Notas iniciais
Boa leitura!

O sol já nasceu quando finalmente resolvo parar para descansar. Encontro uma caverna grande o suficiente para caber Chad, Nevasca e eu. Chad estava caminhando ao meu lado desde algumas horas atrás, pois, como ele disse, a mochila ficou pesada demais.

Está com fome? ― pergunta ele.

Tiro o saquinho com frutas desidratadas e lhe mostro. Abro e começo a comer algumas, no entanto estou com mais sono do que fome. Deito-me em cima da mochila e peço para o dragão ficar de vigia.

Assim que fecho os olhos, adormeço. Meu sono não é tranquilo.

Estou em casa. Meus pais estão na sala de música. Meu pai anda de um lado para outro, com as mãos indo constantemente para a própria espada.

O que mais ela falou, Katerina?

Eu já te disse, Sam. Ela me implorou para não falar nada para ninguém, disse que achou o dragão há algumas semanas e que esteve com Abigail. Pelos deuses, ela esteve com Abigail! Sam... Se Damon pegá-la, ele a tratará como uma traidora. O que foi que eu fiz?

Ela abaixa a cabeça e tampa o rosto com as mãos. Seus ombros se mexem enquanto ela chora baixinho. Meu pai se ajoelha na sua frente e a toca nos braços. Devagar ela levanta a cabeça. Com ternura, ele tira um dos fios rebeldes que caiu em seu rosto.

Não se martirize. Ela é forte e sabe se defender.

Mas agora... Ela está desaparecida, pode ter ido para qualquer lugar do reino. E podemos nunca mais vê-la. E se ela voltar para cá...

Eu irei encontrá-la. Werneck não precisará saber que ela tem um dragão.

Meu irmão entra na sala.

Papai? O rei quer falar com você.

Acordo nesse momento. Sinto meu coração pesado, que merda eu acabei de fazer? Não queria deixar minha mãe se sentindo culpada, não queria nada disso.

Sabe que era inevitável, não é?

O quê?

Eu vou crescer. E ficarei tão grande quanto Durna ou Magna, tenho certeza de que não poderia me esconder para sempre no seu quarto.

E eu nunca farei o Juramento. ― Faço uma pausa. ― Acho que foi melhor fugirmos agora, afinal é mais fácil esconder coisas pequenas.

Levanto-me e junto as coisas que tirei para dormir. Olho para Chad, ele ganhou mais uns bons centímetros e, por ser branco, chama muita atenção em um lugar predominantemente verde.

Consegue voar?

Posso tentar.

Saímos da caverna, e ele faz a primeira tentativa. Ele cai. Novamente ele tenta, suas asas batem com força, e ele consegue ficar por alguns segundos antes de cair novamente.

Chad...

Eu consigo. Só mais uma tentativa.

Chad... Tudo bem.

Ele tenta novamente, no entanto cai de novo.

Me desculpe, Luna.

Não tem problema, você nasceu faz poucas semanas. Daqui a pouco, você consegue.

Andamos dentro da mata, não sairei da proteção das árvores por nada. Minha espada não sai da minha mão, e estou atenta a qualquer barulho. Chad caminha ao meu lado.

Você sabe para onde estamos indo, não é?

Para noroeste. Vamos passar em Lignos, uma cidade dos Bosques Sussurrantes, para reabastecer. Em seguida, vamos para Henkun.

Não seria mais fácil cortar caminho pelas Planícies Alagadas? Economizaríamos mais tempo.

Iríamos ter de usar as estradas oficiais do rei, e isso seria um pedido para nos capturarem. Os Bosques Sussurrantes são praticamente desertos. Com a proximidade dos Picos Cortantes e todas as histórias de Espíritos, Estelares e outras criaturas, as pessoas têm medo de lá.

Entendi, então vamos por onde tem menos gente.

Dragão esperto.

Acaricio sua cabeça enquanto seguimos. Percebo que ele está apenas alguns centímetros mais baixo que Nevasca.

Chegamos a um riacho, onde encho meu cantil e como mais um pouco das frutas secas. Chad se afasta de mim para caçar, então me sento à sombra de uma árvore e observo a água corrente. Aproveito a água ali para tomar um banho. Arranco as roupas e me aproximo do rio. A água está completamente gelada, mas acredito que, a partir de agora, terei que me acostumar com isso. Entro devagar e, depois de certo tempo, acabo me acostumando.

***

Já passou do meio-dia quando ele retorna, com um coelho morto na boca.

Não deu tempo de comer tudo?

Engraçadinha. Esse eu trouxe para você, não sobreviverá só de frutas secas.

Isso foi muito gentil, Chad, mas eu não sei o que fazer com ele.

Comê-lo, talvez?

Idiota. Solto uma gargalhada. ― Eu quis dizer que eu não sei como limpar todo esse pelo nem como prepará-lo.

Tem certeza de que não vai querer?

Daqui a pouco, chegaremos a Lignos, e eu vou comer algo lá.

Ele, então, joga o animal morto para cima e, com uma só bocada, o engole. Estamos para continuar quando ouço conversas se aproximando. Chad não cabe mais na mochila e ainda não consegue voar. Ele tem a brilhante ideia de subir na árvore na qual eu estava encostada há pouco.

As vozes crescem, e logo os respectivos donos me veem e se silenciam. São três homens, já na casa dos quarenta. Eles estão com toalhas nos ombros, e um deles segura um pote. Eles sorriem.

― Olá, querida.

― Está perdida?

― Já estou de saída ― digo, segurando as rédeas de Nevasca.

Eles começam a me rodear.

― Você parece estar bem longe de casa.

― Querem me dar licença?

O mais gordo dos três barra minha passagem.

― Por que a pressa? Aposto que podemos conversar bastante.

Ele dá um passo em minha direção e coloca uma mecha de meu cabelo atrás da orelha, demorando bastante a mão em meu rosto. Quando ele se afasta, digo com um tom frio:

― Se não me deixar passar agora, pode ter certeza de que vai se arrepender.

Eles jogam a cabeça para trás e começam a gargalhar como porcos. Um deles, o careca, faz um movimento brusco e me segura por trás. O súbito movimento assusta Nevasca e, como as rédeas caíram da minha mão, a égua entra na floresta.

Começo a me debater, enquanto os outros dois, rindo, começam a revirar minha mochila, que acabei deixando esquecida perto dos meus pés.

― Se me soltar agora, talvez você não se machuque tanto ― digo com a voz mais calma que consigo encontrar.

O careca abre um sorriso e continua revirando a mochila.

― Caso se comporte, te deixaremos com a roupa do corpo.

― Eu cansei dessa palhaçada ― digo, irritada.

Jogo minha cabeça para trás e acerto seu rosto. Ele me solta na hora, levando as mãos em direção ao nariz, que, pelo barulho, deve estar quebrado.

Tiro minha adaga da bota e coloco o capuz. O estupor dos outros dois acaba e, como gorilas, eles vêm atrás de mim. Acerto um chute no abdômen do mais alto e um soco no maxilar do gordo. Ele fica ainda mais bravo e, com força, me joga contra uma árvore.

Perco o fôlego por alguns segundos. Ainda de joelhos, movo meu corpo e lhe dou uma rasteira, ele bate as costas no chão. Aproveito isso e o soco mais algumas vezes, até ele perder a consciência.

O alto me puxa de cima do amigo pelos cabelos, ranjo os dentes com a dor. Quando fico em pé, ele consegue segurar meus braços. O careca com o nariz quebrado vem em minha direção, estralando os nós dos dedos.

― Vou te ensinar boas maneiras.

Dois socos no rosto e um no abdômen. Foi isso que o homem fez antes de eu ver o vulto branco descendo da árvore, rugindo e assustando os dois homens que, no meio do pânico, levam também o gordo desacordado.

Eu dava conta deles ― comento brava, andando até o riacho e limpando o sangue que escorreu do meu nariz.

Não era isso que estava parecendo lá de cima.

Olho meu reflexo. Meu olho esquerdo está inchado, e tenho um pequeno corte no lábio. Cuspo o sangue que se acumulou na minha boca e puxo o capuz. Assobio.

Esses idiotas não eram mais fortes que os soldadinhos que eu já bati.

Luna...

Tudo bem, já foi. Só temos que sair daqui rápido.

Eu treinei bem o cavalo, ele logo volta e subo nas suas costas. Chad vai ao meu lado, silencioso.

Andamos por um longo tempo até finalmente pararmos. Arrumo minha cama improvisada.

Meus sonhos me levam a contemplar o rosto de um garoto. Ele tem olhos tão cinza como as nuvens de chuva carregadas, seu cabelo é marrom.

Ele caminha em uma cidade cheia de vida. Suas roupas são uma mistura de armadura e roupas comuns. Tento me aproximar dele, no entanto ele não parece me notar. Caminho, então, ao lado dele, seu andar é confiante.

A imagem muda e vejo-o montado em um dragão vermelho como sangue.

Acordo no outro dia estranha com esse sonho. Uma vez, escutei dizer que você só consegue sonhar com pessoas que você conhece ou já viu alguma vez na vida, mas esse garoto eu tenho certeza absoluta de que nunca vi.

***

Foi mais uma semana de cavalgada até chegar às proximidades de Lignos. No início do segundo dia, percebi que meus machucados se cicatrizaram.

Dois dias mais tarde, enquanto eu me esticava toda para pegar uma maçã, Chad aprendeu a voar e derrubou todas as maçãs maduras.

Depois de cinco dias comendo maçã, ver a estrada de Lignos me deixou bastante satisfeita, afinal eu finalmente poderia comer alguma coisa diferente.

Montamos acampamento entre as árvores.

Quanto tempo vai demorar depois até Henkun?

Por volta de uns dez dias. Eu vou entrar na cidade e comer alguma coisa.

Tudo bem, vou ficar te esperando aqui.

Não chame muita atenção.

E você, tome cuidado.

Você também.

A cidade está cheia de gente. O cheiro de comida sendo vendida na rua se mistura com outros odores não tão atraentes. Fogueiras iluminam a noite, escuto o som dos risos, os contadores de histórias, os comerciantes gritando para vender suas mercadorias e as músicas se misturarem. Toda essa agitação é ótima para me esconder, mas péssima também, afinal, onde tem muitas pessoas juntas, há também guardas em maior número. O incidente do rio já deve ter chegado aos ouvidos de Werneck, pois existem cartazes com o meu rosto em toda parte.

Puxo ainda mais o capuz e vou em direção à periferia. À medida que me distancio da praça do comércio, os odores desagradáveis aumentam. A circulação de pessoas diminui, e as poucas pessoas com quem eu cruzo me encaram de uma maneira estranha. Entro em uma taverna que tem mais movimento e me sento em uma mesa de canto, ainda com o capuz.

― Boa noite. Posso ajudá-la? ― fala a garçonete.

Peço um vinho e o prato da casa. Um pouco mais distante de mim, vejo um grupo de trabalhadores com os copos levantados. O “líder” é moreno, na casa dos trinta, e tenta falar mais alto que o barulho.

― ...por anos, fomos forçados a trabalhar para receber migalhas. ― O grupo concorda com um grito. Lembro-me de que os Bosques Sussurrantes têm sua economia baseada na mineração. ― E para onde vai todo o resultado do nosso trabalho? Para um bastardo que se proclamou rei. ― Os gritos diminuem. ― Mas, meus amigos, não fiquem com medo! O Cavaleiro do Norte está lutando ferozmente contra o falso rei! ― A tentativa do homem de fazer seus companheiros concordar é em vão. Todos voltam a se ocupar com suas próprias bebidas, eles não estão tão bêbados para concordar com isso. ― O Cavaleiro do Norte anda em um dragão vermelho. Anne... Anne! Essa é para você! ― Ele chama a garçonete que estava me servindo. ― As mulheres do Grande Deserto dizem que ele parece um deus.

― Desça daí, Hector. Está fazendo papel de ridículo.

A moça chega com o meu prato, fazendo uma careta. Se seu rosto não estivesse tão marcado pelo desgosto, seria interessante observar seus olhos e seus lábios em formato de coração.

― Desculpe por isso. ― Ela coloca o prato devagar sobre a mesa.

― Não tem problema. ― Abro um sorriso para ela e fico feliz quando me retribui, ainda mais em perceber que ela tem covinhas.

Quando ela se afasta, percebo o que acabei de fazer: eu a analisei de cima a baixo sem nenhum pudor. Sinto minhas bochechas corarem com esse pensamento. Se ela percebeu, o que deve ter pensado de mim? Começo a comer.

Estou quase terminando quando as portas da taverna se abrem violentamente. Homens fardados entram no local, e o comandante da unidade, bem jovem, na verdade, faz uma única pergunta.

― Quem aqui estava dizendo injúrias sobre o rei?

Dedos apontam imediatamente para o tal Hector. O homem está tão bêbado que nem percebe a roda de soldados que o envolve. O comandante retira a espada e, ali mesmo, corta a garganta do rapaz. Seus olhos vagueiam pela taverna e demoro demais para esconder meu rosto.

Enquanto o sangue do rapaz tinge o chão sujo, o soldado se apropria da bebida do recém-falecido.

― Anne, limpe isso. Sim, meu amor?

Quando a garçonete, provavelmente a Anne, me servia, um dos outros guardas passa e lhe dá um tapa na bunda. Ela faz uma careta, mas não revida. Tenho vontade de me levantar e bater no sujeito.

― Te espero mais tarde ― diz o soldado, dando-lhe um beijo estalado.

Ela faz uma careta e limpa o local em que ele beijou. Os soldados saem. Durante pelo menos dois minutos, o local fica em completo silêncio, porém, quando dois homens retiram o corpo dali, o som das conversas e gritos animados volta a dar vida ao ambiente.

― Isso acontece com frequência? ― pergunto para Anne.

Ela solta um suspiro alto antes de me responder, curvando-se sob a mesa para pegar as louças já limpas.

― O soldado ou a morte? ― pergunta ela com um meio sorriso.

― Os dois.

― Infelizmente, sim. Esses idiotas escutam as conversas dos mercadores vindos do Norte e, quando bebem demais, ficam espalhando essas tonteiras. E os soldados... ― Ela dá de ombros. ― Esses infelizes se comportam como se fossem Espíritos.

― Caso se comportassem realmente como Espíritos, saberiam a hora de desaparecer como eles ― digo com um meio sorriso.

Os Espíritos são criaturas forjadas pelo Senhor dos Ventos, são criaturas poderosas, lindamente mortais e antigas. Eles viveram há muitos anos em harmonia com as Estelares, mas em um determinado momento, simplesmente desapareceram de Merindell, e só as Estelares continuaram vivendo nos Bosques Sussurrantes.

― Só não deixe que eles ouçam isso ― fala ela com um sorriso gêmeo do meu. ― Vai querer mais alguma coisa?

― Não, obrigada. ― Coloco as moedas na mesa e saio da taverna.

Encontro Nevasca parada onde deixei, no entanto, antes de montar nela, uma voz de homem me para.

― A senhorita está muito longe de casa.

Viro-me e observo o comandante. Ele segura sua espada apontada para o meu pescoço.

― Você quase passou despercebida, mas... Senhorita Areaes... Seus olhos são simplesmente uma enorme desvantagem quando a questão é se misturar.

― O senhor fala como se já tivéssemos nos visto.

― Não se lembra de mim? Vamos lá, Luna... Achei que significaria algo para você.

Olho para o rapaz. Ele tem o cabelo de um tom loiro areia, os olhos são castanhos, seu queixo é quadrado, e uma sombra de barba cresce por todo o pescoço e as bochechas. Seu rosto não me é estranho.

― Espera... Will?

Ele foi o garoto em quem dei meu primeiro beijo, uns quatro anos atrás. Eu definitivamente preciso rever as pessoas com quem me relaciono.

― Exatamente.

― O que está fazendo aqui?

― Nesse fim de mundo? Transferiram-me. Descobri que oficiais não gostam quando beijamos suas filhas.

― E por isso resolveu matar qualquer um a sangue-frio e se tornar um idiota?

― Você deveria ter mais cuidado com o que fala, sua posição não é das melhores. ― Ele avança mais um passo, e sua espada toca o osso do meu peito.

― O que você vai fazer, Will?

― Vou te levar de volta para sua casa, receber uma recompensa e ser transferido para uma cidade decente.

― Você está muito confiante que irá me capturar.

― E por que não estaria?

Com um movimento súbito, tiro minha lâmina da bainha e começamos a duelar. Faíscas saem dos encontros das espadas. É uma dança interessante de se observar, porém, devido as suas roupas, ele é mais devagar. Acerto meu pé em seu peito e, enquanto ele está deitado no chão, piso em sua mão esquerda, fazendo-o soltar a espada. Chuto a arma para longe. Ele se levanta rapidamente, segurando uma pequena adaga apontada para meu estômago.

― Essa mania é minha ― digo, com um pequeno sorriso.

― Gostei da ideia de ter uma arma escondida.

Estamos tão próximos, que nossas respirações se misturam. Não posso negar que ele ainda está bonito. Ele encara minha boca como se estivesse hipnotizado. Acho que não foram só os meus sentimentos que ainda não acabaram.

― Adeus, Will.

Eu apenas toco nossos lábios. Vejo-o se alongando todo para sentir mais, mas lhe dou uma joelhada no meio das pernas. Enquanto ele está no chão gemendo, corro até Nevasca e monto. Ele começa a gritar meu nome e outras palavras não muito bonitas.

Assim que subo, aperto minha bota em seu ventre, fazendo-a galopar.

Chad, voe para o Norte. Vamos nos encontrar novamente quando estivermos a uma distância segura.

Ele apenas concorda. Atrás de mim, continuo escutando Will gritando meu nome e me mandando parar.

Notas finais
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