Velha louca

Espera-se por tragos, por doses, pelo momento oportuno de tirar a roupa, espera-se pela música e pelo momento da tacada na mesa de sinuca mas nunca, de forma alguma, espera-se pessoas.

Escolhemos amar uma pessoa mesmo havendo sete bilhões no mundo e escolhemos desamar mesmo aquela podendo ser a melhor entre as bilhões.

Com um pouco de malemolência optei por não optar. Quem me garante que entre eu e os sete bilhões não existam, ao menos, umas quinze outras suficientemente tão inacreditáveis quanto eu? Quem me garante que o certo não é exatamente estar com todas as dezesseis? Quem me garante o que é certo afinal?

Passei a resolver minhas dúvidas com pequenos goles de cerveja: Esta em dúvida? Beba um gole! É aquilo que deseja? Beba um gole! É impossível? Beba um gole!

Com o tempo se endurece o bastante para não deixar o que lhe sobrou de sanidade ir embora. Descobre-se o segredo do boneco de ventriloco que esta presente mesmo ausente, que esta vivo mesmo que não exista nada ali.

Isso lhe deixa confuso? Beba um gole!

Não espere pessoas, são clichês, pequenas, divindades a quem não se acende um fósforo.

Passei a resolver minhas desavenças internas com curtos tragos: Lhe da asco? Dê um trago! Traz aquilo do qual foge? Dê um trago! Persegue sua mente? Dê um trago!

Com o tempo se afasta o bastante para não afogar-se em toda lama.

Escrevo o dramalhão de uma velha que não é nada de nada nem de ninguém, de quem possui a quantidade de bens que cabem numa mala e a memória cheia daquilo que precisa ser esquecido.

Não espere pessoas, elas vão sorrir, vão envolver-lhe num emaranhado de baboseiras, abraços e adeus. O que esperar de um ser que nasce de um orgasmo?

Isso lhe tira as esperanças? Dê um trago!

Passei a resolver minha descrença com um misto perfeito: Beba um gole e dê um trago!

Na dúvida, na dor, nas merdas que a vida nos prega esse misto lhe dará a sensação de problema resolvido ou, na pior das hipóteses, jogara tudo pra de baixo do tapete, o que é quase a mesma coisa que resolver.

Me chamam de louca entre os meus...

Será, realmente, eu a louca?

Tomarei meu gole e darei meu trago por fim.

—In crônicas de uma velha louca.