Ralph sempre fora um homem transparente e sincero com Katherine. Mesmo com os assuntos tidos como confidenciais para o senhor e senhora Castler, sempre lhe contou detalhes acerca de tais, chegando aos mais minunciosos detalhes. Katherine sempre conseguiu se impor, desde os tempos em que a inocência da infância fazia de suas ordens meros casos cômicos para seus pais e o segurança. Agora era preenchida por uma sensação indesejável, um aperto em seu interior, um sentimento deuma pessoa traída por alguém que mais confiava. Poderia ser irrelevante, algo a ser esclarecido depois. Todavia, sabia que a reação de Ralph era diferente de qualquer outra que já presenciara em suas duas décadas e mais alguns anos de vida. A feição do segurança era séria e de alguma forma ela sabia que aquele segredo não lhe seria contado no momento de sua vontade. Se fosse, tardaria algum tempo, embora duvidasse que alguma palavra acerca daquilo saísse. Carter ficara tão surpreendido quanto Katherine, mas o seu tempo de convivência com Ralph era insuficiente para tecer qualquer opinião. Entre eles formou-se um ambiente desprovido de qualquer diálogo, composto apenas por o suave som emanado do motor do veículo. Havia uma certa tensão por parte de Carter e uma insegurança em Katherine, tendo ela trazido as crianças mais para si. Passaram-se minutos até o silêncio ser rompido por um anúncio de Ralph.

–Chegamos em Londres. Demoramos mais que o normal, mas chegamos.

A estrada começava a ser vista sob o manto de neve, demonstrando sinalizações que denunciavam que ela era uma grande avenida de intensa circulação, embora aquele período fizesse com que poucos veículos estivessem circulando.Sutilmente, o ambiente rural e as árvores secas começavam a dar lugar a pequenas edificações, quase todas elas com estrutura de ferro aparente, a maioria das vedações em um vidro espesso e volumetria que pareciam ser uma junção de formas ortogonais. Mais adiante, começavam a surgir construções maiores, de formas mais suaves e curvas faziam parte da composição de esquadrias. Ainda sim, havia um ritmo, uma sintonia que o conjunto das edificações formavam, mesmo sendo muitas delas separadas das outras. Para Katherine, aquilo já ere um ambiente conhecido de anos, sem nenhuma novidade visual. Nada atraía sua atenção até porque sua mente continuava focada no estranho ato de Ralph. Carter poucas vezes fora a Londres, então, cada ida era uma experiência distinta e as crianças começavam a despertar do sono quase vespertino. O número de veículos começava a ascender, mas o fluxo se fazia initerrupto, exceto pelas necessidades obrigatórias impostas por sinalizações. Foi numa dessas interrupções que Ralph voltara a se manifestar.

–Preciso que me guie até o lugar de seu destino, Carter.

–Bem...-Dizia Carter, pensativo.-Não sei exatamente onde fica mas podemos consultar naquele mapinha.

De imediato, Ralph pressionou um dos vários botões do painel, fazendo surgir em uma região mais abaixo pontos luminosos que logo incidiam feixes fosforescentes para vários pontos à frente do painel e formando uma imagem tridimensional de Londres.

–Pode começar.

O franzir da testa de Carter foi o seu sinal de espanto. Jâ ouvira falar daquela tecnologia de projeção de imagem, embora isso lhe parecesse distante, ao menos para a sua realidade. A imagem holográfica subitamente se ampliou, exibindo ma projeção do veículo de Ralph e a avenida em que seguiam, juntamente com as edificações do entorno.

–Tá.... Agora como faço? Comando de voz?

–Sim.

–Ok. Vejamos... Vamos para... Centro de acolhimento de Londres.

Uma voz ecoou ali.

–Destino não identificado. Por favor, insira um destino válido."

Carter sentiu uma pequena decepção.

–Vai ver porque o lugar ainda não foi inserido no sistema.Ainda estão adaptando os dados do antigo sistema de mapas para esse novo.-Disse Ralph.

–Pelo que ouvi dizer isso já tem um tempo que foi lançado. Em questão de semanas Londres estava toda inserida no antigo sistema.

–Em torno de três meses. E se esse seu centro de acolhimento for recente, é provável que ainda não esteja integrado nem ao antigo sistema. Estão dando prioridade aos locais mais antigos. Fora que é responsabilidade do local enviar todos os dados necessários para o Centro de Mapeamento de Londres para serem cadastrados.

–É uma possibilidade. Esse centro foi inaugurado recentemente. É um dos maiores da Eurasia.

–É. Certamente o orfanato ainda não enviou os dados para o Centro de Mapeamento. Toda a inserção ao sistema demora em torno de uma semana.

–Sim. E pelo que eu entendi, ainda estão na etapa de transferência dos orfãos. Estão trazendo os orfãos de toda a Inglaterra para este centro e acho que priorizaram isso.

–Mas por que estão fazendo isso?-Intrometeu-se Katherine.

–Até onde eu entendi, as taxas de mortalidade de adultos por aqui são baixas, logo existe um número relativamente baixo de orfãos. Então, espalhar orfãos em pequenos punhados torna mais difícil uma centralização do sistema. É mais prático focar todos em uma só sede e aqueles que desejarem adoção e estiverem longe, podem visitar Londres ou averiguar os dados do orfão desejado pela rede de informações. Então, caberá aos responsáveis ir buscar a criança ou o nosso centro pode levar elas ao novo lar.-Explicou Carter, embora premeditasse a reação de Katherine.

–Ou seja, tratando as crianças como mercadoria! Vocês são repugnantes!

–Primeiro,deixarei bem claro eu não faço parte da logística. Só do transporte. E o Centro de Acolhimento de onde vieram essas três crianças é um dos vários centros, empresas ou clientes para quem presto serviço. Segundo, isso vai possibilitar que crianças sejam adotadas a tempo e não alcancem uma idade avançada como essas três.

–Idade avançada?-Katherine continha o volume de voz.-Essas crianças mal devem ter dez anos. Vocês simplemente querem submeter elas a uma vida de servidão ao sistema!

–O desejo de adotar uma criança com dez anos já é quase nula, Katherine. Ainda se existe um preconceito em torno disso, de que as crianças já tem formação o suficiente para não reconhecer a nova família como deveria ser. Por isso elas a princípio não tem nome. Ainda sim, pessoas que buscam filhos tendem a ver crianças mais velhas com olhos mais receiosos. Pelo menos é isso que eles argumentam.

–A idade não importa. O amor que pode ser dedicado a essa criança é o que realmente deveria importar! Vocês praticamente criaram uma indústria da adoção, reciclando as mais velhas por não atenderem à "clientela". E achar que crianças mais velhas não atenderiam às expectativas é ridículo.

–Como eu disse antes, eu só cuido do transporte delas. Se quiser que suas palavras tenham efeito, vai ter que pedir uma audiência com algum superior.

–Ótimo. E eu irei.

De Ralph, veio um suspiro. Sabia bem que Katherine só iria parar de insistir no assunto quando ela o resolvesse. Entretanto, mal sabia ela que o segurança estaria diposto a utilizar de meios que até então jamais fizera para impedir Katherine de prosseguir com seu objetivo.

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Lennon observava o cenário londrino da janela que preenchia o imenso vão de sua sala pessoal. O vidro limpído e praticamente isento de reflexo naquela hora do dia chegava a lhe dar dar algum temor. Parecia que nada ali o protegeria se fosse empurrado. As rugas naturais de seus quarenta e dois anos estavam mais atenuadas no momento devido ao constante franzir do cenho, consequência da apreensão e ansiedade sentida na situação em que se encontrava. Ajeitar a todo tempo seu cabelo escuro mesclado a tons de grisalhos e deixar sua gravata justa ou folgada eram meios que costumava usar para aliviar a tensão. Seus olhos castanhos contemplavam a paisagem, embora quase sempre focava sua atenção a um dos portões de acessos a veículos de serviço, esperando especificamente um que lhe era razoavelmente familiar.

–Já fazem mais de dez horas.-Disse um outro indíviduo ali presente, cuja voz rouca provocou em Lennon um arrepio na espinha.

–Eu sei.-Disse Lennon.-Não sei o que pode ter ocorrido. Ao que parece, o veículo do entregador parou de se locomover há quilômetros daqui e os relatórios que foram passados indicam uma pane elétrica. É capaz dele ter se hospedado em algum lugar e já pode estar a caminho. Você certamente não precisará esperar muito.

–O problema não é a espera em si, Lennon. O problema é o risco de uma espera somado à falha do monitoramento e o tempo em que as informações são processadas. Primeiro, estou aqui correndo um certo risco apenas por haver a possibilidade de eu ser visto. Segundo, não fazemos ideia do que pode ter ocorrido com nossa encomenda. Terceiro, a informação de haver uma encomenda especial vindo diretamente para esse Centro pode já ter chegado até os superiores. Por isso a necessidade da tarefa ser executada o mais rápido possível. Deveria já ter mobilizado pessoas para ir ao encontro do pacote.

–Senhor... Nosso sistema é recente e estamos tentando cumprir as exigências que nos foram impostas pelo conselho do Grão Mestre da Terra o mais rápido possível. E fazer uma mobilização para chegar até três orfãos despertaria suspeitas.

–O monitoramento a que me refiro não é o que está sendo imposto, Lennon, mas sim um monitoramento mais peculiar. Quanto à mobilização, se isso fosse feito em silêncio, não despertaria suspeitas, afinal, não há como se suspeitar de algo que ninguém sabe que está ocorrendo.

Lennon não teve ideia de como argumentar. O momento não colaborava para a construção de um raciocínio. Em outras situações, teria elaborado uma resposta astuta e revertido o jogo. Até tecia palavras defensivas mas um sinal sonoro emitido em uma das mesas o impediram de descobrir que o argumento teria sido inútil. Lennon se direcionou ao som e pegou um pequeno apetrecho o qual emitia o aviso.

–Lennon na escuta.

–Senhor Lennon. O pacote chegou, mas adentrou pelo acesso Oeste. Estamos providenciando para que...

–Ótimo.-Lennon não deixara o sujeito concluir.-Enviem o pacote para minha sala, agora!

–Tudo bem, senhor.

Lennon encerrou a comunicação e se voltou para o sujeito, delineando um grande sorriso de alívio.

–Pronto. Ele chegou.

–Muito bom, Lennon. Eu só espero que essa de fato seja a criança do incidente.

–Ela é. Os relatos são bem claros. Ela foi encontrada depois do incidente, desmaiada próximo ao local. Durante algum período, ela ainda manifestou peculiaridades. Quando viram isso, logo acharam que ela era compatível para o serviço militar. Porém, pela descrição dessas peculiaridades, ela é a criança que procuramos. Não é um especial qualquer.

O sinal de chamada do apetrecho soou mais uma vez, para a surpresa de Lennon. Atendeu de imediato.

–Lennon na escuta.-Anunciou.

–Senhor... Temos um problema.–Dizia o mesmo homem de antes, agora arfando.

–Se o problema não estiver relacionado com o pacote, reporte-me mais tarde. Agora dê prioridade para a entrega que solicitei.

–Não é diretamente com o pacote, Senhor... Mas com ele e o entregador vieram duas pessoas. Parece que o entregador teve problemas no veículo e esses dois o ajudou. Uma delas fez um escândalo aqui, dizendo que queria falar com você, queria adotar o pacote. A outra, que parece ser o segurança dela, tentou contê-la. Até a carregou à força de volta para o veículo de onde vieram, mas... Ela conseguiu se desvencilhar dele e tentou entrar. Mas a contivemos, só que ela alega que irá contactar as autoridades sobre o suposto destrato moral que damos para as crianças...

–Mas isso não é problema. Um monte de gente já alegou fazer o mesmo e tudo se manteve.

–Não, senhor. O problema é que ela é Katherine Alcrowny Castler.

Lennon arregalou os olhos.

–Mande-a subir.-Pressionou um botão em seguida, finalizando o contato.

–O que foi, Lennon?

–A filha de Christopher e Evellyn... Ela está aqui. Estava com a criança...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.