Notas iniciais
Bem... História referente ao segundo tema do desafio: infância. Escrevi dessa vez com Tomas Toussaint, Alduin Zmajevi e Colette Toussaint. Centrada na infância de Tomas, alternando entre a infância e a adolescência dele. IDK, eu... Realmente gostei do resultado dessa, embora tenha ficado muito curta.

Os braços mecânicos de Tomas eram um lembrete constante do acidente de anos atrás. Não que lamentasse seu destino, – já havia se acostumado àquilo e não era nem de longe tão ruim – mas gostaria de voltar a tocar piano tão bem quanto antes.

Dedilhou uma pequena sonata, que saiu mais lenta do que deveria.

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A família Toussaint era como qualquer outra do Reino, exceto que evidentemente mais rica que a maioria. Tomas havia passado uma infância feliz, estudando artes e piano com tutores particulares e praticando a montaria com os irmãos. Tinha uma mãe amorosa e um pai com uma posição excelente no comércio do Reino.

–Eu queria saber tocar piano como você. –Resmungou Colette, a mais nova das irmãs de Tomas. Apoiava os cotovelos na tampa do piano, e o rosto nas mãos. –Se eu soubesse tocar piano para o papai e a mamãe, eles nunca me colocariam de castigo.

–Papai e mamãe te colocaram de castigo porque você está sempre fazendo bagunça. –Tomas respondeu. Cosette, mesmo tendo apenas seis anos, era capaz de colocar a casa de pernas para o ar. –Mas eu posso te ensinar a tocar piano. –Sorriu quando viu o rostinho da garota se iluminar.

A menina, animadíssima, aprendeu a tocar o dó-ré-mi-fá em questão de minutos. Tomas sorriu para ela, que gritou para que a mãe viesse logo vê-la tocar. Colette era uma garotinha esperta.

–Tomas. -A mãe chamou, Colette em seu colo, ainda contando como fora fácil aprender os primeiros passos do piano. -Vá ajudar seu pai com as novas máquinas. Dimas está ocupado com o dever de casa.

–Ah, claro! -Tomas respondeu de imediato. Tinha certeza de que Dimas não estava assim tão ocupado, — era típico do irmão mais velho dar desculpas para não ter que sair do quarto — mas não se incomodava de ajudar os pais.

–Ele está no porão. Tome cuidado, algumas delas são bem pesadas! -Alertou a mãe.

Tomas assentiu e saiu do quarto. Passou o corredor e chegou à escada de madeira que levava ao porão. Da entrada, podia ouvir o barulho metálico de máquinas sendo movidas de lugar.

–Pai? -Tomas chamou. Havia mais pessoas no porão, pelas vozes que ouvia. Desceu as escadas com cuidado.

–Ah, Tomas. -O pai o cumprimentou, pausando as ordens que dava a alguns empregados. -Pode me ajudar anotando os números das máquinas neste relatório?

Tomas recebeu uma prancheta e uma caneta. Era provável que, aos 10 anos, tivesse uma melhor noção de linguagem e matemática que todos os empregados de seu pai. A educação no Reino custava caro.

–Ah, pai, nunca vi uma dessas! -Tomas se surpreendeu com uma das máquinas. Era completamente nova, podia perceber pela polidez do metal, e o design era desconhecido para o garoto.

–É uma processadora de tábuas. É uma invenção recente. Não tenho total garantia sobre o funcionamento, mas já a estou negociando com uma madeireira. -Tomas anotou o 0659 da máquina no relatório. Era uma máquina deveras fascinante, diferente de todas...

–Estou bonita, Tomas? Diga que estou bonita. -Colette invadiu o quarto do irmão, interrompendo seus devaneios.

–Ah! Colette. -Cumprimentou Tomas. -Está linda. Mas... Mamãe já não disse que não gosta desse vestido? -Tentou não ser muito rude com a menina, que usava um decote demasiado ousado para sua idade.

–Mamãe não gosta de nada que eu faço. -A garota revirou os olhos castanho-claros. -Verde cai bem em mim, você me disse um dia.

–Alguma ocasião especial, Colette? -Tomas indagou. Conhecia bem a irmã. Colette não se arrumaria tanto se não fosse uma ocasião especial.

–Aquele rapaz do ferro-velho virá aqui. Negócios com o papai e tal. -A menina se olhou no espelho de corpo todo que Tomas tinha em seu quarto. O rapaz particularmente não gostava muito dele. Olhar-se no espelho não era uma de suas atividades favoritas. -Acha que tenho chance com ele? Certo, claro que tenho. Ele é quem deveria pensar se tem chance comigo. Mas ele é lindo, não acha? -Bombardeou o irmão com seus monólogos.

–Certamente tem, Colette. -Tomas foi honesto, apesar de um pouco apreensivo. Tinha uma vaga noção de quem Colette falava. -De que rapaz você fala?

–Aquele moreno que cria cachorros. E que tem um nome esquisito. Você sabe de quem estou falando. -Oh, aquele rapaz. Tomas sabia muito bem de quem Colette estava falando.

Competir com sua irmã mais nova não estava nos planos de Tomas.

–Ele não é um tanto mais velho que você, Colette? -Tentou desencorajá-la de maneira sutil. -Tipo, uns seis anos mais velho.

–Eu não ligo. -Era a típica resposta da menina para tudo. Tomas sabia que seria uma situação deveras complicada.

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Tomas se lembrava mais vividamente do acidente do que desejaria. Lembrava-se do próprio desespero e do de seu pai, que não conseguiu desligar a máquina de imediato.

Quando se concentrava bastante, podia até sentir a dor que começava onde suas próteses de braços se encaixavam e ia até as placas metálicas em seu peito.

Os melhores médicos do Reino se empenharam em salvar o garoto; diziam que era um milagre que tivesse sobrevivido. Sua mãe dava graças às fervorosas orações da família.

As próteses recém-implantadas requeriam manutenção constante; infecções, no início, eram frequentes. Acostumar-se à nova aparência também não era nada fácil.

Mas, se perguntassem ao pequeno Tomas o que era mais difícil no período de adaptação à nova vida, certamente responderia não poder mais tocar o piano.

–Tom. -Colette, na inocência de seus sete anos, o chamou um dia. -Eu vou te ensinar a tocar piano com seus braços de robô.

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–Uau. Você toca bem. -Alduin Zmajevi parou na porta do quarto de Tomas, ouvindo-o dedilhar uma sonata simples.

–Não tanto quanto tocava antes. -Tomas sorriu tristemente. -Não estava buscando a sucata de papai?

–Achei que talvez pudesse passar aqui pra te dizer olá. -Alduin deu de ombros. -Eu posso, né?

–Quando quiser. -Tomas sorriu-lhe. Adorava as maneiras de Alduin.

–Não vai me convidar para entrar?

–Você entraria de qualquer maneira. -Brincou o loiro.

–É, tem razão. -Alduin replicou, rindo. Entrou no quarto de Tomas sem mais cerimônias e postou-se ao lado dele no piano, evitando tocar qualquer coisa para evitar desastres. -Continue tocando. Gosto de te ouvir tocar.

–Eu também sei tocar! -Colette invadiu o quarto do irmão antes que este pudesse tocar uma nota sequer. -Quase tão bem quanto ele. Depois, se quiser, será um prazer tocar para você. -Tomas evitou encarar a irmã. Não costumava ficar irritado, mas Colette sabia ser inconveniente quando queria.

–Na verdade, eu acho melhor ir logo terminar o serviço que vim fazer. -Colette fez um biquinho de decepção. Tomas se sentiu aliviado. -Talvez outro dia, tudo bem, hm...

–Colette. -A garota respondeu prontamente.

–É, até outro dia, Colette. -Alduin despediu-se. -E até, Tom.

Tomas despediu-se baixinho e observou Alduin se afastar até perdê-lo de vista. Descera ao porão, provavelmente. Colette, frustrada, saiu do quarto logo depois.

Tomas voltou sua atenção ao piano. Dedilhou uma sonata para si mesmo, que saiu mais lenta do que deveria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.