Crônicas de Ghost River #Wayhaught
7 Destilando seu andar
Eu tinha passado a semana esperando alguma mensagem da Waverly, mesmo sabendo que ela não ia mandar. Afinal, ela tinha namorado, o que eu tinha na cabeça? Culpa da Clarissa, claro. Eu não estava apaixonada, não havia a menor possibilidade disso, eu mal tinha conversado com a menina. Não, eu não estava apaixonada. Estava ansiosa. Era fácil de gostar dela, ela era simpática com todo mundo e eu apreciava pessoas simpáticas. Por causa dessa espera sem fundamento meu humor já não estava dos melhores,
No caminho de volta para a casa meu celular começou a vibrar, mas eu não podia atender enquanto dirigia, quando abri a porta de casa, Clarissa estava lá dançando "Raise your glass" com a Sybil. Comecei a rir. Ela ainda não tinha me visto.
— Sério que é isso que você faz quando ninguém está vendo? — Falei um pouco mais alto, para que ela pudesse me ouvir.
— Finalmente você chegou! Sybil já dançou muito. — A deixou no sofá, abaixou o som e veio me comprimentar.
— O que você veio fazer aqui? O oeste virou interessante para você de repente? — Perguntei pegando água e colocando no pote da Sybil.
— Na verdade a cidade grande perde um pouco da graça quando você não está lá. — Disse como se estivesse me escondendo algo. — E outra, desde quando eu preciso de motivos pra vir? Eu tenho a chave. — Virou as costas e foi até a cozinha.
— Certo, me diz o que aconteceu e isso não é uma pergunta. — Peguei um pedaço da torta que estava em cima da mesa, provavelmente minha avó tinha feito e Clarissa trazido.
— Sabe o menino que eu estava ficando? Ele apareceu bêbado em casa, começou a falar umas besteiras, o Charlie bateu nele, os vizinhos ouviram a briga, chamaram a polícia, eu não sabia o que fazer, peguei o carro e quando vi estava aqui. — Mostrou a camiseta que estava usando — Inclusive essa roupa é sua. — Sorriu.
— Você tem roupa sua no armário do quarto de hóspedes. — Comentei, estendendo a mão para baixo para pegar a gata que estava tentando subir em minha perna.
— Mas as suas são mais legais. — Franziu a testa como se meu comentário tivesse dito um absurdo e foi olhar o forno.
— O que você colocou no forno? — Tentei olhar de onde eu estava sentada, mas foi inútil. — E quem fez essa torta? Achei que fosse da minha avó.
— E é, ela fez para mim. — Riu sabendo que eu ia ficar com ciumes.- E no forno é a sua janta. Eu abri os armários e só achei coisa enlatada. Qualquer dia você vai cair dura no chão. — Cruzou os braços.
— Desde que horas você está aqui? — Me levantei e abri os armários que estavam cheios de comida que eu não havia comprado.
— Posso dizer que eu vi todos os programas de culinária da manhã. Inclusive se isso — Apontou para o forno — ficar ruim, não me culpe.
— Tudo bem. — Fui até o banheiro para me trocar e falei de lá — Você já ligou para seu irmão para saber o que aconteceu?
— Charles sabe se virar. — Fingiu que estava tossindo.
— Liga para ele agora.
— Ok, mãe. — Ironizou o "mãe".
— Ei, era você que estava me ligando? — Terminei de me trocar e voltar para a cozinha, ela estava com o telefone na mão, esperando alguém atender.
— Não. — Avisou e sorriu correndo para pegar meu celular.
— Ai meu Deus. Você não me disse que estava pegando a garçonete! Como assim? — Bateu em meu ombro, esperando eu falar.
— O quê? — Peguei o celular da mão dela.- Ai meu Deus! Ai meu Deus! — Parei e a encarei. — O que eu faço? Ligo de volta? Espero ela me ligar?
— Manda uma mensagem e diz que você não podia atender. Só. — Abriu o forno e tirou a forma de dentro.
— Ok. — Peguei o celular e enviei "Estava dirigindo, não podia atender." Esperei ela me responder. Deixei o celular no último volume. — Obrigada por ter vindo, Clari.- Ela me olhou estreitando os olhos.
— O que aconteceu? — Largou o que estava fazendo e ficou de frente para mim, para me ouvir.
— É um pouco difícil — Olhei para cima e respirei fundo — É um pouco difícil trabalhar aqui. Não poder voltar para casa. Ser tratada mal e passar o dia fingindo que está tudo bem. — Fiz uma pausa para me recompor e continuei — Mas dá para aguentar, só espero que melhore e eles comecem a confiar em mim ao ponto de me contarem exatamente o que acontece por aqui.
— Se eu tiver que te ajudar, mandar alguém para longe ou qualquer coisa, só me avisa para eu preparar um plano. — Mexeu os ombros, como ela sempre fazia, um para a frente e outro para trás. Pegou os pratos no armário e nos serviu.
Waverly não respondeu minha mensagem.
No dia seguinte saí com a Clarissa para almoçar na cidade. Minha avó me ligou dizendo que estava no hospital, mas que minha mãe estava lá com ela, que eu não precisava me preocupar, era apenas a "pressão".
— Aquele não é o namorado da sua namorada? — Apontou para o Champs descendo do carro. Quando olhou para o outro lado, Waverly descia da parte do passageiro.
Eu ia tentar sair sem que ela me visse, mas nesse momento o garçom chegou com nossos pedidos.
— Como eu estou? — Perguntei, começando a ficar nervosa.
— Está uma delícia, só faltou o chapéu.
— Mas eu não estou de uniforme. — Peguei o garfo e fingi concentração na comida. Waverly não disfarçou que estava me olhando quando passou pelo corredor das mesas.
— O que foi essa troca de olhares? Tô passada, amiga. — Waverly se sentou em uma mesa distante, mas de frente para onde a gente estava sentada. Clarissa começou estalar os dedos perto do meu rosto para eu virar para ela novamente.
— Planeta Terra chamando Nicole. — Olhei para ela sem saber o que dizer. Ela percebeu que eu não ia conseguir falar nada e disse: — Só come, antes que fique mais frio do que já está.
— Acho que eu vou lavar as mãos antes. — Respondi depois de alguns segundos de letargia.
Entrei no banheiro e abri a torneira, logo depois a porta se abriu. Waverly Earp. Fechei a torneira e fiquei de costas para a pia. Por uma breve fração de segundos eu não estava mais nervosa, só queria falar "oi" e saber se ela estava bem.
— Oi. — Sorri, a encarando — Vi que você me ligou ontem, está tudo bem?
— Shorty's, hoje às 20h. — Ela realmente estava muito mais nervosa do que eu, eu quase consegui pegar a respiração densa dela. Ela saiu.
Espera, Waverly tinha acabado de me chamar para sair?
Sai a passos largos do banheiro para contar para Clarissa, como se eu tivesse 14 anos.
— Eu vi que ela foi atrás de você. O que aconteceu? Se negar eu dou na sua cara.
— Ela me chamou para sair, eu acho. Hoje no shorty's às 20h.
— Você acha? — Levantou as sobrancelhas.
— Não sei e se ela precisar de ajuda com a segurança?
— Claro, com a segurança mental dela, só se for. — Olhou para onde a Waverly estava e comentou — Ela não para de olhar para cá. — Fez uma pausa- Pedi para esquentarem seu prato. Eu sei, não me agradeça.
Terminamos de almoçar e voltamos para casa. Pouco antes de me encontrar com a Earp me despedi de Clarissa que voltou para a cidade grande. Cheguei na porta do shorty's, Waverly estava segurando dois cafés.
— Você veio!? — Afirmou, mas quase perguntando, como se tivesse confusa ou surpresa de me ver realmente ali.
— Claro que eu vim. — Fiz pausadamente a pergunta em seguida — Por que eu não viria? — Ela mexia as mãos de forma que dava para ouvir o café balançando.
— Não sei, eu... — Me deu o copo — Pensei em dar uma volta, tudo bem para você?
— Tudo bem para mim — Peguei o copo e dei um gole. Estava quase frio, provavelmente ela estava ali na porta antes das 20h, mas o tempo também não ajudava manter o café aquecido e parecia que ia esfriar mais. Por incrível que pareça eu não estava tão nervosa quanto antes, o que foi bom já que ela parecia nervosa por nós duas juntas. Passamos uma parte do trajeto em silêncio. Era estranho, pois parecia que ela gostava de falar e muito.
Waverly parou de andar por um momento, parei junto com ela.
— Desculpa ter feito você vir, eu não sei o que eu estava pensando. — Começou andar rápido para o sentido oposto.
— Ei — Chamei, tentando parecer calma e simpática. Corri até ela e a fiz parar — Eu não vou forçar você ficar, mas se a gente já está aqui, por que não conversamos? — Fiquei de frente para ela, mas mantendo uma certa distância para não parecer que eu estava coagindo ela ficar. — A gente pode falar sobre qualquer coisa. A Chrissy me disse que você ajudou a decorar o apartamento dela. Você pode me contar como é trabalhar no shorty's ou o que aconteceu naquela noite. Qualquer coisa, o que você quiser... se quiser.
Pela primeira vez na noite ela sorriu e pareceu estar menos escorregadia. Ela não parecia com vergonha de estar ali, comigo, já que sempre mantinha o contato visual. Ela realmente queria estar ali, mas não sabia como agir. Não era como se eu soubesse exatamente o que falar, mas me manter firme e segura na situação. Alguém tinha que estar.
Eu não fazia ideia do que ela estava falando da decoração, mas era divertido vê-la animada falando sobre algo que ela sabia bem. Às vezes ela citava algo sobre algum fato que aconteceu na escola, ligado a ela e a Chrissy ou a ela e o Champs.
— Chrissy tinha me dado uma vaga ideia do que ela queria, mas quando ficou pronto ela disse que ficou melhor do que ela tinha imaginado. — Ela gostava de falar. Ela falava muito. Muito mesmo. — Desculpa, estou te entediando. — Disse com a voz menos empolgada do que há 2 segundos atrás.
— Claro que não, muito pelo contrário. Estou gostando muito de estar aqui com você. — Me limitei a dizer, para não forçar a barra. — Que tal você me dizer o que consegue fazer em um quarto sem decoração nenhuma, que só tem uma cama e uma cômoda? Eu acabei de me mudar e não sei o que fazer com o espaço. — Ela sorriu e voltou a falar e fazer algumas perguntas.
Cada vez ficava mais frio e antes que eu pudesse sentir frio, vi que ela já estava ficando com os lábios mais escuros. Pensei em dizer para gente continuar a conversa outro dia, mas isso ia parecer que eu queria ir embora e definitivamente isso não era algo que eu queria. Chamar para minha casa parecia que eu estava insinuando algo.
— Nicole?! — Waverly me chamou, percebendo que eu voltei a ficar distraída.
— Desculpa, não quero que me entenda mal, mas eu percebi que você está com frio e eu não queria ir embora, só estava pensando em onde a gente poderia ir. — Ela olhou para os lados, a gente tinha andado por pelo menos uma hora e naquela parte não haviam estabelecimentos comerciais para o público. Apenas fábricas pequenas e casas cobertas pela neve.
— A gente pode voltar e ficar no meu carro? — Perguntou como se fosse uma proposta ruim e esperou minha resposta ou apenas estava me olhando, já que a gente já estava andando sentido ao shorty's.
— Acho uma boa ideia. — Retribui o sorriso que ela me deu em resposta. Estávamos andando mais rápido do que antes e ela continuava falando sobre as ideias dela para meu quarto.
Um quarteirão depois, senti meu celular vibrar, imaginei que fosse notícias da minha avó. Avisei que eu precisava atender.
— Oi, Tegan. O que foi? — Waverly cruzou os braços, demonstrando sentir mais frio do que minutos antes. Precisei parar de andar para escutar melhor a ligação que estava muito ruim.
— Sua avó teve alta, pode ficar tranquila. Eu vim à casa dela buscar uma roupa de frio, como eu achei que você ficou sem notíciais o dia todo, resolvi avisar.
— Entendi. Não sei o que eu faria sem você. De verdade. Obrigada por ter ligado. Pede para Aadya já deixar a cama arrumada. — Waverly estava mais inquieta, mas dessa vez não parecia ser do frio.
— Pode deixar. Vou voltar para o hospital. Dorme bem.
— Ok. — Desliguei a chamada.
— Está tudo bem? — Perguntou, voltando a andar.
— Tudo bem. Acho que eu preciso de um chocolate quente. — Perguntei, em tom de convite.
— Eu não quero atrapalhar seus planos, então acho melhor eu ir para casa. — Começou andar mais rápido do que suas pernas aguentavam sem correr, logo ela se desequilibrou no salto, devido a neve. A segurei por trás, passando meus braços embaixo dos dela. — Obrigada. — Dessa vez ela não conseguiu manter contato visual.
— Olha, você não precisa fugir. — Pensei em prolongar a frase, mas desisti. Apenas avisei. — Vou com você até o shorty's e você vai para seu carro eu vou para o meu. — Tentei ser o mais gentil possível, embora estivesse um pouco chateada. Ela não falou mais nada até chegar no bar, parecia querer guardar as palavras só para ela. Não queria forçar algo que não era meu direito.
— Obrigada por ter vindo e desculp ... — Se interrompeu — Boa noite.
— Você pode me avisar quando chegar? Senão eu vou achar que você congelou no caminho. — Coloquei as mãos nos bolsos e deixei transparecer que eu estava triste por ir embora.
— Mando. — Gaguejou um pouco, como fez no primeiro dia que a gente conversou — Se eu lembrar. — Voltou a cruzar os braços e foi para o carro dela.
Esperei ela ligar o carro e virar a esquina. Cheguei em casa conferindo o celular. Nada.
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