Crônicas de Ghost River #Wayhaught
33 Você está pronta para isso?
7 horas da manhã meu relógio despertou. 2003, Missa de sétimo dia do meu pai. Eu tinha chorado por dias inteiros. Eles deviam tirar a lei que a pessoa que atropela deve custear o tratamento, é um motivo a menos para eles darem a ré e terminarem o serviço. Espero que ele não tenha sofrido.
— Nicole, meu bem, chegou uma carta para você ontem, mas eu não sabia se te dava ou não. Você está em algum projeto de correspondência na escola e não me contou? — Perguntou minha mãe ao entrar em meu quarto. Eu estava terminando de pentear o cabelo e peguei a carta. Waverly Earp, Purgatory. Não fazia ideia de quem era.
— Desculpa, não sei do que você está falando. Alguém deve ter passado meu endereço porque a mãe não deixou participar do projeto. Não sei quem é. — Respondi.
— Tudo bem. A professora Tegan veio te buscar para vocês irem juntas à missa, eu não tenho condições de ir. — Me deu um beijo na testa e saiu do quarto. Rasguei a carta, mas mantive o endereço da remetente intacto.
"Olá, Nicole Haught. Será que você sabe quem eu sou?
Não sei se você vai receber essa carta e se receber, talvez receba em qualquer época da sua vida, só espero que você esteja bem. Mandei essa mesma carta para seu endereço de Maldito, na casa da sua avó, na igreja onde ela frequenta e no escritório de polícia onde você teve seu primeiro emprego. Em que ano você está lendo isso? Talvez você nunca possa me responder. Talvez depois que isso for enviado, eu nem exista mais.
Preciso te explicar algumas coisas.
Eu sou Waverly Earp ou Waverly Cryderman. Estamos no ano de 2017 e eu descobri algumas coisas sobre mim que deixaram assustada, mas você ficou ao meu lado o quanto pode e me deixou segura para fazer o que eu estou prestes a fazer. Meu avô teve 7 filhos e meu pai teve outros 7, o que me torna o 7º filho do 7º filho e eu descobri, em um dos piores momentos da minha vida que eu podia parar o tempo, aliás, eu posso viajar para o ano que eu quiser, além de pará-lo. A Dini ia matar minha irmã Wynonna e eu consegui parar a situação, não sabia que eu podia fazer isso. Depois que eu tirei Wynonna da cidade decidi que eu poderia fazer com que as maldições não fossem criadas. Talvez você não faça ideia do que eu esteja falando, mas não se assuste, quando você estiver lendo isso, tudo terá acabado.
Mexer com o passado é algo complicado, se eu fizer algo errado, eu posso deixar de existir, se isso acontecer você talvez nunca receba essa carta, mas nunca se sabe, né?
Quero que você saiba que o tempo que passamos juntas, mesmo que pouco, foi o bastante para eu perceber que eu podia ser muito melhor do que eu era. Você me fez sentir especial, única, amada e desejada. Mesmo que nenhuma lembre o que aconteceu, você precisa saber que é e sempre será o grande amor da minha vida. Em todos os infinitos minutos que eu me perdi em seus abraços me senti protegida e pronta para te proteger também.
Eu fiz o que eu pude para que você tivesse seu pai de volta, mas algumas coisas estão predestinadas a acontecer, então não tenho como garantir nada.
Me promete que em algum momento da sua vida você vai visitar uma cidade chamada "Purgatory"? Tenho certeza que você vai adorar beber onde o Wyatt Earp bebeu, é como um ponto turístico.
Você merece ter uma vida incrível, então faça tudo o que você tiver vontade.
Eu amo você, Nicole Haught e tudo o que vem junto, cada pedaço.
PS1: Se por acaso você vier visitar a cidade pergunte pela Mattie, ela vai saber onde me encontrar, caso eu existir.
PS2: Mattie é uma bruxa.
PS3: Sim, bruxas existem.
PS4: Eu vou sentir sua falta, em todos os momentos, mesmo se eu não me lembrar de você.
Até breve,
Waverly. "
Eu podia acreditar que alguém havia me escrito do futuro ou eu podia acreditar que alguém estava tentando me pregar uma peça, como a segunda possibilidade era a mais provável e eu não estava com cabeça para pensar nisso, tinha que ir para missa. Coloquei a carta embaixo do meu colchão e desci para encontrar a Tegan.
Os anos foram se passando e eu já tinha esquecido da existência daquele envelope. Quando eu ia entrar para o 3º colegial, minha mãe recebeu uma proposta de trabalho na nova unidade da empresa onde ela trabalhava e a gente iria morar na cidade da minha avó.
Era estranho começar em uma escola nova no último ano, mas então eu conheci Lizzie. Ela era sozinha, ninguém interagia com ela, então eu o fiz.
Parecia que ia tudo bem, nossa viagem de formatura estava programada e a sala inteira estava animada com o mês inteiro fazendo mochilão na Europa. No final do ano letivo, estavam escolhendo quem seriam os indicados para Rei e Rainha do baile. Nick, meu colega de turma me chamou e eu disse não. Lizzie pareceu ficar feliz com isso, mas eu não entendia muito bem o motivo, dias depois ela me chamou para ser seu par e eu não soube o que responder. Faltando 2 dias eu voltei à Maldito para separar alguns móveis que seriam doados, entre eles minha cama, encontrei a carta, abri o envelope e percebi que havia um bilhete além do papel grande.
"Acho que você vai precisar dessas informações: Você precisa ficar longe da Olivia Lorenzo, não preciso ter que lidar com ela de novo. Ok, deixa pra lá, ela foi importante para você antes de você me conhecer, mas de uma coisa eu tenho certeza, se você não se encontrar com a Clarissa Cohen e descobrir o primeiro nome dela, eu volto no tempo de novo só para te torturar."
Em teoria o grande amor da minha vida era uma mulher? Tudo bem para mim, só precisava saber se ela realmente existia.
Cheguei na escola no dia seguinte e disse sim para Lizzie. Demos nosso primeiro beijo dançando uma música lenta qualquer. Ela parecia gostar realmente de mim, mas eu não sabia como lidar com aquilo, não gostava dela "daquela forma". Era nosso baile de formatura, apesar disso, estava tudo perfeito. Minha mãe tinha me emprestado o carro, então a levei até a porta da casa dela e depois fui para minha.
Quando estacionei o carro percebi que a porta estava entreaberta. Minha mãe sempre deixava muito bem trancada, aquilo era estranho. Olhei a sala, ninguém estava ali. Se eu gritasse talvez fosse pior. Corri até a casa da minha avó que era no final da rua e liguei para polícia. No dia seguinte minha mãe foi à delegacia tentar reconhecer o assaltante que havia escapado, fiquei esperando ela sair e logo me lembrei da carta.
— Oi, eu sou Olívia. — Estendeu a mão- Estou esperando meu pai sai para levar a gente para jantar. — Segurei a mão dela e apertei — Esse é o Chris.
— Prazer, Nicole.
Antes que a gente pudesse iniciar uma conversa de verdade, os policiais começaram a sair e logo o barulho da sirene preencheu o local.
— Pai, o que aconteceu? — Perguntou Olívia para o homem que apareceu no corredor.
— Um tiroteio num posto de gasolina. Já até deixei os bombeiros em alerta. — Entregou para ela uma nota de 100. — Vou demorar para voltar hoje. Pede uma pizza e deixa uns pedaços para mim. Tentei olhar onde minha mãe estava, mas não tinha uma boa visão dali. — Sua mãe está preenchendo uma ficha, daqui a pouco ela volta. Você foi muito esperta, percebeu os detalhes, seria uma boa detetive.
— Detetive é muito suspense e pouca ação, não faz muito meu tipo. -Respondeu tirando o bracelete que começava a me incomodar.
— Você não sabe nada sobre ser detetive, então... -Disse Lorenzo com um meio sorriso.
— E o que faz seu tipo? — Perguntou Olívia se inclinando um pouco em minha direção. -Partir para ação direto?
— Um equilíbrio de suspense e ação. — Me levantei ao ver minha mãe passando pelo corredor. O homem sorriu com a conversa como se achasse graça e voltou para a sala dele.
—
— Então parece que você encontrou sua vocação. — Lorenzo encostou a mão em meu ombro.
— Não quero ir comer pizza com a gente no Sky? — Se levantou, então pude ver que ela era quase da minha altura.
— Acho que é melhor minha mãe não ficar sozinha hoje. -Olhei para minha mãe. — Tudo bem? A gente pode ir?
— Tudo bem. Se você quiser ir com eles, pode ir, vou dormir na sua avó. — Não era como se eu não estivesse com fome, então aceitei a oferta. Quando ela foi me deixar em casa, pediu meu telefone, anotei o número no celular dela e nos despedimos. Na tarde do dia seguinte ela me ligou e marcamos de nos encontrar na biblioteca. Conversamos, rimos, compartilhamos músicas, opiniões políticas e, como esperado, nos beijamos. Isso durou algumas semanas, até eu fazer a viagem de formatura.
—
Estava com a Lizzie e mais algumas pessoas no Pub "The Full Moon and Attic Bar", em Bristol. Bebíamos e tentávamos rir de algumas piadas que o Nick contava. Eu estava cansada da viagem e ele não ajudava muito. Fui até o bar e pedi um energético com Whisky, quando me virei, segurando o copo, derramei um pouco do líquido em uma moça. Ela pareceu ficar irritada, mas não muito. Tentei me desculpar e secar seu vestido, mas tudo parecia piorar a situação.
— Já chega, não tem mais como evitar a mancha. — Falou um pouco alto devido a música. Com certeza ela não era da Inglaterra.
— Eu faço questão de mandar para a lavanderia. Me dá seu número para a gente combinar amanhã. — Entreguei meu celular com a tela de "contatos" aberta. Ela anotou o telefone e me devolveu o aparelho.
— Isso tudo foi um plano para pegar meu número, né? — Fez sinal para a bartender para trazer um Chopp.
— Antes fosse, não ia me sentir tão culpada. — Respondi e fiz a moça anotar na minha comanda a bebida dela. — A propósito, eu sou Nicole Haught.
— Wynonna, Wynonna Earp. -Estendeu a mão com o copo para brindarmos. — Mas só para avisar, acho que sua namoradinha está com ciúmes. -Apontei para Lizzie nos encarando.
— Ela não é minha namorada.
— Melhor você avisar para ela. — Sorriu e saiu do bar. Terminei de beber o que tinha em meu copo e pedi outro.
No dia seguinte, liguei para Wynonna e fui até o albergue onde ela estava hospedada, antes que ela pudesse me ver, consegui assistir ela discutindo com um homem. Logo ele saiu e ela se jogou no sofá da área coletiva.
— O que aconteceu? — Perguntei me sentando ao lado dela.
— Passei a noite com ele, mas ele parecia não entender que foi "só a noite". -Revirou os olhos.
— Vim buscar seu vestido. -Avisei, me sentando de frente para ela.
— Ah, esquece ele. A essa altura deve ter umas partes rasgadas por causa da noite de ontem. — Deu um meio sorriso safado.
— Tudo bem, então. — Me levantei.
— Ei, fica. Sabe jogar pôquer? -Apontou o baralho em cima da mesa.
— Sei.
— E pôquer espetacular? — Me entregou uma garrafa de cerveja e pegou outra para ela. Nos sentamos.
— Não faço ideia. Tin tin. — Peguei o baralho, então começamos a conversar sobre assuntos variados. -... Então você até que mora perto de mim, que estranho.
— Vamos jogar só pôquer, então. Você veio para cá a passeio?
— Viagem de formatura e você?
— Meu tio, Curtis, não me aguentou mais e me deu um ultimato para arrumar um emprego. Vim para cá como Au pair, mas com duas semanas de trabalho me mandaram embora, porque eu tomei todas as bebidas do bar deles. Como meu tio não sabe, continua me mandando dinheiro.
— Então você mora com seu tio? Straight Flash. -Avisei colocando as cartas na mesa.
— Eu, a Gus, que é a esposa do meu tio, meu tio e minha irmã Willa.
— Você se dá bem com sua irmã? Não me dou muito bem com a minha. — Peguei o monte e entreguei para Wynonna.
— Como somos só nós duas, não tem muito problema. Ela trabalha no bar do Tio Curtis, então todo dia a gente tem uma garrafa de rum ou tequila para beber. Não tem como não gostar de uma irmã dessas.
— Dividir bebida é um ótimo jeito de manter uma amizade. — Levantei minha garrafa para brindarmos novamente.
— Quais seus planos quando acabar sua viagem? Faculdade? Mais viagem? Cometer um crime e ficar por mais 20 anos pensando no que quer fazer da vida? Eu estou pensando na última opção. — Deu um riso de deboche. Joguei uma almofada nela. — É sério. — Jogou a almofada de volta.
— Queria ser juíza ou policial. Sabe? O cara que matou meu pai já saiu da prisão, mas meu pai continua morto, não é justo.
— Pelo menos ele pagou pelo crime. — Comentou. Percebi que ela ainda segurava o monte do baralho. Me levantei.
— Devem estar me esperando para almoçar, melhor eu ir. — Comecei a andar até a saída. — Espero que seu oficial de condicional seja bacana.
— Eles nunca são. — Respondeu abrindo o portão.
— Quando você quiser conhecer uma cidade estranha chamada "Maldito" me avisa. — Anotei meu celular e o telefone da minha casa num papel e entreguei a ela. — Acho que eu vou passar uns dias lá antes de decidir o que eu vou fazer da vida.
— E por que você iria para uma cidade com um nome desses? — Perguntou segurando a lateral do portão.
— Nasci lá. — Dei de ombros e sai.
Na semana seguinte estava com a Lizzie e Nick na Abbey Road e Wynonna começou a me ligar.
— Haught, eu sei que não somos exatamente amigas, mas estou precisando de uma ajudinha. — Deu um sorriso sem graça. O que será que tinha acontecido? — Vou te passar um endereço por mensagem, venha o mais rápido que puder, — Fez uma pausa curta — E traz alguma coisa para eu comer.
Fale com o autor