Crônicas de Feras
1 Prólogo
Notas iniciais
Foi com surpresa que ela o observou interromper a cerimônia de núpcias. Diante dos olhares de ladies, lordes e cavaleiros que enchiam o grande salão da Fortaleza Vermelha, pode identificar algumas expressões desapontadas por não poderem ver o seu corpo despido. A rainha não soube dizer o que sentiu naquele momento… Muitas sensações se misturavam, claro, desde o dia em que lhe anunciaram aquela união.
O toque de Eddard era delicado, apesar dos dedos cobertos de calos pelo manejo da espada. Enquanto a guiava, sem pressa, até os aposentos preparados para os recém casados, ela até sentiu, com surpresa, os próprios dedos se encaixarem melhor nos seus.
— Por que parou a cerimônia? — A mulher perguntou, depois de já estarem dentro do quarto, observando o rei, agora seu marido, fechando a porta e dando uma volta na chave.
— Não me pareceu correto… Permitir minha esposa ser exposta assim a outros homens. Agora sou eu para zelar por vós. — A resposta saiu com uma naturalidade tão sincera que ela chegou a desconfiar.
— Zelar por mim? Garantir meu bem estar, minha felicidade?
— É claro… — Ele se apressou em responder, talvez por perceber as rugas de frustração na testa dela, sem compreender bem o que a afligia.
— Então por que não pode reconsiderar sua decisão sobre ele? — Questionou com o tom de lamento.
O rei soltou um suspiro de cansaço, o olhar de compreensão diante das palavras dela. Eddard sentou-se na cama, mantendo o rosto virado para ela. Havia uma compaixão nos olhos dele que ela nunca tinha visto nos olhos de homem algum. Nem de seu amor perdido…
— Cersei… — Ele chamou, e ergueu uma das mãos segurando a dela. Por um segundo, a loira achou que ele fosse ceder, mas aqueles olhos cinzentos lhe responderam bem antes de suas palavras. — Eu conversei com o seu irmão… Eu entendo as razões que o levaram a fazer o que fez. Mas ele fez um juramento… Ele fez um juramento diante dos deuses.
Ela lhe deu as costas ao ouvir aquilo. Já tinham tido aquela conversa semanas atrás. Fora o único pedido de casamento que ela lhe fizera, que perdoasse Jaime, mas ele não pode lhe atender. Nortenho idiota! Se não fosse Jaime, ele não seria rei agora! Perdida no silêncio da sua frustração, ela não percebeu a aproximação dele, e só quando Eddard pousou as mãos em seus ombros, Cersei ergueu o rosto, soltando um longo suspiro irritado e limpando a única lágrima que desceu pelo seu rosto.
— Ele vestirá o negro… Será um patrulheiro, e ninguém poderá pedir pela vida dele. — As palavras dele não a consolavam, mas a proximidade chegou a distraí-la um pouco.
Ela provava de um tipo diferente e inesperado de gentileza quando estava com ele. Aquilo a abalava um pouco, e por perceber isso, durante os poucos momentos em que se encontraram antes do casamento, era que a Lannister se agarrava, com todas as forças, em suas razões para odiá-lo.
— E ficará em perigo… Arriscando a vida para lutar com selvagens. E nunca mais irei vê-lo. Como pode dizer que vai zelar pela minha felicidade, milorde?! — E se afastou do toque dele, os braços cruzados e um olhar arredio. — Fala de votos… Um homem com poder pode facilmente ignorar os votos que faz…
Ela pode sentir o marido um tanto impaciente, mas não soube dizer se era irritação ou frustração. Eddard Stark a deixava intrigada, cada dia mais. Segundo Lorde Tywin e Jaime, fora ideia de Lorde Jon Arryn que o Stark assumisse o trono. O senhor do Ninho da Águia tivera que convencer o protegido, que parecia só desejar voltar ao Norte e se enfiar na neve até o fim da vida. Ela não conseguia compreender como alguém precisava ser convencido a ser rei em vez de um lorde do país mais pobre do reino. Para além disso, ele não era bruto e ignorante, como os nortenhos tinham fama de ser. Não tentou conversar com ela sobre frivolidades, nem a encheu de elogios vazios à sua beleza… Ela não sabia bem o que achar dele.
Eddard voltou a se aproximar, segurando a mão dela dessa vez, e a virando para si com a mesma gentileza com a qual a tratava sempre. Cersei pode observar o olhar culpado do homem, e não conseguiu entendê-lo, observando o marido lhe beijar as costas dos dedos, antes de encará-la com aquele penetrante par cinzentos.
— Eu juro para você… Como um homem e um rei, que jamais descumprirei meus juramentos a você. — Ele desenhou um sorriso nos lábios, erguendo a mão livre e segurando o rosto dela. — Eu pedirei que seu irmão seja responsável por recrutar novos patrulheiros… Assim você poderá vê-lo de tempos em tempos.
Foi a primeira vez, em toda a sua vida, que ela sentiu culpa. Pode ver a compaixão no sorriso dele, e a mágoa pela perda recente da irmã o impulsionando a tentar agradá-la da maneira que sua consciência permitia. Cersei deu um passo na direção dele, cobrindo os lábios do homem com os seus…
...Não conversaram mais naquela noite, a única palavra entre eles dois foi o nome dela, gemido por ele em seu ouvido quando estava dentro dela, levando-a ao ápice segundos depois...
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