Notas iniciais
"Se as duas pessoas se amam uma à outra, não pode haver final feliz."
Ernest Hemingway
Ela

Era uma escola diferente, eu era o último de cinco fileiras. Havia pessoas que eu conheceria depois de anos, ou não. Estava sem meus óculos, então os coloquei e fui para frente, conversar com alguém que um dia viria a ser meu melhor amigo, mas não, não iria ser mais. E foi aí que Ela estava do meu lado, sorrindo e já tocando a conversa, eu mal a conhecia e ela não me conhecia. O professor de educação física moreno entrou de cabelos rebeldes, altos assim como sua altura, e sentou-se ao meu lado. Ele iria fazer a chamada, talvez fosse o primeiro, segundo, ou terceiro dia de aula, não iria saber, jamais iria. Eu pedia-lhe a autorização para buscar meus óculos, pois não enxergava, espera, eles não estavam comigo antes? Insisti bastante, e ele só deixara depois, e então peguei, e quando voltei á sentar-me, Ela passou na frente da sala, cruzando todas as cadeiras dos alunos, com seu deslumbrante uniforme e cabelos negros que mexiam-se em uma encantadora dança de fios.

Outra professora entrara na sala, esta seria mais rígida, e era estranha. Eu já sabia quem era cada um ali, mas eles não me conheciam, eu sabia o destino deles, e o rumo que tomariam quem era seus familiares, mas, eles não sabiam absolutamente nada sobre mim, não me conheciam, era um novato qualquer que buscava qualquer pessoa.

A aula foi passando, e eu enxergava muito bem a lousa, estava de óculos, e a sensação era extraordinária de enxergar tudo ao seu redor com mais nitidez e percepção. Eis que, o sino bate, em badaladas gritantes. Todos estão deixando a sala, e eu procurei dizer para a professora o tão boa que a aula dela fora, para um laço de amizade criar, e nesse momento, só restara Ela, e a professora na sala. Quando me distanciei da professora, logo me senti no direito de falar com Ela, então eu disse.

— Vamos sair por aqui? É que é a minha primeira vez aqui, sabe, não conheço. — eu mentia, sabia que poderia ser a minha terceira vez naquele colégio, e sabia tudo sobre Ela, o perfume que mais admirava; a cor da roupa que preferia; a cor de seu preferido batom. E eu apontava uma direção de saída pelas escadas.

— Por aqui é melhor. — ela respondeu, e cruzamos um caminho pela direita, que já dava para a saída, e o vento tocava nossas faces, acariciando-as sutilmente. Notava sua beleza inexplicável, o coque de seu cabelo, remexendo as mechas negras. Éramos apenas nos dois saindo do colégio por aquele caminho, foi então que ela perguntou-me.

— Já vai embora? — com um sorriso de canto e meigo nos lábios, seus olhos bem delineados eram indescritíveis.

— Não, são três e uma ainda. — respondi, olhando meu relógio digital, ainda era cedo, nós apenas saímos às cinco e meia, ou como meu amigo dizia, as dezessete e trinta.

— Vou para a quadra jogar vôlei, quer vir comigo? — ela me convidou, e aquilo tinha sido revigorante e inspirador, como um sonho. Ela demonstrava interesse, talvez pela primeira vez, ou segunda, não esperava algo assim.

Então eu a acompanhei, cruzamos as duas ruas juntos, esperando cada ônibus passar por nós, enquanto eu explicava para ela sobre um amigo que dizia que eram quinze horas, e eu dizia que era três horas, uma pequena diferença de comunicação, mas, o importante, é que ela se divertia comigo. Ria como se o dia não tivesse fim, e a noite que daria aviso de um novo dia que viria, não existisse. Uma coisa que raramente aconteceu nos anos futuros, ou passados, como você preferir, e foi bastante interessante o fato de eu poder voltar no relógio e reencontrá-la pela primeira vez na segunda ou terceira vez, fazer tudo diferente, para que, dessa forma, possa dar certo.