Um mês antes do fim das aulas, quatro meses desde a nossa última despedida, mais uma tatuagem e o meu aniversário de dezesseis anos depois, nós fizemos um ano de namoro.

Eu estava deitada na minha cama, tentando decidir se dormia mais uma vez ou me esforçava para manter uma conversa coerente com o Marco via celular, quando a campainha tocou.

Pude ouvir os passos no piso de madeira, o som do portão se abrindo e o barulho da porta batendo. Um minuto depois, meu irmão abriu a porta do meu quarto – sem bater.

— Chegou isso aqui pra ti. – Disse, carregando uma caixa relativamente grande e amarela nos braços.

— Bota aí no chão. – Murmurei, jogando as pernas pra fora da cama e cambaleando um pouco antes de pegar a caixa e fechar a porta. – Obrigada. – Disse, a voz monocórdia, para a madeira pintada de branco.

Quando me sentei sobre as cobertas desarrumadas, pude ler o remetente da grande caixa. “Marco F. Almeida”.

“Tu me mandou alguma coisa?” Perguntei, intercalando o olhar entre o celular e a caixa amarela.

“Ah, chegou foi?” – Ele respondeu. Entendi como um sim, e abri a caixa com esforço. Não tinha mais forças para rasgar aquela fita adesiva, e tive que pedir auxílio a uma tesoura.

Dentro da caixa, organizadamente, encontrei três coisas. Um box de livros edição de Luxo da minha autora de romance policial preferida – Agatha Christie, uma camiseta da banda Red Hot Chili Peppers e uma carta.

A primeira coisa que eu fiz foi ler a carta.

Ele havia desenhando e escrito trechos de músicas pelo papel, enquanto sua mensagem vinha entre todas as anotações e rabiscos. Levei um tempo para separar as coisas, mas consegui entender tudo que ele quis me dizer, e chorei.

A camiseta era linda, e os livros eram maravilhosos.

Algumas horas mais tarde, juntei todas as lembranças que tinha dele e coloquei dentro daquela caixa. Não era muita coisa, mas significavam um tesouro pra mim.

Eu não podia estar mais grata a ele. Era o namorado perfeito que nós lemos sobre em livros antigos e fanfics mal feitas. Era diferente de todos os outros homens que eu conhecia no mundo, e fazia um ano que nós namorávamos. Um ano que ele tinha escolhido á mim, e isso era absolutamente fantástico.

Tantas coisas já tinham acontecido naquele primeiro ano... E minha mente rapidamente passou uma sucessão de cenas bonitas seguidas por imagens negras e manchadas dos meses mais recentes. Sacudi a cabeça, tentando evitar que as lágrimas rolassem, e deitei novamente na cama, abraçada na camiseta que ele tinha me dado, e feito questão de usar dias antes pra que tivesse seu cheiro.

Sonhei com ele naquela noite. Foi a primeira noite em que eu sonhava em meses. Estávamos juntos, num parque, deitados na grama. E ríamos juntos, e eu podia sentir seu cheiro e sua mão no meu cabelo, enquanto o sol nos iluminava feliz. Conversamos, e ficamos em silêncio, e voltamos a conversar em momentos de pura harmonia e felicidade reconfortante.

Quando acordei, o peso da realidade, da distância e da saudade caiu de novo sobre mim, e chorei mais uma vez antes de me obrigar a ficar de pé e começar mais um dia cinza e com cheiro de carniça da minha vida.