Crônicas de Pangaya
1 Primeiro Encontro
Notas iniciais
Edgar sentia a chuva fria caindo no seu rosto, ele sentia a dor de múltiplos ferimentos pelo seu corpo, ele percebeu que estava em movimento, com sua visão se turvando mais e mais, ele conseguiu vagamente ver a forma de seu companheiro de viagem, Kas, o carregando, “Edgar, fica acordado.”, ele disse entre respiradas dificultosas, “Fica comigo…”.
“Vocês dois, por aqui”, soou uma voz além da pesada chuva, com extrema dificuldade, Edgar tentou olhar para a fonte da voz, mas apenas conseguiu discernir uma silhueta em contraste com uma luz forte, mas confortante, de alguma forma, a última coisa que Edgar sentiu antes de perder a consciência, foi Kas indo em direção a luz.
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A consciência de Edgar foi lentamente retornando, junto com pequenas pontadas de dor, quando ele tentou se sentar, ele sentiu as costas da mão de Kas tocando suavemente no seu peito, “Não ouse…” ele disse, o impedindo de se sentar; “Onde é que a gente está?”, perguntou Edgar, lentamente se deitando novamente, Kas olhou ao redor, se mexendo o máximo que suas bandagens o permitia, eles se encontravam em uma sala circular, iluminada com uma luz amarela vinda de cima, logo acima deles, um segundo andar com múltiplas estantes abarrotadas com livros, ao fundo, ele conseguia ouvir uma conversa em sussurros entre 2 pessoas, uma delas o homem que os salvou, e a outra vinda de alguém ainda não visto, este que soava irritado e em pânico, mas Kas não conseguia discernir as palavras.
“Eu não tenho a menor idéia.”, disse Kas, vagarosamente encostando as costas no sofá em que Edgar estava deitado.
Um homem entra na sala da parte interna da casa, olhando rapidamente para os 2 rapazes, com um semblante irritado no rosto, e se encostou na parede ao lado da janela, olhando cautelosamente para o lado de fora. O clima da sala ficou pesado com a presença dessa terceira pessoa, Kas e Edgar se entreolharam, e Edgar tentou conversar com o estranho, mas antes que ele tivesse a chance de falar, o estranho o interrompeu, “Não quero ouvir nada do que vocês tem a dizer.” — “Salazar, não seja grosseiro com meus convidados.”, disse a voz gentil, o estranho, aparentemente Salazar, arregalou os olhos e olhou para a direção da segunda voz, “NÃO REVELE MEU NOME PARA CRIMINOSOS!”, gritou com raiva Salazar, “Oh, perdão”, a voz disse, “Você pode falar que o meu é Melchior, aí ficamos quites.”
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Salazar olhou embasbacado para Melchior, que entrava na sala de algum cômodo interno da casa, carregando uma bandeja com 4 canecas fumegantes, depositando-a na mesinha de centro, “Você realmente vai servir chá para criminosos?”, perguntou Salazar, “Eles estão feridos e cansados, além disso, eles não parecem ser más pessoas.”, disse Melchior, colocando uma xícara na mão de cada um deles, Kas agradeceu com um leve aceno de cabeça, “não se ganha uma recompensa tão alta sendo uma boa pessoa.”, Salazar disse, enquanto Kas ajudava Edgar a se sentar, “Nesse estado, eles não conseguiriam fazer nada contra nós.”, ele apontou para Edgar, tendo dificuldade em levar a xícara de chá até os lábios, fazendo uma careta de dor com o esforço, “De qualquer forma…”, continuou Melchior, “O que aconteceu com vocês?”, antes que qualquer um dos dois pudesse responder, alguém bateu na porta.
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Salazar se inclinou na janela, espiando o lado de fora, onde um homem estava parado, tirando o capuz ensopado de chuva, após perceber que estava sendo observado, ele sorriu e acenou simpáticamente para Salazar. “Companheiro seu?”, perguntou Salazar, “Viajamos sozinhos.”, respondeu Edgar, tendo finalmente conseguido tomar o seu chá, e com isso, seu semblante melhorou bastante.
Salazar olhou para Melchior, como se perguntasse se era uma boa ideia abrir a porta, e Melchior, sentando do lado oposto aos 2 rapazes sentados no sofá, os encarou buscando confirmação, Kas ergueu a mão, e uma pequena labareda dançou na palma; Melchior olhou de volta para Salazar e acenou com a cabeça.
Salazar cautelosamente abre a porta, e parado na varandinha da casa estava um lindo homem, lindo é pouco para descrever ele, ele era absolutamente estonteante, uma aura de pura beleza exalava dele, carregando um cheiro floral intenso, mas não de forma enjoativa, o homem olhou para dentro da casa, onde 2 homens feridos o encaravam, com raiva e precaução nos olhos, do lado oposto, um rapaz o olhava com curiosidade, atrás da porta, outro rapaz o olhava com um pouco de medo; “Eu sinto que não sou bem vindo aqui.”, ele disse com uma voz suave
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Antes que o belo homem pudesse entrar na casa, Salazar levantou a mão, impedindo-o, “Mil perdões, onde estão as minhas maneiras…”, o belo jovem tirou as botas enlameadas e colocou ao lado da porta, do lado de fora, “Novamente, mil perdões pela minha falta de modos, agora eu posso entrar?”, Salazar continuou a encarar o rapaz, mas abaixou a mão lentamente, assim que o rapaz, entrou de corpo inteiro, Kas criou uma bola de fogo na palma da mão, e a atirou com violência na direção do desconhecido, que aparentemente bloqueou com o braço, porém, quando a labareda parecia estar consumindo o braço dele, ele sacudiu o braço e as chamas caíram em pétalas no chão.
Melchior bebericou o chá, claramente entretido com toda a situação, “Perdão, eu esqueci de me apresentar.”, o estranho fez uma leve reverência, “Eu sou Ajax, um simples historiógrafo.”, “Quem te enviou?” perguntou Edgar, fazendo muito esforço para disfarçar a dor, “Eu juro que nada, nem ninguém, além da minha própria curiosidade.”, disse Ajax, lentamente se levantando da reverência, “Tudo o que eu quero, é fazer algumas perguntas para vocês dois…”; Edgar e Kas se entreolharam, comunicando sentenças inteiras em poucos segundos, e então olharam para Ajax, e acenaram com a cabeça.
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“Primeiramente, o que aconteceu com vocês?”, Perguntou Ajax, sentando no chão e tirando um pequeno caderninho do bolso; “Sofremos uma emboscada na taverna, algumas pessoas estavam atrás das nossas recompensas, e ficaram nos esperando no quarto.”, Respondeu Kas; Salazar continuava olhando atentamente para o lado de fora, e percebeu uma pequena movimentação nas partes mal iluminadas da rua.
“E como vocês conseguiram uma recompensa tão grande?”, Ajax perguntou com um brilho de curiosidade nos olhos, Kas ficou visivelmente apreensivo, Edgar percebeu isso e rapidamente começou a falar, “Eu vivi a minha vida de forma fácil, uns roubos aqui e alí, às vezes um desacato à autoridade, mas o que realmente elevou a minha recompensa foi salvar ele.”, ele mexeu a cabeça na direção de Kas, “Ele iria ser executado pelo que fez, e eu fiz o favor de impedir.”; a comoção do lado de fora rapidamente se transformou em uma multidão, Salazar percebeu que as pessoas olhavam de relance para a casa, como se estivesse planejando alguma coisa.
“E o que foi esse crime?”, perguntou Ajax, rapidamente escrevendo tudo o que lhe foi dito até agora, mas quando Melchior esticou o pescoço para tentar ler, tudo o que ele viu na folha foram rabiscos. Edgar demonstrou intenção em começar a falar, mas Kas colocou uma mão no ombro dele, “Eu não acredito que um historiógrafo não saiba o que aconteceu, quais são suas intenções?”, Ajax sorriu, talvez com um pouco de malícia, “Eu gosto de pegar as informações direto da fonte, perdoe-me por não deixar isso claro.”, ele disse, abaixando a cabeça de leve. Salazar chamou Melchior com um gesto, este que se levantou rapidamente para ir até a janela, olhou para o irmão assustado, o entregou sua xícara, e abriu a porta.
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Do lado de fora estava uma pequena multidão, alguns seguravam tochas, outros estavam armados, alguns seguravam cordas, Melchior apreensivamente entrelaçou os dedos na frente do corpo, e tentou falar com confiança, “C-como posso ajudar vocês?”, “ENTREGUE OS CRIMINOSOS.”, a maior parte do coro gritou, outros gritaram xingamentos para os criminosos, e uma pequena parcela gritava para ofender Melchior, o chamando de cúmplice, “Me ajuda aqui”, pediu Edgar a Kas, fazendo esforço para se levantar, ”Você não está em condições”, advertiu Kas, “Mas não é justo ele passar por isso por nossa causa.”, Kas apoiou o amigo no ombro, e foi lentamente o levando até a porta.
“Pessoal, por favor, se acalmem…”, Melchior tentava acalmar a multidão, sem muito sucesso, Salazar continuava atrás da janela, segurando a xícara com ambas as mãos, se preparando para qualquer coisa que pudesse acontecer, Ajax continuava sentado no chão, atônito com toda a situação. Ao ver os dois procurados saírem da casa, a cacofonia de vozes ficou mais alta, Edgar se segurou no batente, sinalizando para Kas e Melchior entrarem de volta, “Eu não posso deixar você sozinho aqui.”, disse Melchior, se recusando a entrar, “Eu vou ficar bem”, assegurou Edgar, Melchior olhou para Kas, que apenas fechou os olhos e acenou a cabeça lentamente, confirmando as palavras de seu companheiro, e apreensivo, Melchior entrou de volta.
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Edgar tentou disfarçar a imensa dor que estava sentindo, se apoiando no batente do terracinho; a multidão era uma mistura de chocada e confusa, as pessoas não esperavam que Edgar iria se entregar tão fácil, as primeiras pessoas a se recuperarem do choque tentaram o agarrar. O que aconteceu a seguir deixou todos assustados, um calafrio percorreu a espinha de todos alí presentes, uma aura negra emanava de Edgar, o calor das tochas esfriou, as mãos que seguravam armas perderam a força, e lentamente foram abaixando; Edgar estava apenas a um pé alto de distância, mas ele parecia tão longe…, algumas pessoas caíram no chão, outras começavam a chorar.
Dentro da casa, 3 dos 4 jovens olhavam curiosamente para o lado de fora, “Eu recomendo que vocês não fiquem olhando”, advertiu Kas, “Se vocês encararem demais, pode acabar afetando vocês também.”, “E o que, exatamente, pode nos afetar?”, perguntou Salazar, levemente arregalando os olhos, “A habilidade dele, o Medo…”, respondeu Kas.
A multidão, outrora raivosa, agora encontrava-se amedrontada, alguns caiam de bunda no chão, outros se afastaram, em diferentes velocidades, aqueles mais fracos de mente, que se deixaram levar pela multidão, encontravam-se de joelhos, pedindo perdão a Edgar, que para eles, estava em pé, imponente naquele terracinho; com um movimento lento ele virou de costas e entrou de volta na casa.
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Edgar entrou novamente na casa, seu rosto se contorcendo em uma careta de dor, ele levou a mão às ataduras do peito, que estavam ensopadas de sangue. Kas se posicionou ao lado de seu companheiro, colocando seu braço por trás dele e o apoiando em seu próprio corpo, “Por favor, me diga onde é o banheiro, e leve novas bandagens para lá, e se não for pedir demais, poderíamos passar a noite lá?”, “Segunda porta à esquerda, levarei, e claro que podem.”, respondeu Melchior, enquanto Salazar gesticulava de forma errática, tentando transmitir sua indignação com toda a situação, “Creio eu que essa seja minha deixa, boa noite, cavalheiros.”, Ajax se levantou, fez uma mini-reverência, e fez menção de sair pela porta, quando Melchior pôs a mão em seu ombro e disse com uma voz que transmitia seriedade, “Você dorme no sofá”, Ajax arregalou os olhos para Salazar, que respondeu com a mesma expressão, direcionada a Melchior.
Edgar foi posto deitado na banheira, e após Kas trocar as ataduras, ele se sentou no chão, e pela primeira vez essa noite, ele se permitiu descansar, as últimas coisas que ele ouviu foram passos rápidos pela casa, antes de cair em um merecido sono.
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