Notas iniciais
Postei esse capítulo as pressas porque uma amiga minha estava impaciente, então não tive tempo para revisar.
Perdões...
Cahxx

Capítulo 6

- UUUUuuuwAAAaaahhh... – esse sou eu bocejando. Perdoem a onomatopeia, mas o caso é que não encontrei outra. Havia acabado de acordar no domingo. Dia tranquilo, solzão, domingão, do Faustão. Não porque eu tenho TV a cabo. Sim, eu sou rico, inveje-me. Enfim. Olhei para o lado e tive a melhor visão do mundo: minha esposa babando no travesseiro. Sim, porque até babando ela era linda.

No geral eu “tava” felizão porque ia ter o dia inteiro só pra mim e ela. Iria poder descansar, adiantar uns projetos e pensar em novas formas de resolver o caso. Beijei a Kasuga que soltou um gemidinho muito bonitinho e levantei. Lavei o rosto, escovei os dentes pra tirar o bafo, me vesti decentemente e desci pra cozinha. Enfiei umas bolacha debaixo do braço e fui pra detrás da escada, onde ficava a entrada para meu laboratório secreto. É, eu não contei isso.

Lá atrás, bem atrasinha mesmo, da escada, tem um pedaço de papel de parede falso, que ao ser retirado revela um pequeno painel digitado onde digitais e senhas são inseridas para que uma porta secreta se erga diante de seus olhos e uma escada subterrânea surja para que você desça e encontrei um laboratório maneiraço! Lá eu enfio todo tipo de tranquera: comida, roupa suja, alicate de unha, playboy... Não, claro que é brincadeira. Eu não uso alicate de unha. Mas acho bom esconder a roupa suja, porque a Kasuga também sabe a senha.

Não, agora falando sério: eu construí um verdadeiro império da tecnologia mecânica neste lugar. Império este que faria qualquer Sheldon Cooper da vida ter inveja de mim. Mas infelizmente ele é secreto, porque muita coisa existente ali foi presente da CIA. Bati palma pras luzes acenderem e uma placa de metal caiu na minha cabeça; estava escrito em tinta com a minha linda caligrafia “O Laboratório de Yuuuuukimura” (referencia ao Laboratório de Deeexter). Percebi que precisava redecorar tudo, mas decidi deixar pra uma outra hora. Joguei tudo que estava em cima de uma mesa no chão, botei AC/DC pra tocar e meti mão na graxa, pra não dizer massa.

Uns quarenta minutos depois pude perceber que minha muié tinha acordado e já estava brigando com alguém que havia sujado a casa com patas cheias de lama. Sim, eu vi a sujeira e por isso mesmo desci correndo. Mas é bom ouvir o Teddy levar bronca ao invés de mim; só pra variar um pouco. O telefone tocou e Kasuga atendeu. Dois minutos depois a porta do laboratório estava abrindo e uma juba loira tava entrando com cara de dor de barriga.

- Mô... – ela me chamou e ergui a cabeça – Quer a notícia ruim ou a ruim?

- Ah... Não sei... A ruim, eu acho.

- O Teddy sujou a casa toda de lama.

- Mas que porcaria Teddy! Eu vou dar um jeito nesse cachorro safado! – Fingi estar zangado. Sou bom ator – Mas... E a ruim amor?

- Teremos visita hoje.

- Puta merda! – cortei o dedo com o alicate de unha – “Ruim”, mulher?! Isso é coisa que se fale sobre visitas?! Devia ter dito “péssima”!

- Ah amor, não é tão ruim assim. Eu também não gosto muito, mas é sempre bom fazer essas reuniões na nossa casa... Não quero que as pessoas comecem a falar mal sobre nós, que somos antissociais e tudo mais.

- Tá certo então. Só vou terminar umas coisas e já subo – Beijei-a e continuei arrumando algumas peças gastas, tentando enrolar o máximo que conseguia para não receber seja lá quem for.

Poucos minutos depois subi para ajuda-la na arrumação. Kasuga e eu preparamos vários pratos, incluindo sobremesas e petiscos. Só então eu me toquei de que ainda não sabia quem é que viria:

- Quem é que vem?

- Aquele seu amigo, Takenaka Hanbei.

- Quê?!!! Não! Quê?!!! Não!!! Kasuga, não pode ser! Ele é muito chato! Ele se quer é meu amigo!!! Nós nos formamos juntos na faculdade, mas ele era um pé no saco! Puxa saco de professor! Lembra o quanto eu reclamava dele?! Me copiava em tudo!!! Ele até tentou copiar meus projetos do TCC!!! Lembra? Lembra?!

- Sanada! Acalme-se! Ele só vai ficar por algumas horas e vai embora... Relaxa!

- Ele usava brilho labial!!! Kasuga... Ba-tom!!!

- Olha, não pode ser ruim. Se você não quiser falar com ele, deixe que eu puxo assunto e você só vai concordando com a cabeça e dizendo “Hm... É mesmo?”.

- Não! Eu não posso! Óh vida cruel! Deus: porque me abandonastes!

A campainha tocou.

- Eu atendo – disse Kasuga revirando os olhos.

- Perdoai-os Deus! Eles não sabem o que fazem! – eu ainda estava em meu apelo desesperado.

- Olá! – Takenaka cumprimentou Kasuga bastante sorridente, eu pude ver de longe. Ele era um carinha quase albino, cabelos brancos, pele claríssima, olhos azuis vivos, a boca fina como um traço, nariz arrebitado e aquela voz enjoada de pura fresquice – Você deve ser Kasuga. Muito prazer. – ele tomou a mão da minha esposa com a delicadeza de uma ema e beijou-a. Ele estava acompanhado por uma mulher: provavelmente a miserável que casou-se com ele. A mulher só fez sinal com a cabeça e entrou, olhando tudo ao redor, desde o piso até a pintura e o gesso no teto.

- Yukimura – ele parou e simplesmente olhou pra mim, sem dizer mais nada. E foi só disso que eu precisei pra sentir toda a vontade do mundo de expulsá-lo dali a facadas. Você já teve um amigo roubador de ideias ou àquele que cola sua prova toda e ainda tira nota mais alta que você? Pois é. Se teve, sabe a raiva da qual eu estou falando.

- Ah senhor Hanbei, não repare na casa. Está uma bagunça. É modesta, mas esperamos que sinta-se a vontade – Olhei pasmo para minha mulher depois que ela disse isso. A casa brilhava mais do que minha moeda nova no bolso, e modesta uma ova!!! Só o lustra que ameaçava cair na cabeça de Hanbei tinha custado um dos meus rins! Mas Kasuga sempre falava isso para as visitas.

Hanbei virou-se para minha loira e simplesmente sorriu, dizendo apenas:

- Tudo bem. Não é a primeira casa modesta que visito. Também não é a primeira moradia com bom uso da higiene. Mas está perdoada, minha querida. Só espero que durante suas cirurgias não dispense o uso do sabão.

O sorriso de Kasuga apagou-se instantaneamente. Um crime. Sim, pois apagar um sorriso como o dela é como bater em velhinhas! Um crime sujeito a punição de alto nível!

- Venha Amélia – disse Hanbei à esposa – Vamos tentar nos sentar – e a mulher o seguiu para a sala. Sentaram-se no sofá branco, sem esquecer alguma crítica e então puxei Kasuga pelo braço, de volta ao Hall.

- Tá vendo?! Esse imbecil entra assim na nossa casa e fala o que bem entende!

- Calma amor, eu vou dar um jeito nisso. Vá buscar os petiscos e o vinho, eu cuido deles.

Saí resmungando e bufando em direção a cozinha e tratei de arrumar qualquer veneno pra rato que tinha escondido da Kasuga; sim porque, se a bichinha visse, usaria contra mim para defender os bicho dela. Peguei as bandejas e escondi o veneno no bolso (estou falando sério! Eu peguei mesmo!). Ouvi um pouquinho de longe que Hanbei falava sobre seu trabalho.

- Mas claro que iriam me contratar. Sou o melhor engenheiro da cidade, ganhei dois prêmios de Engenharia. Não me surpreende Sanada não ter ganho: ele sempre foi o segundo melhor da classe. Sempre atrás de mim, é claro. Mas isso não vem ao caso. Como ia dizendo...

- Aceita alguns petiscos, Takenak? – perguntei com voz maliciosa, de quem vai aprontar. Kasuga ergueu uma sobrancelha para mim, já percebendo a trama. Ignorei seu olhar.

- Ah. Hum... Sinto-me num daqueles, como se diz mesmo? Ah, sim. Barzinhos. Aqueles pubs abarrotados de pessoas, que comem essas coisas, bebem cervejas baratas e escutam música vulgar.

- Olha aqui, seu... – eu já ia meter a mão na cara dele quando Kasuga, apressadamente levantou-se, segurou meu braço e sorriu sem graça para os convidados.

- Ah, tudo bem. Vou ver se tem alguma outra coisa.

- Não, que isso! – exclamou Hanbei – Eu aceito comer isso, como se chamam mesmo? Periscos? – E pegou uma torrada de camarão ao molho branco. Kasuga sabe que sempre fui contra gastar comida cara com visita! Camarões custam o olho da cara! Já perdi um rim! Um olho tão querendo demais! Visitas normais se contentam com pão e mortadela. Mas não as visitas de Kasuga Toratsuna Yukimura, que comem mais do que EU! Hunf!

- Ah, um Romanée, 1945. Um bom vinho. Mas há melhores, se me permite dizer – disse Hanbei pegando a taça das mãos de Kasuga e cheirando o líquido. Ô frescura! – Meu pai conseguiu em um leilão um Bordeaux por 155 mil euros. Uma pequena fortuna, muito bem gasta no que há de melhor desta bebida insuperáscula.

Kasuga sorriu sem jeito. O que me irritou muito, pois ela já deveria ter os expulsado de casa! Saí da sala pisando forte no chão e nem quis saber, fui direto pra oficina e me tranquei lá. Se ela acha que pode com eles, então que fique sozinha!

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Vi Sanada sair pisando forte pelo chão. Eu sabia que ele estava bravo comigo por eu ainda suportar a presença desse casal infernal. Eu sabia que era isso, porque em seu lugar eu faria o mesmo. Mas lembro-me de uma vez ele ter dito que sonhava no dia em que faria Hanbei arrepender-se de todo o mau trato que causou as pessoas, durante sua vida, mostrando que tinha uma vida melhor que a dele. Então, eu queria mais do que tudo fazer isso por Sanada: mostrar a esse tal de Takenaka que ele era um medíocre e que meu marido era o melhor homem do mundo. Só precisaria aguentar alguns minutos e tentar mostrar nosso melhor lado.

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Continuei remexendo na lataria espalhada por tudo. Tinha acabado de enfiar um camarão na boca quando notei um estranho pacote, embrulhado em papel pardo. Peguei o embrulho e abri, vendo um maço de fotografias, gráficos, tabelas e planilhas. Eram fotos tiradas de Toyotomi Hideyoshi, durante três meses de trabalho no ministério. O surpreendente de tudo era o fato de o antigo dono deste pacote ser Oda Nabunaga e o fotógrafo a agência de publicidade televisiva.

Isso sugeria que a tal agência vendera informações restritas sobre Toyotomi para Nabunaga. O caso deveria terminar na descoberta e prisão desse suposto contato ilegal da agencia. Não levamos as investigações adiante porque Oda Nabunaga havia sido preso, mas matutando na atual situação, vi que era por aí que se deveria recomeçar.

Lembrei que Kasuga havia tido um péssimo encontro com um suposto mercenário contratado por Oda, então pensei em subir para expulsar aquele povo e falar com ela.

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- Bom, o almoço já está quase pronto. Vou dar uma olhada.

Saí arrasada daquela sala infernal e entrei na cozinha. Dei uma olhada em tudo que havia preparado e meus ombros caíram de tristeza ao perceber que eu havia cozinhado tudo que não deveria: macarronada, estrogonofe e arroz. Comida gostosa para pessoas legais. Vulgar demais para Hanbei e sua mulher... aquela... (e dá até de falar um palavrão) Vaca!

Engoli seco, ergui a cabeça e servi aquilo mesmo. Pensei em desistir, mas Sanada sempre me criticou por desistir fácil das coisas e eu não queria decepcioná-lo. Botei tudo na mesa e rezei. A enxurrada de críticas foi tremenda, mas me mantive firme no jogo.

Foi quando estávamos tomando café da tarde que Sanada apareceu, já mais tranquilo. Ele me encarou e eu fiz a melhor careta de “Está tudo uma maravilha”. Mas ele não acreditou. Ao invés disso, fez a pior coisa que poderia fazer: abriu a porta dos fundos e eu vi, em câmera lenta, todo aquele pelo e pele, balançando, aquela língua gigante pendurada, e aquelas patas imundas batendo no chão.

- Teddy! – convidou Sanada – Tem comida pra você!

E foi um desastre. Para Sanada um show. Teddy subiu em cima da mesa, derrubando tudo e destruindo tudo, comendo as coisas e tentando lamber os convidados. Eu corria feito louca, tentando segurá-lo, Sanada empurrava ele mais para cima da mesa. Hanbei se encolhia na parede com os olhos saltados, e a mulher dele fazia cara de desgosto. O Golden laranja pulou em cima de mim, que caí de costas, com ele me lambendo.

- Teddy! Seu malvado! Feito! – eu gritava com ele até conseguir pô-lo para fora. Voltei tentando encontrar uma desculpa, mas tudo já era.

- Que monstruosidade era aquela?! Criatura imunda! Todos os cães deste mundo deveriam ser exterminados! Demônios! Isso que são! Acho pouco quando os vejo na rua, sarnentos! Deveriam sofrer mais nesse mundo!

E aquilo bastou.

- Quê?! – minha face se contorceu na minha pior careta e soltei tudo. Dane-se sonho do Sanada! – Cala a sua boca, seu viado do caramba! Você não tem o direito de entrar na minha casa e falar o que bem entender! Eu deveria mandar alguém te assassinar! Mas aceitaria tão pouco! E você – e olhei para a esposa dele – É uma cachoooorra mesmo!!! Ô mulherzinha mau caráaaater! E se não estão satisfeitos com a comida, experimentem isso! – e peguei a travessa de macarronada e despejei tudo na cabeça daquela miserável.

- Agora já pra fora vocês dois! – gritei abrindo a porta. BUM! Tive que me abaixar na velocidade da luz para desviar de um tiro. Sim! Um homem estava parado na porta apontando uma arma para dentro de casa. Fechei a porta com tudo e me encostei nela, arregalando os olhos para Sanada. Mais tiros. Abaixei.

- Rápido! Corram! Abaixem-se!

Sanada abriu a gaveta de um criado mudo perto da porta e tirou uma Glock de dentro. Encostou-se a parede para observar o lado de fora e tudo ficou em silêncio. Ele fez sinal para todos nós ficarmos quietos e subiu as escadas. Um minuto de silêncio depois, novos tiros começaram a soar. Barulhos intensos de marteladas gigantes ecoaram no andar de cima. Estava desesperada para saber se Sanada estava bem.

Dei um passo para frente, para ir atrás dele quando o teto rachou e um pedaço de gesso caiu se espatifando no chão, e cima dele havia um Sanada zonzo e um homem de cabelos ruivos longos – regata vermelha – e roupa de militar.

- Sanada! – ajudei-o a se levantar. Ele chacoalhou a cabeça para tirar a poeira e quando virou-se para o sujeito, este já estava acordado e chutou meu marido no estômago. Sanada voou para trás e bateu contra a parede. O homem foi pra cima dele, mas Sanada o segurou e revidou um golpe. O homem ficou curvado, como se sentisse dor e Sanada aproximou-se. Mas o sujeito levantou com um bastão e o acertou na cabeça. Um riozinho de sangue começou a descer de sua cabeça. Sanada caiu no chão tonto, ele tentou pegar um pedaço de gesso e atirar no sujeito, que riu da tentativa inútil.

Mas aquilo não era uma tentativa. Era uma dica. E eu entendi. Peguei um jarro de mármore e atirei contra a cabeça do invasor que caiu na mesma hora, e com um baque no chão, desmaiou. Ou para azar nosso, morreu.

- Sanada! – corri até ele e apalpei sua cabeça para ver se o machucado era muito grande. Por sorte não era. Levantei-o e carreguei até a sala, onde ele deitou no sofá. Percebi que sua barriga também sangrava. Mas para meu alívio não era facada e nem tiro: apenas um corte não muito profundo – Vou subir e pegar o quite de primeiros socorros. Vocês dois – e apontei para os medíocres – Não saiam daqui!

Corri para o quarto, antes parando para interfonar para o porteiro e chamar os guardas do condomínio e voltei para a sala. Peguei a linha e a agulha esterilizada e comecei a dar pontos. Sanada ainda estava sedado pela adrenalina da situação e mau sentia as furadas. Eu sentia cada uma.

- Ai, ai! Meu Deus! – e furava mais uma – Ai Meu Deus!

- Mô. Sou eu que tá sendo furado. Não precisa gemer.

- Mas você sabe que não consigo fazer essas coisas em você. Ai meu Deus!!! Ai Jesus! – minhas mãos tremiam e minha testa suava de medo. Por fim consegui, um trabalho meio torto, porém eficaz.

Os guardas chegaram. E a polícia também.

- Senhor Yukimura? – perguntou um policial.

- Sou eu.

- O senhor está preso.

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