Crônicas de Pangaya

2 A estrada é longa


Kas acordou de sobressalto, assustado pelo mesmo pesadelo de sempre; hiperventilando e com o coração palpitando; ele pouco a pouco ia retornando a realidade, ele focou na fria porcelana da pia, o chão levemente úmidos abaixo dos seus pés, e na sua frente, seu próprio reflexo no espelho, o cabelo dele caia na cara, levemente endurecido pelo sangue não lavado da noite de ontem. Depois de Kas se acalmar, ele nota que Edgar dormia sonoramente na banheira, não querendo acordar o amigo, Kas silenciosamente abre a porta do banheiro e sai, fechando-a atrás de si mesmo.

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A súbita luz matinal incomodou os olhos de Kas, que deixou seus pés o guiar pelo caminho que, na teoria, o levou até o banheiro na noite anterior; quando seus olhos se acostumaram a claridade, ele se viu na mesma sala que ele estava na noite anterior, a luz do sol matinal invadindo gentilmente a pequena sala, curiosamente, uma fina camada de poeira dançava pelo ar.

Deitado no sofá, fingindo muito bem estar dormindo, estava Ajax, os cabelos desarrumados de forma deslumbrante, o peito levemente exposto subindo e descendo suavemente com a sua respiração, presenciar essa cena faz Kas revirar os olhos, e foi sentar em um ponto em que os raios de sol batiam no chão, sentando-se em posição de meditação: “Você ainda deve ter muitas perguntas, não é?”, Ajax sorri, e lentamente se senta no sofá, “Ora, nem todo mundo é perceptivo assim… O que foi que denunciou?”, Ajax arruma o cabelo, e tira o caderninho e um lápis pequeno de algum bolso oculto, “Nunca vi nenhum humano dormir tão bonitinho assim, logo, ou você estava acordado, ou não é humano”, Ajax soltou uma sincera gargalhada, “Você teve bastante convivência com humanos né?”, Ajax começou a anotar, “Certo, para começar… Porque você está acompanhando… Edgar? Esse é o nome dele, né?”, Kas o olhou de soslaio, “Ele me salvou”, Ajax para de escrever, e sem tirar os olhos do caderninho, pergunta, “Só por isso?”, “Eu preciso de mais motivos?”; Ajax parou de escrever, levemente embasbacado, deu uma leve risada, e voltou a escrever.

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A luz do sol invadia o quarto de Melchior, que nesse momento, lutava para continuar dormindo um pouco mais; após perceber que era uma batalha perdida, ele resmungou e escorregou para fora da cama, antes de sair do quarto, ele parou para ouvir os sons matinais da cidade, um hábito que o ajudava a encontrar determinação para começar o dia, mas hoje, estava tudo quieto, ninguém caminhava nas ruas da pequena vila, nenhum bebum cambaleava a caminho de casa, nem mesmo os passarinhos cantavam, um calafrio percorreu a sua espinha, mas Melchior fez o melhor possível para ignorar essa situação e saiu do quarto, mais ou menos pronto para começar o dia.

Ao descer as escadas, Melchior encontra o Druida e o historiógrafo, conversando como se fossem amigos de longa data, Kas estava sentado em um dos poucos lugares que o sol matinal atravessava a janela, e Ajax, de alguma forma, parecia o homem mais lindo do mundo, seus cabelos levemente desarrumados o deixando extremamente charmoso, Melchior estranhou essa descrição mental, como se involuntariamente, ele realmente achasse aquele belo homem, o mais lindo de todos.

Melchior percebeu que esses pensamentos não vinham dele, mas sim de alguma fonte externa, e no instante que ele percebeu isso, Ajax se vira subitamente, o lançando um olhar afiado por apenas uma fração de segundo, e logo após suaviza a expressão, “Ora, nosso anfitrião acordou, onde estão os meus modos?”; ele disse, levantando-se do sofá com um pulo, e arrumando sua roupa e seus cabelos.

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A cabeça de Edgar ainda sofria com uma dor aguda, com certeza mais suportável que ontem, e a primeira coisa que ele viu ao acordar, foram os olhos escuros de Kas o encarando de volta por de trás de sua cortina de cabelo; “Você está horrível”, sua voz saiu arranhando a parte de traz da garganta, o druida deixou uma risada escapar; “Olha pra sua situação”, o formato em que o corpo de Edgar se encontrava, repousando naquela banheira, era perto dos limites físicos do corpo humano, não era apenas surpreendente, mas chocante, o fato que ele estava confortável; Kas estendeu uma mão, “Vamos, a estrada é longa para nós”.