Eu acordei muito cedo naquele dia sem saber como havia adormecido. Ao entrar na cozinha encontrei Mona já acordada e vestida fazendo o café. O que me impressionou não foi necessariamente o fato dela estar cozinhando, algo que nunca fazia, mas sim a forma estranhamente comportada em que se encontrava. A maquiagem escura e carregada havia sido substituída por um simples batom. As tatuagens haviam sumido com o conjunto de casaquinho e saia. Mas o que mais me atordoou não foi a ausência de couro, nem o cabelo preso em rabo-de-cavalo. Era o rosa. Mona usava roupas num tom de rosa chá que não combinavam em nada com ela.

-Er....Bom dia. — Eu disse tentando captar a imagem bizarra à minha frente.

- Bom dia. — Mesmo sua atitude haiva mudado. Ela estava envergonhada — Então...O que acha? — perguntou com um sorrisinho sem graça no rosto.

- O que eu acho de quê? — indaguei, embora já soubesse a resposta.

- Das minhas roupas, o que acha delas? — Ela tornou a questionar. — Seja sincero!

- Bem, voce está muito bonita. — Essa foi uma das maiores mentiras que já contei. Eu sei que sempre critiquei, em minha mente é claro, o estilo dela desde os tempos do colégio, mas Mona não era ela sem ele.

- Ah, por favor eu pedi pra você ser sincero e não educado! Francamente eu odeio isso, odeio com todas as minhas forças! — Explodiu, e eu sabia que ela não se referia às roupas apenas. — Essa semana vai ser um inferno na terra, ó céus! — E saiu subtamente sem dizer mais nada embora eu pudesse ouvi-la soluçar alto em seu quarto.

E aí estava a verdadeira Mona. Uma mulher forte, que não tinha medo de fantasmas, espíritos ou mortos-vivos, mas que simplesmente não sabia como agir diante dos pais. E ela tinha toda razão conforme eu viria a descobrir.

Eles chegaram por volta das 10 horas da manhã, e a essa altura nossa pobre vampirinha desesperada já havia preparado um café da manhã digno de um rei. Quando o interfone tocou, ela soltou um grito histérico e correu atendê-los. Ouviu-se a porta abrindo e, sem esperar convite o casal entrou.

Na frente vinha uma mulher alta e que fora muito bonita quando jovem. Ela tinha as feições de Mona: o rosto em feitio de coração, um nariz fino e comprido e os olhos tão negros quanto o próprio cabelo. Ela observava tudo do alto com uma aversão bem clara em relação àquele ambiente. Mas era uma mulher de classe, usava roupas muito luxuosas, principalmente para uma visita à casa dos filhos.

No entanto o homem que vinha atrás dela era o oposto do que acabo de descrever: Baixinho e calvo, além de ser gorducho, tinha um jeito bonachão. Ele se assemelhava mais com Bob do que com a primogênita. Também, ao contrário da esposa, usava roupas simples uma camisa esportiva e um par de calças socias. Ele foi o primeiro a falar:

- Minha filha querida! — Disse com um sorriso largo — Como você está?

- Aaah pai! Eu estou ótima! — respoundeu abraçando o pai — E o senhor?

Logo ficou claro que, quando o assunto era o pai, Mona sempre estava a disposição! No entanto, quando o assunto era a mãe:

- Vejo que esse barraco que você chama de casa não mudou nada desde nossa última visita não é? — Ela mediu a filha de cima abaixo: — E vejo que você também continua a mesma. Sem classe, sem postura.

- Certo. Onde está o aniversariamente? — interromepeu o pai antes que a moça caísse em lágrimas novamente.

- Ele foi comprar alguns ingredientes para o almoço. Logo voltará — Eu respondi vendo que Mona não seria capaz de fazê-lo. De fato não era capaz de fazer nada a não ser mirar, aterrorizada, a mãe. Mas a atenção de todos se voltou à mim quando falei.

- E o que é isso? — A senhora Willians apontava em minha direção, a voz carregada de desprezo.

- E...Ele? — A pobre Mona parecia ter recuperado a voz. — Ele é....é...a senhora sabe... — Apesar de todos os preparativos, nós não havíamos planejado qual desculpa dar quando ela tivesse de me apresentar aos seus pais. A verdade é que esperávamos que eles me tomassem como amigo dela. Mas não foi isso que aconteceu:

- Eu sei o que ele é! — a mãe disse com os olhos arregalados — Sinceramente isso é repugnante até mesmo para você! Como é capaz de manter alguém como ele dentro da sua própria casa? Como ousa fazer isso até mesmo quando seus pais vem visitá-la?

- Eu, mãe, eu posso explicar! — A pobrezinha tentava esclarecer a qualquer custo quem eu era, embora não saísse nada de sua boca a não ser algumas interjeições. Ela, assim como eu achava que os pais haviam descoberto sobre a minha situação de morto-vivo.

- Não, você não tem o que explicar! Agora, enquanto eu estiver aqui, não quero que façam sexo! Entenderam?

- Sexo? — Eu e Mona repetimos ao mesmo tempo. — Não, a senhora pensa o que? Que ele é meu namorado é isso? — Ela prosseguiu sozinha, as faces coradas de vergonha. — Acho que houve um engano, eu e Dimitri não somos nada, quero dizer...Ele é meu...Meu...Melhor amigo gay!

- Ora querida, não precisa esconder nosso amor dos seus pais! — Eu sempre preferi ser namorado dela a ser amigo gay. — Muito prazer, eu sou Dimitri Smith. — Disse cumprimentando o sr. Willians com aperto de mão e a sra. com uma tentativa de cumprimento. Nessa hora achei que Mona fosse desmaiar, mas felizmente Bob chegou.

O resto da tarde se passou de forma um pouco mais tranquila. Aparentemente a mãe desfocava a raiva da filha quando o caçula estava por perto. No entanto o sr. Willians parecia realmente interessado no nosso \"relacionamento\". Ele fez um interrogatório completo, nome, idade, trabalho, como nos conhecemos e afins. Tivemos que inventar a maior parte é claro.

- Mas me diga filho, e a faculdade? — Ele me perguntou.

- Bem eu larguei sabe. Não gostei muito do curso então... — Eu mentia descaradamente mais uma vez.

- Largou ou foi expulso como nossa querida Mona? — A mãe se intrometia na conversa. — Afinal todos sabemos da história, não é mesmo?

- Que história? — Perguntei.

- Querida, esqueça isso! Afinal já passou não é mesmo? — O sr.Willians parecia muito aborrecido.

Naquela noite, em seu quarto, encostei Mona na parede mais uma vez:

- Que história era aquela à qual sua mãe se referia, hein?

- Não é da sua conta! — ela foi curta e grossa.

- Vamos, você sabe tudo sobre a minha vida! Não que eu tenha te contado algo, mas você sabe como é minha avó... — Eu estava curioso.

- Certo, vou lhe contar. — Ela tomou fôlego e prosseguiu — Eu e umas colegas minhas estávamos precisando de dinheiro extra pra cobrir os estudos. Então surgiu a ideia de trabalharmos com streap-tease. Era fácil e não exigia experiencia. Muita gente faz esse tipo de coisa pra pagar a faculdade. Mas ninguém podia saber. Então um professor meu entrou no bar e descobriu tudo. Ele disse que não contaria nada se eu dormisse com ele, mas eu me recusei. Foi aí que me expulsaram, obviamente meus pais souberam desse episódio, e desde então pararam de me sustentar. Felizmente mantive o emprego.

Eu saí mudo. Calado. O que me incomodava não era a forma como uma jovem tão inteligente como ela usara o corpo para pagar os estudos. Mas era a forma como eu havia fantasiado tudo aquilo na minha mente. Eu realmente adoraria vê-la dançando.