– É claro que não. Você sabe muito bem que adoro estas criaturas – Lucius Malfoy se levantou para seguir Publius.
– Se as senhoras e senhoritas derem vossa licença. Não se importa em levar Lucius comigo, Narcissa?
– É óbvio que não. Só tomem cuidado – falou Narcissa.
– Vamos, Lucius – Publius o chamou e eles seguiram para fora da casa em direção ao bosque que ficava ao lado oeste da residência.
Draco, para seu descontentamento, ficara para trás. Ele não suportava mais os papos parvos das senhoras a sua frente. Sua mãe estava tão entretida com o que Helena Greengrass articulava que não notava o incômodo do filho.
O dia foi passando rapidamente, tanto os Malfoy quanto os Greengrass perderam a noção da hora. Já se passavam das três horas da tarde, e Draco continuava mais carrancudo do que nunca; estava cansado de não fazer absolutamente nada.
– Astoria, minha filha, importa-se em apresentar ao jovem senhor Malfoy o nosso jardim, tão bem acurado? – perguntou a Sra. Greengrass à filha distraída. Ela odiava quando Astoria ficava alheia em público.
– Ah, é claro, mamãe – disse ela, voltando a si. Astoria estava tão entediada quanto Draco; ela mal prestava mais atenção no que acontecia ao seu redor. A morena então se levantou e solicitou que o loiro a seguisse.
Seguiram para os jardins da mansão, tão bem cuidados pelos elfos domésticos.
– Bem, como pode ver, Malfoy, este é o nosso jardim – proferiu a morena, assim que chegaram aos gramados. – Não tenho muito que divulgar, é exatamente isso o que você está vendo.
Malfoy olhou atentamente o jardim; era um vergel normal, como o de sua casa. Bem cuidado, realmente muito florido, contrastava com a estação do ano em que eles se encontravam: a primavera.
– Legal – disse o loiro em um tom comum.
A garota suspirou exausta e se sentou num banco próximo. Draco a seguiu e se sentou também.
Apreciando a expressão aborrecida de Astoria, disse:
– Isso aqui está a maior chatice. Nunca fiquei tão entediado em toda a minha vida!
– Tome cuidado com as suas palavras, Malfoy, as aulas de História da Magia são um bom adversário para o dia de hoje, não acha? – ela sorriu.
Ele esboçou um dos seus famosos sorrisos de lado:
–Esqueci-me de como as aulas do Binns são legais –ironizou. – Greengrass, lhe posso perguntar algo?
– Pode, contudo não posso lhe garantir que irei responder – ela mirou o horizonte, ou melhor, contemplou os pássaros voarem sobre as árvores.
– Por que se sente tão azucrinada com a nossa presença? Percebi isto hoje, quando nossos pais conversavam, que você não se sente confortável – Draco lhe perguntou a encarando.
– Não é bem assim, Malfoy. Eu só achei imponderado, por parte da minha mãe, convidá-los para nos visitar. Papai ainda não se recuperou completamente – precipitou-se ela.
– Ah, sim – o garoto se contentou em dizer.
Assim como o diálogo entre os dois se instaurou, ele foi embora. Nem Draco, muito menos Astoria, sabiam o que falar. Eles não eram amigos, nem nos tempos de Hogwarts. Contudo, uma coisa era certa: Malfoy havia gostado do comportamento da garota. Ela era um tanto arrogante, mas ele gostou disso.
Ele a encarou. Nunca viu a garota assim tão próxima. Na verdade, ele nunca reparou em Astoria Greengrass quando estudava em Hogwarts. Ela não era feia, mas também não era nenhuma veela. Tinha os olhos amendoados, os cabelos comprimidos e enrolados nas pontas, e tinha algumas pintinhas no rosto, que, com toda certeza, não constatava com suas feições. Essas pintinhas arruinavam a aparência, que seria perfeita da jovem, sem elas. Porém Draco gostou dessa imperfeição nela, deixava-a mais real. Sem dúvidas, Astoria não lembrava nem um pouco Daphne.
A morena percebeu que ele a arrostava, sorriu e disse arrogante:
– Sabe, você não deveria me encarar desse jeito. As mulheres gostam dos homens que sabem ser sutis.
Draco sorriu. Astoria Greengrass não era nada parecida com as garotas que ele já conheceu.
Mal eles poderiam idealizar que Lucius Malfoy os observava pelas janelas de um dos corredores da mansão Greengrass. Ele adorou ver aquela cena. Seu filho e a herdeira dos Greengrass conversando amigavelmente. Isso soava como música aos seus ouvidos. E logo um plano argiloso passou em sua mente. Sorriu, mais um de seus sorrisos sínicos de quem está tramando uma.
Eles formariam um bom casal, pensou.
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