Crônicas de Marrer: As Almas de South
5 A Frente Sulista
O vento assobiava, os guardas nas muralhas se encolhiam e lady Jesse se ajoelhava diante de sua lareira e rezava para o pouco de fé que lhe havia sobrado. Mesmo diante de sua lareira, Jesse tremia, mas não pelo frio que cortava sua pele, tremia por medo, medo de se perder em seus pensamentos, medo de seu passado.
Jesse vestia seu lindo vestido ajustado, nem um pouco confortável para o clima frio do sul.
— Mamãe! – Disse um garoto parado na porta do quarto de Jesse.
Jesse rapidamente se levantou.
— Gabriel! – Jesse foi se aproximando do garoto – Você está lindo! – Ela o abraçou muito forte.
— Que a lama nos guia pelas estradas da saudade. – Disse Gabriel.
— Que a saudade nos guie pelas estradas de lama! Seu avô não era bom com palavras. Sempre deixava eu e minhas irmãs péssimas.
— Por quê?
Jesse abaixou a cabeça e caminhou de mãos dadas com Gabriel até sua janela.
— Ele disse essa frase quando partiu para a capital.
Jesse se aproximava da janela que estava fechada, e passou sua mão sobre ela, retirando a poeira que cobria a madeira e revelando vários riscos.
— Ele nunca mais voltou...
Gabriel a abraçou.
— Mas eu irei voltar mamãe!
O abraço foi interrompido quando um dos guardas bateu na porta.
— Eu devo partir! – Gabriel soltou as mãos de sua mãe lentamente, e caminhou para fora do quarto. O guarda ficou parado na porta enquanto Jesse observava os riscos na madeira da janela.
— Ainda está aí sir. Marque...
— Lorde Boorky deseja a ver em sua sala...
— Ele esperou durante quinze anos, pode esperar mais um pouco...
— Eu não o faria esperar...
Jesse fez um sinal com mão, fazendo o guarda sair, caminhou até a porta, mas parou, olhou para lado, onde ela pendurava seus mantos e pegou um deles e partiu em direção à sala do lorde. Caminhando pelos corredores de pedra com péssima iluminação pois as janelas sempre estavam fechadas e as tochas apagadas por conta do forte vento que cortava a fortaleza inteira os apagando. De longe era possível ver a porta da sala do lorde, pois era feita de aço, que sempre brilhava, até mesmo no escuro. Os corredores eram sempre cheios de guardas parados, que pareciam esculturas. Jesse conseguia ver o olhar de ódio dos guardas mesmo debaixo de seus enormes elmos, todos pareciam odiar lady Jesse.
Ao entrar na sala, Jesse se deparou com lorde Boorky, que estava de costas para a porta, de pé e olhando para a enorme parede a sua frente onde estava esculpido todo o continente de Marrer. Boorky era assustador, sempre com seu manto preto felpudo, com faixas verdes e o símbolo de sua casa.
— Não acredito que está aqui... – Disse Jesse.
— Meu pai foi um grande homem, lutou pela independência de nosso país, lutou pelos seus filhos. Era para eu fazer o mesmo! – Disse Boorky batendo com muita força em sua mesa.
— Não entendo sua raiva meu bem ...
Boorky se virou para Jesse, revelando uma face nunca antes vista, com seu enorme cabelo ondulado e sua barba por fazer.
— Mandar nosso único filho e herdeiro de Ed para o leste rebelde.
— Precisamos mostrar que nos importamos ainda com o leste!
— A revolução acabou! Há cem anos...
— Até quando irá se esconder dentre a neblina sulista?
Lorde Boorky se aproximou de Jesse.
— Volte para a fortaleza de South Pass se não a agrado. Se case com um Stefanelly, e vá morar em Ruby. Quem sabe os escravos que os servem lhe agrade.
Boorky se virou e caminhou até sua lareira, que era feita com pedras de obsidiana, que deixava a sala mais quente.
Jesse abaixou a cabeça, respirou fundo e disse:
-Se eu quisesse morar em Ruby, não teria fugido com você para o sul, causando a extinção de minha casa...
Boorky sussurrou:
-Extinção? – ele se virou e disse mais alto –Extinção? – Mas lady Jesse já havia saindo da sala.
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