Notas iniciais
NOTA IMPORTANTE: As palavras "rúter" e "rüther" têm o mesmo significado, porém a primeira é como os potestianos pronunciam e a segunda é como os próprios povos de Wōdaz o pronunciam. Boa leitura.

HARUD


CAPÍTULO X — O QUE FAZEM NAS SOMBRAS


O Rüthering acordou no meio da madrugada, com a lua cheia iluminando os campos e as casas do Vale de Wōdaz, o centro administrativo das tribos rúteres. Harud saiu de sua tenda utilizando sua melhor pele e a coroa cerimonial de ébano e chifres de cervo, o colar com pingente de urso balançava sob seu pescoço e suas botas recém-polidas com óleo de oliva.

Toda aquela pompa não era para um evento de gala e sim para o Conselho Extraordinário de Guerra onde, além dele, outras lideranças de seu povo discutiam a situação político-militar e podiam até mesmo outorgar leis e normas em caráter emergencial.

Ele adentrou na Casa da Tormenta, um antigo imóvel de pedra negra que fora construído logo no início da Primeira Era — quando os Deuses deixaram o mundo material. Lá já estava o Conselho dos Anciãos, os Três Grandes Generais e líderes das outras tribos remanescentes.

— Está atrasado, Harud. — disse o líder dos anciãos, um velho barbudo que acabara de completar cento e um anos, com longos cabelos brancos presos em uma trança que lhe caía às costas e as laterais da cabeça raspadas — Como pode o Rüthering ser tão desleixado com compromissos importantes?

— Se chama “Conselho Extraordinário” por um motivo, Ragnvald. Não é habitual, é convocado às pressas. — retrucou Harud — E eu sei bem seu desgosto quanto ao fato de minha pessoa ter sido eleita Rüthering no seu lugar.

— Senhores, basta! — cortou Mïldr, a única mulher entre os Três Grandes Generais. Tinha metade da idade de Ragnvald, cabelos negros soltos até os ombros e olhos azuis-claros que fixaram os dois com autoridade. Na bochecha esquerda, a Pata do Urso tatuada; nos braços e ombros, runas antigas cobriam-lhe a pele.

Harud se recompôs e pigarrou, Ragnvald apenas revirou os olhos e cruzou os braços.

— Obrigado, general. — disse Harud — Bem, eu honestamente já estou cansado de tantas reuniões que poderiam ser resumidas em uma carta! Imagino o quão urgente pode ser o assunto de hoje para terem me acordado no meio da madrugada do Helgidagr.

— O plano brilhante de infiltração de Höskuldr foi descoberto, Harud. — retrucou Ragnvald, como se cuspisse as palavras — Francamente, não sei o que deu na sua cabeça quando aceitou uma incursão quando a primeira falhou miseravelmente causando inclusive a morte de seu unigênito!

Os outros presentes arregalaram os olhos; um murmúrio correu entre os anciãos, enquanto os generais levaram as mãos aos cabos das espadas, prontos para intervir. Mas Harud foi mais rápido. Sacou a lâmina e lançou-se contra Ragnvald que, apesar da idade, desembainhou a própria espada com agilidade surpreendente.

— Não ouse falar do meu filho, sua víbora imunda!

As lâminas estavam a um palmo de se tocar, os olhos de ambos cravados nos do outro como lanças. O trovão, porém, foi mais rápido. Vibrou nos céus — não um som surdo, mas um golpe que pareceu sacudir a própria terra. A Casa da Tormenta rangeu. Alguns dos anciãos levaram as mãos aos ouvidos. O eco rolou pelo vale, demorou a morrer.

Harud hesitou. A espada ainda erguida, o pulso firme, mas o coração — o coração não era de um guerreiro, era de um pai.

Ragnvald também baixou a lâmina, lentamente. Seu peito subia e descia mais depressa do que a idade deveria permitir. Ele olhou para o teto, para o céu invisível, e algo em seu rosto mudou.

— O Urso não gosta de ver seus filhos se devorarem. — murmurou, mais para si mesmo

Harud embainhou a espada com um golpe seco. Não respondeu de imediato. Apenas ficou ali, respirando fundo, até que a fúria se transformasse em cinzas.

— Não tive intenção de ofender a memória de Hartmut. — disse Ragnvald, a voz mais baixa agora, mas ainda firme.

Harud não se virou para encará-lo. Apenas apertou os olhos.

— Tua boca é mais afiada que tua espada, ancião. E ambas apontam para o lado errado.

Ragnvald não se defendeu. Em vez disso, deslizou a lâmina de volta à bainha e sentou-se, como se um peso antigo tivesse voltado a seus ombros.

— Os potestianos sabem que há novos espiões infiltrados no Império. — disse, com a calma de quem entrega uma sentença. — Não sabem quem são, ainda. Mas estão investigando. E, como eu sei que você não perde tempo com fofocas, vou ser direto: a tática de terra arrasada que usamos nas regiões ocupadas, eu avisei que seria um erro, não nos deu vitória. Apenas irritou Octavius II o suficiente para ele nos caçar como se fôssemos peste.

— E o que sugere então, velho? — Harud

— Cornelius Afranius me procurou — disse Ragnvald, baixo o suficiente para que só Harud ouvisse — como já te procurou antes na sua própria tenda, com a urna do teu filho. Oferece paz, termos. Não a submissão, mas um acordo para que nossos sobreviventes possam viver. Não como súditos, mas como um protetorado.

O silêncio da Casa da Tormenta foi tão pesado que o zumbido dos ouvidos de Harud parecia mais alto que qualquer palavra. Ele lembrou daquela tarde — a toga roxa de Cornelius, a urna negra sobre a mesa, o sorriso fino do emissário enquanto depositava os restos de Hartmut como quem devolve um objeto perdido.

— Um Protetorado nada mais é do que uma província com um nome bonito, Ragnvald! — Harud levantou as mãos — Os impostos irão para o mesmo Imperator, nossas tradições e costumes serão esmagados pela Coroa Potestiana e o exército deles patrulhará nossas vilas! Qualquer um que questione o Império é executado, não será diferente conosco.

— Você não pode parar o avanço deles com ossos e coragem, Harud. Nós sobrevivemos a eles por anos. Mas a próxima onda... a próxima levará tudo. Tudo o que resta. Meus netos, minha linhagem. Até o nome de Wōdaz será apagado.

— E você acredita neles? — perguntou Harud, a voz rouca. — Acredita que vão honrar a palavra?

Ragnvald não respondeu.

Harud virou-se, os olhos fixos na parede de pedra negra. Por um instante, viu a si mesmo na escuridão refletida — o Rüthering, o pai enlutado, o homem que já perdera o filho e a esposa, ambos levados pela guerra que não escolhera.

— Minha esposa já não está aqui para ver isso. — disse, a voz baixa, quase um murmúrio. — Nem meu filho. Não tenho mais ninguém para perder, Ragnvald. Mas ainda tenho um povo. E não vou entregá-lo a um homem que trouxe cinzas para minha tenda e chamou aquilo de paz.

Harud ainda estava de pé, o eco de suas palavras pairando sobre a sala. O silêncio se arrastou, pesado como as pedras da Casa da Tormenta. Foi então que uma das anciãs — uma mulher de cabelos grisalhos e olhos cor de gelo, sentada na extremidade da mesa — ergueu a mão.

— Um dos espiões enviados na última missão está na fronteira. — Eir ergueu um pequeno pergaminho enrolado, retirado do interior de seu casaco. — Chegou hoje, antes do Conselho. Diz que o garoto marcado está em Aurora Cor, na Primeira Legião, sob a guarda da princesa. Mas a rotina dele não é hermética. Ele sai para treinos, caminha pela cidade. Há brechas.

Harud estendeu a mão, e Eir entregou-lhe o pergaminho. Ele desenrolou-o, leu em silêncio. A tinta era grossa, as letras irregulares — o código do espião da fronteira.

— O espião confirma a localização. — Harud ergueu os olhos. — Diz que há uma janela. Se agirmos rápido, podemos interceptá-lo.

— E se for uma armadilha? — perguntou Ragnvald, a voz cortante.

— Então teremos perdido um homem, não um povo. — respondeu Eir, sem desviar o olhar.

Harud ficou em silêncio por um longo momento, os dedos ainda segurando o pergaminho.

— Enviaremos a ordem de captura. — disse, a voz baixa, mas cada palavra ecoou como uma sentença. — O pássaro partirá ao amanhecer. Que o Urso guie suas asas.


RAGNVALD

O velho deixou a Casa da Tormenta acompanhado de Eir e os outros anciãos, puxando as barbas e bufando de raiva. Ele entrou em sua carruagem com sua pequena tropa e acendeu um cachimbo, soprando fumaça na noite que começava a relampejar. Aos poucos, a noite enluarada em Vale de Wōdaz começou a nublar.

— Compreendo que está irritado, meu lorde, mas precisa fumar essa coisa fedorenta aqui dentro? — reclamou Eir, as caretas e narizes cobertos dos outros idosos mostravam que concordavam com ela.

— Se estão tão incomodados com meu fumo, sintam-se à vontade para voltarem à pé para Skallheim. — respondeu Ragnvald com ódio.

Após minutos de silêncio constrangedor, um dos anciãos indagou o líder:

— Meu lorde, o senhor pretende fazer algo em relação à decisão do Conselho?

Ragnvald, mais calmo, fitou o colega e respondeu sem pestanejar:

— Claro que pretendo, Trilmr. — Ragnvald soprou mais fumaça pela janela, enquanto a carruagem balançava a chuva começava a cair — Já é hora do povo rüther um líder de verdade… Harud não teve competência para proteger o próprio filho, quem dirá nossas tribos.

— Ragnvald… O senhor vai trair Lorde Harud? — indagou Eir

— Harud já nos traiu sendo um tolo orgulhoso. — o ancião colocava mais fumo no cachimbo — Vou me encontrar com Cornelius Afranius e contar sobre o plano de raptar o garoto marcado.

— E os nossos espiões, milorde? — Trilmr — Vai delatá-los?

— Harud e aquela escória da Confederação são os únicos que sabem as identidades dos espiões. — Ragnvald disse com escárnio — Onde já se viu, confiar em anãos, elfos e sátiros. Sub raças nojentas que sujam o nome sagrado de Wōdaz!

Após mais algumas horas, a carruagem chegou em Forte Hausgard — o castelo de Ragnvald, Senhor de Skallheim. A chuva estava ficara mais forte, a pouca iluminação das tochas do corredor que dava acesso ao portão principal tremulava com o vento.

O guarda da torre tocou o sino quando avistou o lorde, o portão baixou para que Ragnvald e sua comitiva adentrassem. Todavia, Ragnvald não se dirigiu aos seus aposentos, foi direto para seu escritório e, antes de trancar a porta, ordenou que seu guarda-costas proibisse que qualquer um se aproximasse do cômodo.

O velho deu três batidas na parede de pedra, os tijolos começaram a afundar e trocar de lugar, revelando um armário de madeira trancado por correntes e quatro fechaduras.

Ragnvald ajeitou as chaves em suas mãos — quatro peças de ferro forjado, cada uma com um formato diferente, cada uma guardada em um local separado dentro de seu escritório. Ele não confiava em guardar todas juntas. A primeira, ele tirou do bolso interno do casaco. A segunda, de um compartimento falso na escrivaninha. A terceira, do fundo de uma jarra de hidromel vazia. A quarta, de uma fresta na pedra da lareira, onde a fuligem a camuflava.

As correntes caíram com um ruído metálico e seco. A porta de madeira rangeu ao se abrir, revelando um espaço estreito, escuro, que cheirava a mofo e pergaminho envelhecido.

Lá dentro, um objeto oval totalmente envolvido por um pano. Cornelius Afranius o dera de presente para R agnvald no último encontro secreto, disse que era para comunicação urgente.

Ragnvald descobriu o objeto: um espelho, suas bordas eram de ouro e cravejadas com diferentes pedras preciosas, o selo de Potestas, o Sol de Viramax, moldado no verso.

Ele apoiou o espelho na mesa e chamou três vezes:

— Chanceler Cornelius?

O objeto permaneceu imutável durante um tempo até que, em sua superfície, a imagem do homem loiro com os cabelos irritantemente fixos e alisados com óleo apareceu no vidro. Os olhos verdes semicerrados encaravam o velho com uma mistura de raiva e indignação.

— É Vossa Excelência Emissário da Chancelaria Imperial, mas “Chanceler Cornelius” também serve. — o homem claramente havia acabado de acordar e se arrumado às pressas — Espero que seja realmente importante, Lorde Ragnvald.

— Perdoe o horário, Excelência. Mas o que tenho a dizer não podia esperar até o amanhecer.

Cornelius arqueou uma sobrancelha, os olhos verdes ainda meio cerrados.

— Fale, então. E que seja breve. Não tenho paciência para rodeios de bárbaro.

— Houve um Conselho Extraordinário hoje. — Ragnvald manteve a voz baixa e controlada. — Decidiram enviar uma ordem de captura para um espião na fronteira. Vão sequestrar o garoto marcado.

O silêncio do outro lado foi curto, mas pesado. Cornelius inclinou-se ligeiramente para frente, o interesse substituindo a irritação.

— O "tocado pelo Sol"? O que está na Primeira Legião?

— O mesmo. — Ragnvald tocou a borda do espelho com os dedos. — Eles vão interceptá-lo quando estiver sozinho, após os treinos. Há um espião posicionado na alfândega principal. O pássaro com a ordem partirá ao amanhecer.

Cornelius recostou-se, os dedos tamborilando na superfície invisível. Quando falou, sua voz era mais lenta, mais calculada.

— E por que está me contando isso, Lorde Ragnvald? Não é um bom rúter, leal à Confederação?

O ancião riu, um som seco e sem humor.

— Harud está levando nosso povo ao abismo com sua teimosia. Não tenho interesse em ver os rüthers serem aniquilados por causa do orgulho de um homem que não soube proteger nem o próprio filho. — Ele fez uma pausa. — Eu quero que meu povo sobreviva, Excelência. Mesmo que isso signifique... mudar de lado.

O sorriso de Cornelius alargou-se lentamente.

— E o que você espera em troca?

— Governo. — Ragnvald não hesitou. — Quando as legiões tomarem o Vale de Wōdaz e as terras dos anãos, dos elfos e dos sátiros, quero que os rüthers sejam governados por um rüther, por mim. Sob a coroa de Potestas, é claro.

Cornelius permaneceu em silêncio por um longo instante. Seus olhos verdes percorreram o rosto enrugado de Ragnvald, avaliando, pesando a oferta.

— Você quer ser o governador da Ruterlândia.

— Quero salvar meu povo da destruição. — Ragnvald inclinou a cabeça. — E, se isso exigir que eu me ajoelhe diante do Sol, que assim seja.

Cornelius riu — um riso baixo, quase íntimo.

— Você é mais esperto do que aparenta, velho. — Ele apoiou o queixo na mão. — Muito bem. Vou levar sua proposta ao Imperator. Mas, por enquanto, quero todos os detalhes do plano de captura. Onde, quando, quem. Cada informação que tiver.

— Sei tanto quanto vocês: dois espiões nas legiões, um na alfândega e um no comércio de armas. O espião da alfândega cuida também das fronteiras e é quem nos comunica sobre o progresso da missão. Ele deve receber a ordem amanhã ao amanhecer. Se eu soubesse os nomes, já teria entregue a você. Mas Harud guarda essa informação como um segredo pessoal.

— Útil, não tanto, mas útil. — Cornelius sorriu — Sabíamos da existência de espiões há algum tempo, sempre têm espiões no Império. — ele balançou a mão, como se comentasse sobre uma infestação de insetos — Mas não sabíamos exatamente a localização, agora fica mais fácil de exterminá-los. Vou enviar uma ordem para que todos os funcionários da alfândega de Aurora Cor sejam colocados sob vigilância. Se o pássaro chegar, será interceptado.

Ragnvald assentiu lentamente.

— E o garoto?

Cornelius permaneceu em silêncio, tamborilando os dedos na própria mesa. Até que arregalou os olhos e sorriu, como se tivesse descoberto um tesouro:

— Deixemos que seja capturado.

— Não entendi. — Ragnvald

— É a justificativa perfeita para movimentar as tropas, um plano de resgate. — Cornelius agora ria com sua voz aguda — E para tirá-lo da custódia de Felicia.

— E quando o garoto for "resgatado", o que acontecerá com ele?

— Sua custódia será transferida para alguém mais competente… Príncipe Félix. — Cornelius esfregava as mãos como uma mosca — Mas isso já não é da sua conta. Preciso retornar ao meu sono para apresentar sua proposta para Sua Majestade, até mais ver!

E com isso, a imagem do espelho sumiu, voltando a refletir o rosto pensativo de Ragnvald.

O velho então repousou o espelho no esconderijo novamente e saiu do escritório. Dirigiu-se aos seus aposentos onde sua esposa Hilda já repousava.

Ele admirou-a como já admirava há décadas: seus longos cabelos alvos ainda mantinham poucos fios dourados da juventude e seu rosto permanecia belo mesmo com as marcas do tempo.

Ragnvald aproximou-se e acariciou o topo de sua cabeça e beijou-lhe a bochecha esquerda, que continha uma já enrugada tatuagem de raio, fora uma guerreira forjada na Tormenta assim como seu amado.

— Querido? — a velha abriu os olhos aos poucos, acordada pelo toque de Ragnvald, e ao vê-lo abriu um sorriso — Já estava ficando preocupada…

— Desculpe por acordá-la, meu bem. — a voz do ancião era leve, mas sua expressão era tensa — E desculpe por chegar tão tarde.

— O que houve? — Hilda sentou-se na cama — Como foi o Conselho?

— Foi como sempre, querida. — Ragnvald bufou — Harud foi o mesmo cabeça-dura e o Conselho pendeu para ele… Vai enviar uma ave mensageira com uma ordem de captura para Potestas.

— Você contou a eles sobre a proposta dos potestianos? — Hilda.

— Contei, e para a surpresa de ninguém, Harud recusou. — Ragnvald — Mas acabei de ter uma conversa com o chanceler potestiano.

— Querido, sei que você tem a melhor das intenções… — Hilda abaixou o tom de voz — Mas tome cuidado, não quero te ver executado por alta traição.

Ragnvald apenas sorriu com condoimento para Hilda e lhe beijou, deixou que ela voltasse para seu sono e foi se banhar.



HARUD

O líder rüther dormira mal as poucas horas antes do alvorecer. Quando saiu de sua tenda, as crianças já brincavam com espadas de madeira e os adultos já estendiam roupas ou cortavam lenha. Conforme caminhava pela aldeia, alguns moradores o cumprimentavam. Ele andou até o limítrofe norte, no penhasco que dava para um desfiladeiro pedregoso. O cheiro de terra molhada e musgo o fez lembrar das inúmeras vezes que viu o nascer do Sol com sua falecida família, quando seu filho era tão pequeno que mal conseguia segurar uma espada.

Ele se sentou em uma pedra e aguardou, após quase uma hora inteira, o sátiro apareceu entre as moitas, com uma enorme águia repousando em seu braço.

— Bom dia, Aldara. — disse Harud com meio sorriso.

— Lorde Harud. — Aldara fez uma leve reverência com a cabeça — Trouxe o pássaro mensageiro, a carta já está pronta?

Harud enfiou a mão no casaco, retirou um pergaminho enrolado e selado com cera e entregou a Aldara. O sátiro então prendeu a carta em uma das pernas da águia, sussurrou algo em seu ouvido e a soltou no ar.

O pássaro voou majestoso e fugaz, alcançando o horizonte em pouco tempo. Harud fechou os olhos, aproveitou um pouco a brisa matinal e disse calmamente para o colega:

— Acha que teremos paz verdadeira um dia, Aldara?

O sátiro bateu os cascos algumas vezes no chão e respondeu:

— Não enquanto Potestas existir, meu lorde.

Os dois permaneceram em silêncio, momentos de tranquilidade eram tão raros naqueles tempos bélicos que o melhor a se fazer era aproveitá-los ao máximo.

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Quando a ave estava quase chegando à alfândega ao encontro do espião, um baque atingiu suas costas. Garras tão afiadas quanto o aço fincaram em sua pele e a derrubaram no chão. Antes mesmo de emitir qualquer gemido de dor, o pássaro maior fincou-lhe o bico no pescoço, ceifando-lhe a vida.

A ave assassina, uma harpia imperial branca, tomou a mensagem no próprio bico e voou em encontro de seu mestre: o homem loiro que lia a mensagem com diversão e escárnio ao mesmo tempo. O bilhete dizia exatamente o horário onde tentariam raptar o “garoto marcado” e o esconderijo para onde o levariam.

— Ótimo! — Cornelius Afranius gargalhou com prazer — Ótimo…

Continua…