Crônicas do céu
4 Pink sky — akanextsugumi
Notas iniciais

Aquele fora um dia catastrófico para Tsugumi.
As aulas mal haviam recomeçado e ela acordara atrasada perdendo quase todo o primeiro tempo. Se isso não bastasse, ainda conseguira discussões paralelas com suas artífices e se não bastasse esse estresse, sua transformação em arma estava sendo afetada de forma que nem Anya e muito menos Mami conseguissem usá-la direito mas por sorte, ou apenas uma graça divina, quando saíra para o intervalo de almoço, seu professor pedira para que ela tirasse o resto do dia para descansar, preocupado com o bem estar da arma.
Mas afinal,
Que diabos estava acontecendo com ela?
Nem ela conseguia se sentir como nos outros dias, algo parecia estar errado.
A pobre arma sentia a frustração ferver dentro de si quando saiu do dormitório, já que nem descanso ela conseguira. Sua cabeça estava a mil procurando um porquê naquilo tudo. Logo ela, que sempre mantinha a cabeça no lugar.
Nada parecia fazer sentido, seus hábitos diários ainda eram os mesmos — contando nos dedos, ela frequentava suas aulas, seguia suas rotinas de estudo, treinos, passava no Death Bucks com suas artífices, voltava para o alojamento e depois o ciclo reiniciava — e nada de diferente ocorrera no dia anterior, nada que ela lembrasse como algo fora do comum.
Seus pés a guiavam por onde bem entendiam enquanto sua mente procurava os porquês, seus membros inferiores a levaram a outro destino. Até que em meio a devaneios, ela se encontrou em frente a biblioteca. A famosa biblioteca da Shibusen, que era conhecida por ter livros proibidos e segredos sobre as raízes da fundação de Death City. Se deparando com a imensa porta, um sorriso cansado tomou espaço no rosto de Tsugumi.
Era o que ela precisava naquele momento.
Ler seus romances sempre a ajudara quando nada parecia certo. Ela acreditava que as vezes, era preciso se desligar um pouco da realidade para que as situações fizessem sentido novamente.
Que ela se lembrasse, nunca entrara de fato naquele cômodo direcionado ao conhecimento escrito e poder ver a grande variedade de livros que ela fornecia era de encher os olhos. Eram tamanhas estantes, abarrotadas de livros com lombadas coloridas, formando um grande labirinto de conhecimento, que ela não sabia nem por onde começar a procurar. Se é que ela sabia o que procurar.
Sua imersão nos sentimentos de admiração era tamanha, que ela mal notara a presença ao seu lado.
— Em que posso ajudá-la, senhorita?
Surpresa, a arma pode ver um senhor de aparência esguia, atrás de um balcão, ele parecia estranhamente parte daquele lugar, como se pudesse facilmente se moldar aos livros. Com seu olhar cansado, roupas cinzentas e um bigode que implorava por cuidados, aquele senhor deveria ser quem cuidava da biblioteca da escola.
— Eu- eu gostaria de alguns romances para ler, se não for incomodo.
Tsugumi se sentia nervosa por dentro, enquanto aquele senhor parecia analisá-la criticamente.
— Algo juvenil? — perguntou polida e precisamente.
— Isso seria bom, eu preciso me distrair um pouco.
— Certo, eu vou precisar da sua caderneta, senhorita.
Caderneta? Ela não sabia que para se ler livros ali precisava de uma, será que haviam dito isso em algum momento, quando ela entrara para a escola e por acaso ela se esquecera?
— Eu não tenho uma- mas eu só queria ler! Nada além disso. Tem algum problema, se eu ficar lendo aqui?
O senhor suspirou como se aquilo — uma aluna sem sua caderneta — fosse algo impossível de acontecer, pensando nas dores de cabeça que teria caso um imprevisto maior que aquele acontecesse.
— Bom, claramente você é uma aluna do colégio, então não será problema mas peço que deixe os livros que pegar aqui na recepção.
O medo que estava corroendo os neurônios cansados da garota se dissipara ao escutar tais palavras, fazendo com que a arma suspirassem sem nem perceber.
— Sério? Muito obrigada se- ela mal pode terminar a frase já que tinha um pedaço de papel com números e direções muito bem escritos, exposto em frente ao rosto.
— Estas são as estantes que procura, por favor, tenha cuidado com os livros que pegar senhorita.
Ele parecia cansado. Provavelmente não queria ter de lidar com alunos desorganizando seu ambiente de trabalho, isso era palpável só de olhar para sua expressão, o que fizera a arma se sentir completamente sem graça por ser mais uma carga na mente dele.
— Muito obrigada e — talvez não fosse uma má ideia perguntar — o senhor não costuma ter uma folga sabe, de trabalhar aqui? — ele balançou a cabeça para os lados, os olhos fechados — Pois merecia ao menos uma semana em casa, parece cansado. Me desculpe pelo incômodo.
— Não é incomodo, garota. É só exaustão, eu realmente preciso de férias — ela sorriu com a resposta — Agora vá encontrar o que procura. Xô!
Aquela biblioteca contava com grandes coleções, Tsugumi não se lembrava se a que a sua escola anterior possuía tinha tantos corredores, mas a vista que tinha agora era impressionante! Era certeza de que ali existiam autores que ela nem sequer conhecia o nome mas, estava disposta a descobrir. Decidida, empilhou alguns volumes e procurou por um lugar iluminado para iniciar seu ritual de leitura. Por sorte, encontrou uma mesa larga bem ao lado de uma ampla janela, a luz diurna dava uma ótima iluminação e assim, a arma atrapalhada encontrara seu lugar perfeito.
Páginas e mais páginas eram folheadas, e a cada capítulo, Tsugumi tinha certeza que ler fora sua melhor opção, se não fosse pelo sono que tomava conta de seu corpo aos poucos.
Ela mal notara quando acabara debruçada sobre um dos livros que lia.
E muito menos poderia notar a presença de outro aluno, um grande artífice que acabara na biblioteca por puro acaso e que por pura coincidência, também não esperava se deparar com Tsugumi em uma das mesas de estudo.
Já era fim de tarde quando ele se separara de Clay com a desculpa de ir a biblioteca — a verdade era que ele não conseguira encontrar Tsugumi em lugar algum, mesmo perguntando para suas artífices — a garota não aparentava estar bem pela manhã e quando ela não aparecera nas outras aulas, a preocupação aumentara progressivamente sobre ele, algo um tanto incomum. Foi quando soube que Sid a havia dispensado pelo resto do dia por ela não estar bem.
Akane só não esperava encontrá-la aqui. Na biblioteca.
Ao menos o recepcionista parecia levemente feliz por ter alguém como aquela arma especificamente em sua biblioteca.
E julgando pela quantidade de livros, ela parecia ter passado a maior parte do tempo ocupada.
Analisando as lombadas e capas separadas, ele pudera notar que Tsugumi era uma romântica nata, o que trouxe um sorriso faceiro ao rosto do rapaz.
Ela nunca deixaria de ser adorável.
Pela janela era possível enxergar com nitidez as nuvens preenchendo a paisagem. Talvez fosse pela estação ou o horário, mas Akane jurava ver tons rosados nas partes baixas das nuvens, como se tivessem sido encharcadas em tinta cor de rosa. A visão era tão surreal que ver aquela luz rosada iluminando Tsugumi a deixava curiosamente angelical, enquanto ela dormia tranquilamente sobre os livros que estava lendo.
Seu fascínio fora tamanho, que ele mal conseguira conter a vontade de afagar os fios castanhos banhados em tons de rosa. Se sentando ao lado da garota, ele se maravilhava com a maciez que o cabelo dela tinha e Tsugumi parecia não se incomodar com a carícia, já que sua cabeça procurava inconscientemente pelo melhor ângulo, como um gato pedindo por mais afago.
E em seus sonhos ela realmente se sentia como se fosse uma pequena gata, pedindo por carinho.
Até o momento em que ela abrira seus olhos, percebendo que não estava sonhando.
E acordar de um sonho daquele para se deparar com ninguém menos que Akane Hoshi — vulgo sua paixonite atual — bom aquilo era algo que ela não conseguia entender.
— A-akane? O que- que faz aqui? Aconteceu alguma coisa? — perguntou se sentando corretamente, fazendo com que ele perdesse parte de sua diversão.
O artífice sorriu afagando os fios castanhos maia uma vez.
— Fiquei preocupado com você.
Ela não precisava saber que ele virara a Shibusen do avesso para encontrá-la na biblioteca. Por sorte, Tsugumi comprara a resposta curta, não indo além nas perguntas.
Mas nada impedia Akane de conseguir algumas respostas.
— Se sente melhor? O professor Sid disse ter te dispensado por não estar bem.
Infelizmente nem ela conseguira suas respostas.
— Sim, o professor estava certo, eu precisava relaxar um pouco. Só não entendi porque tudo pareceu do avesso hoje. Acordar atrasada, não me concentrar nas aulas, tudo parece muito confuso!
— Talvez você só esteja sobrecarregada demais, Tsugumi — e mais uma vez, ele se distraíra com o cabelo da garota.
Aquele momento compartilhado entre os dois fazia parecer que um dos sonhos mais surreais dela estivesse se tornando real, visto a atenção que o artífice dera ao seu sumiço, sendo os afagos um bônus bom demais para ser real.
— Será mesmo? — suspirou vencida.
— Você não percebe mas trabalha mais do que imagina e isso, uma hora, toma o melhor de você. Por isso é bom descansar de vez quando — disse direcionando seu olhar de encontro ao dela — Tenho certeza que suas artífices entenderão.
Pensar em Mami e Anya fez com que o rubor quente em seu rosto diminuísse, mesmo que pouco. Lembrar da discussão que tiveram pela manhã trouxera um sabor amargo ao paladar, a forma como se pusera não fazia parte do seu eu neutro. Agora tudo que ela queria era poder resolver aquele mal entendido e procurar um meio de que ele não se repetisse.
— Você está certo Akane.
O artífice apenas sorriso acenando a cabeça positivamente.
— Agora é melhor sairmos, o senhor recepcionista merece umas horas a mais de descanso, não concorda?
Um bocejo indicava o quanto a arma estava atribulada, fazendo com que ela se espreguiçasse para afastar os resquícios de sono.
— Ele parece muito cansado, será que você poderia me ajudar a colocar os livros nas estantes? Acho que ele queria fazer isso por receio de eu acabar bagunçando tudo.
— Tudo bem, é justo — disse o artífice de óculos, empilhando alguns volumes, que julgou pertencerem ao mesmo corredor.
Os raios rosados ainda persistiam, iluminando livros e estantes próximas as janelas largas, fazendo o lugar parecer estar envolto em magia. Era uma vista e tanto para os introvertidos de plantão, um cenário que somente os dois tinham o privilégio de desfrutar e poder ver Harudori por entre os vãos, procurando pelas estantes corretas com uma expressão alegre, fazia com que Akane nutrisse ainda mais o carinho que sentia por ela.
Delicada, corajosa, inteligente.
Tão pequena, mas também tão poderosa.
Com um sorriso adorável, de deixar as maçãs do rosto rubras.
É, ele realmente estava apaixonado pela alabarda, que possuía duas artífices assustadoras.
— Já terminou Akane? — perguntou seu objeto de admiração.
— Sim Harudori. Vamos indo?
Ela assentiu com a cabeça fazendo seu cabelo balançar com o movimento, mas não fora apenas isso que ele notara.
— Está de cabelo solto.
— O quê? — perguntou sendo pega de surpresa.
— Você está sem maria-chiquinha hoje.
— Ah, isso. Eu acabei saindo do jeito que levantei da cama, depois que não consegui descansar no dormitório — respondeu coçando a nuca — nem notei que havia me esquecido delas.
— Você fica bonita assim, até mais que com elas.
A temperatura aumentara drasticamente no rosto da arma, ela tinha certeza de que virara um pimentão com o elogio.
— Deixe de dizer essas coisas Akane.
Ele apenas riu, arrumando a armação do óculos.
— Por que deixaria se não estou mentindo? Afinal, que mal tem em elogiá-la Harudori?
— O mal é você estar dizendo eles — murmurou.
— Então vou maneirar nos elogios, tudo bem? — perguntou afagando os fios castanhos dela mais uma vez.
Tsugumi o encarou levemente irritada. Já haviam chegado a recepção mas ao invés de respondê-lo, se dirigiu ao balcão, entregando ao senhor esguio uma folha cheia de palavras e números.
Quando ela tivera tempo para fazê-lo, Akane não sabia.
— Eu já organizei todos os livros que peguei e tomei a liberdade de listá-los, para que o senhor saiba o que foi retirado do lugar.
Os olhos cansados pareciam surpresos, enquanto olhavam da folha para a Tsugumi e para Akane, logo atrás dela. Fora quando um sorriso aparecera em sua expressão exausta.
— Muito obrigada senhorita e acho que eles devem ter esquecido, mas seu amigo aqui me ajudou a providenciar uma — disse procurando em compartimentos embaixo do balcão — Aqui, agora você pode vir emprestar livros quando quiser, senhorita Harudori.
Os olhos lilases da arma observavam uma caderneta brilhante com o seu nome impressos nela.
Bom, agora era tinha um bom motivo para retornar aquela biblioteca.
— Obrigada. Irei voltar mais vezes e, caso precise de ajuda com os livros eu me candidato ao cargo.
— Estarei esperando a sua visita — a garota jurava que aquilo no rosto do homem era um sorriso.
Um silêncio agradável preenchia os corredores da Shibusen, enquanto arma e artífice caminhavam lado a lado sem muitas palavras. Akane insistira em levá-la de volta ao dormitório feminino, enquanto o tempo escurecia, anunciando a chegada da noite.
Nuvens de rosa pastel insistiam em se despedir adequadamente da dupla, se destacando no céu azul escurecido.
Quando chegaram ao portão do prédio, Tsugumi se virara para encarar Akane, que a observava tranquilamente, um sorriso nos lábios e um brilho novo nos olhos que a arma desconhecia.
— Eu gosto dos seus elogios, só não estou acostumada a recebê-los uma tarde inteira. Mas obrigada pela companhia hoje Akane.
E algo que Akane não imaginava acontecer, aconteceu.
Harudori o beijara.
Na bochecha, mas aquele gesto já era algo diferente, rumo a uma nova direção.
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