Crônicas de Um Cadáver

2 Quem é Vivo Sempre Aparece


Revistou-me de cima a baixo, segurou em meus braços e até fungou no meu cangote. Por fim olhou bem fundo nos meus olhos e acenou com a cabeça.

- E o que tudo isso quer dizer? — Indaguei.

- Ora, — Ela respondeu — Quer dizer que está morto. Aliás, eu diria que há uma semana ou mais, a julgar pelo estado de seu corpo.

Mona parecia estar se divertindo com aquela situação, eu, no entanto estava cada vez mais colérico. Como, depois de tudo o que havia acontecido entre nós ela era capaz de me carregar até sua casa, e ainda fazer chacota da minha situação?

- A única coisa que quero saber é como eu vim parar aqui e como faço para ir embora. — disse.

- Bem, encontrei você jogado no chão, julguei que fosse apenas mais um espírito perdido que encontro por aí, e te trouxe para cá. Mas está claro que você não é uma alma perturbada, se fosse não estaria fedendo. E nem estaria desmaiado no meio da rua.

- Quer saber? Não me importa, eu vou embora daqui. — Seu último comentário foi a gota d\'agua para mim.

- Vai embora? — Ela riu na minha cara. — para onde? Você não tem mais casa, não tem onde cair morto, ou melhor, cair, porque morto já está. — Ela ria com gosto.

- Qualquer lugar é melhor do que perto de você. Não te perdoei pelo que fez! Sair por aí criando histórias a meu respeito e usando o nome de minha avó! — De pequena discussão a conversa evoluiu para uma briga.

- Dimitri, você sabe muito bem que aquilo não era mentira. E tampouco o fato de sua avó ter me contado. Ela se preocupava com você, e eu também. — Seu tom de voz me fez perceber que falava a verdade, fiquei mais calmo depois disso. — Ela queria que eu contasse a todos sobre a gravidez de sua namorada porque, do contrário você não assumiria, mesmo sabendo hoje que aquele filho não era seu.

Eu, que até então estava em pé, deixei-me cair novamente no sofá. Não apenas por aquela conversa ter despertado lembranças ruins de meu passado, como também porque não sabia o que fazer. Me sentia cansado, triste e pela primeira vez, com medo.

- O que eu vou fazer? — Minha voz estava tremula, e lágrimas começavam a escorrer de meus olhos.

Embora mantivesse seu sorriso macabro, Mona parecia estar compartilhando minha dor:

- O primeiro passo é descobrir o que houve com você, caso não se lembre. Em seguida precisamos descobrir como fazer para que sua alma passe para o além. Enquanto isso, poderá morar aqui comigo e com Bob. — E como eu parecia confuso, acrescentou — Você se lembra dele não é? Meu irmão mais novo?

- Acho que sim, mas ele não vai, eu não sei, achar estranho? Quero dizer, eu agora sou um defunto.

- Não se preocupe, ele é completamente seguro, e para quem consegue dormir ao lado de uma pizza de 30 dias atrás, viver com você vai ser fácil para ele!

Até então era a primeira vez que dava risadas. Percebi como minha voz estava diferente: rouca e estranhamente falha, como se eu tivesse gritado muito no dia anterior. Agora estava realmente cansado. Pelo relógio, pude ver que passava das três da manhã. Mona me arrumou uns lençóis e eu dormi ali mesmo, na sala.