Crônicas de GangWolfin
4 A Sala de Pedra
Uma grande mesa de madeira dentro de um salão de pedra é o local da reunião, dentro do perímetro cercado de frias pedras escuras dos rios do sul, estão: Johann, o Coelho Samurai, um animal de dois metros com treinamento ultra avançado em artes marciais recém saído da aposentadoria e pronto para tentar recuperar sua honra. Khorus, um Lobo das Montanhas, arqui-inimigo do Coelho, ele trás consigo sua fúria e sua dor, junto com um treinamento avançado em artes marciais assim como seu adversário. Ross, o 28° filho do demônio Mstlavy, o Rei do inferno, renegado e banido do inferno por crer no bem e na paz entre as raças, mago e mestre de magias obscuras e ocultas. Yra, um fantasma mal-encarnado caolho atirador de facas, que não erra nenhum disparo. Jedediah, um velho mago ancião, especialista na Magia Branca. Ward, um Lagarto negro de quase um metro e noventa, um guerreiro que atua na escuridão, se camuflando e derrotando seus inimigos de modo rápido e silencioso. Os quatro guardiões, o General Florestom e seus soldados. Tong-Hur se levanta e anuncia.
– Bem vindos, guerreiros, sou Grande Guardião Tong-Hur, e estou aqui para que possamos deter um mal que poderá destruir toda GangWolfin, trouxemos vocês pois são os maiores guerreiros que essa ilha já viu, derrotaram muitos adversários que colocavam em risco a segurança e a existência desse belo pedaço de terra sobre o mar que protegemos e amamos. Não existe ninguém melhor que vocês para defender GangWolfin mais uma vez. – Johann acende seu cachimbo, se levanta e começa a andar de um lado para o outro. – Creio eu que falo aqui em nome de meus companheiros Guardiões e em nome de cada ser em GangWolfin que respire. – Todos olhavam e ouviam cuidadosamente as palavras de Tong-Hur, enquanto contemplavam a beleza do salão de pedra ao qual se encontravam. – Deverão partir pela manhã, rumo ao Portão de Gamusn, que os levará ao Reino de Mstlavy, onde poderão deter o mal que está por vir.
– Ninguém nunca voltou do Reino “Sob a Terra” – Disse Jedediah – É impossível, só os Deuses sabem o inferno que é aquele lugar. – Ross dá uma leve cotovelada nas costelas de Jed, que se vira para ele com expressão de raiva. Mas Ross devolveu um olhar ainda mais ameaçador e apontou com os olhos na direção de Johann, que fumava seu cachimbo olhando pela janela, sentindo o ar gelado da noite penetrar sua carne através dos pelos chamuscados. Ele se esforçava para segurar as lágrimas.
– Creio que esteja errado, Mestre Jedediah – Disse Gáladihn – Creio que Mestre Johann já tenha comparecido ao outro lado do Portão de Gamusn, em rumo ao Reino Sob a Terra, e voltou vivo. – Ele não devia ter dito em voz alta. O Coelho continua na mesma posição, quase esmagando o cachimbo de madeira com as mãos.
– Sabe o que eu vi lá, Gáladihn? – A voz de Johann estava enfurecida.
– Não senhor. – Respondeu Gáladihn.
– Eu desci ao inferno para falar com meu mestre, tentar tirá-lo de lá. Ele merecia mais do que ser assassinado e condenado ao inferno. Assassinado pelos... Pelos... MALDITOS LOBOS DA NEVE.
– Calado, seu roedor desprezível – Gritou Khorus.
– Quieto você, seu carniceiro desgraçado, assassino. – Disse Yra.
– Fique calmo, fantasminha, vai fazer o que? Possuir meu corpo e tirar com a minha alma no braço?
– Deixe-o em paz, Khorus – Dizia Ross, entrando na frente de Yra.
– BASTA! – Gritaram Johann e Raskfaar juntos.
– Estamos tentando estabelecer uma trégua aqui, preciso que todos colaborem. –Disse Tong-Hur. – Estamos prestar a iniciar uma guerra contra DEMÔNIOS, entendem a gravidade da situação de nossa Ilha, vocês pelos sete infernos entendem? – Todos ficam em silêncio.
– Iremos para o Portão, só assim iremos conseguir mudar algo nessa história, eu saí de minha aposentadoria e deixei de sentir as dores que me atormentaram em todos os meus 362 anos de vida, e faço isso por todos vocês, e por toda GangWolfin. – Disse Johann.
– Ah, então agora você se importa conosco? – Perguntou Jedediah.
– Do que está falando Jed? São como irmãos para mim, a única família que me resta.
– Cinco anos Johann, cinco anos e você nunca deu um único sinal de vida, a única luz que via era a que vinha de fora da cela onde você dormia. Cinco malditos anos. – Disse Yra.
Johann parecia mais pensativo do que o normal, ele respira fundo e se afasta da janela de pedra. Ele caminha com suas enormes e felpudas pernas, saltitando levemente até uma mochila de couro, ele balança a mochila aberta sobre a mesa e despeja quase meia tonelada de papel pergaminho amarelado e pesado por causa da tinta.
– São todas as cartas que escrevi para vocês nos últimos anos. Todas voltaram. Eu escrevia toda semana, para todos vocês. – Jedediah e os outros olhavam abismados para o monte de cartas espalhadas na mesa de pedra. – Espero que possam lê-las agora.
– Johann, eu... Não fazia ideia disso. – Disse Jedediah, esticando o braço para pegar as cartas endereçadas a ele.
– Culpe os correios – Disse Johann, esboçando um sorriso, mexendo os bigodes tortos.
Os Guardiões se entreolhavam e o General e seus homens conversavam entre si. Khorus fazia uma expressão quase que emocionada, embora fizesse de tudo para não demonstrar.
– Bom, agora que já acertaram as contas do passado, podem se servir do banquete que será servido no salão do primeiro piso. – Disse Tong-Hur. – Serviremos carnes e sopas. – Todos comemoram e descem as escadas, menos Khorus, ele fica sentado à mesa e observando a janela e sentindo o vento frio que se aproximava mais. Ele se levanta e caminha até a janela, observando a escuridão das florestas e admirado pelo brilho da lua e das estrelas. “Desculpe-me, Pai”. Sussurrou ele.
– Lobo? – Disse Yra, ao fundo da sala. – Eu... Queria me desculpar pelo o que disse. Não quis te chamar de assassino de nada daquilo.
– Não lamente espírito. É isso o que eu sou, e sempre fui. Um assassino. Por isso sinto tanta inveja e ódio do Coelho, ele tem o que eu nunca tive: Uma família, amor de irmãos. – Khorus mal olhava para Yra.
– Mas você é um Rei, não é?
– Tudo que meus súditos me oferecem são respeito e temor. Nunca fui amado por ninguém, Ninguém soube o que é me aproximar de um indivíduo e o fazer gostar da minha companhia. Nunca na vida. Nunca em meus 109 anos.
– Bom você ainda tem mais uma oportunidade – Ele coloca a mão no ombro de Khorus. – Pode mudar isso, pode mudar a si mesmo e fazer com que os outros gostem de você. Pode começar agora. Sorria mais, seja prestativo.
– Hum. – Khorus bufa e sopra o hálito gelado contra a janela. – O mundo não precisa da compaixão de um Lobisomem amaldiçoado pelo ódio, espírito. Viverá por toda a eternidade, seus amigos e conhecidos morrerão, você ficará aqui e veja o que sua compaixão vai fazer a você. Você irá sofrer como um cão, como um mendigo implorando por comida. Amar só nos faz sofrer, espírito. E agora é tarde demais para renunciar sua estadia eterna entre os mortais pecadores. – Khorus encarava Yra com muita fúria os olhos.
– Tem razão Khorus, meus amigos morrerão, mas outros virão. Esses outros morrerão também, e mais outros virão. Eu nunca ficarei sozinho, triste por perdê-los? Talvez, mas cada um deles sempre estará comigo, não importa onde, ou quando. E você, morrerá amargurado, sozinho e infeliz. E sabe quem vai estar te esperando no céu? Ninguém.
– Eu não vou para o céu, meu camarada. Não é o meu destino.
– O destino de todos é o céu, quem não quer somos nós mesmos. – Yra dá as costas, e vai até a escada. – Eu ouvi o seu sussurro, Khorus. Não sei quem foi seu pai, ou o que ele fez, ou onde ele está agora. Mas eu lhe garanto que um dia você poderá resolver todos os seus problemas com ele, e quem sabe assim, viver em paz.
– Tolos buscam a paz. Eu busco o caos, pois é só o que me resta.
– Caos e tudo que Johann encontrou em sua vida, e mesmo assim ele nunca desistiu de encontrar a paz. É o lema dele.
– Johann é um FRACO! – Khorus se vira com raiva e grita. – NUNCA SERÁ MAIS FORTE QUE EU. NUNCA!
– Um dia Khorus, você será forte como um Coelho Samurai, e quando esse dia chegar, saberá que Johann é a criatura mais forte que você irá conhecer.
– Johann não é nada sem o Samurai Sombrio, eu o venceria numa boa, se nós lutássemos limpo, sem armas, sem armaduras, ele veria quem é o Mestre em Artes Marciais. Além do mais, ele não conseguiu aprender o segredo do Samurai sombrio antes do Mestre dele se matar não é mesmo?
Yra esboça um sorriso no canto de sua boca, com os lábrios trêmulos, e desce os degraus.
– Eu não contaria com essa informação, Lobo. – Os olhos de Khorus dobram de tamanho e sua respiração fica mais pesada. Ele olha para breu das escadarias e pensa. “Será?”
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