Crônicas do Reino de Melissa
1 A Bússola do Tempo
Notas iniciais
Astrid sentiu o estilete cortar o ar por cima de seu ombro e ouviu quando o objeto atingiu a madeira. Inspecionou os longos cachos loiros, verificando se permaneciam intocados e confirmando o fato. O garoto que se sentava na carteira atrás da sua desequilibrou-se pelo susto, quase caindo da cadeira. Astrid analisou brevemente a situação e tornou a se concentrar na prova.
Ignorou quando a professora caminhou até a carteira do garoto e tomou-lhe a prova. Era apenas o típico da srta. Tanner. A jovem professora era inflexível, rigorosa e, para completar, impaciente. Mas não era a pior entre os professores da Escola Preparatória do Reino.
Terminou a pequena dissertação sobre o golpe de estado que levara a família Vainen ao poder dois séculos atrás mais rápido do que esperava. Passou os olhos rapidamente por suas respostas. Impecáveis, como de costume.
A sensação de já ter escrito as mesmas palavras antes passou-lhe rapidamente pela mente. Decidiu não pensar muito nisso — pensamentos do tipo sempre a atormentavam e tiravam o sono — e entregou a prova. Organizou rapidamente os materiais e deixou a sala.
"Foi rápida dessa vez", comentou Maria Yama, estudante do terceiro ano e causadora de problemas profissional, que a esperava na porta enquanto trançava os cabelos castanhos espessos. "Vai tirar um total, como sempre?"
"Creio que sim". Não se esforçou para parecer modesta. "O que faz aqui, Mai?"
"Te esperando, oras! Temos outra expedição à biblioteca marcada para agora." A veterana tomou a mão de Astrid, puxando-a pelos corredores escuros. O chão de tábuas de madeira não poupava nenhum ruído, e Astrid temia uma advertência por perturbar outras classes.
"Não me lembro de ter marcado coisa alguma." Astrid tentou se soltar, irritação transparecendo em sua voz.
"Ah, você o fez." Maria sorriu. Não afrouxou o aperto de sua mão, impedindo que Astrid se soltasse. Tinha muito mais força em seu corpo pequeno do que aparentava. "Sei que você adora a biblioteca."
Astrid grunhiu, Maria podia ser insuportável. Detestava a biblioteca. De todos os lugares do mundo, poucos a faziam tão mal quanto aquele. A atmosfera pesada, as prateleiras escuras, o silêncio sufocante e a bibliotecária de melancolia maligna eram um cenário perfeitamente propício aos pesadelos de Astrid.
"O que exatamente você quer?" Astrid praticamente cuspiu as palavras, o tom de voz abaixando a medida que se aproximavam da biblioteca.
"Seu cartão de identificação." Antes mesmo que Astrid pudesse responder, Maria já havia localizado sua carteira de couro na bolsa que carregava.
"Ladra maldita." Amaldiçoou. A morena pegou seu cartão de identificação e, tão rápido quanto havia retirado a carteira de Astrid, colocou-a de volta.
“Quanta doçura.” Retrucou Maria. Ao chegarem ao portal da biblioteca, Maria encaixou seu cartão e o de Astrid na fissura central. Ouviu-se o barulho de engrenagens se movendo e os grandes portões se abriram, revelando a biblioteca.
Astrid respirou fundo e apertou a mão de Maria, que sorria maliciosamente. O frio do local não a encorajava nem um pouco a entrar. Não entendia muito bem sua repulsa pela biblioteca – apenas nunca se sentira confortável por lá. Sentia-se perseguida, encurralada; olhava para trás todo o tempo, esperando que as sombras se fechassem sobre si. Sentia medo. E, acima de tudo, Astrid odiava sentir medo.
"Me mostrou algo?" Astrid perguntou, incrédula. Maria era cheia de cartas na manga, de truques e charadas. Na maior parte do tempo, ela e seus passatempos eram inofensivos. Mas parecia estar sempre um passo a frente de Astrid, detendo toda a informação antes mesmo que Astrid conseguisse pistas, e isso assustava a loira. Não tinha certeza se podia ou não confiar em Maria. "Sei que não adianta discutir com você. Vai, mostre-me novamente."
"Você quer aprender a controlar o tempo." Não era uma pergunta. Astrid sabia que não era. "Você quer ter todas as vantagens possíveis."
"O tempo é a duração dos fatos. Há várias maneiras de gerenciá-lo." Tentou aparentar firmeza. "Mas controlá-lo está fora do alcance de qualquer pessoa."
"Você é qualquer pessoa, Astrid?" Maria abriu o livro. Não, não era um livro, Astrid notou; era mais uma canastra de madeira maciça, com um pequeno compartimento no centro. Maria tirou um objeto de dentro da canastra e fechou-a, devolvendo-a à prateleira. "Eu queria isso pra mim. Ou pra você." Observou o pequeno objeto metálico em suas mãos com um quê de tristeza. "Mas nunca é bom manter essas coisas perigosas consigo, Astrid."
"Isso... É uma bússola? Que impressionante." Comentou sarcasticamente. Nada especial. Nada que merecesse ser guardado com tanta discrição.
"Já viu uma bússola apontar para o presente, Astrid?" Maria abriu o objeto, mostrando-o para a loira. "Certo, isso realmente é uma bússola. Mas uma bússola que te direciona pelo tempo, não pelo espaço. Não é incrível? Você pode ver o futuro antes de todos. Pode voltar ao passado e alterar ações, provocando resultados diferentes. Não é isso que você quer, Astrid? Estar à frente de todos?"
A loira não se deu ao trabalho de responder as alfinetadas de Maria, maravilhada que estava com a perspectiva de controlar o tempo.
"Me ensine a usar isso, Maria." Era quase uma ordem.
"Como quiser." Maria sorriu. "Concentre-se em qualquer ponto na linha do tempo. Feche os olhos. A agulha se desnorteará, até que encontre o ponto que você deseja."
E Astrid assim o fez, desejando ter sido transportada para dois dias adiante.
Astrid se encontrava no meio de um jogo de queimada. Estava confusa, como se os últimos segundos de sua memória estivessem em branco. Antes que pudesse refletir mais sobre isso, capturou a bola que vinha em sua direção. Sempre tivera reflexos mais rápidos que o raciocínio, o que não era exatamente uma vantagem boa parte do tempo.
"Acabou o tempo, meninas!" O instrutor gritou. As garotas que jogavam queimada foram se retirando da quadra e Astrid, ainda confusa, as seguiu.
Os calendários nas paredes marcavam sexta feira. Como o fim da semana chegara tão rápido? O tempo realmente voava.
"Olá, Astrid." De onde Maria havia surgido?
"Maria." Não era exatamente um cumprimento.
"Vamos para a biblioteca." Não era exatamente um convite.
"De novo?" Resmungou Astrid, antes que se desse conta de suas palavras.
De novo?
"É." Maria sorriu-lhe. "De novo." A morena tomou-a pela mão com o aperto firme que Astrid sentia já conhecer bem e arrastou-a pelos corredores da escola. Astrid não reclamou, sentindo que seria inútil protestar.
Odiava a biblioteca, mas sentia que havia algo a ser feito lá. Algo de que não poderia escapar.
"Do que se lembra, Astrid?" Maria perguntou.
"Do que está falando?"
"Você estava jogando queimada, ok. Antes disso, o que estava fazendo?"
"Tive uma prova de história... na quarta feira." Quinta feira havia sido tão desimportante assim? O período entre o jogo e a prova parecia passado em branco.
"Interessante." Maria soltou um risinho que Astrid odiava. Deixava claro que a morena sabia algo que Astrid desconhecia.
Passaram os cartões de identificação pela abertura no portão. O barulho dos mecanismos foi ouvido, as portas se abriram, o frio atingiu o corpo de Astrid.
"Você quer me mostrar algo." Astrid afirmou.
"Sim, quero. Venha comigo." Maria a tomou pela mão. Puxou-a para dentro da biblioteca. Passaram a bibliotecária dos olhos vazios, as sessões de livros mais recentes.
"Um livro antigo?" Murmurou Astrid quando Maria puxou o que parecia um volume antigo e pesado de mecânica. Não, não era um livro. Algo surgiu na memória de Astrid. O que Maria segurava era uma canastra.
A morena abriu a caixa e retirou um pequeno objeto metálico que não parecia de todo estranho a Astrid.
"Já pensou no que poderia fazer se viajasse no tempo, Astrid?"
"Por que me pergunta isso?"
Maria abriu o objeto. Uma bússola.
"Uma bússola que aponta para o presente." Astrid disse, surpreendendo-se com a própria falta de surpresa.
"Exatamente. Você não é tão inábil com o tempo quanto eu imaginava." Maria observou com interesse. "Para onde você iria se pudesse, Astrid? Digo, no tempo."
"Eu gostaria de me lembrar de ontem." Não costumava ter tais lapsos de memória, o que a frustrava. E, principalmente, não costumava aceitar nada que contrariasse a lógica — viagens no tempo e charadas de Maria se encaixavam na categoria. Porém, acreditava na bússola. Sabia que ela funcionava, sabia que a conhecia. Não sabia como, mas sabia.
"Aponte para ontem, então, Astrid. Apenas se concentre." Instruiu Maria.
E Astrid assim o fez, desejando ter voltado à quinta-feira e vivido o tempo perdido.
Astrid estava na biblioteca, sentada em uma mesa redonda com Maria à sua frente, segurando as mãos pequenas e magras da morena.
"Por que está trabalhando o tempo comigo?" Astrid perguntou, percebendo o que estavam fazendo. "Você está tentando me confundir!" Acusou.
"Por que você tem essa imagem tão ruim de mim?" Maria suspirou, soltando as mãos da loira. "Estou sendo sincera, Astrid, escute-me bem. Você tem muito o que aprender ainda, principalmente no que diz respeito ao plano não tangencial. Você, que não acredita em nada que não possa ver, tocar ou provar cientificamente. Estou te mostrando que tempo é uma habilidade que você não tem. Uma habilidade que não tem e pode ter. Você está longe de ser perfeita." Deu de ombros. "Sei que deve doer no seu ego de princesa ouvir isso tudo. Mas eu quero, principalmente, provar que estou do seu lado. Não estou competindo contigo, e sim por você."
Astrid levantou-se e deu as costas para Maria. Não queria ouvir o que a outra tinha a dizer. Não queria aceitar.
"Bem, nada fora do esperado." Maria sorriu para si mesma.
Astrid passou a bibliotecária dos olhos vazios e saiu do frio sufocante da biblioteca. Treinar esgrima provavelmente seria a melhor distração no momento.
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