Crônicas do Universo
1 Capítulo 1
–Não... — eu olhava assustada para o caos à minha volta. — Não fui eu quem fez isso, foi? Impossível... — comecei a correr em direção ao único lugar que me daria respostas. Tomara que eu chegue viva até la...
~~Algum tempo antes~~
Eu chorava descontroladamente no colo da minha melhor amiga. Os soluços pareciam convulsões.
–Laraaaaa...como ele pôde fazer isso comigo? — uma nova enxurrada de lágrimas descia pelo meu rosto.
–Se acalme, Avery. Essas coisas acontecem. Você ainda vai ser largada muitas vezes nessa vida...e largar também. — comecei a chorar mais ainda.
–Isso foi pra me animar? — olhei pra ela — Você vai continuar trazendo notícias, não é?
Estava me referindo ao fato de Lara me dizer tudo sobre meu ex. Não consigo nem pensar no nome dele sem chorar.
–Claro. — ela me fez levantar — Que tal um passeio? Você precisa se distrair, já faz uma semana!
Saímos da minha casa e fomos pra longe. Saímos da cidade e acabamos nos perdendo. Vagamos pelas ruas pra ver se achávamos algum ponto de ônibus ou algo parecido.
–Avery, eu to com medo. — Lara choramingou segurando meu braço.
–Relaxa, é cedo ainda.
–A gente tá perdida, não vamos conseguir voltar, vamos ser sequestradas — a voz dela ficava mais fina a cada palavra que falava.
–Para com isso! É impossível se perder. Só se a gente for muito burra.
–Surpresa, jumenta um e dois não sabem voltar pra casa.
–Tsc. — comecei a olhar ao redor e uma parede me chamou a atenção numa esquina mais à frente.
uma parede toda pintada de azul-escuro com estrelas desenhadas. Já estava meio desbotada, mas dava para ler uma palavra ou outra, fora o telefone e uma seta apontando pro beco da esquina.
–Vem cá — puxei minha amiga em direção àquele lugar
–Ah, não. Vai me fazer entrar numa casa de macumba?!
–Respeita, garota! — continuei puxando ela. — se falar assim, os exus vão te pegar. — ela soltou um gritinho e eu ri.
Não fio difícil achar o lugar que o anuncio na parede se referia. Quase no fim do beco havia um portão entreaberto pintado exatamente como o muro.
Dei uma olhada procurando uma campainha, mas não encontrei.
–Avery...vamos tentar achar como voltar...
Estava tentada a fazer o que ela sugeriu quando um gato preto passou entre a gente e entrou na casa.
–Gato preto, Avery! — ela quase gritou apontando pro bichinho enquanto ele sumia no quintal. — Má sorte, vamos morrer!
Apenas revirei os olhos pra ela. Dei um passo em direção à casa.
–Isso, vamos entrar! Vamos ver o que tem aí.
–Porque isso agora? — eu olhei pra ela sem entender.
–Ué, já que pedindo pra ir, você insiste em ficar aqui, talvez te encorajando a entrar você mude de ideia e a gente volta pra casa.
Ignorei ela novamente e passei pelo portão. A porta da frente também estava aberta. Bati na porta, mas não tive resposta. Movida por algo que não consigo explicar, empurrei a porta e entrei na sala.
Olhei em volta e fiquei surpresa, não parecia uma casa de macumba. Parecia uma sala comum.
–Olá? — andei pela sala enquanto Lara ficava na porta, pronta pra correr, acredito eu. — Com licença...
Uma mulher surgiu no corredor. Era praticamente impossível descrever ela, ou dizer a idade que tinha. Se eu pensasse em 20, ela pareceria mais velha, se eu pensasse em 30, ela pareceria mais nova, e qualquer outro número entre essas dezenas não combinava com ela. Ela vestia um vestido longo e um lenço no cabelo. Usava uma infinidade de bijuterias, que pareceria exagerado em qualquer pessoa, mas nela ficava bem.
–Você demorou. — ela sorriu.
–Demorei? — eu dei um sorrisinho nervoso — Desculpe a demora...Ahn, como você...
–Só sei. — ela me interrompeu.
–Então sabe o que eu quero? O que eu pensei assim que vi o muro?
–Ah, não, só sabia que viria. Não sei seus motivos, seus pensamentos, ou mesmo seu nome.
–Que espécie de cartomante é você? — eu ri.
–Não sou cartomante. — ela sorriu novamente.
–Certo. Sou Avery, e aquela medrosa ali é minha amiga Lara. — eu apontei pra menina na porta.
–Sou Samantha Dináh.
–Prazer....? — não sabia muito bem o que fazer, na verdade.
–Não vai me dizer o que te trouxe aqui? — ela me olhou, o que me incomodou um pouco.
–Estamos meio perdidas....E eu vi o muro na esquina, não sei porque vim, na verdade. — eu fiquei um pouco envergonhada.
O mesmo gatinho preto que passou pela gente no portão adentrou a sala pelo corredor onde a mulher passou.
–Ah, Fae. -ele pulou no colo dela. Ela o olhou um pouco, e logo depois pra mim. — 544
–....O que? — a olhei como se ela fosse louca, o que era realmente.
–O ônibus, meninas. Para irem a um lugar conhecido, e a partir de lá saberão voltar pra casa.
–Como...
–Fae me disse — ela sorriu daquele jeito de novo. Já estava me irritando o fato de não conseguir terminar minhas próprias frases.
–Legal, você fala com gatos.
–Eu não falo com ele, ele que fala comigo. -ela o colocou no chão.
–Ah. — o que eu poderia dizer?
Andei pela sala mais um pouco, mesmo não tendo mais nada pra ver.
–Então... — olhei pra mulher ignorando o olhar de Lara, praticamente implorando para irmos embora. — Se não é uma cartomante, o que você faz?
–Sou uma consultora. — ela disse simplesmente.
–E o que isso quer dizer? — já estava um pouco irritada pelo modo como ela dá pouca informação.
–Eu consulto. — ela sorriu — Posso fazer muitas coisas com isso, então não tem algo de particular que faço.
–Pode fazer uma pessoa voltar a gostar de outra? — mal percebi as palavras saindo da minha boca.
–Não mexo com esse tipo de coisa. Há apenas 1% de chance de sair certo. — ela parecia olhar dentro de mim — mas posso manter pessoas afastadas do seu alvo.
–Quanto é? — meu desespero era evidente.
–Não há um preço certo. Não é uma única vez que você precisará fazer isso. Cada ato seu tem de ser calculado para obter um resultado. Você não se contentará com um afastamento, não até conseguir tê-lo de volta, não é? — eu não entendia absolutamente nada do que ela falava, e já estava ficando irritada.
–Cartomante, eu só o quero de volta. Não importa de que jeito.
–Consultora — ela corrigiu.
–Olha aqui, Dona Jequiti, não me interessa essas coisas doidas que não consigo entender, só o quero de volta, ok? — eu virei as costas e já ia saindo.
–Você pode assinar sessões. — ela continuava calma — a cada dez consultas você efetua o pagamento, até que tenha seu objetivo. Mas aviso logo, demora.
–Mas se você não pode fazer ele voltar a gostar de mim, como meu objetivo será alcançado?
–Não será legal, mas você pode tê-lo através da carência. Se tirar mulheres do caminho dele, pode ser que ele reconsidere a voltar pra você. Nossa espécie não vive solitária. Ele certamente consideraria aceitar você de volta. — senti uma pontada de humilhação só de pensar em ser a última opção.
–E como faço isso? — quero um lugar pra esconder a cara, agora!
Ela levantou e caminhou até um pequeno armário. Tirou de lá uma cartolina e duas canetas, voltou a sentar logo em seguida. Apoiou a folha na mesinha e fechou os olhos. Com uma caneta em cada mão, começou a desenhar várias linhas e homens-palito pelo papel, marcando um X em um ou outro.
–543. — olhei pra ela sem entender. — O ônibus. Pegue este ônibus pra voltar e ele não terá garotas por perto por 3 dias. — continuei olhando pra ela.
–Ahn...ok.
Pus a mão no bolso pra pagar a ela, mas ela levantou a mão.
–Quando você voltar, pague. Primeiro tem de ter garantias, certo? — ela sorriu novamente e saiu da sala.
–Anda — Lara me puxou, quase esqueci dela.
Saímos da casa e logo achamos um ponto de ônibus, não muito longe de onde procurávamos antes de encontrar aquela maluca.
–Que mulher doida, Lara...Como ela espera que a gente pegando este ônibus ao invés do outro faça o...- uma lagrima começou a se formar. Que droga, eu tava bem até agora. — aquele cara ficar carente.
–Vai saber...
Com o numero que a mulher nos deu, conseguimos chegar em um lugar conhecido, e de lá fomos pra casa. Andamos pelo nosso bairro um pouquinho até Lara ter de ir pra casa. Depois de algum tempo lendo no meu quarto, já estava me preparando pra dormir quando uma mensagem chega no meu celular. Era a Lara, e ela dizia: Você não vai acreditar.
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