Notas iniciais

Tudo o que lhe era audível era o som de seus passos acelerados e o seu arfar, cada segundo mais atenuado. Um caminho sob uma infinita penumbra, mas já conhecido pelo arcanjo. A ânsia se estendeu quando o primeiro sinal de luminosidade surgiu à frente. Um simples ponto branco, ganhando dimensão a cada passo titubeante. Ideais, crenças e um punhado de sentimentos pelo Criador o mantinham consciente.No fim, necessitou de algum tempo para suas pupilas adaptarem-se às condições de grande incidência de luz... E a primeira imagem que tivera fez suas pernas tremularem, forçando-o a se ajoelhar diante do tão airoso e belo jardim do éden banhado em vermelho. Tantas almas inocentes retalhadas... Tantos companheiros mutilados... Até onde ia o poder daquele capaz de derrotar Lúcifer? Não se permitiu ser dominado por lamentações, pelo menos não o faria naquele momento. Pôs-se de pé e avançou rumo ao Criador. Optou por expandir suas preciosas asas e levantar vôo. Em instantes, já alcançara considerável altitude, tendo uma ampla visão do Éden, portanto, encontrar a Árvore Sagrada, a morada do Criador, fora simples. Desceu ao seu destino em vôo rasante, dominado pelo medo de uma perda maior, por uma colossal raiva e pelo não menos pecaminoso desejo de vingança. Uma aterrissagem agressiva denunciara sua presença ao algoz, cujas atenções voltavam-se ao enorme tronco de ramificações nuas. No centro de Éden, jazia a árvore sagrada.

-Viktor!-Vociferou o arcanjo.

-Sabe o que é engraçado?-Questionara o algoz.

O desembainhar da espada do anjo foi seguida de formação de chamas em sua lâmina. Posteriormente, um passo à frente e o brandir rancoroso da arma envolto de um torvelinho flamejante. O anjo saltou até o algoz, desferindo-lhe o primeiro golpe... E repelido por uma força sobrenatural, antes mesmo de alcançar o alvo. Incrédulo, o anjo recuou. Iniciava uma nova tentativa de ataque, até o algoz manifestar-se novamente:

-É que sempre acreditamos na existência de uma entidade superior, quando ele na verdade nunca existiu...

-Cale-se! Não é nada para dizer blasfêmias sobre Ele!

Diante das palavras do arcanjo, o algoz apenas riu. Riu como se o que lhe fora dito tivesse sido o conto mais cômico que ouvira em sua vida. Retirou o elmo no fim, deixando pender naturalmente os longos cabelos dourados. Virou-se para o anjo, fitando-o.

-Miguel... Você e os demais foram criados sob uma idéia tão pura e ridícula... O que muitos chamam de Deus não existe. Ou melhor... Não existia... Até agora.

Pela primeira vez depois de horas, Miguel tragou ar aos pulmões por um período relativamente duradouro.

- Nosso Criador é tudo. É o que acreditamos ser. Ele é o nosso Pai e o Todo Poderoso... Ele nos criou para protegermos o que lhe é mais importante...-Dizia o anjo, com serenidade.

-Por favor...-Interrompera Viktor, em puro desdém.-Se Deus é realmente tudo isso que disse ser, onde ele está agora? Oh. Que Pai ausente ele é. Deixando suas amadas criações perecerem ao horror da doença, da fome e da guerra. Muitos morreram por suas divindades. Muitos as temeram...

-Uma criatura repugnante como você jamais entenderá o verdadeiro propósito de nosso Pai!

-Pai!?-Disse Viktor, exibindo o seu sorriso mais mordaz.-Se o considera como pai, então eu deveria lhe chamar de...Filho?

-Quem é você para se pôr em tamanho patamar, Viktor?-Gritou Miguel.

-Observe bem a árvore detrás de mim... Sem vida. Para onde acha que sua essência foi? Esvaiu-se do nada?

O algoz conhecido como Viktor levava a mão destra próxima à face, cerrando-a em seguida. O ato pareceu causar um forte tremor, forçando o arcanjo a buscar uma posição que o impedisse de desequilibrar.

-O poder da árvore do Éden... O poder divino. O poder que irá purificar o mundo! Parabéns, Miguel. Será o primeiro a sentir o poder de Deus! Eu mesmo irei purificar o mundo... Eu serei aquele que trará o Apocalipse à Terra!

Então, o jardim do Éden brilhou. Uma centelha de destruição, tornando o paraíso em um ambiente desprovido de cor e vida. O fim de uma era e o início do reinado de um novo deus.