Crônicas do Viajante
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Em meio aos gritos de desespero dos habitantes da favela, dois jovens corriam arduamente procurando um lugar para se esconderem. Acharam um armazém com a porta entreaberta e entraram sem cerimônia. Booker fez uma barricada com os caixotes que estavam empilhados pelo local. Os dois se encolheram no canto e ficaram calados por um tempo, mas assim que tiveram a certeza de que estavam seguros, a garota, mais nova, perguntou:
–Porque eles estão fazendo isso? O que fizemos de errado?
Booker, com sua rispidez característica respondeu:
–não fizemos nada de errado, mas os porcos inúteis da nobreza decidiram que não vale mais a pena sustentar essa favela, que por ironia surgiu por incompetência deles mesmos...
–eles não podem fazer isso!
–claro que podem, afinal já estão fazendo...
–o que leva uma pessoa a fazer isso com outra? Afinal, somos todos iguais, por que insistem em arranjar diferenças?
–Boa Pergunta, mas você é muito nova para enten...
E parou de falar, correndo os olhos pela sala, com atenção.
– o que foi, o que acon...
Booker cobriu a boca dela com a mão.
– ouvi algo. Vou lá fora verificar, fique aqui e não faça barulho.
A garota assentiu com a cabeça e ficou olhando enquanto ele lentamente se levantava e ia até a porta. Mas a ameaça não veio pela porta, veio pela parede a frente de Liz, arrebentando tudo com um grande estrondo. Booker se escondeu atrás de uns barris próximos e observou com os olhos arregalados os guardas pegando sua irmã e a socando para que desmaiasse. Assim que um dos guardas deu as costas ele avançou ferozmente o chutando-o no meio das pernas e o empurrando-o para frente, derrubando- em uma das caixas, o segundo guarda avançou com a espada, mas ele conseguiu desviar do golpe e ainda tomar a espada da mão do guarda e aparando um golpe do terceiro com o peito da lamina. Foi recuando lentamente, focando o guarda que ainda estava armado (por motivos lógicos). O guarda estava esperando uma postura defensiva, afinal era apenas um garoto, mas esse foi o seu maior erro: Subestimar seu oponente, baixando a guarda. Na primeira oportunidade Booker chutou o joelho do guarda e fincou a espada em sua garganta quando ele se abaixou, ao mesmo tempo em que pegava a espada caída e confrontava o outro soldado, que se virou para tentar correr e chamar reforços, mas foi impedido por um golpe brutal nas costas. Booker sempre teve aptidão com espadas, mas nunca lutou pela própria vida daquele jeito. Também nunca tinha matado um ser humano, mas a esse ponto ele não pensava no que estava fazendo, acabara de assistir sua irmã sendo violentada e em sua mente existia apenas o instinto de sobrevivência. Ele se ajoelhou perto da irmã, tentando fazer com que ela levantasse e não percebeu (ou simplesmente não ligou) quando o primeiro guarda que já tinha se recuperado do choque saiu correndo em busca de reforços. -
–LIZ! ACORDA! POR FAVOR...
–Booker? O que aconteceu?
–eles te pegaram, mas vai ficar tudo bem! Eu vou tirar você daqui!
Booker começava a ouvir o barulho dos reforços, que chegariam a qualquer momento e ceifariam os dois sem nenhum remorço.
–Booker... Você não vai conseguir se salvar se me levar junto...
–O que está dizendo? Eu sempre te tirei das enrascadas e te nunca te abandonei, não vou fazer isso hoje...
–Booker... Obrigada!
Booker a pegou nos braços e pôs-se a correr, mas já era tarde: Quando olhou para trás viu vários guardas ao seu encalço e não demoraria muito para alcança-los. Porém o destino resolveu encurtar a perseguição. Booker tropeçou poucos segundos depois de notar seus perseguidores, tornando o trabalho deles mais fácil. Os guardas o imobilizaram a muito custo e seguraram Liz, que ainda estava meio zonza.
Um dos guardas abriu caminho para o capitão e apontando para o garoto disse:
–Foi ele capitão! Abateu dois de nossos homens! Esse merece uma morte mais dolorosa, não acha?
O capitão olhou fixamente nos olhos de Booker, sentindo todo o ódio e desprezo contidos no garoto.
Tenho em mente algo melhor, afinal não é todo dia que se acham jovens com tamanho talento para guerrear...
Booker rosnou:
–ESTÃO ENGANADOS SE PENSAM QUE UM DIA EU COOPERARIA COM VOCÊS!
O Capitão calmamente respondeu:
–Mesmo que isso mantenha essa garotinha viva? Ela parece ser alguém muito importante para você...
Booker ficou sem reação por dentro ele estava prestes a explodir de tanto ódio e ira, mas não conseguiu sequer formar uma frase como resposta.
–Foi o que pensei – disse o capitão. – você será um excelente soldado, nada melhor do que rancor e ódio para criar uma máquina de matança, e caso você saia da linha, nós daremos um jeito nela para te lembrar pelo que você vive. Cumpra minhas ordens que daqui a alguns anos eu talvez o liberte. Descumpra-as e você ficará o resto da sua vidinha medíocre se lamentando e culpando-se pela morte dessa garotinha, no fundo de alguma masmorra. Então? O que escolhe?
Com muito pesar e mal conseguindo falar, Booker respondeu:
–Treine-me... Mestre...
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