Crônicas de Telluria: a Marca do Sol
11 A Noite Mais Longa

FÉLIX
CAPÍTULO XI — A NOITE MAIS LONGA
Príncipe Félix andava de um lado para o outro, apreensivo, em frente ao escritório de seu pai, o Imperator. Já havia passado mais de uma semana desde que recebera o prazo de um mês para apresentar o plano de reconstrução dos territórios destruídos pela resistência rúter.
O príncipe sabia que não era recomendado deixar o Imperator esperando. Vossa Majestade prezava pela eficiência e pela antecipação, e nem mesmo seus filhos eram exceção.
Após uma espera longa e angustiante, a porta do escritório se abriu e, para a surpresa de Félix, o Emissário da Chancelaria Imperial, Cornelius Afranius, saiu do cômodo conversando alegremente com o Imperator Octavius II.
— Ah, Príncipe Félix! — Octavius sorria satisfeito. — Chegou bem na hora. Cornelius já me contou do teu grande feito, meu filho!
Félix franziu a testa. Do que seu pai estava falando? Ele nem sequer havia mostrado os planos de reconstrução.
— Meus feitos? — indagou o príncipe. — Do que o senhor se refere exatamente, meu pai?
Cornelius lançou um olhar dissimulado a Félix e ergueu as sobrancelhas repetidas vezes antes de dizer:
— Sua Alteza anda tão ocupada que se esqueceu, majestade! — Cornelius riu. — Meu Príncipe, teu pai se refere à tua descoberta sobre a localização de um dos espiões rúteres, o da alfândega! Sabes, aquela mensagem que interceptaste, a que foi trazida por uma águia.
Félix entendeu no mesmo instante a estratégia de Cornelius e prosseguiu:
— Sim, claro! — Ele riu junto do pai. — Foi uma descoberta e tanto, de fato.
— Muito bem, meu filho. — Octavius mudou de tom, retomando aos poucos a seriedade. — Agora, vamos ver seus planos de reconstrução.
Cornelius se despediu com uma reverência, e Félix adentrou no escritório com o pai. O Imperator sentou-se rigidamente na cadeira e cruzou os dedos em frente ao rosto, com o semblante indecifrável que tanto amedrontava Félix.
O príncipe deixou alguns pergaminhos enrolados na mesa e ajeitou sua toga antes de começar a falar:
— Vossa Majestade, depois de muita pesquisa e estudo, elaborei um plano de reconstrução das cidades conquistadas de Marcópolis e Brancovadum, e para finalmente finalizarmos o cerco a Nurvaburgo. — Félix limpou a garganta e encarou o soberano.
— Estou ouvindo. — disse Octavius II.
— Atualmente, apenas os poucos sobreviventes da XX Legião estão lutando no cerco, junto das XVII e XVIII Legiões. Contudo, descobri que há tribos de bucentauros nas florestas próximas a Nurvaburgo. Pensei que poderíamos capturá-los e utilizar sua força primitiva como mão de obra na reconstrução. Tenho certeza de que os centauros da XVII Legião adorariam nos ajudar com isso. E não somente isso: estive em um encontro breve com o Rei-Cliente de Tzerakh, e ele gentilmente irá ceder dez golens de pedra para ajudar. Os ciclopes das forjas imperiais serão convocados juntamente com os hidromantes da Primeira Legião para ajudar na descontaminação da água.
— O plano de utilizar a força bruta daqueles trastes — Octavius cuspiu a palavra — metade boi é interessante. Mas podemos ter um problema com o Senado. Eles estão tentando aprovar uma nova lei para proibir o trabalho forçado.
— Já estou ciente das manobras políticas dos senadores, pai. — Félix endireitou a postura, confiante. — Tive acesso ao texto da proposta. Ela se limita aos humanos nascidos em solo potestiano e a "criaturas de inteligência igual ou superior", isto exclui os bucentauros. Ora, eles nem sequer sabem falar. — Félix permitiu-se sorrir.
— Bom, não precisaremos nos preocupar com o pagamento de construtores se utilizarmos os bucentauros e os golens de Tzerakh. Inclusive agradecerei pessoalmente ao rei Heromão. Os ciclopes recebem para "trabalhos manuais pesados", então não podem alegar desvio da função de ferreiro. — Octavius sorriu sutilmente para o filho. — Essa parte já está decidida. E quanto ao fim do cerco a Nurvaburgo?
Cornelius entrou no escritório com dois guardas pretorianos. Fez uma reverência seca.
— Perdoai a interrupção, Majestade. Mas precisamos do Príncipe Félix. O espião da alfândega já está no posto. Assim que a mensagem chegar, ele agirá.
Félix levantou-se, pronto para seguir. Mas Octavius ergueu a mão.
— Esperai. — Ele olhou para Cornelius. — Quando?
— O garoto tem o hábito de caminhar sozinho à noite, Majestade. Depois dos exercícios, antes de recolher-se, longe da legião e da princesa.
Octavius recostou-se na cadeira, os dedos tamborilando no braço de marfim. Seu olhar não era de medo nem de rancor. Era o olhar de um general calculando o terreno.
— A Primeira Legião está ociosa há meses — disse ele, mais para si mesmo do que para os outros. — Poderia marchar para o oriente o mais rápido possível, se houvesse motivo. Devemos deixar que seja capturado.
Cornelius assentiu lentamente.
— Um soldado da Primeira Legião capturado por bárbaros… ninguém questionaria o envio de um destacamento de resgate. E se esse destacamento fosse... a Primeira Legião inteira?
Octavius ergueu os olhos para o emissário. Um sorriso lento, fino, surgiu em seus lábios.
— Comandada por quem?
— Pelo Príncipe Félix, naturalmente. — Cornelius inclinou a cabeça. — Quem melhor para resgatar um dos seus?
Félix olhou de um para o outro, ainda sem entender completamente.
— E o garoto? — perguntou ele. — E se ele não sobreviver ao cativeiro?
Octavius encarou o filho.
— Então teremos um mártir. E mártires são úteis.
O silêncio que se seguiu foi carregado de significado. Félix entendeu: o pai não estava sacrificando Romulus por medo. Estava usando-o como peão em um tabuleiro maior.
— Cornelius — ordenou Octavius. — Não prendam o espião. Deixem a mensagem chegar. E prepare a Primeira Legião para marchar.
— Às ordens, Majestade. — Cornelius curvou-se. — Mandarei um de meus subordinados “esquecer” a mensagem que interceptamos na alfândega, o espião não suspeitará.
Octavius voltou-se para Félix.
— Tu liderarás o resgate, filho. E trarás o garoto de volta... ou o que restar dele. — o Imperator levantou-se da cadeira e pôs a mão no ombro do Príncipe — Hoje você provou seu valor como homem e como estrategista, filho.
— Obrigado, pai. — Félix respondeu.
Félix se retirou do escritório, com Cornelius nos calcanhares. Os dois caminharam em absoluto silêncio pelos corredores, quando Félix agarrou abruptamente Cornelius pelos ombros e o pressionou contra a parede após virarem a primeira esquina.
— Tu estás completamente louco, Cornelius? — Félix rugiu, furioso — Que história é esta de dizer ao meu pai que eu interceptei a mensagem e descobri quem era o espião?
Cornelius sorriu e disse serenamente:
— Acalma-te, alteza. Eu não comentei nada contigo antes justamente porque sabia que estavas apreensivo com a audiência. — Cornelius retirou lentamente as mãos do príncipe de sua toga — E convenhamos, tu estragarias tudo se soubesse do meu plano antes.
— Que plano, emissário? — Félix ainda ofegava — De tentar me humilhar na frente do meu pai?
— Tu não percebestes mesmo o jogo mental que aconteceu naquela sala. — Cornelius alisou os cabelos besuntados — Deixei o Imperator feliz e satisfeito contigo e, no momento que provavelmente falharias miseravelmente com um plano medíocre para resolver o cerco, o Imperator sugeriu utilizar o resgate do Tocado Pelo Sol como pretexto para mover a Primeira Legião como se a ideia tivesse partido dele.
Félix, já respirando devagar, pôs ambas as mãos na cintura e disse baixinho:
— Certo, Cornelius, mas o que ainda não compreendi foi o motivo de ter me “ajudado” com o meu pai. — ele olhava para os lados para se certificar que não estavam sendo observados — Por que deu todo o crédito a mim?
— Uma coisa que aprendi em todos estes anos de vida militar e política é que quanto mais pessoas estão te devendo, seja dinheiro ou favores, melhor. — ele se aproximou do ouvido de Félix — Principalmente se este alguém for “amigo do rei” ou, neste caso, o filho.
Félix nada disse, apenas observava incrédulo enquanto Cornelius se afastava, quase que deslizando pelo chão do Palácio. Ele então dirigiu-se para os próprios aposentos, onde jogou-se em sua cama para encarar o teto em silêncio.
—----------------------------------------------------------------------------------
O dia na alfândega já começara agitado, caixotes de madeira, urnas de cerâmica e tecidos dos mais variados tipos chegavam aos montes. Gaisaz, um dos espiões enviados pela Confederação de Wōdaz semanas atrás, junto de Lady Tina, vistoriava as mercadorias que seriam enviadas para o Palácio Imperial, para mais uma festa de gala bancada com os impostos do povo potestiano.
Todavia, uma figura encapuzada coberta por um manto preto postou-se em frente à portinhola da alfândega e chamou pelo seu nome:
— Gaius. — o falso nome potestiano que Gaisaz utilizava sob disfarce — Venha aqui.
Gaisaz aproximou-se com cautela e respondeu, engolindo em seco:
— Posso ajudá-lo?
A figura apenas largou um pergaminho selado e disse:
— Isto é de Lorde Harud.
Antes que Gaisaz pudesse responder, o homem sumiu de vista. Ele pegou o pergaminho, de fato estava lacrado com o selo de cera de Harud. O rapaz descolou o selo e desenrolou o pergaminho: nele estavam instruções explícitas para capturar o “Garoto Marcado”, deveriam reunir a equipe, aguardar o fim dos treinos da Primeira Legião e seguí-lo até que estivesse completamente sozinho.
Lorde Harud enfatizou que o garoto deveria ser entregue diretamente a ele, vivo e consciente.
Gaisaz deixou imediatamente a alfândega e correu em direção às florestas negras da fronteira, ele se escondeu atrás dos arbustos densos e das árvores troncudas e enfiou a mão na túnica. Ele puxou o cordão com o pingente do Urso e sussurrou:
— Hoje capturaremos o assassino de Hartmut. Estejam todos à postos perto da Cidadela da Primeira, assim que o treino acabar o seguirei e darei a ordem quando estiver completamente só.
—----------------------------------------------------------------------------------
ROMULUS
O início da tarde chegou na arena de treinamento da Primeira Legião, o Sol começava a descer do apogeu e uma longa sombra se formava abaixo das arquibancadas. Romulus treinava com Drusus, a cabeça raspada do rival brilhava o suor que também escorria pelos seus olhos verdes.
Os dois treinavam com lança e escudo, Romulus tinha mais dificuldades com a arma já que se acostumara com o gládio (e a Marca resolveu não interferir a seu favor naquele treinamento). Drusus porém usava qualquer arma com maestria, sem nenhuma dificuldade.
— Intervalo! — gritou Emilius para todos na Arena.
Romulus e Drusus largaram as armas nos suportes e sentaram-se na sombra fresca sob o muro, uma serva rapidamente serviu água seca paTu estás melhorando, plebeu. — disse Drusus, ofegante — Nunca fiquei com a respiração pesada em um treino de lanças.
— Obrigado. — Romulus respondeu sem muito ânimo na voz, permanecia olhando distraidamente para o horizonte.
— Por que esta feição de abobalhado? — Drusus o cutucou nas costelas — Aposto que é uma garota.
Romulus corou na hora, virou-se para Drusus com o rosto pálido, tentou protestar mas as palavras não saíam de sua garganta.
— Eu sabia! — o brutamontes gargalhou, batia as mãos no chão levantando poeira — Então quer dizer que nosso menino-prodígio está apaixonado!
— Não comece, Drusus! — ele bebeu mais água, tão rápido que quase engasgou — Mas sim, é uma garota… Se chama Tullia.
— Tullia? — Drusus franziu a testa — Nunca ouvi falar, ela trabalha aqui na capital?
— É a dama de companhia da Princesa Felicia. — Romulus suspirou — É a mulher mais linda que já vi.
— Isto porque nunca viste as crasipolitas, pequeno Romulus. — Drusus ria enquanto dava leves tapas no abdômen — Elas deixam qualquer homem louco!
A conversa foi interrompida pelo grito de Emilius ordenando que retornassem às atividades. As horas seguintes foram ocupadas pelo treino de corrida e tiro ao alvo, habilidades que Romulus aprimorara graças aos intensivos dados por Emilius e Felicia. No fim da tarde Faruk apareceu de surpresa na arena e deu, a contragosto de Emilius, uma breve aula sobre controle de magia.
Romulus, porém, não conseguiu conversar com o mestre, pois o mesmo precisava se reunir com os outros membros da corte. Quando finalmente foram liberados, Romulus só pensava em se lavar, descansar um pouco na banheira e aproveitar a noite sem treino no terraço com Faruk para dormir.
Enquanto caminhava em direção ao seu dormitório, algo acertou a sua nuca. Ele se virou, porém o arremessador misterioso havia desaparecido, e aos seus pés uma pequena bola de pergaminho amassada. Romulus pegou o papel e o desamassou, revelando uma mensagem:
“Querido Romulus, me encontre na praça dos feirantes no centro da cidade às oito da noite. Estarei ansiosa à sua espera, vá sozinho.
Com carinho, Tullia.”
Um calor percorreu todo o corpo de Romulus, não o calor da Marca, mas um tipo diferente que eletrizou suas veias. Ele correu aos pulinhos para seu dormitório, gritando pequenas vivas que faziam os funcionários e moradores da Cidadela o olharem com desprezo.
Romulus nem sequer tocou na ceia deixada em sua mesa, arrancou suas roupas e banhou-se com o triplo de zelo. Abriu pela primeira vez os unguentos perfumados disponíveis no pequeno armário de seu balneário e passou do pescoço aos pés. Vestiu a mesma toga que usara no banquete em que conhecera Tullia, a única “decente” para uma ocasião especial, e penteou milimetricamente seus cabelos cacheados com óleo de mirra (que o jovem percebeu ter sido produzido em Hikmah) e esperou.
Quando ele olhou pela janela de seu dormitório percebeu que a clepsidra central finalmente marcava pouco tempo para o horário estipulado por Tullia, ele então saiu e andou apressadamente para o ponto de encontro.
Romulus conhecia bem a região: a Praça dos Feirantes era um dos pontos centrais de Aurora Cor, onde os comerciantes ambulantes como seus pais se reuniam quase sempre para vender e penhorar todo tipo de mercadoria. Ele chegou faltando pouco mais de um minuto para o horário, então esperou.
E esperou.
O jovem deduziu que fora vítima de um trote de Drusus, uma donzela tão bela e inteligente quanto Tullia jamais o convidaria para um encontro noturno. Quando virou-se para voltar humilhado para casa, ele sentiu uma pressão na nuca e um lampejo de dor percorreu sua espinha fazendo-o cair. Nesse momento, tudo ficou escuro.
Quando Romulus despertou, sabe-se lá quanto tempo ficara desacordado, ele ainda não enxergava nada, uma venda fora colocada em seus olhos e sua boca amordaçada. Tentou inutilmente mover os braços e pernas, apenas para perceber que também foram imobilizadas.
Eventualmente ele sentia seu corpo saltitar de leve, fazendo sua cabeça bater em um piso de madeira: estava em uma carroça.
— Parece que ele acordou. — disse um homem.
— Vou dar um chute nas costelas dela para confirmar! — disse uma voz feminina madura.
— Não! — uma voz doce e jovial interviu — Não há necessidade!
— Tina, Tina… — a primeira voz masculina retrucou — Não vá me dizer que se apegou ao garoto?
Um silêncio constrangedor se seguiu, quem eram aquelas pessoas? Por que raptaram Romulus? Será que eles sabiam da Marca, um segredo que apenas os patrícios de Aurora Cor conheciam. Quem era Tina? Seriam rúteres contratados por algum nobre potestiano que via em Romulus uma ameaça?
Ele tentou se soltar, inutilmente, das amarras. A Marca não parecia querer ajudá-lo naquela noite e após muito se debater, alguém gritou:
— Fique quieto, seu animal imundo!
Uma pancada atingiu sua mandíbula, fazendo-o virar-se de costas. O ar escapou de seus pulmões, um líquido quente escorria de sua têmpora e seus ouvidos zumbiam alto.
Aquela noite seria a mais longa de sua vida.
HARUD
O dia já clareava quando Harud foi convocado para a fronteira da tribo para receber uma prenda potestiana. Aproximadamente às dez horas da manhã, enquanto o Rüthering apreciava sua infusão líquida de casca de salgueiro, a carroça puxada pelo velho asno balançava na estrada de terra pedregosa e há muito castigada pela tormenta.
Quando os sucedidos espiões desceram, puxando consigo o garoto potestiano “Tocado Pelo Sol”, carregado como um saco de batatas podres, Harud abriu um sorriso que tocava os dois hemisférios faciais.
— Bom dia, filhos de Wōdaz! O Urso vos receberá de braços abertos em tua mesa depois de terem vingado um de teus guerreiros de forma tão maestral! — Harud bradou.
Romulus foi erguido brutalmente no ar, uma mão furiosa arrancou sua venda e sua mordaça. Seu rosto ainda doía e latejava, um gosto metálico tomava sua boca e, ao abrir finalmente os olhos, algo incomodava sua visão mais do que a brusca claridade:
Um homem que já vira mais de quinhentas luas encarava Romulus com um misto de ódio e satisfação, seu volumoso bigode, já agrisalhado como seus cabelos, tremia enquanto seus olhos escuros o alvejavam com o fogo do Inferno.
— Finalmente vingarei a morte de meu filho… — a voz grave e rouca do homem engasgava enquanto lágrimas desciam de seus olhos e contornavam suas bochechas levemente enrugadas — Te farei ver o horror vivo no mundo terreno, farei com que almejasse jamais haver nascido seu porco potestiano!
Continua...
Fale com o autor