Crônicas de Overly Fills
1 18º Experimento
Notas iniciais
Ele abriu os olhos. Mal conseguia ver o cenário devido à densa névoa sépia que se encontrava no local. Walter tenta limpar os olhos, acreditando que era sujeira pela visão ruim e esfrega as mãos no canto dos olhos. Mas nada muda, portanto, não eram seus olhos. E do pouco que podia ver, deduziu que estava em um cemitério. Como fora parar ali? Para a responder a si mesmo deu os primeiros passos seguindo pela estrada do cemitério. Conseguia ver alguns túmulos e mausoléus apesar da névoa. Henry Frickdik, Thomas Fonson, Gabrielle Santhiago, Lucas Kovalsk, Andrew Betano, enfim, eram diversos os nomes.
Continuou andando até conseguir ver os pés de um portão de grade verde, um minimamente desgastado. Ao passar do portão, levantou um pouco mais pra cima seu rosto e viu uma placa com a inscrição “Cemitério de Overly Fills”.
– Ah, então eu estou aqui. – Walter murmurou pra si mesmo.
Ainda olhando a placa deu alguns passos para trás sem prestar atenção às suas costas e se esbarrou num homem. Não foi uma colisão forte pra nenhum dos dois cair. O homem que possuía a voz de um rapaz, falou,
– Ah, desculpa. – E puxou seu cão que cheirava a Walter que nem sequer percebeu os fungados do focinho.
Graças à névoa Walter não conseguiu ver o rosto do rapaz, apenas suas roupas. Usava uma calça social preta e um sapato de couro. Quando olhou mais abaixo para ver o cachorro, já havia saído do seu campo de visão. Só pôde ver uma pequena parcela de seu rabo esquelético.
Sem saber o que estava havendo, tentou analisar a situação se escorando num lampadário e pondo a mão na cabeça. Ao fazer isso, depois que fixa-se olhando o chão, percebe que estava sujo de sangue. O rastro de sangue parava até onde estava. Walter pensou ser seu o sangue, mas não tinha nenhum machucado, não sentia dor, então pensou no jovem que esbarrou. Mas nem ele poderia ser, era inviável.
No lugar onde estava, não ouvia sons de carros nem nada. Atravessou a rua e foi para uma esquina usando a parede das casas como ponto de guia. Como a névoa atrapalhava sua visão até certo ponto, só conseguia enxergar da cintura pra baixo. Nem ao menos sabia se estava dia ou noite, mas não ligava pra isso. Andando mais um pouco, tirou sua mão esquerda da cabeça, e quando a olhou viu que estava suja de sangue. Era seu o sangue, Obviamente não poderia negar. Mas como se machucou? E sobretudo, por que não sentia dor?
Vê que estava em uma situação confusa. Alguma coisa o ocorreu e não se recordava. Andando mais um pouco, entra em uma loja com porta transparente. Dentro vê várias mesas e cadeiras bem arrumadas, e muitas pessoas no local. Sem falar do cheiro que impregnou seu nariz, um cheiro nunca sentido antes. Estava num restaurante. O mais estranho é que mesmo dentro do local, sua visão continuava turva pela névoa.
Que droga de cheiro é esse.– Pensou. Era um cheiro horrível, de algo podre. Mas não sabia de onde vinha.
Tampou o nariz e foi sentar-se numa mesa vazia. O garçom o viu e foi até ele, perguntou,
– O que vai pedir, senhor Doyle?
Ele o conhecia, e logo percebeu que já esteve ali antes e lembrou-se de algo. Era o restaurante Rolshack de Overly Fills. Era seu bairro, onde morava. Sempre comeu ali, recordou-se.
– O de sempre Marcos, por favor. E, está sentindo esse cheiro?
– Que cheiro?
– Ah... esquece. – Walter tentou indagá-lo, mas suas memórias estavam vindo aos poucos. E com isso já percebeu do que se tratava.
– Ah, entendi. Deve ser a nova especiaria que o chefe trouxe das suas viagens. – Marcos pôs sua mão esquelética na mesa e falou no seu ouvido – Vou trazer um pra você, mas não deixe o chefe ver!
Cerca de 15 minutos haviam passado, e Marcos voltou com a bandeja.
– Aqui está. Coloquei também um molho com glicose pra dar um sabor adocicado. Você junta os dedos e aquelas artérias ali, junto com o sabor salgado o molho fica ótimo!
– Ei, isso é, isso é igual o que eu vi mais cedo. Estava em mim, na minha cabeça. Também tinha um pouco no chão perto do cemitério.
– Onde?
– Não, deixa pra lá... Obrigado.
Não dava para ver o rosto do rapaz, mas sua visão estava boa o suficiente para enxergar a comida no prato. Pegou um garfo e picou um dos dedos, levando até a boca. Era diferente e muito melhor do que os órgãos que estava habituado a comer. Sentia-se mais vivo, enérgico, apesar de não sentir estímulos externos. Estava sem tato, porém seu paladar parecia estar mais aguçado que nunca. Foi por causa do experimento, se perguntava. Fosse ou não, continuou degustando da comida.
Havia uma guerra interna acontecendo neste exato momento. O odor pútrido que vinha da comida e o novo sabor indescritível que saciava embatiam-se para determinar qual durava mais. Contudo, o sabor venceu a podridão do fedor, visto que era o último a terminar quando Walter se satisfizesse. Porém, ao terminar de comer, o cheiro continuou. Vinha dos outros pratos, imaginou.
Procurando sua carteira, não conseguia a encontrar para pagar os dedos com artérias. Depois de muita procura conseguiu achar a carteira, mas esta se encontrava vazia. Com medo do que Marcos fosse falar, tentou sair discretamente do restaurante. Viu que dois casais sairiam no mesmo instante que ele e tentou se infiltrar no meio deles. Mas alguém o impediu.
– Não vai pagar, senhor? Vi que não deixou nada na mesa. – Um homem no que parecia ser um paletó, falou.
Walter sem olhar o rosto do homem, disse,
– É... eu falei com o garçom e disse que virei aqui mais tarde pagar e ele aceitou, então...
– Nós não permitimos fiado. Sugiro que fale com aquele homem ali e reporte o que houve. –Apontou para quem Walter menos queria. Teria que mentir sobre o molho açucarado.
Walter não poderia encarar o Sr. Fid. Desespero começa a tomar sua mente e diversas improvisações de desculpa passam pela sua cabeça.
– Na verdade eu só vou ali trocar o dinheiro. Pode me dá licença?
– Não.
Sem se preocupar com o que quer que fosse acontecer dali em diante, Walter empurrou o homem. Ao fazer isso o homem se desfez, literalmente. Seu corpo, uma estrutura óssea organizadamente engenhada estava agora com seus pedaços e ligações espalhados pelo chão. Walter viu o crânio do homem gritando no chão,
– Maldito! Alguém segura ele, rápido!
Mal deu tempo para se preparar a correr. Eram dois, depois quatro, seis, sete vieram segurá-lo. Via somente fêmures, tíbias e patelas daquelas coisas que o seguravam. Ou pelo menos, tentavam o segurar. Entretanto, não demorou muito para que um deles pegasse um osso e enfiasse goela abaixo em Walter. Walter lutou pra não engolir aquilo. Mas já era tarde.
Na segunda vez que abriu os olhos finalmente não estava mais com a visão turva pela névoa. Olhava diretamente para a luz forte de uma lâmpada. Se encontrava deitado numa maca de um quarto com parede de cerâmica azul-clara. Estava num hospital, e havia pessoas o olhando, doutores. Observou a si mesmo e viu que tinha fios aparentemente conectados ao seu crânio.
Um dos médicos que mexia num computador, empurrou e virou-se na cadeira giratória e olhou pra Walter, perguntando-o,
– E aí. Como foi a realidade simulada? Nos diga o que viu, sentiu, etc.
– Foi um pouco diferente de como os senhores falaram. Quando cheguei lá havia machucados no meu corpo, e não consegui sentir dor. Além disso faltava-me tato e minha visão estava com problema.
– Que tipo de problema?
– Uma névoa. Uma neblina sépia e bem densa. Acredito que mesmo se me olhasse no espelho não conseguiria ver meu rosto.
– Entendo... ainda precisamos ajustar esses erros de sensibilidade, visão e vias nervosas. Só não entendi por que os ferimentos apareceram. É a primeira vez que ocorre isso... Enfim, falarei para o Leonard arrumar as configurações. – O doutor retirou os fios ligados à cabeça de Walter.
– Já pode se levantar. – Outro médico que estava presenta falou pra Walter.
Ao se levantar, Walter deixa seu metacarpo cair por acidente, mas não percebe. Uma doutora com um rosto inidentificável graças à falta de carne e pele, mas que possuía uma voz feminina, chama seu nome quando ele estava prestes a sair do quarto.
– Aqui, você deixou seu metacarpo.
– Ah, obrigado.
Pegando seu metacarpo, reconectou com os ossos da mão, o carpo, e saiu do quarto. Walter foi, ou melhor, é, um dos muitos que participaram e ainda participarão de um certo experimento feito num centro de pesquisa de Overly Fills. Era só uma cobaia entre muitas, mas isso pouco lhe importava. O que interessava agora era comer artéria com veia junto daquele molho novo que Marcos lhe mostrou.
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