Crônicas de Kyloth
2 O Caminho Escaldante
Notas iniciais
Era quase meio dia, pelo que podia ser notado. O sol estava no meio do céu, tão quente quanto uma brasa ainda em chamas.
Mas ele não podia ser notado de dentro da sofisticada carruagem que levava os membros da Casa Blu pelo Caminho Escaldante. Por sorte, estavam quase chegando ao fim do Grande Deserto de Sal.
Lorde Sebastian Blu, o patriarca de sua família era um homem educado e um ótimo guerreiro. Ele era alto e de meia idade, mas com seus olhos azuis e cabelos negros, não aparentava possuir mais que trinta anos. No entanto, ele tinha quarenta e dois anos de idade.
Apesar de ser um homem educado, ningúem podia vencer Sebastian quando se tratava de discutir suas escolhas. Ele apenas queria casamentos honrados para seus quatro filhos, mesmo que a ideia não os agradasse nem um pouco. O Lorde esteve muito ocupado nos últimos tempos, pois era viúvo e não era fácil arranjar quatro casamentos. Mas finalmente estava indo confirmar o primeiro deles. Por isso estava na estrada com seus quatro filhos.
O mais velho era Quentyn. Um garoto de vinte e três anos, sempre rebelde e que não se importa com regras ou o que suas ações desencadeiam. Para o desgosto do pai, sempre está se metendo em problemas. Herdou os cabelos negros do pai, assim como os olhos azuis.
A filha mais velha era Strella. Uma linda moça de vinte e dois anos, que recebeu este nome em homenagem à mãe e herdara muitos traços dela, porém os cabelos e olhos do pai sobressaíam-se. Não gostou da ideia de casar-se apenas porque o pai ordenara, mas desejava encontrar alguém que ela amasse e vice e versa.
E os gêmeos Thalia e Thulio, que apesar de serem gêmeos de dezenove anos, não tinham nada em comum, pois sua personalidade era extremamente diferente. Thalia que nascera antes era uma pessoa que gostava acima de tudo, de ser livre. Não queria que os laços de família ou compromissos como casamentos a prendessem como se fossem correntes.
Entretanto, Thulio era um jovem com um corpo avantajado desde o início da puberdade. Não quer se casar de maneira alguma, pois é homossexual e acha que nunca poderia fazer uma mulher feliz se fosse casado com uma.
— Até que enfim acabou esse Deserto! – exclamou Sebastian – Agora estamos quase em Valenya. Animados?
— Animados para a escravidão? – perguntou Strella entediada.
— Vamos lá querida, quero que esteja feliz! Você vai se casar, e com um príncipe! – o pai tentou animá-la.
— Isso não muda nada – Thalia manifestou-se – O fato de ele ser um príncipe não é grande coisa, já que ela está praticamente sendo arrastada para se casar.
— Querida, eu nunca forcei ninguém a nada – Sebastian tentou se defender.
— Ah não? – disse Quentyn – O que ele disse mesmo antes de sairmos de casa?
— “Se você não for, vai desonrar a nossa família e eu vou te trancar no porão de casa” – disse Thulio, imitando o pai.
— Boa irmãozinho – disse Quentyn sorrindo.
— Já chega! – O Lorde gritou – Um dia entenderão que o que eu estou fazendo é para o bem de todos.
— Já estou vendo a cidade lá longe – disse Thulio para os outros.
— Exibido. Só porque está na janela – bufou Thalia.
— Inveja, marrenta? – ele perguntou.
— De você? Nunca!
— Eu duvido.
— Você é ridículo, seu pirralho.
— Quer um tapão na cabeça, maninha?
— Quer um chutão no traseiro?
— Chega! – gritou Sebastian – Se comportem na corte.
— Pode deixar pai – disse Quentyn levantando as mãos em sinal de rendição.
— É sério, Quent. Se o Rei dos Valen souber que você aprontou alguma, vão te enforcar – disse Strella.
— Não é para tanto, ô tonta – disse Thalia. Ela sempre odiou o jeito “sem noção” da irmã mais velha.
— Vamos ficar no luxo pelo menos? – continuou Quentyn.
— Vamos ficar nos aposentos de hóspedes da Grande Pirâmide – esclareceu Sebastian.
— Uau! Junto com a realeza. Adoro – disse Thulio. Ele sempre teve uma queda pela realeza. E por mais que o Príncipe fosse o noivo de sua irmã mais velha, gostaria muito que ele fosse bonito e fosse seu noivo. Mas ele sabia que isso era impossível.
Valenya era realmente uma cidade impressionante. Suas casas nada modestas e comércios para todo o lado confirmavam os boatos do povo Valen ser um povo rico.
Mas o que chamava mesmo a atenção era a colossal estrutura que se erguia por cerca de trezentos metros desde sua base até o topo. A Grande Pirâmide de Valenya, que era onde a Família Real vivia desde os tempos do primeiro rei dos Valen, o Rei Ross Valarr.
Ao chegarem à entrada da pirâmide, os membros da Casa Blu desceram de sua carruagem e foram recebidos por homens que vestiam armaduras douradas, provavelmente integrantes da Guarda Real.
— Sejam bem vindos, Lordes Sebastian, Quentyn e Thulio – disse um dos guardas, fazendo uma reverência em sinal de respeito – E bem vindas, Ladies Thalia e Strella.
— Obrigado, gentil cavaleiro, mas pensei que fosse o próprio rei que nos atenderia – disse Sebastian confuso.
— O Rei está se preparando para o banquete que irá dar as boas vindas a vocês. Assim como a Rainha e o Príncipe.
— E vamos ter que ficar esperando pelas madames aqui fora? – falou Thalia, cruzando os braços.
— Thalia! Olha o respeito – advertiu-a o pai. – Mil perdões pela impertinência da minha filha.
— Não deve se desculpar, senhor. Podem me seguir, os levarei até seus aposentos. E mandarei que os criados tragam seus pertences. – disse o homem da guarda real.
***
Para chegar aos ditos aposentos, os Blu tiveram que subir pelas intermináveis escadas da pirâmide. Quando chegaram aos quartos, mal podiam esperar para descansar um pouco. Mas Quentyn apenas pensava em explorar o local.
— Thay, vamos dar uma volta por aí? Ver o que tem escondido nesse lugar – disse Quentyn animado, chamando a irmã para um passeio.
— Nem pensem nisso! – disse Lorde Sebastian com uma expressão séria. – Vocês devem se comportar ao máximo aqui e se arrumarem para o banquete.
— Mas pai... – começou Thalia.
— Sem “mas pai”. Os criados virão em breve chamar vocês para o banho.
— Será que o Príncipe vai estar bonito? – Thulio perguntou para Strella.
— Não sei – respondeu ela secamente.
— Nossa, nem parece que vai casar com alguém da realeza – disse o irmão mais novo surpreso.
— Do que adianta me casar com um Príncipe se eu não o amo. – Strella falou cabisbaixa.
— Com o tempo, você vai aprender a amá-lo. – disse Sebastian.
— Pai, você não entende. Eu quero me apaixonar por alguém, conhecer essa pessoa melhor e depois, pensar em me casar.
— Querida, veja bem: se eu e sua mãe não tivéssemos nos casado, vocês não existiriam. Eu não a conhecia, muito menos ela conhecia a mim. Mas aprendemos a nos amar – explicou o patriarca Blu – Com você será a mesma coisa.
Seu casamento com o Príncipe mais tarde (talvez) poderia se tornar amor, mas seria um amor induzido. E isso ainda não era o que Strella desejava.
***
Na imensa Floresta do Norte, muitas coisas se escondiam naquela selva interminável e ninguém ousava ir até ao extremo norte de lá, onde em um penhasco, na borda do continente de Kyloth, ficavam as ruínas do Solar de Ferro, a antiga fortaleza de Orys, o Mestre das Trevas. Outrora um Ghenn poderosíssimo, mas que se tornou sombrio e a personificação do mal no Mundo.
Mesmo que de longe, a fortaleza aparentasse abandonada, as forças sombrias se moviam dentro dela. Vazia e abandonada. Era o que o inimigo queria que seus adversários pensassem ao observar sua casa.
De uma tumba nas sombras, a tampa do sarcófago coberto de musgo e folhas mortas foi arremessada para longe e alguém se levantou dela.
— É chegada a hora de meu mestre outra vez? – falou Sopespyam, o Cavaleiro de Águia traidor ao se levantar de sua cripta.
— O mestre chamou você – disse uma voz arrastada de uma criatura moribunda e deformada. Assim eram todos os membros do exército do Mestre das Trevas. Os Soldados.
Sem dizer nada, o traidor caminhou pela velha fortaleza como há muito não fazia. Ele chegou ao centro dela, onde uma ponte semi-destruída dava para um desfiladeiro, aonde uma parcela do oceano gelado do norte já chegava, no fundo dele. Lá em baixo.
— Estou aqui com um único propósito, meu senhor. Servi-lo em seu reinado de terror! – Sopespyam proferiu as palavras para o desfiladeiro e uma silhueta humanoide envolta por sombras saiu do abismo e ficou frente a frente com o traidor.
— A hora das trevas chegou mais uma vez! – a voz sombria de Orys quase não podia ser entendida – Você liderará todas as legiões.
— Mas e quanto aos únicos que ainda podem derrotá-lo ainda vivem no Deserto de Sal. Permite que eu mate! – implorou Sopespyam.
— Paciência, meu arauto da guerra e general de minhas legiões. Pois a morte chegará para todos. Convoque todas as tropas. Eles têm muito a fazer! – Ordenou Orys antes que sua sombra desparecesse no penhasco de onde veio.
O Cavaleiro traidor fez o que seu Mestre ordenara. Subiu até a torre mais alta do Solar de Ferro e soltou aquilo que todos poderiam reconhecer como sua risada maligna. Ela era extremamente sinistra, alta e acelerada. Ele convocara as forças de seu mestre, e aos poucos, uma incontável legião estaria no Solar de Ferro.
Fale com o autor