Crônicas de Feras
34 Corvos
Notas iniciais
Durante todo o tempo em que seus olhos estavam fechados, achou que estivesse sonhando. Todos os sons, vozes pareciam tão distantes, as imagens tão estranhas e distorcidas. Talvez tivesse sido mesmo um sonho, até o momento em que não foi mais. Ele viu uma luz tão forte que o cegou… Foi a explosão? Não, a explosão foi antes. Mas o que era aquela luz? Aos poucos um uivo no fundo foi ficando cada vez mais alto, até quase se transformar em um choro baixo. Tinha certeza que ouvira a voz de Myrcella, e Joffrey… Sim, Joffrey mais do que todos os outros.
O corpo de Brandon se movia sutilmente sobre a cama confortável que estava ocupando nas últimas duas voltas de lua. Em sua cabeça parecia estar tendo mais um de seus sonhos estranhos. Mil olhos pareciam observar Joffrey, e por esses mil olhos Brandon o assistia se esgueirar discreto até um meistre… Um meistre que não era o Grande Meistre. Mas as necessidades do rei não deveriam ser atendidas por alguém de grau maior na ordem dos meistres? Sim… Joffrey era rei. Ele soube disso no momento da explosão. Ele viu onde as chamas atingiram antes de perder a consciência, ou melhor, quem atingiram. A cena imediatamente se transformou em um de seus delírios, mas dessa vez o corpo apenas ficou agitado em vez de febril. Brandon sentou-se na cama como quem desperta de um pesadelo, no susto.
A ausência de luz pela janela lhe denunciava que já era noite, e as nuvens que conseguia ver se aglomerando anunciavam uma tempestade a caminho. Que momento propício para despertar. Brandon correu os olhos pelo quarto mas não encontrou ninguém. Sentiu-se um pouco fraco, mas seus ferimentos já estavam curados. Caminhando nu e cambaleante pelo quarto, uma das pernas ainda parecia adormecida, o obrigando a se agarrar nas cadeiras e colunas para não cair. O príncipe vestiu-se lentamente, identificando as cicatrizes visíveis que o ataque tinha lhe deixado. Botou calças e uma camisa de linho, mas não conseguiu jogar a túnica por cima ou mesmo pôr as botas. O corpo estava sensível, e parecia dolorido, ao mesmo tempo que totalmente dormente para alguns de seus comandos. Uma vez vestido, tomou uma golada de água, e sentiu a garganta doer um pouco, e o estômago roncar. Brandon abriu a porta do quarto, na esperança de encontrar um dos membros da guarda real ou algum dos servos a quem pudesse pedir algo para comer. O príncipe não reconheceu o manto branco prostrado diante de sua porta. O rapaz era alto como ele, com a pele cor oliva, e cabelos e olhos negros.
—Meu príncipe — O manto branco fez uma reverência para ele, uma vez que pareceu sair do estado de choque em ver Brandon de pé.
—Quem é você? — Foi o primeiro instinto do jovem príncipe lobo, sem conseguir disfarçar a expressão desconfiada.
—Sor Quentyn Martell, milorde, ao seu dispor — Respondeu em um tom polido.
Príncipe Quentyn Martell não era um nome desconhecido. A compreensão de quem ele era veio para Brandon ao mesmo tempo que a confusão sobre o que teria feito o rapaz se tornar um membro da Guarda Real. Mas antes que formulasse uma maneira educada de perguntar isso a ele, sem deixar transparecer que não estava convencido das habilidades do dornês já que nunca tinha ouvido falar delas, Brandon percebeu uma estranha agitação. Quentyn parecia um pouco ansioso, e quando um grupo de três ou quatro servas passou às pressas pelo corredor, nem mesmo reparando nele, o príncipe Stark percebeu que aquilo parecia ser generalizado.
—O que está acontecendo? Onde está o rei? — Perguntou agora com uma voz um pouco mais firme, saindo completamente de seu quarto e tomando o mesmo rumo que as servas.
—A cama de sangue da rainha-mãe veio muito cedo, milorde. As parteiras chegaram pouco depois do desjejum, mas o parto está demorando muito mais do que esperavam. — Sor Quentyn respondeu prontamente, seguindo Brandon apenas dois passos atrás. — O rei está na sala do trono com o resto da corte, aguardando a chegada de sor Daemon Lannister e a princesa Myrcella. O dromone que os trazia aportou no início da noite.
Os passos de Brandon começaram a aumentar o ritmo no momento em que foi informado que a mãe estava em trabalho de parto. Como poderia ser possível? Brandon ficou desacordado por muito mais tempo do que imaginava. Mas foi quando o espada branca mencionou Myrcella que o príncipe parou de caminhar de sopetão. O corpo virou imediatamente para o dornês, o rosto repleto de confusão. Não tinha compreendido, ou não queria compreender.
—Aportou? Por quanto tempo eu fiquei desacordado, sor? De onde a princesa Myrcella está voltando? — Seu tom era mais agressivo do que costumava ser, mesmo quando estava nervoso.
—Er… Quando fui nomeado, meu príncipe, e designado para protegê-lo, já se encontrava desacordado. Faz pouco mais de duas voltas de lua que recebemos a infeliz notícia da morte do rei Eddard. — Quentyn pareceu um pouco acuado, e engoliu o seco antes de responder a segunda parte. — De Pedra do Dragão, milorde… A princesa foi receber sor Daemon em nome do rei. Alguns navios da frota Lannister vão compor a frota real agora, e ele estava comandando a nau capitã.
“O que? Por que?” O príncipe conhecia o irmão bem o bastante para saber que ele mandaria qualquer um para se poupar de um encontro com Daemon. Mas por que o avô estaria reforçando a frota real? Os anos em Casterly Rock lhe ensinaram que Tywin não dava ponto sem nó. Arya já estava noiva quando o ataque aconteceu, e agora que o pai tinha morrido não teve como evitar imaginar que o noivo de Myrcella provavelmente tinha sido escolhido enquanto estava inconsciente. As pernas de Brandon fraquejaram, mas Quentyn o segurou antes que fosse ao chão. O estômago roncou novamente e o jovem Stark passou o braço pelo pescoço do dornês, o que se provou uma decisão mais do que acertada. A cabeça de Brandon latejou, e ao fechar os olhos ele se viu diante daquelas imagens turvas novamente. Mil olhos… E asas negras batendo, se espalhando para todas as direções. Bran apertou mais os olhos, massageando a cabeça e enquanto o fazia ouviu aquele uivo novamente, e “viu” a fachada de Winterfell.
—Arya… A princesa Arya, ela está no Norte? — Perguntou voltando a abrir os olhos para encarar o guarda, que apenas balançou a cabeça negativamente. Quentyn parecia estar guiando ele de volta para o quarto, mas Brandon o parou com o pouco de força que tinha. — Leve-me até o rei, sor. Já passei tempo demais nesse quarto.
—Milorde, eu tenho certeza de que, se esperar no quarto, o rei virá imediatamente. Ele estava ansioso para que acordasse. — O dornês fez uma última tentativa, abandonada quando Brandon lhe lançou a melhor imitação do olhar severo de Eddard Stark.
O caminho até a sala do trono não era particularmente longo, mas em suas limitações, e não querendo se exaurir antes de chegar e acabar provando que devia ter ficado na cama, pareceu uma eternidade. Brandon tirou o braço do pescoço de Quentyn, se apoiando apenas com uma das mãos no ombro do Martell assim que chegaram na entrada da sala do trono. No final de um corredor de poucas pessoas, no topo dos degraus, ele contemplou pela primeira vez o irmão mais velho, desconfortavelmente sentado no trono que um dia foi do pai. Joffrey ainda usava o elo dourado simples em volta da cabeça, o mesmo de quando era apenas um príncipe. Sua postura, porém, parecia mais régia do que o príncipe inconsequente que tinha sido.
Brandon começou a avançar em passos ainda lentos, adentrando a sala do trono em meio a olhares curiosos. Os lábios já tinham se aberto para soltar um comentário perspicaz sobre a cara de insatisfeito que Joffrey exibia sentado no trono de ferro… Quando percebeu que o desconforto do rei tinha também uma outra origem, mais comum e constante do que suas novas responsabilidades. Myrcella estava a poucos degraus de distância de Joffrey, e ao lado dela…
—E toda a matilha se reúne para a chegada de um novo lobo. — Acabou falando quando o burburinho dos cortesãos fez a família real finalmente prestar atenção em quem entrava no recinto.
O rei se colocou de pé num salto tão logo os olhos encontraram os de Brandon. Arya saiu de algum lugar aos tropeços e abraçou o irmão, parecendo ter compreendido que não podia abusar e derrubá-lo ou apertá-lo demais, como lhe era comum. O príncipe lobo envolveu a irmã em seus braços, a apertando carinhosamente enquanto soltava um suspiro aliviado. Mas quando parecia que estava prestes a soltar um peso, largar aquela tensão que de repente sentiu em seus ombros… Não o fez.
—Com licença, vossa graça. Eu preciso ir ver como a rainha está… É tão bom vê-lo acordado e bem, irmão. — Myrcella não esperou a licença do rei, e depois de olhar em quase súplica para Brandon, passou reto por ele e desapareceu nos corredores de Maegor, provavelmente em direção aos aposentos da rainha.
Ainda abraçado com Arya, Brandon acompanhou a cena sem realmente reagir. Os olhos cinzentos desviaram dos verdes ao sentir o peso da angústia dela se somando a sua. Ele já devia estar preparado para aquilo… Sabia que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mas mesmo que não tivesse ficado tanto tempo inconsciente, sabia que nenhum prazo faria o casamento de Myrcella algo fácil de processar e aceitar.
Arya finalmente o soltou, segurando-o pelos ombros e virando de um lado para o outro, como se estivesse checando que estava tudo ali. Brandon riu meio sem vontade e então voltou-se para Joffrey, que nessa altura já tinha descido os degraus que levavam até o trono.
—Vossa graça. Que os Sete permitam que governe por muitos anos, e que os Antigos lhe deem sabedoria para cuidar do povo. — Falou para o mais velho com um tom solene. Ia se abaixar para prestar sua reverência, mas antes que pudesse fazê-lo, Joffrey também o abraçou, de forma menos cuidadosa do que Arya. — Nós precisamos conversar a sós… — Brandon sussurrou no ouvido do irmão, aproveitando a aproximação para tal.
O segundo filho do rei Eddard pode sentir o novo rei ficar tenso tão logo ouviu suas palavras. Joffrey afastou-se alguns centímetros dele, e apenas assentiu positivamente com a cabeça, mas não o soltou de imediato, puxando o mais novo para um segundo abraço. Teve impressão que o mais velho se agarrava a ele com uma firmeza quase assustada.
—Seu retorno a consciência e a chegada de mais um Stark são sinais da benção dos deuses, Bran. — O rei falou enquanto se afastava dele aos poucos, se mantendo proximo apenas para que o mais novo pudesse se apoiar nele. -Vamos… — E começou a guiar Brandon para a saleta que havia na lateral da sala do trono, onde costumava se reunir com os demais membros do pequeno conselho. -Me avisem se o estado da rainha mãe mudar.
Com menos dificuldade do que quando se levantou, Brandon acompanhou Joffrey até o cômodo em que poderiam ter uma conversa um pouco mais íntima, e longe de outros ouvidos. Nem bem se viu na sala, Brandon logo achou uma cadeira para sentar-se. Joffrey o rondou por um tempo, como se esperasse para poder ajudá-lo com mais alguma coisa, mas logo sentou-se diante do irmão.
—O pai morreu… — Foi a primeira coisa que Brandon falou, a cabeça meio baixa, se erguendo sem muito animo. — Você é meu rei, e… Eu gostaria de servir como um de seus sete…
—Pelos Antigos, Brandon! — Joffrey o interrompeu, balançando a cabeça negativamente, e já se levantando de onde estava. — Você faz ideia do susto que nos deu. Ninguém achava que você levantaria de novo. Ai você acorda, e a primeira coisa que faz é me pedir pra colocá-lo em perigo? — Joffrey soltou um longo suspiro, como se estivesse vasculhando a própria cabeça, ou sendo atormentado por alguma lembrança. — Não. Eu não vou fazê-lo um guarda real… Eu preciso de você como lorde. Nós temos que fortalecer os ramos da casa Stark, e isso significa que você precisa de descendência…
—Guardas reais podem ter descendência! — O mais novo começou a argumentar, mas Joffrey ergueu uma das mãos para ele, em sinal de silêncio.
—Myrcella me disse que você pediria isso, mas feliz ou infelizmente o peso dessas decisões é minha. — Joffrey cruzou os braços, parecendo incerto sobre encarar Brandon ou não. — Decidi fazê-lo Lorde de Summerhall. Dorne e a Campina são reinos imprevisíveis, precisam ser vigiados e governados de perto, e eu não confio em mais ninguém.
—Então você vai me manter longe de casa…
O tom foi um pouco frio, o que não era próprio de Brandon, o que pode ter intensificado ainda mais o que disse. O mais novo não sabia bem de onde aquilo estava partindo, apenas que sentia um aperto e uma raiva que chegava a sufocá-lo. Tinha feito um pedido simples ao irmão mais velho, que achou que seria facilmente atendido uma vez que sempre falaram sobre governarem juntos. Como guarda real ele estaria sempre próximo… Mas era isso mesmo que o estava incomodando? Joffrey soltou um suspiro impaciente, e Brandon pode perceber o cansaço do rei quando por muito pouco a linha fina que segurava o gênio forte do irmão, por muito pouco não se rompeu com ele.
—Eu estou fazendo isso por você também, Bran… — O mais velho encarou o nada por um momento e então se sentou na ponta da cadeira, o corpo totalmente virado para o irmão. — Você tem um coração menos egoísta do que o meu. Você ficará satisfeito em saber que Myrcella está feliz, mas ainda se torturaria se tiver que vê-la todos os dias, assim como ela. — As palavras tão sucintas e diretas desenharam no rosto de Brandon uma expressão de surpresa, e um rubor de quem tinha acabado de ser exposto. — Eu impus um prazo de mais um ano antes das princesas casarem. Arya terá um noivado mais longo, e Myrcella só será prometida quando ela se casar. — Explicou pacientemente, enquanto parecia dar tempo para Brandon processar.
—Então, Daemon… — Foi tudo que conseguiu dizer, os olhos encarando um ponto fixo no meio do nada.
—Foi quem a mãe escolheu. — Explicou soltando um longo suspiro. — Ela vai passar um tempo como dama de companhia da princesa Arianne, quando Arya for para o Norte. E você vai receber o príncipe Trystane Martell como membro do seu household.
Um príncipe de Dorne como Guarda Real, outro sob a responsabilidade de Brandon… Não precisou de muito mais informação. Joffrey não ia cumprir a promessa de casar com Arianne Martell, e aquele foi o preço da dornesa para não balançar as relações com a coroa. O rei tirou de perto qualquer ameaça a herança dela como senhora de Dorne, e de quebra inutilizou um dos pretendentes de Sansa.
—Você deveria escolher minha noiva na Campina. — As palavras saíram de sua garganta como navalhas, estraçalhando tudo pelo caminho e deixando um gosto metálico em sua boca. — Já conseguiu neutralizar um dos pretendentes de Sansa… O vô deve tentar algo com Lorde Tyrell ou Lorde Redwyne. Nenhum outro terá status o bastante para Sansa, já que o herdeiro de Lorde Hightower já é casado.
—O que? — Joffrey pareceu pego de surpresa por um momento, mas Brandon não se alterou. Estava um pouco apático, talvez porque sua cabeça ainda estivesse processando muitas coisas, e não sabia bem como se sentia sobre a maioria delas.
—É ela quem você quer, não é? Por isso trouxe os príncipes dorneses, para apaziguar Arianne pelo fim do noivado tirando os irmãos dela do caminho. — Resumiu de forma quase automática. Talvez fosse isso, o príncipe tinha ligado o automático. — Ouvi o vô dizer que os Yronwood queriam que Quentyn fosse herdeiro de Dorne…
—Na verdade, foi Arianne quem me fez essa proposta primeiro. — Joffrey revelou com tranquilidade, se ajeitando melhor na cadeira e apoiando as costas no encosto acolchoado. — Ela prefere governar em Dorne. Eu queria o fim do acordo também, então não questionei seus motivos. De qualquer forma… Sansa não gostou da entrada de Quentyn na guarda real, não acho que mirar o que lhe resta de pretendentes vá atrair a afeição dela por mim.
—Você foi burro o suficiente pra mirar no alvo errado, certo?
—Sansa não é o alvo errado…
—Não estou falando dela, Joff. — Brandon o interrompeu revirando os olhos. — Você não precisa se livrar dos pretendentes dela se ela escolher você. Você é o rei, pode oferecer qualquer coisa pra ela.
—Ela não quer o que eu tenho a oferecer. — Joffrey parecia abatido com o assunto, mas na mesma quantidade de compaixão, ele também ficou irritado com o irmão.
—Então ofereça o que ela quer! Qual o problema?
—Desde quanto você é tão a favor que eu me case com Sansa? — O tom do rei saiu um pouco mais defensivo.
—Eu não sou… Eu acho que ela é a única mulher em Westeros que você não será capaz de domar a sua vontade, e se virar rainha confrontará você sem a menor preocupação em ser submissa, o que não me parece ser algo que você lide bem. Mas entre nós dois, você é o único que ainda tem uma chance de conseguir a esposa que sempre quis. — Respondeu sem qualquer esforço para esconder o mal humor crescente. — E eu o conheço bem demais pra tentar mudar sua cabeça…
-Eu não sei o que ela quer… — Joffrey começou a dizer, mas sua fala foi interrompida pela chegada repentina de um dos servos. — O que houve?
—A rainha mãe, meu senhor. O bebê nasceu. — O rapaz disse sem olhar diretamente para Joffrey.
—Eu vou vê-la imediatamente… — O rei se levantou em sincronia com o estomago de Brandon roncando novamente. — Ajude meu irmão a voltar para os aposentos dele e mande lhe servirem o jantar. E nem pense em discordar, você ainda precisa ser examinado pelo Grande Meistre. — Joffrey falou primeiro ao servo, e depois para Brandon quando pareceu perceber que ele ia de fato discordar.
O príncipe apenas suspirou e meneou a cabeça em concordância, assistindo Joffrey sair apressado da sala antes de aceitar a ajuda do servo para se levantar e voltar aos seus aposentos.
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