Notas iniciais
Sei que tô a um tempãaao sem postar, mas é por causa de bloqueio criativo, vou desistir não ♥ me desculpem e boa leitura

—Estamos andando há horas, meus tentáculos estão doendo e eu estou faminta.-Digo, tentando fazer Lucky parar de nadar entre o leve fluxo de sereias e cecaelias no túnel transparente.

Mas ele não me escuta, porque continua a olhar incessantemente pro mapa holográfico em seu pingente.

—LUCKY!-Vocifero. Ele finalmente fecha o mapa e olha pra mim, assustado.—Está me ouvindo agora?

—Eu estava te ouvindo antes.-Ele diz.

—Não, não estava.

Lucky revira os olhos.

—Tudo bem, o que é que te incomoda tanto?

—Onde vamos dormir? E onde vamos achar comida sem a moeda de troca daqui?

Ele coloca a mão no queixo, pensativo, olha pros lados e depois volta a olhar pra mim.

—Vamos dormir no chão e nos bancos, como qualquer viajante aqui, e sobre a comida...Bem, só temos algas, fora deste túnel, é só sair, apanhar uma e voltar. Bem prático, este mundo.

Ele já iria parar de conversar comigo pra voltar a atenção pro mapa, mas me aproximei e segurei sua mão.

—Mas eles cozinham as algas...Como vamos comê-las sem preparo nenhum?

—Comendo, oras!

Desta vez, eu reviro os olhos. Por que ele começara a ser tão teimoso...?Quer dizer, talvez ele sempre fora, mas acabei de conhecê-lo. Num lindo restaurante num navio, com luzes douradas e pessoas sorridentes. Até que tudo foi a baixo.

E outra coisa, sequer temos um plano! Como dois forasteiros irão se apresentar pra cada representante dos Sete Mares, sem nenhum discurso ou jeito de convencê-los a ter um tempo com o oráculo? Como?

—Como consegue se conformar com tudo isso?-Digo.

—Lá vamos nós com essa conversa novamente!-Ele revira os olhos. E percebo os olhares a nossa volta.

—Fale mais baixo!

—Ashley, só precisamos seguir o mapa, tudo bem?

—Não, não tá tudo bem!

—Qual a dificuldade nisso?!-Ele solta uma risada sarcástica.—Nunca imaginei que a garota do cabelo azul fosse ser tão pessimista!

—O que diabos meu cabelo tem a ver com isso?!

—Vocês ricos acham que o mundo gira em torno de vocês! Não, Ashley, não gira, as coisas dão errado as vezes, e o que você precisa fazer é se conformar e achar um modo de resolver! E eu achei!

Cerrei os olhos e senti meu rosto ficar quente. As lágrimas de raiva estavam prestes a dar as caras.

Passo esbarrando por Lucky, fazendo com que o pingente tilinte em seu peito. Quem ele pensa que é pra ficar gritando comigo? Quem é esse Lucky teimoso e impaciente que emergiu por aqui? Ele parecera tão doce e gentil no começo. É claro que nem tudo é o que parece ser.

Flutuo entre pessoas andando em uma só direção, comprando comida de outras pessoas, dormindo com a cabeça encostada em bagagens ou apenas conversando entre si.

—Aonde pensa que vai?-Lucky diz, magicamente aparecendo em minha frente. Já está meio óbvio que, quando trocamos as pernas por metades-peixe, Lucky foi quem se adaptou melhor.

Que raiva!

—Atrás do oráculo, oras.

—Sem o mapa? Como?

—Só assista.

Sem me importar por onde meus oito tentáculos passam, abro caminho pelo fluxo de pessoas,criaturas,agindo bem mais pela emoção do que pela razão. Sou obrigada a parar quando esbarro em um senhor cecaelia, bem maior do que eu. Estou prestes à me desculpar mas o indivíduo nem se quer olha pra trás. Alguma coisa está acontecendo.

Olho ao meu redor e vejo todos parando qualquer atividade para olharem pra um ponto fixo numa das partes do túnel. Olho pra onde todos olham e, no exato instante, um fio de luz azulada-como a do mapa brota no teto de vidro. Uma tela plana, azul, é projetada e algo começa a sair dos alto-falantes. Antes que eu pudesse descobrir sobre o que era aquilo, meu braço é puxado pro lado e sou arrastada pra um dos cantos pouco iluminados do túnel.

Quando me dou conta, estou olhando pras veias saltadas no pescoço de Lucky, enquanto ele segura meus braços firmemente. Reviro os olhos.

Lucky faz menção de dizer alguma coisa mas não há tempo. Ele olha pra tela projetada, faço o mesmo e me espanto ao ver meu próprio rosto e o de Lucky nela. Numa fração de segundo, todos os olhares estão sobre nós. Então, entendo tudo.

Me impulsiono pra frente, pra correr, mas meus impulsos são descartados pela força do tritão, me arrastando túnel a dentro e sem me dar chance de agir sozinha.

Olho pra trás e vejo quatro borrões gigantes atrás de nós. Grandes cecaelias e tritões de armas em punho...Por que diabos querem nos obrigar a fazer parte de uma guerra que nem é nossa mesmo?

Não tenho tempo de me lembrar de toda a história sobre o Kraken e o Leviatã. Aplico o meu máximo de força nos tentáculos enquanto Lucky continua me arrastando, corremos pelo fluxo de pessoas aos tropeços enquanto os perseguidores também abrem caminho rapidamente, gritando coisas inaudíveis por causa da rapidez com que as bolhas atravessavam meus ouvidos.

Lucky freia bruscamente e meus tentáculos tombam com a cauda dele, olho pra trás e vejo-os nos encurralando, e como se isso não fosse o bastante, minhas ventosas grudaram nas escamas de Lucky e eu não faço a menor ideia de como soltá-las.

Olho pra frente e vejo uma bifurcação que, imagino eu, deva separar um mar de outro. Olho para trás e vejo os tridentes apontados pra nós. Olho pra Lucky, os olhos se movendo rapidamente pra direita e pra esquerda, de um túnel pra outro.

—Rendam-se em nome de Kraken!-Uma voz grave ordena.

—Não! Rendam-se em nome de Leviatã!-Uma segunda voz anuncia.

O tritão e o cecaelia trocam olhares odiosos, e então entendo tudo. Eles irão brigar por estarem em lados diferentes, mesmo com o mesmo objetivo, porque são só uns brutamontes com cérebro minúsculo e vão esquecer-se de nós, e então, daremos um jeito de escapar.

Eu e Lucky nos entreolhamos. Está pensando no mesmo que eu.

—Seus idiotas! Não se esqueçam do foco principal da missão.-Parece que não somos os únicos a pensarem por aqui.—Trazer os dois últimos escolhidos de volta!

Eu preciso parar de achar que eu sei de coisas. O que estou pensando? Eu sou um maldito sushi.

—Ashley...-Lucky começa, sussurrando e cauteloso.—Poderia se soltar de mim?

—Se eu soubesse como...

—Faça aquele lance da tinta.-Ele sussurra novamente, e então um terceiro brutamonte volta a atenção para nós.

—Teremos que levá-los à força? Não vão gostar nada disso, tenho certeza.

E então, de todos os lados, eles começaram a se aproximar apontando as armas, enquanto os cidadãos se amontoam para assistir aos espetáculo.

—Ashley, faça!-Ouço Lucky dizer mais alto.

Fazer com que a tinta brote de dentro de mim é outra coisa que tenho que aprender a controlar, ainda não o fiz...Mas pretendo. Mas eu preciso disso agora. Mas eu não vou ser uma cecaelia pra sempre!

Olho pra todas as caudas, tentáculos e barbatanas ao nosso redor. Milhares de cores e misturas de cores, algumas das quais nem sei o nome, maravilhosamente brilhantes e vistosas mexendo-se calmamente no alvoroço. Daria uma tela maravilhosa.

Ouço o barulho do tridente ao cortar a água, pronto pra nos atingir.

—Ash, AGORA!

Fecho os olhos entre as milhares de cores. Inspiro, tudo fica perceptívelmente mais escuro, mesmo de olhos fechados. Expiro, sinto Lucky me puxar, nem pra esquerda e nem pra direita, mas pra baixo.

Ouço os gritos de protesto e espanto ao longe, abro os olhos. Minha tinta se dissipa e olho ao meu redor, não vejo absolutamente nada além do azul infinito, areia e rochas.

—Venha mais pra trás, eles ainda podem achar a gente!-Ouço a voz de Lucky, puxando meu braço pra perto de uma rocha maior, abaixo da bifurcação do túnel.

Me desvencilho dele, furiosa.

—Onde é que estamos? Heim? Como foi que saímos de lá e...E...Você precisa parar de ficar me carregando, eu não sou uma donzela em perigo, frágil e feita pra você salvar quando bem entender!

Lucky franze sobrancelhas, os olhos azuis se misturando a cor do mar escuro a nossa volta.

—Havia uma fenda entre as duas bifurcações, uma falha, eu não sei! E que tal se agradecesse um pouco? E eu só te arrasto...-Ele diz a última palavra fazendo aspas com as mãos.—Por que você demora tempo demais pensando.

—Eu não acredito que disse isso!-Começo.—Pelo menos, eu penso antes de agir, você só vai lá e faz! E agora mal sabemos aonde estamos!

—Só ir lá e fazer tem nos mantido salvos, percebeu? E como diabos esses bastardos ficaram sabendo da nossa fuga?

—E como você acha que eu vou sab...-Não termino a última frase. Sem nem precisar vasculhar meus pensamentos, a imagem clara de Savannah me vem à mente. Aquela baiacu falsa...E pensar que eu tinha achado que ela seria uma espécie de melhor amiga confidente.

—O que?-Lucky questiona.—O que? O que foi?!

—Talvez eu tenha contado pra alguém...

—Mulheres e suas bocas grandes! Eu não te disse pra...

—Ei, ei, ei, espere um minuto, Lucky! Eu sei que eu não devia ter dito, tudo bem? Mas ficar aí generalizando e achando que tem o direito de me dizer o que fazer e o que não fazer é demais!

O semblante dele cai de imediato. Lucky suspira, os olhos procurando sustento no chão enquanto cambaleava sobre a pedra até cair sentado na areia. As escamas reluzindo sobre a luz do falso sol. Parece prestes a romper em lágrimas. De todas as coisas ruins que já haviam me atingido, ver Lucky desse jeito me parece a pior delas. Atravessa o meu peito e continua lá, latejando.

—Lucky?-Me abaixo até ele, sem entender.—Me desculpe por...

—Ash...Não.-Ele recomeça.—Eu é que te devo desculpas. Eu posso jurar que eu não sou um desses caras que grita com as mulheres, aponta o dedo pra elas e tal. Eu não sou assim, nunca serei, mas é que isso tudo parece um maldito pesadelo estranho do qual eu não consigo acordar!—Ele olha pra mim, pra mim que digo, é diretamente pros meus olhos.—Eu não sou assim, me perdoe.

Mordo o lábio. O azul turquesa dos olhos dele saudando-me e me prendendo àquele rosto. Uma cor nunca me transmitiu tanta honestidade.

—Claro. Eu entendo pelo que você está passando, sabe?-Sorrio de lado. Ele sorri também.—Me desculpe por ter gritado com você também e te chamado de cabeça de bagre.

—Você não disse isso.

—É, mas eu pensei.

Lucky gargalhou como um menininho que acaba de ganhar um sorvete no parque de diversões, e por uma fração de segundos, eu pude rever o garoto do navio.

Todas as lembranças do naufrágio passam zarpando pela minha cabeça. Enxugo uma lágrima sem que nem os peixes a nossa volta percebam.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.