Notas iniciais
Obrigada a todos pelos comentários, espero que continuem curtindo a fic o/

Já fazia quase três horas que estavam reunidos na sala do Pequeno Conselho, e mesmo assim, parecia impossível chegar a um consenso. A insistência de Tywin Lannister havia se intensificado mais depois do casamento real, mas Ned já estava esperando por isso.

— O rei já foi bem claro, Lorde Tywin. Ele não voltará atrás no que diz respeito aos crimes de guerra. — A Mão do Rei, Lorde Jon Arryn, repetia aquilo pela terceira vez, apenas na ultima hora. — Conseguimos paz com Dorne com a promessa de punir os assassinos da princesa Elia e seus filhos…

— O rei deveria dar preferência aos seus aliados, mais que àqueles que só dobraram os joelhos depois da derrota. — Lorde Tywin falou com a voz na mesma tonalidade fria, mas agora ignorando a presença de Lorde Jon, e voltando os olhos para Eddard.

Eddard, da casa Stark, primeiro de seu nome. Rei dos Ândalos, dos Roinares, e dos Primeiros Homens… Era um nome muito grande para alguém de natureza tão simples… Ele não podia ser rei Ned.

— Eu serei justo, Lorde Tywin. — O homem enfim se pronunciou, sentindo a coroa pesar um pouco em sua cabeça enquanto encarava o Leão do Oeste. -Foi para isso que lutamos essa guerra… Para acabar com as injustiças. Não vou fechar os olhos ao assassinato de inocentes, seus vassalos serão executados. — A voz saiu mais firme do que imaginava, e ele pode ver o brilho de ira nos olhos do sogro.

Lorde Jon pareceu bastante satisfeito com a palavra final de seu suserano, mas, embora Eddard pretendesse governar com os bons conselhos que o homem lhe dera desde que fora para o Ninho da Águia como um segundo filho do Senhor do Norte, ele não podia ter um inimigo como Tywin Lannister. Tinha prometido manter aquele reino unido e sem conflitos. Depois daquelas condenações, precisavam de um longo período sem derramamento de sangue.

— Vossa Graça, eu não vejo justiça em perder meu herdeiro e dois dos meus comandantes. — Tywin começou a falar, mas Eddard pegou um dos papéis que tinha diante de si.

— Eu não tirei seu herdeiro, milorde. Ele se juntou à Guarda Real e abdicou de sua herança quando eu ainda era só o segundo filho do Protetor do Norte. Ele foi mandado para a Muralha por quebrar seus votos com a Guarda Real. — O nortenho insistiu. — Estamos seguindo a lei. — Completou, sustentando os olhos cinzentos nos verdes do sogro. — Mas eu compreendo o inconveniente que isso pode ter lhe causado. — E estendeu o papel para Lorde Tywin, onde havia um mapa de Westeros no qual novas demarcações haviam sido feitas. — Por isso, e por minha gratidão à vossa ajuda, eu decidi lhe conceder um quarto da Campina. Tudo até a Estrada da Rosa agora pertence ao Oeste. Bitterbridge e Goldengrove agora devem lealdade a Casterly Rock. — Ele explicou bastante paciente. — Espero que isso possa suprir o inconveniente dos seus vassalos.

A expressão de Lorde Tywin continuava vazia, mas ele silenciou, fazendo um aceno de consentimento com a cabeça e voltando a baixar os olhos para o papel com a nova demarcação de suas terras. Era um território fértil, com rendimentos generosos, bem mais valiosos do que os recebidos dos vassalos que ele perderia. Ned não soube dizer se a conformação do sogro o deixou mais aliviado ou desapontado. No fim das contas, não fora preciso muito para acalmar os ânimos de Lorde Lannister.

— Vossa graça é muito generoso. — Tywin falou por fim, tão sério e severo quanto antes. A observação, feita sem muita vontade, parecia ser o único agradecimento que dirigiria ao rei. — Mas eu gostaria de pedir outra coisa… — Lorde Jon acabou soltando um suspiro sonoro de frustração ao ouvir o Lannister, se encostando melhor na cadeira e passando os dedos pelos poucos cabelos brancos que ainda lhe restavam.

Eddard pegou a taça à sua frente e se serviu de água, trocando alguns olhares com Lorde Jon, antes de voltar a encarar o sogro. Teria que ter muita paciência com Tywin Lannister. Seu sogro era um dos homens mais poderosos do reino, era rico, inteligente e cruel, mas o rei sabia que precisaria dele para governar. Ou pelo menos foi isso que Jon lhe disse para convencê-lo daquela aliança… Casar com Cersei Lannister garantiria que Tywin não iria traí-lo, e daria ao Lannister um neto rei.

— Se estiver ao meu alcance, milorde. — Eddard respondeu, quando ficou claro que o leão esperava seu sinal para continuar.

— Seu pai, Lorde Rickard, fez um acordo de casamento com Lorde Hoster Tully, muito tempo atrás, prometendo o herdeiro do Norte à filha mais velha de Lorde Hoster, Lady Catelyn. — Tywin começou, mantendo sua atenção em Eddard e ignorando a presença de Lorde Jon. — Já que meus esforços para manter meu herdeiro foram em vão, eu desejo tomar outra esposa que possa me dar mais filhos… E a jovem Lady Tully me parece apropriada.

— O acordo já teve um fim, Lorde Tywin. Meu irmão está morto, eu estou casado com vossa filha, e Winterfell será o assento do herdeiro do trono. — Eddard falou com tranquilidade, ainda que sentisse Lorde Jon um pouco contrariado ao seu lado. — Não forçaria Lorde Hoster a cumprir uma promessa em outros termos. E meu irmão Benjen já expressou seu desejo de se juntar à Patrulha da Noite.

Lorde Jon Arryn havia se casado com Lysa Tully, irmã mais nova de Catelyn, antes da rebelião, para selar o acordo entre o Vale e o Tridente. Se Tywin se casasse com Catelyn Tully, seria irmão de Jon diante da lei.

— É uma satisfação saber disso. — Tywin falou, ainda que não houvesse qualquer expressão que se aproximasse de satisfação em sua face. — Lorde Hoster temia que aceitar meu pedido pudesse parecer uma afronta à nova família real…

— Eu escreverei pessoalmente a Lorde Tully, para esclarecer a situação e lhe darei minha recomendação para este casamento. — Eddard se adiantou, oferecendo um sorriso curto para Tywin. O homem não lhe agradava tanto, mas agora, gostando ou não, era parte de sua família. — Há mais alguma coisa que possamos fazer pelo senhor, milorde? — O rei perguntou, mantendo o tom paciente na voz.

— Não, Vossa Graça. — Tywin respondeu, e logo baixou a cabeça para reunir os papéis e títulos de suas novas terras em uma pasta de couro negro. — Eu agradeço vossa atenção e paciência com os assuntos do Oeste.

— Bom, isso é tudo… — Eddard se colocou de pé, sua expressão denunciava o quanto estava louco para sair dali. — Se me derem licença, senhores. — O rei meneou a cabeça em cumprimento aos dois homens e começou a se retirar, antes que eles tivessem tempo de se lembrar de mais algum problema que ele tivesse que resolver.

Eddard respirou fundo quando enfim se viu fora da sala do Pequeno Conselho, começando a se dirigir para a Fortaleza de Maegor. A sensação que tinha era que respirava muito melhor quando saía de dentro daquelas paredes vermelhas. Aquele castelo era quente… Um quente sufocante e não aconchegante. O rei só percebeu o manto branco que o seguia quando já estava à sombra da Fortaleza de Maegor. Sor Lucion Lannister havia assumido o lugar de Sor Oswell Whent. Jon também o havia convencido a nomear o jovem cavaleiro como manto branco, não apenas pela habilidade que ele havia demonstrado durante a batalha, mas também para ganhar mais apoio no Oeste depois que mandassem Jaime Lannister para a Muralha, o regicida era muito popular — ou Lorde Tywin era muito temido — por ali. Aos poucos, o rei ia tentando ficar menos desconfortável entre os leões, ainda que, lá no fundo, soubesse que jamais se sentiria à vontade novamente, desde o dia em que aceitara equilibrar aquela coroa na cabeça e se sentar naquele trono terrivelmente desconfortável.

O rei caminhou pelo jardim em silêncio, apenas com os próprios devaneios, até perceber, mais adiante, outro manto branco, e reconhecer Sor Eustace Hunter, solenemente parado no meio das flores. Eddard só percebeu a presença de Cersei, sentada em um dos bancos do jardim, quando se adiantou mais alguns passos. Ela tinha prendido os cachos dourados, deixando apenas alguns estrategicamente soltos, usando uma coroa enfeitada com rubis e um vestido carmesim com detalhes dourados que valorizava as curvas de seu corpo firme. A rainha tinha um livro nas mãos, e uma expressão não muito feliz, que fez Eddard hesitar antes de se aproximar mais.

— Minha senhora… — O rei fez uma reverência com a cabeça, enquanto Sor Eustace se adiantava em reverenciar o rei.

Cersei ergueu os olhos para o marido com uma expressão surpresa, que fez Eddard ter a tola sensação de estar invadindo a privacidade dela, apesar de serem casados. A mulher fechou o livro e se levantou, parecendo um pouco atordoada com a chegada dele. Ainda estaria furiosa com ele por ter mandado Jaime para a Muralha?

— Vossa graça. — Cersei fez uma reverência elegante, ao que Eddard se adiantou a lhe tomar a mão e levar aos lábios, ainda que meio desajeitado nos carinhos. — A reunião com o Pequeno Conselho acabou mais cedo? — Ela perguntou depois de lhe oferecer um sorriso polido e deixar o livro no banco onde antes estava sentada.

— Sim. Acredito que vosso pai e eu chegamos a um bom acordo. — Eddard manteve o sorriso tímido para ela, sem conseguir evitar pensar o quanto ela era bonita. — Eu…

— Acordo? Então Jaime…?

— Não, Cersei… — Partiu-lhe o coração ver o brilho de esperança surgir nos olhos verdes dela, tão rápido quanto morreu com a resposta imediata dele. — Desculpe-me. — As desculpas saíam automáticas, sempre que falava de Jaime. Eddard suspirou e segurou as duas mãos da rainha com um sorriso carinhoso. — Não vamos brigar, minha senhor… Gostaria que me acompanhasse para um passeio. — Apressou-se em dizer, esperando poder abafar o assunto antes mesmo de começar.

Cersei não conseguiu ou não quis esconder a própria decepção, os olhos verdes, felinos, lhe lembraram o olhar de Lorde Tywin, minutos atrás, mas o lobo não pareceu se intimidar. A rainha soltou um suspiro conformado, e laçou o braço do marido, mas mantendo a postura arredia. Eddard ofereceu um sorriso simples para a esposa, a guiando pela Fortaleza Vermelha sem tentar quebrar o silêncio que ela começou. Sor Lucion e sor Eustace seguiram o casal real a pouco menos de sete passos de distância, um silêncio tão disciplinado quanto o de seus senhores. Quando chegaram no Bosque Sagrado, o rei fez sinal com uma das mãos para que os guardas permanecessem fora, guiando Cersei até o meio do bosque, e gentilmente soltando o braço do toque dela.

— Trouxe-me para rezar, meu senhor? — Cersei falou com um tom arisco que não passou despercebido pelo rei.

— Não, minha senhora. — Ele respondeu com uma expressão saudosa, aproximando-se da árvore coração e arrancando as trepadeiras que haviam se apossado de alguns galhos. Eddard soltou um suspiro de decepção enquanto observava o grande carvalho. — Dizem que os deuses antigos não tem poder no sul… — O rei explicou, os olhos cinzentos encarando a árvore por mais alguns segundos, antes de voltar para Cersei.

A irritação da rainha parecia ir se transformando em curiosidade, enquanto observava o marido encarar aquele carvalho velho. Cersei não disse nada, dando um passo para o lado quando Eddard voltou a se aproximar dela, mas mantendo os olhos verdes firmes nos dele, um ar de desafio que o rei descobriu que não o incomodava tanto. Ela não puxou de volta, quando ele lhe tomou a mão novamente, mas em vez de guiá-la para qualquer lugar, ele despejou sementes de um saquinho, na palma de sua mão.

— O que é isso? — Cersei perguntou com o cenho franzido, aproximando as sementes dos olhos com um olhar curioso.

— Sementes de represeiro. — Falou com um ar saudoso. Era o único pedaço de Winterfell que trouxera consigo. O único pedaço de lar. — Eu… Gostaria que plantasse comigo. — Eddard guardou o saquinho no bolso do gibão, para então fechar uma das mãos carinhosamente sobre a mão da esposa que segurava as sementes. — Eu me lembro uma vez, quando eu era pequeno, minha ama contou que os Primeiros Homens tinham essa tradição… Os recém casados plantavam um represeiro, pra pedir a proteção dos deuses para a união. — Contou com um ar sonhador, desenhando um sorriso mais largo nos lábios para a esposa.

— Não disse que os deuses antigos não tem poder no sul, meu rei? — A rainha lembrou, deixando o rei um tanto sem graça.

Eddard soltou a mão dela, a deixando com as sementes e suspirando um tanto frustrado. Ele se afastou alguns passos, a princípio parecendo não ter decidido se responderia ao comentário dela ou não, e logo deixando o silêncio se seguir. O rei se agachou no chão, usando as próprias mãos para cavar um pequeno buraco, aprofundando até que lhe parecesse satisfatório.

— Mesmo com essa desvantagem, senhora, estou disposto a tentar… — Respondeu, por fim, colocando-se de pé e exibindo o buraco que fizera no chão, batendo as mãos até limpá-las o quanto pode.

Apesar de confiante, a demora na reação dela, e os longos momentos em que passaram se encarando, quase o fizeram vacilar, mas Cersei acabou se aproximando dele, seus passos eram tranquilos, e até um pouco hesitantes. Eddard se ajoelhou diante dela, quando a mulher depositou as sementes dentro do buraco, e com um sorriso mais largo se desenhando em seu rosto, fechou o buraco em uma oração silenciosa, para que os deuses abençoassem aquela união e aquele futuro inesperado que o aguardava.

O rei se levantou ainda com um sorriso no rosto, e Cersei chegou a dar um passo tímido na direção dele, dividindo a atenção entre o marido e o lugar em que haviam plantado o represeiro. Eddard acabou com a distância entre eles, e laçou a cintura dela com os braços, se prendendo em seu olhar felino e parecendo esquecer onde estavam, ou que tinha as mãos sujas de terra. Cersei não pareceu se atentar para isso, ou se percebeu, não se importou. A rainha tinha as mãos delicadamente pousadas sobre o peito do marido, e quando ele a laçou pela cintura, seu corpo se moldou naturalmente ao abraço dele.

Eddard chegou a abrir a boca e até a tomar folego para falar, mas Cersei o impediu, erguendo uma das mãos até os lábios dele, abrindo um sorriso curto quando o rendeu ao silêncio. Cersei inclinou o rosto sutilmente na direção do dele, e tão logo o fez, o rei a beijou, sentindo, com alegria, que ela o correspondeu de imediato, com os dedos macios acariciando seu rosto, enquanto a outra mão o puxava pelas vestes...

Notas finais
E ai galera? O que acharam?