Crônicas de Feras
23 Joffrey
Notas iniciais
Tudo estava majestoso. As tapeçarias, as flores, os standarts coloridos dos vassalos de Westeros espalhados, identificando os lordes e ladys que tinham ido até Porto Real para receber de volta o príncipe de Pedra do Dragão. O vinho, a comida, e claro, as dançarinas… Tudo parecia perfeitamente ao seu gosto. Joffrey nunca estivera tão pomposo. E como não estar? Vestido em uma suntuosa túnica, azul escuro, um tecido brilhante e com costuras sob medida para destacar o porte do príncipe. Calçava botas altas, calções negros e uma camisa de linho preta por baixo de tudo. Um colar de várias cabeças de lobo em prata enfeitava seu colo e ombros, e um elo também de prata circulava sua cabeça, perdendo-se entre os fios dourados de seus cabelos. Todo cavaleiro, lorde e principalmente donzelas o paravam para comprimentos ou uma conversa rápida sobre seus feitos no Norte, sempre que o príncipe se levantava do estrado principal. Discursos e brindes em sua honra… A maioria era puxação de saco, especialmente dos lordes do sul, mas isso em nada importava para sua vaidade.
Metade da noite Brandon trocou Joffrey pela companhia das gêmeas. O príncipe herdeiro chegou a fazer alguns sinais ao mais novo, o chamado a deixar o lugar que ocupava entre as irmãs e ficar ao lado dele, mas Brandon o ignorou. Teria ficado furioso, mas para a sorte de Brandon os cantores e suas canções sobre o Lobo do Sul o distraíram, e quando não isso, as risadas de Lady Sansa sentada ao lado da rainha. Ela estava magnífica. Usava um vestido amarelo, com um pingente de ouro na forma do leão de Casterly Rock que levaria os olhos de Joffrey ao seu decote mesmo que ele já não mirasse aquele lugar. Os cabelos ruivos estavam soltos, com apenas algumas mechas presas para não cobrir os olhos. Ela tagarelava com Cersei e o rei, enquanto Joffrey se manifestava apenas quando o pai se dirigia a ele.
—Nem pense nisso…
—O que? — Joffrey saiu de um transe que começou pouco depois da mãe dizer algo sobre Walder Frey, e Sansa se levantar a pedido de Arya. Ela parecia ter deslizado enquanto trocava de lugar com a princesa.
O príncipe herdeiro tirou sua atenção da ruivinha, que agora tagarelava com Brandon e Myrcella, a procura da voz que falara tão perto dele. Seu tio, Tyrion Lannister sentava-se na cadeira vazia ao seu lado, segurando uma taça de vinho recém abastecida. O tio usava o gibão carmesim com detalhes em fios de ouro, mas sem mais adornos, e pela expressão que tinha no rosto não estava em sua primeira taça. Joffrey pegou sua própria taça e bateu levemente na dele, tomando um gole generoso e então olhando de lado para Sansa mais uma vez.
—Você e Brandon são dois estraga prazeres. — Comentou com uma voz que tentou soar despreocupada.
Não estava fazendo nada demais, e não achava que estava pensando nada demais. Não entendia porque tanta preocupação em seu interesse por Sansa, ela era só uma bela donzela… E ela era “da família”, qual o problema de se divertirem juntos? Não era como se estivesse interessado em seduzir, sequestrar e desonrar a filha de um lorde para lhe dar motivos para se rebelar, como Rhaegar Targaryen fizera. Só queria conhecer melhor sua bela tia, e provocar Daemon no processo.
—Acredite em mim, não estou tentando estragar seu prazer… Estou tentando salvar seu pinto real. — O anão respondeu com uma expressão de divertimento que fez Joffrey enrugar a testa contrariado.
—Mesmo? Se Daemon quiser brincar com espadas, não é meu pinto real que corre perigo. — Devolveu em um tom meio irritada.
—Ah, querido sobrinho… — Tyrion riu levemente embriagado, tomando mais um gole de sua bebida e então pousando uma das mãos no ombro de Joffrey. -Quem disse alguma coisa sobre Daemon? Leoas também tem garras, meu príncipe. E as de Sansa foram afiadas por mim e pela rainha... — Tyrion piscou para o sobrinho, mas manteve um olhar cheio de significado e até de censura. Só porque estava ficando bêbado não queria dizer que não falava sério. -Mas vamos esquecer isso… Um lobinho me contou que você queria sair da fortaleza hoje a noite. — Comentou em um tom mais baixo, servindo mais vinho em sua taça.
Joffrey ainda tinha a testa enrugada, mas agora não por irritação. Os olhos voltaram para Sansa por um momento, tentando imaginar que tipo de mulher ela tinha se tornado, agora com aquele “aviso” do anão. O príncipe não pareceu nenhum pouco surpreso quando Tyrion deixou claro que Brandon contara sobre seus planos planos para aquela noite. Planos que o próprio Brandon tinha sugerido, aliás. Se queriam sair discretamente do castelo, e aquela era a única maneira do príncipe poder ir a um bordel, era com ajuda de Tyrion.
—E me deixe adivinhar… Você quer ir conosco. — Disse em um tom mais baixo também, tomando mais um gole de seu vinho, e então olhando por cima do ombro para se certificar de que o pai não estava ouvindo.
—Ah, querido garoto verde… — Tyrion riu, e beliscou a bochecha do sobrinho. — Como se você fosse conseguir descer a colina de Aegon sem mim. — O anão comentou divertido, fazendo Joffrey revirar os olhos por não poder dizer o contrário. — Mas não se preocupe… Não precisaremos ir muito longe.
O tio se apoiou na cadeira em que sentava, comendo um pedaço de queijo temperado, e depois esvaziando outra taça de vinho. Joffrey observou a expressão bem humorada do tio, e o sorriso enigmático, esperando que ele continuasse e explicasse o que queria dizer, ficando mais ansioso do que queria admitir. Desde o décimo quarto dia de seu nome, seu tio Tyrion o ajudava quando queria escapar para alguma aventura… Nunca saia como esperado, porque o anão sempre modificou seus planos para “algo mais viável”, mas não podia dizer que ficava insatisfeito no final. Ainda tinha o bônus do sigilo, afinal se ele contasse ao rei ou a rainha também acabaria sendo punido por organizar tudo.
—Você vai me dar mais alguma informação, duende? — O príncipe perguntou impaciente, mas a alcunha não pareceu incomodar Tyrion.
—Eu ia, mas já que ainda não aprendeu bons modos, vou deixá-lo curioso até o rei se recolher e você ir me encontrar na Arcada das Donzelas. — Tyrion respondeu com um sorriso abusado, e um olhar cheio de desafio.
—Você é pior que Brandon. — Joffrey bufou, e então tomou mais vinho, se servindo de mais quando rapidamente esvaziou sua taça.
—Ah, ele é um valoroso aprendiz. — O anão comentou com um riso de canto. -Mas falta a ele a sua dedicação em outros assuntos. — Completou soltando um risinho logo em seguida.
O príncipe acabou rindo com o comentário, talvez também por causa da bebida. A atenção de todos voltou-se para o salão quando os músicos começaram a tocar uma música mais agitada, e Brandon tirou Myrcella para dançar, acabando por inspirar alguns cavaleiros a fazer o mesmo com suas donzelas. A rainha levantou-se no meio da música, pedindo licença para se retirar, seu estado a deixava mais cansada que o normal. Tyrion se retirou discretamente pouco depois da rainha, e Joffrey voltou a procurar Sansa com os olhos. A ruiva não estava mais na mesa. O rei conversava distraído com Lorde Arryn, que se sentara no lugar da rainha, e Arya parecia estar bebendo a terceira caneca de cerveja, mas Joffrey não deu atenção.
Sansa estava um pouco mais adiante, de pé e esplêndida, segurando uma taça de vinho e conversando com o príncipe Oberyn e sua amante, Ellaria. Os três pareciam rir e se divertir em algum assunto que Joffrey não conseguia ouvir, mesmo que se aproximasse com certa ansiedade. O príncipe Oberyn era um conselheiro de confiança do pai, coisa que Joffrey já pudera perceber que não agradava Lorde Arryn, mas também não o agradava que seu pai desse ouvidos ao seu tio Tyrion ou sua mãe também. A rainha dizia confiar em Lorde Arryn, ao mesmo tempo em que salientava que a Mão do Rei não parecia gostar que o seu ex protegido confiasse em mais ninguém. Isso talvez fosse sábio, um rei não devia confiar em ninguém, mas Joffrey nunca fora muito fã de Jon Arryn… Ele era velho e parecia incapaz de resolver qualquer problema por si mesmo. Por outro lado, Joffrey não sabia se confiava no irmão caçula do soberano de Dorne.... O admirava, com certeza, ele definitivamente sabia como viver, mas não confiava nele.
—...Eu estou ansiosa para conhecê-los. Especialmente a princesa Arianne. — Foi a primeira coisa que ouviu Sansa falar quando já estava praticamente do lado da Lannister.
—Miladys, milorde. — Joffrey os comprimentou com um sorriso polido e educado, mas os olhos pendendo para Sansa quase que imediatamente.
—Ah, príncipe Joffrey… O herói do Norte. — O dornês fez uma reverência simples com a cabeça que ele não deu muita atenção. — Ouvimos dizer que lutou contra gigantes. Seria verdade?
—Em cada detalhe, sor. — Respondeu com um meio sorriso, olhando de lado para o homem com um ar convencido. — Eu não queria atrapalhar a conversa… Só chamar Lady Sansa para me acompanhar na dança… — Os olhos verdes voltaram para os da ruivinha, uma mão estendida enquanto esperava a resposta dela.
—Seria um prazer, meu príncipe. Mas infelizmente a música já acabou. — Ela atentou, e só então Joffrey pareceu perceber que os músicos tinham parado de tocar. — E as princesas estão se retirando… Então talvez eu também deva ir. — Completou olhando de lado para os dorneses e sorrindo simpática.
Joffrey pareceu um pouco aturdido, e com uma ruga de frustração na testa, nem respondendo a reverência e as despedidas da ruivinha. Seu olhar seguiu Sansa enquanto ela chegava até Myrcella, tendo o braço laçado protetoramente. A irmã olhou para Joffrey com o mesmo olhar que Brandon, antes de se retirar com Sansa e Arya do salão. De repente ficou um pouco irritado. Não tivera uma oportunidade de conversar com ela, muito menos de ficarem a sós. O príncipe respirou fundo, tentando conter a própria ansiedade. Não tinha por que a pressa, certo? Ainda tinha muito tempo pela frente.
—Uma bela mulher… — Joffrey virou o rosto quase que imediatamente, para dar de cara com o príncipe Oberyn com uma expressão despreocupada, enquanto a amante se apoiava vulgarmente nele.
—Er… Sim… — Algo o deixou incomodado com aquele comentário.
—Estava exatamente comentando com Lady Sansa, que meus sobrinhos estão vindo me visitar em Porto Real. Que sorte terão de chegar a tempo de conhecê-lo, meu príncipe.
Joffrey pegou uma taça de vinho da bandeja de um servo que passava, tomando um gole generoso enquanto tentava processar o que o dornês tinha acabado de falar. Sobrinhos dele? Os sobrinhos dele estavam mortos… Todo mundo, sabia. Não, espere. Joffrey respirou fundo e fechou os olhos um momento. Estava mais embriagado do que queria admitir. Os sobrinhos, filhos de Doran.
—Será um prazer conhecer a princesa Arianne e o príncipe Quentyn. — Disse em uma repetição de uma frase já ensaiada em que só trocava os nomes daqueles que ia conhecer. Não dava tanta bola assim para Dorne, era um reino pequeno e sem muito peso econômico. — Talvez possa levar o príncipe para caçar na Mataderrei. — Sugeriu com sua melhor expressão diplomática.
—Oh, eu não sei. Arianne gosta mais de caçar… Oh, e minha filha mais velha, Obara. Minhas filhas fazem parte do cortejo, é claro. — O homem falou despreocupado, terminando sua própria taça de vinho e a jogando para trás sem a menor preocupação. — A noite está muito agradável, mas eu preciso ir agora, cuidar de assuntos urgentes, não é mesmo meu amor? — Oberyn não parecia estar embriagado, mas ria das próprias palavras, antes beijar vulgarmente sua amante.
—Não me deixe atrapalhá-lo. — E fez uma reverência simples para o homem, não gastando nenhum segundo de atenção nas palavras dele sobre as filhas e a sobrinha.
Quando Joffrey olhou na direção do estrado principal, o rei estava se levantando, e despedindo-se de alguns poucos lordes pessoalmente, enquanto dava sinal para que a música continuasse, e com ela as festividades para os que iriam permanecer. Com a saída do rei a festa no grande salão não continuaria por muito mais tempo, mas outra muito mais interessante estava prestes a começar. Joffrey já tinha começado a fazer seu caminho para deixar o lugar sem ser percebido, quando sentiu um peso repentino sobre suas costas.
—Vamos! Tio Tyrion disse depois que o rei se retirasse… — Brandon tinha pulado em suas costas, mas voltado ao chão logo em seguida, e parecia mais animado do que antes.
—Fale baixo… — Joffrey advertiu enquanto se esgueirava pela parte mais escura do corredor, evitando os guardas que iam de um lado para o outro.
Os príncipes saíram pelos jardins, se ocultaram em alguns arbustos quando sor Brynden passou em direção a torre da espada branca, e depois deram a volta no septo real até chegar na Arcada das Donzelas. Naquela hora da noite aquele lugar ficava deserto. Mesmo os septões e septã que serviam no septo real, recolhidos em suas celas, não veriam ou ouviriam nada da arcada. A Arcada das Donzelas era uma fortaleza longa dentro dos muros da Fortaleza Vermelha, com telhado de ardósia, e naquele momento enfeitada com tapeçarias que mostravam o lobo gigante Stark com a coroa de bronze. Possuía um pequeno salão, e um corredor com sete aposentos, três dos quais foram ocupados pelas irmãs de Baelor I. Os príncipes chegaram no pequeno salão para encontrar sedas das mais diversas cores caindo do teto, fazendo as luzes do ambiente os confundirem a medida que criavam sombras das mais diversas. Várias almofadas de cores vivas tinham sido espalhadas pelo chão, em volta de espreguiçadeiras baixas com estampas das ilhas de verão. Tyrion estava sentado em uma dessas espreguiçadeiras, e nas almofadas que o rodeavam estavam ocupadas por três mulheres que se dividiam entre massagear seus pés, levar a taça de vinho aos seus lábios e dizer algo junto ao ouvido do anão que o fazia rir.
—Ah… Os príncipes. — O Lannister pegou a taça da mão da mulher e ergueu na direção deles. — Bem vindos, meus caros… Vocês saíram desta cidade como garotos, e agora esta na hora de serem recebidos de volta como homens… — Ao fim das palavras do tio, quatro mulheres saíram do meio das sedas que tiravam a visão dos homens da maior parte do salão, e se dividiram entre os príncipes…
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