Crônicas de GangWolfin
3 A Junção dos Aliados
– VENHAM TODOS, PRESENCIEM ISSO, PRESENCIEM O GRANDE FEITO! – Gritava um homem de aparência forte e usando roupas de couro e um tapa-olho, no alto de um pequeno palanque em um vilarejo ao Centro de GangWolfin, uma vila minúscula chamada “Barnes”, que vivia em anarquia, cheia de casa de palha e madeira, um forte aroma de grãos cozidos e a litros e mais litros da melhor cerveja caseira que qualquer um sonharia em ter. No topo desse palanque, está um rapaz que não passa de seus trinta anos, uma barba por fazer, e sem dúvida, um guerreiro nato, a julgar pelo modo de como se vestia e pelas cicatrizes nos braços e no rosto, atrás dele um cartaz de papel: “O Grande Yra, o Mágico”. E ele volta a gritar: “VENHAM TODOS, PRESTIGIEM O GRANDE TRUQUE DA NOITE”. O palanque estava todo cercado por pessoas humildes que paravam seus serviços para ver a grande Mágica. O homem anuncia:
– Eu preciso de um voluntário, alguém? Alguém se habilita? – Com seu olho bom, ele observa os inocentes e ingênuos rosto de curandeiros, camponeses, taberneiros e mercadores, muitos acompanhados de seus filhos. Quando uma moça muito atraente levanta a mão e sobe ao palanque. – E temos uma dama muito corajosa aqui, me diga senhorita, você tem sangue frio o bastante para perfurar o peito de um homem usando uma espada? – Ela recua meio passo e se assusta com a pergunta, afinal, que tipo de “Olá” é esse? Mas crendo que se tratava de um mágico, ela arriscou.
– Posso tentar.
– Nossa, vocês ouviram isso? Ela vai tentar me matar – Todos riam – ah, meu doce, estou apenas brincando com você, é muito simples, você tentará me perfurar com este sabre. – Disse Yra, segurando uma espada muito afiada e levantando-a no ar para que todos ali pudessem ver que era uma lâmina real. – E o sabre irá atravessar direto por mim, mas sem me ferir. – Ele estende o cabo do sabre até chegar ao encontro da moça. – Segure isso pra mim.
A mulher, ainda meio que assustada, segura o cabo do sabre sem muita técnica, e o posiciona para atacar. Yra abre os braços e olhando confiante para a moça ele diz: “Me ataque”.
Ela fecha os olhos e dando um impulso com o corpo ela enterra o sabre no peito de Yra, mas nada acontece, e somente ruídos de espanto e surpresa, a moça abre cuidadosamente um olho de cada vez, larga a espada e cai sentada no chão, totalmente pálida. A lâmina estava enfincada no peito de Yra, que continuava em pé. Ele se vira para a plateia.
– Vejam só, nenhum sangue, nadinha. – Ele tira a espada do peito – Se puderem contribuir com algumas moedas depois desse belo truque, eu ficarei muito agradecido. – Disse ele enquanto tentava contar as moedas de ouro que caíam aos seus pés. A moça se levanta e caminha até Yra pra ter certeza de que ele estaria bem, ela parecia ainda muito assustada.
– Minha linda dama, não se assuste. Pode por as mãos em meu peito, é sólido, feito de carne e ossos. – Ela assim o fez, ele era mais alto que ela, e a olhava nos olhos enquanto ela amaciava seu colete de couro. – E três, dois, um. – Ela atravessa Yra e quase cai no chão, mas ele se vira, pega em seu braço e a puxa de volta, o que fez com que mais moedas voassem para perto de seus pés. Segurando a bela moça pelos braços, ele coloca seu rosto em frente ao dele.
– Não se machuque tudo bem? – Ele sussurra. A moça corara no tom mais vivo de vermelho, e depois desce do pequeno palco. Yra recolhe as moedas e ajeita seu tapa-olho.
– MUITO OBRIGADO, EU AGRADEÇO DE CORAÇÃO – Grita ele, dando alguns passos para trás e passando por debaixo de uma cortina de pano atrás do cartaz do palco, ele adentra uma barraca de pano e madeira, dentro dela está uma criatura vermelha e muito forte, com pequenos chifres no topo de sua cabeça, e um rosto muito feliz.
– É tão cruel para minha alma, ver você roubar dinheiro dessas pessoas assim. – Disse a criatura.
– Muito pelo contrário, Ross. – Disse Yra, colocando suas vestes de couro em um manequim de costura de pano e enchimento de palha. – Eles pagam por truques, coisas falsas e planejadas, eu sou um fantasma, posso mudar de densidade quando quiser, não é um truque. Eles pagam por um serviço honesto, e não me venha com essa “cruel para a sua alma”. Você não tem alma.
– Desse jeito você me ofende, eu troquei um trono e um reino inteiro pela bondade e pela paz. Enquanto você decidiu ficar na terra após sua morte para quê? Enganar os outros?
– Não, Ross. Eu escolhi ficar pra poder viver grandes aventuras, eu ainda não tinha vivido tudo o que eu queria, e tive a chance de ficar aqui e ser um aventureiro para todo o sempre.
– Que meigo.
Yra olhou com cuidado para o amigo, que parecia chateado.
– Está tudo bem, Ross? – A fera olhou para Yra com seus temíveis olhos amarelos e hesitou.
– Temo que meu pai queira trazer meus irmãos para cá, ele disse que se vingaria por eu tê-lo desonrado.
– Você não desonrou seu pai. Você fez uma escolha.
– Sou o filho caçula de 27 irmãos, de um pai que no caso é o Rei do Submundo. Minha escolha foi optar a paz ao invés do caos, a liberdade ao invés da escravidão, e usar a magia para um bem maior. E por isso, meu pai me baniu do inferno e me colocou entre os mortais, tenho mais de mil anos aqui neste mundo, Yra, você tem uns 200 e Johann tem mais de 300, e ele morrerá aos oitocentos e poucos.
– Como sabe disso?
– É a idade onde os coelhos chegam, bom, os mutantes. – Eles se entreolham
– Não se culpe pelo o que aconteceu, você é bom, Ross. Um bom amigo, um bom soldado, uma boa alma.
– E quanto ao papo de “você não tem alma”?
– Esqueça isso, alma não é algo material, é algo simbólico. E no seu caso, é algo que nenhum dos quatro magos seria capaz de entender.
– Obrigado, Yra. E então, quanto conseguiu?
– Ah, vejamos agora. – Yra abre uma pequena bolsa de couro que usara para recolher as moedas quando se depara com um envelope de pergaminho embrulhado com o selo Real e um laço de fita vermelha e uma azul. – Uma carta do Reino do Stonewear? O que faz aqui?
– Ah, isso. Foi endereçado pra você, resolvi não abrir pois isso seria—
– Errado?
– É, errado. – Ambos esboçam um leve sorriso. Yra desfaz os nós dos laços e arrebenta o selo de cera com o brasão real, e começa a ler a carta. Ross rapidamente suspeitou que Yra havia se calado e tinha uma expressão de extrema preocupação no rosto, o olho bom de Yra estava vidrado no papel pergaminho alaranjado.
– Ross. – Diz ele.
– O que é?
– Se o seu medo é que seu pai volte com seus irmãos para cá, ele se realizou.
– Do que está falando? – Ross se levantou da cadeira, horrorizado.
– É o que diz aqui. “O terrível Mstalvy pretende vir ao nosso mundo, ao lado de seus vinte e sete filhos para espalhar o inferno, a morte e o caos, devemos agir rápido, estou convocando você e Ross para que venham à Torre Norte, estarei aguardando.”
– Q-quem escreveu isso?
– Não está assinada, mas eu reconheceria essa letra em qualquer lugar. Johann escreveu isso, e definitivamente ele precisa da nossa ajuda.
– Bom... O que estamos esperando?
– Esperando? Você acha que eu vou? Eu sou um atirador de facas que atravessa as paredes, como acha que eu vou derrotar um exército de Demônios?
– Você não conhece meu pai, Yra. Se ele estiver vindo, será o fim de toda GangWolfin, temos que ir ajudar Johann, e temos que ir já.
Yra sabia que Ross estava certo, eles tinham que ir. Então Yra prepara todas as suas armas, assim como fez Ross, e ambos são envolvidos por uma nuvem vermelha.
– Ex vi corpus sacrae mittimus ad Aquilonem turrim – Sussurrou Ross, enquanto que em um segundo, eles surgem em um grande salão de Pedra no topo de uma Torre. Está terrivelmente frio, mas por serem um demônio e um fantasma, não sentem absolutamente nada. Neste salão está um grande Lagarto negro, muito alto e andando em duas patas, o Lagarto se aproxima do dois e lhes oferece um caloroso abraço.
– Ross. Yra. Que bom ver vocês aqui mesmo irmãos – Disse a criatura, com uma voz gutural. – Chegaram bem a tempo. – Yra e Ross se vêem sentados a uma mesa com vários indivíduos, ao Centro, o guardião da Torre Norte, Tong-Hur, e aos seus lados, os guardiões das outras Torres. Na mesa estão o General Ernest Florestom, ao lado de alguns soldados muito bem equipados. Na extremidade da mesa, está sentado o velho Jedediah, que se acenava alegremente para seus amigos do outro lado da mesa, e na outra extremidade, o temível Lobisomem cinzento Kohrus. “O que ele faz aqui?” Se perguntava Yra. Mas seus pensamentos foram interrompidos pelo estrondo da grande porta de madeira que dava a entrada e a saída do salão.
– Estão todos aqui? – Disse o Coelho Samurai entrando na sala.
– Sim, Johann. – Disse Tong-Hur.
– Ótimo. – Disse Johann mais uma vez, puxando uma cadeira sentando-se. – Podemos começar.
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