Crônicas de Feras
33 Sansa
Notas iniciais
Ela estava completamente distraída de todos os planos que tinha traçado para si quando foi para a capital. Primeiro pela atenção repentina que parecia ter recebido de Joffrey… Não que o tivesse considerado como pretendente, mas a atenção do futuro rei lhe garantia também a atenção de outros. Mas então veio a morte repentina do rei Eddard e o luto que pesou de forma tão nítida e expressiva em seus súditos, que era impossível pensar em qualquer coisa.
Embora o nascimento de seu irmão caçula tivesse sido ofuscado pela tristeza generalizada, para Sansa foi como um sopro de vida começando a levar as trevas embora. A lua de sangue de Lady Catelyn tinha sido pouco menos de uma volta de lua atrás, mas a ruivinha Lannister ainda ia todo dia visitar o irmão, mesmo quando estava com as amas de leite, inconscientemente imaginando como seria quando chegasse sua vez.
Naquele dia o pai tinha obrigado a mãe a tomar vinho dos sonhos para descansar, uma vez que o período de enclausuramento pós cama de sangue estava deixando a mulher inquieta para voltar à vida normal. Sansa aproveitou a oportunidade e dispensou a ama de leite, uma vez que o pequeno Edwyn Lannister estava alimentado, e se aninhou em uma poltrona próxima à janela com o bebê em seus braços. O caçula, assim como Sansa, tinha nascido com os cabelos ruivos da mãe, e grandes olhos verde esmeralda. Não soube dizer quanto tempo ficou na mesma posição, apenas observando o irmãozinho dormindo, mas quando o sentiu começar a se mover, a jovem rapidamente se adiantou em colocá-lo no berço, lhe cobrindo o melhor que pode para mantê-lo aquecido e adormecido.
—Atrapalho?
A voz familiar mas repentina quase a fez dar um pulo, que conteve puramente pelo instinto de não interromper o sono do bebê. Sansa se voltou em um movimento brusco, mas silencioso, e levou o indicador aos lábios em sinal de silêncio para o rei, que segurava a porta aberta, apenas com a cabeça para dentro.
—Só se acordá-lo… — Respondeu apenas um tom abaixo do dele, fazendo sinal para Joffrey se aproximar e voltando a baixar os olhos para aquela coisinha adorável dormindo.
—Vamos esperar que a rainha tenha uma cama de sangue tão tranquila quanto a da senhora sua mãe. — Joffrey sussurrou enquanto se aproximava, ficando ao lado de Sansa diante do berço.
—Se acha que existe cama de sangue tranquila, vossa graça, é porque não participou de muitas. — A ruivinha comentou com divertimento. — Não sabia que o filho mais novo do senhor do Oeste era tão importante para receber a visita do rei…
—Os filhos não são… — O homem respondeu com os olhos ainda na direção do bebê, mas logo virando o rosto para encarar Sansa. — As filhas, por outro lado, não poderiam ser mais importantes… Bom, uma delas talvez pudesse ser mais.
A proximidade do seu corpo com o de Joffrey não tinha ficado tão evidente até ele falar com ela daquela forma, e a ruivinha perceber aquele brilho predador surgindo novamente nos olhos verdes. Sansa engoliu o seco, e ao mesmo tempo que algo dentro dela lhe mandava sair correndo, uma força igualmente poderosa enchia sua vontade de provar ser devorada por aquela fera. A Lannister se censurou em silêncio, e automaticamente desviou os olhos dos dele.
—Devíamos sair daqui, não quero acordá-lo e dar a Lady Lannister uma desculpa pra desobedecer Lorde Lannister. — A ruivinha falou em um tom até meio afobado.
O vestido com as cores da casa da mãe esvoaçou quando Sansa se afastou do rei e tomou rumo para fora do quarto. Pode sentir Joffrey seguindo-a de perto, e tomou um leve susto quando encontrou ninguém menos do que sor Brynden Tully os aguardando do lado de fora. Sansa desenhou uma expressão de tranquilidade que não estava exatamente sentindo, e sorriu para o tio avô, se esticando para lhe dar um beijo no rosto.
—Você está cada dia menos parecida com seu pai… — Brynden comentou com uma expressão de orgulho que fez Sansa rir. — Cada dia mais bela. Quando Lorde Tywin escolher seu marido, diga-me o quanto devo assustá-lo antes do casamento. — A última parte o manto branco falou baixinho, apenas para ela ouvir. — Vossa graça… — O cavaleiro fez uma breve reverência quando Joffrey chegou atrás de Sansa.
—Posso persuadi-la a me acompanhar em um passeio, Lady Sansa? — O tom do rei era nitidamente mais formal diante do guarda real.
—Claro vossa graça… Um passeio pelos jardins talvez? — Sansa respondeu no mesmo tom formal que ele usou.
—Na verdade eu estava pensando no bosque sagrado… — Ele se apressou em dizer, só então se voltando para sor Brynden. — Sor, vá até os aposentos do príncipe Brandon e fale com os meistres, eu gostaria de ser atualizado sobre a situação dele…
Sansa teve a impressão de que sor Brynden ia abrir a boca para retrucar, mas Joffrey lhe tomou o braço e começou a guiá-la pelos corredores antes que o cavaleiro pudesse argumentar que o rei precisava de proteção o tempo todo. Quando Joffrey era príncipe, Sansa teria achado aquele tipo de coisa até engraçada. Já tinha ajudado Arya, e até Bran a escapar da guarda real quando queriam fazer algo que os pais não podiam ficar sabendo. Mas agora era outro momento… O rei tinha sido assassinado sem que ninguém tivesse a menor pista dos atacantes. A ruivinha ficou a maior parte do caminho em silêncio, aquietando o coração sobre aquilo, convencendo-se que Maegor era uma fortaleza dentro de uma fortaleza, estavam seguros.
—Suponho que tenha um motivo para você querer ficar comigo a sós. — Sansa comentou com o tom mais descontraído que conseguiu, mas a verdade era que estava um pouco nervosa.
Se eles fossem quaisquer outras pessoas no mundo, as intenções dele já teriam ficado mais do que explícitas. Mas Sansa não queria acreditar em nenhuma das opções que sua cabeça criou para tentar explicar a atenção crescente que estava recebendo do loiro desde que se reencontraram em Porto Real. Se ele estava pensando que ela seria uma de suas amantes, estava terrivelmente enganado. E se a estava considerando seriamente como pretendente, Sansa tinha certeza de que não queria comprar uma briga com Cersei e Tywin. Aquele fogo que sentia perto do rei nada mais era do que sua maturidade chegando. Ela tinha absoluta certeza de que seu futuro marido lhe despertaria o mesmo desejo quando fosse cortejada, fosse quem fosse.
—Bom… Não, e sim. — O rei parecia um pouco nervoso e confuso.
Talvez não propositalmente, mas ele pareceu acertar com a escolha do local. Nitidamente estava se encaminhando para lhe fazer confissões amorosas… Todo o comportamento dele vinha indicando isso. Mas mesmo que não fosse o caso, sua expressão denunciava que não seria algo fácil, e o bosque sagrado tinha aquele efeito calmante como nenhum outro lugar. Sansa era uma fervorosa devota dos Sete, em especial da Donzela e do Ferreiro, mas quando se viu no meio do bosque sagrado, diante da árvore coração, pode sentir algo a envolvendo, como as boas vindas de uma outra vida. A ruivinha respirou fundo, e por um segundo até esqueceu porque tinha ido até ali.
—Joff…
—Eu não vou me casar com Arianne Martell — As palavras dele fizeram Sansa silenciar e encará-lo.
—Por que você está me contando isso? — Sansa abraçou o próprio corpo, os olhos verdes desviando novamente para o rosto na árvore.
—Você sabe porquê, Sansa… — Joffrey ameaçou se aproximar mais da ruiva, mas não fez. — Você sabe quem eu quero.
—E você sabe que eu não posso casar sem a aprovação do meu pai. — A resposta dela foi imediata, de quem já tinha diversas vezes afastado a tentação daquele pensamento em prol da racionalidade que sempre lhe ensinaram a ter. — E o que quer que você anda fazendo, ele está bravo o suficiente para considerar propostas que jamais consideraria antes…
—Quem? — A pergunta de Joffrey fez Sansa se dar conta de que não deveriam se aprofundar demais naquela conversa. — Quem quer que seja, eu…
—O que? Vai nomear todos os meus pretendentes pra Guarda Real? — Mais do que a pergunta, o tom atravessado de Sansa pareceu pegar o rei de surpresa. — Seu pai pode ter tirado o voto de celibato, mas você sabia que Lorde Tywin nunca casaria uma filha com um segundo filho sem herança.
—O que mais eu poderia fazer? Seu pai estava manipulando tudo para eu não ter nem a chance de pedir a sua mão! — Joffrey a interrompeu em um tom irritado. — Ele não está preocupado com seu casamento, o foco dele é que os herdeiros de Daemon tenham sangue real!
—Você está manipulando tudo pra eu não ter nem a chance de escolher! Você está entrando no meio dos meus pretendentes antes mesmo de pedir a minha mão! — Ela devolveu nitidamente irritada.
—Eu não podia pedir sua mão, eu precisava cancelar as negociações com os Martell primeiro! E seu pai me cortou em todas as vezes que eu tentei tocar no assunto! — Joffrey se defendeu dando um passo na direção de Sansa, mas então parecendo se lembrar que precisava se acalmar. — Sansa…
—Você poderia ter me cortejado em vez de tentar me manipular! — Sansa não sabia bem de onde toda aquela ira estava vindo, provavelmente alimentada por vários outros sentimentos com os quais ela ainda não estava pronta ou disposta a lidar.
—Seu pai também estava manipulando…
—Isso não importa, Joffrey! Eu não vou me casar com o meu pai! Ele é como ele é… Eu não estou procurando um Tywin Lannister pra pedir a minha mão! — Ela o interrompeu sem qualquer receio, avançando dois passos na direção do rei com a confiança que provavelmente colocaria a Guarda Real em alerta. — Eu quero um marido que me respeite o bastante para apreciar minhas opiniões e dar importância para o que eu quero! Como seu pai era para Cersei. Não alguém que gasta mais tempo e energia brigando com meu pai do que me convencendo de que é a melhor proposta que eu tenho!
—O que?! Isso não… Eu não..! — Joffrey estava vermelho, talvez de ira, talvez de constrangimento, mas o turbilhão de emoções que Sansa sentia dentro de si parecia também existir dentro do rei, que agora mal conseguia organizar uma resposta para ela. — Então é isso? Você está recusando?!
Naquela altura, nenhum dos dois estava mais tentando se entender. A conversa que começou a elevar um pouco os ânimos acabou se tornando uma sucessão de ondas para descarregar a ressaca de um oceano de emoções conflitantes dentro deles.
—Recusando o que? Você não me ofereceu nada! Só se livrou de um dos meus pretendentes, ofendeu meu pai e gritou comigo! E se eu recusá-lo? Você vai espantar todos os meus pretendentes??
—SIM!! EU VOU!! Eu vou usar tudo que puder pra Lorde Tywin não conseguir casar você com mais ninguém!! — Joffrey trovejou começando a se inflar ainda mais. — É isso que você precisa ouvir? Eu não vou deixá-la casar com mais ninguém!
—O que?!! Eu quero ver você tentar, Joffrey Stark!!
Sansa gritou tão perto do rei, que pode sentir o próprio hálito bater na pele dele e voltar para si. Ela deu meia volta na mesma hora e saiu do bosque sagrado em passos sonoros e pesados.
—Sansa! — O rei gritou às suas costas.
—Não ouse me seguir!! — Ela trovejou de volta, apressando o passo e desaparecendo na direção do castelo.
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