Crônicas de GangWolfin
1 Haverá um tempo
“E haverá um tempo em que as criaturas irão parar de lutar entre si para dividir as terras, e passarão a lutar juntas para defendê-la como um todo.” – Gáladihn, O Sábio Mago da Natureza.
Do alto, do espaço, da atmosfera, é possível ver claramente a pequena grande ilha de GangWolfin. Pequena perante aos Homens, grande perante aos Deuses. Um pedaço de terra flutuando no mesmo lugar há milênios. Protegida por quatro grandes torres que cercam suas extremidades, cada torre é guardada por um mago. A Torre Norte, é protegida por Tong-Hur, o Mago Espiritual, ou seja, o Mago de tudo que não está presente no mundo material; A Torre sul, protegida por Niynwhoy, o Mago da Matéria, o mago de tudo que está no mundo material, mas não do que possui vida; A Torre Leste, protegida por Gáladhin, o Mago da Natureza, ou seja, o Mago de tudo que possui vida, de tudo que respira e de tudo e um dia está destinado a morrer. E por fim, a Torre Oeste Raksfaar, Mago da Partícula, que possui o poder de controlar tudo que existe, existiu ou existirá. Juntos eles mantem a paz cósmica no pequeno pedaço de Terra de protegem, nunca nenhum mal jamais conseguiu adentrar no território de GangWolfin. Nunca. A ilha é povoada por diversas raças, dentre elas os Homens, os Lagartos Gigantes, os Lobisomens, os Fantasmas, os Demônios e os Coelhos Mutantes. Por muitos anos, uma guerra entre Coelhos e Lobisomens levou os Coelhos à quase extinção, raça que uma vez a cada 500 anos revelavam ao mundo, o Coelho Samurai. Um animal de mais de dois metros de altura, muito poderoso e habilidoso, que traria paz à raça dos Coelhos, mas durante a Guerra, não foi revelado nenhum salvador.
Foi quando veio o Necromante da Torre Leste. Gáladihn havia sido traído por seu próprio aprendiz, que o clonou e quase matou o poderoso mago. Um Necromante terrível que ameaçava destruir toda a Terra; Rompendo barreiras de inimizades e lutas, um grupo de guerreiros e magos se uniu para derrotar um grande mal que havia chegado à ilha. Um coelho, que fora nomeado Coelho Samurai, um Fantasma, um Lagarto, um Demônio, e um Homem, lutaram lado a lado contra o Necromante e seu terrível exército liderado por Kohrus, um Lobisomen que vivia nas montanhas ao Norte, mas depois de derrotados, os Lobos se exilaram na montanha e de lá nunca mais saíram. E Kohrus nunca se esqueceu do Coelho, seu maior inimigo.
Depois da derrota do Necromante, os guerreiros se separaram, foram para caminhos diferentes e muitos deles nunca mais voltaram a se ver, até que fosse extremamente necessário. E essa necessidade vira à tona... Agora.
CRÔNICAS DE GANGWOLFIN, Por Lucas “Coelho Samurai” Casagrande
Em uma região pouco povoada e montanhosa do Sul, frio e calmo, está uma esquecida Prisão para Criminosos Insanos, só uma dica, aquela região não é apropriada para passeios em família. O número de carcaças de animais e criaturas mortas deixa o lugar muito malcheiroso e cheio de abutres e animais carniceiros. Além da névoa perturbadora vinda das rajadas de enxofre da região deixam o clima nem um pouco agradável. Os vulcões ativos situados próximos à prisão deixam o alto quente como o inferno e o solo frio como neve. Dentro dessa prisão, na sala do Diretor Clancy, temos um sujeito admirável e bem vestido, com uma barba por fazer e um cachimbo longo preso nos lábios, que seria o próprio diretor. Aos seus lados, temos dois guardas carrancudos que parecem até que são feitos de pedra, e à sua frente, um sujeito muito baixinho, uniformizado, uma espada preza a cintura e um peito cheio de medalhas de ouro e prata. O General Florestom.
– Temos que leva-lo, é nossa última opção – Disse o General, se apoiando sobre a mesa de madeira. – Não pode mantê-lo aqui para sempre, ele é um herói de Guerra.
– Pode leva-lo quando quiser General, Mas ele não quer sair daqui, ele acha que aqui é seu lugar agora. Acredita que pode ensinar à esse bando de psicopatas assassinos alguma coisa, alguma coisa dolorosa pelo visto. – Respondeu o diretor, dando mais uma tragada no fumo de seu cachimbo. – E além do mais, duvido que ele escute você, o guerreiro que conhecia se transformou num anarquista, não escuta mais ninguém.
– Pelo menos me deixe falar com ele, posso tentar convencê-lo.
– Já disse, fique à vontade quanto isso General, mas não crie muitas expectativas. Aceita uma bebida, uma cerveja ou um hidro mel talvez? – Disse o diretor se levantando e caminhando por trás do General até o pequeno baú que utilizava como bar.
– Não, obrigado, eu não gosto de bebida. – Disse o general, sem se virar. – Você me disse que ele ainda estava em forma. Como posso ter certeza disso?
– Veja por si só. A luta vai começar.
– Que luta?
Ouve-se um gongo muito forte vindo do lado de fora da sala, um estrondo muito forte cortou toda a agitação que podia se ouvir de fora da ala da Administração, e depois de segundos gritos ainda mais fortes ecoavam pelas paredes da enorme prisão de aço e pedra.
– Acompanhe-me. – Disse o Diretor, abrindo a porta e sendo escoltado pelos guardas que ao saírem das salas empunharam suas espadas. Os quatro andam pelos corredores do Prédio administrativo. – Veja bem, de tempos em tempos colocamos nosso justiceiro mamífero gigante para lutar com os outros presos, em cinco anos ele nunca foi derrotado, nem uma única vez, os outros presos usam espadas, arcos e flechas, adagas, lanças, mas nada pode deter... – O diretor abre as enormes portas de madeira das quais separavam eles da grande arena da prisão. – O COELHO SAMURAI.
O general adentra ao salão e vê dezenas de prisioneiros atrás das barras de ferro e grades que cercavam o campo de batalha da arena, soldados e guardas enormes por todos os lados, mantendo a ordem, “Quem seria estúpido o bastante para fugir daqui com aquele coelho ali?” Pensou o general. Dentro do campo de areia fina e escura, estava um sujeito todo marcado por pequenas cicatrizes de facadas ao redor do corpo e olhos sanguinários assassinos. “Eu não teria chance com esse aí” Pensou mais uma vez o general Florestom. O homem era enorme, pesava uns 120 quilos de músculos e aparentava estar morrendo de raiva e angústia, atrás dele estava um enorme paredão de madeira, com diversos tipos de armas, facas, machados, espadas, lanças. Ele escolheu cuidadosamente, uma espada que cortava o vento tão precisamente que era possível tocar uma sinfonia inteira com aquele pedaço de metal perfeitamente afiado. Do outro lado da arena, caminhando a passos leves e precisos, se aproximava do oponente uma criatura enorme, medindo dois metros e treze centímetros, pesando noventa e quatro quilos, e com o corpo inteiramente cicatrizado calejado. Um corte profundo no olho esquerdo marcava a frustração de seus dias treinamento. Ele veste apenas um short de pano velho e sujo, e sua respiração é inaudível, sua concentração é extrema, seus punhos se flexionam no ar, e ele olha cuidadosamente para seu oponente, que já bata a cabeça no chão de tanto esperar. Ouve-se o gongo mais uma vez. O homem ensandecido corre em direção ao Coelho, chacoalhando sua arma para qualquer direção, completamente sem rumo. Com um leve impulso dos pés enormes, o Coelho salta por cima de seu oponente, e com um giro cambalhota o guerreiro aterrissa do outro lado. O bruto continua correndo até acertar a cabeça na parede. Era possível ver o Coelho balançando a cabeça de forma negativa, reprovando a falta de concentração de seu oponente. O homem se levanta, e com a cabeça aberta e sangrando ele continua correndo e balando o pedaço de metal afiado para todos os lados, sem saber o que fazer a não ser acertar algo, de preferência a carne macia e calejada do Coelho, mas mesmo assim sem nenhum resultado positivo. O Coelho desvia, segura a mão do oponente e num golpe único e rápido, ele quebra o pulso do homem, desarmando-o. O Coelho toma certa distância e com um salto e um único chute vindo por cima até a o pescoço do homem, ele cai inconsciente. “Chamem um médico pra esse homem” ele gritou, e caminhou até a porta de saída da arena ao som de aplausos e gritos.
– O que acha? – Perguntou Clancy.
– Bom, ele sabe lutar com brutamontes desmiolados, vejamos se aguenta um guerreiro de verdade, ou um exército inteiro.
– Está de brincadeira? Eu já lutei ao lado dele, já o vi derrotar frentes de batalha inteiras, completamente sozinho. Ele e seus sabres.
– Ele ainda tem os sabres?
– Aqueles banhados em lago sagrado na vila dos Coelhos, ele nunca se separa deles, menos aqui, ele se proibiu de lutar com armas.
– Me leve até ele. – Disse o general, quase que dando as costas para o diretor.
– Como quiser. – Disse o diretor, limpando seu cachimbo e observando os soldados levarem os criminosos de volta às suas celas.
Novamente, os quatro caminham pelos corredores, onde seus passos ecoam por todo o ambiente até chegarem a uma ala específica e bem iluminada pela luz do dia que está sempre nublado. Os dois guardas param em uma porta, cada um deles se posiciona em um lado diferente, e um deles gira a chave na enorme fechadura, a porta se abre com um rangido agudo e estridente. Ao fundo da cela escura, um Coelho faz flexões com uma barra presa no teto, o feixe de luz causado pela abertura da porta revela suas costas cicatrizadas e com poucos pelos, gotas de suar pingam no chão de pedra fria.
– A que lhe devo a honra da visita, Diretor Clancy? – Disse uma voz grave e assustadora que vinha de dentro da cela.
– Johann, eu trouxe o...
– General Florestom. Que prazer em revê-lo, meu velho amigo. Como vão as crianças?
– Oi Johann, — Disse o General – Estão bem, crescendo. – Johann continuava com o exercício.
– Por que estão aqui? – A voz de Johann era muito grave e pesada, como de alguém que sofrera física e emocionalmente a vida inteira.
– Precisamos de sua ajuda, mais uma vez. – Disse o General. – As Quatro Torres estão se apavoradas, Tong-Hur acredita que as trevas irão surgir do inferno para nos destruir. Raksfaar previu grande ruína para...
– Se o medo de Raksfaar e Tong-Hur é o inferno, creio que essa informação não seja verdadeira, além do mais, não é possível que as trevas retornem. O único que poderia trazer o inferno para cá seria... – Johann desce das barras e se vira para a porta – Mstlavy.
– O pai de seu amigo, Ross, se não me engano – Disse o General.
– O que Mstlavy pretende conosco? – Perguntou Clancy.
– Ele vai trazer seus filhos para cá. Lideraram um exército que nem mesmo o Clone de Gáladihn poderia imaginar. – Disse Johann. – O que querem que eu faça?
– Esteja pronto para o combate.
– Mas eu não posso detê-los.
– Você é o Coelho Samurai — Disse o General. – Claro que pode.
– Eu desisti desse fardo.
– Pode ter desistido para si mesmo, mas perante aos Deuses você ainda é o Coelho Samurai.
Johann estava aflito com as palavras do General, derrotar o Necromante de Gáladihn já havia sido um pesadelo, o que dirá derrotar um exercito de demônios, ele sabia que não podia abandonar a todos, e sabia também que não podia fazer isso sozinho. Ele volta para a escuridão de sua cela, e depois de alguns minutos, ele surge porta afora, vestindo sua velha armadura samurai, com o grande símbolo dos Coelhos Samurais estampado no peito e no elmo, e com os sabres presos às bainhas em suas costas.
– Eu vou, mas vai ser do meu jeito.
– O que quer dizer? – Perguntou o General.
– Quero dizer que não farei isso sozinho, preciso de meus amigos.
– Vai conseguir encontra-los? – Perguntou Clancy.
– Acredite em mim, os conheço melhor do que ninguém, sei onde estão, irei acha-los e eles irão comigo.
– Certo. – Disse o General. – Reúna eles e vão para o Norte, Tong Hur e os outros magos estarão lhes esperando.
– Eu irei, quanto mais cedo sair, melhor.
– Vai atrás de quem primeiro? – Perguntou Clancy. – Do Fantasma, do Demônio, do velho?
– Do Lobo. – Disse Johann.
– O QUÊ? – Disse o General. – Você enlouqueceu, ele odeia você, por que te ajudaria?
– Por que a vida dele também depende disso. Se Kohrus quer ficar com essa rixa infantil pelo resto de seus dias, tudo bem, mas ele é um dos melhores guerreiros que eu conheço, ele vai me ajudar, e vou pedir uma trégua pelo tempo necessário. – Johann dá as costas ao General e ao Diretor Clancy. –Vá atrás de Jedediah.
– O velho feiticeiro? – Disse o General.
– O próprio. Nos vemos no Norte, General.
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