Notas iniciais
Um grupo guerreiros foi enviado para resolver um problema de fronteira entre dois reinos. Alguns contratempos ocorreram e dois deles estão em fuga, sendo perseguidos por homens do senhorio problemático.
A fuga alucinante destes dois é retratada nesse capítulo inicial.

Era um entardecer belo e colorido com o céu adornado de tons que iam do laranja ao purpura, um típico final de tarde de outono. Os sons do dia começavam a silenciar enquanto o ocaso trazia os sussurros noturnos. A Mata dos Tolos iniciava sua hibernação quando o restolhar ligeiro e sons abafados de respiração ofegante rompiam o silencio a média distância.

Não mais que de repente flechas irromperam a borda da Mata dos Tolos e logo em seguida dois vultos se lançaram sorrateiros para fora do conjunto arbóreo. Uma das flechas parecia ter acertado um deles, mas acabou atravessando como se ele fosse uma nuvem de fumaça negra. Um deles era corpulento e imenso, alguns poderiam dizer que um minotauro havia se libertado de seu labirinto e corria como se o mundo fosse seu. Apesar de todo o tamanho, possuía uma desenvoltura inimaginável para alguém ou algo da sua magnitude. Assim que tocou o chão saiu rolando e em um instante já estava novamente em pé, buscando levantar o companheiro que possuía metade de seu tamanho em todos os sentidos. O segundo sujeito parecia um tanto desajeitado, carregando uma espada que não parecia ter sido feita para ele, o que custou um pouco para que ele conseguisse se erguer sozinho.

No instante que se colocaram de pé novamente, o intervalo para tomarem folego foi o necessário para não se afogarem em sua própria respiração, retomaram a carreira desenfreada.

Não demorou muito para que dois perdigueiros surgissem arfantes através das touças rasteiras que divisavam o mar de árvores do campo aberto. Logo atrás, um grupo de cinco pessoas emergiu da mata entoando gritos agudos e comandos para os cães de caça. Do grupo, três corriam a pé, dois comandavam os arcos e flechas enquanto o terceiro era um tipo de escudeiro que carregava aljavas abarrotadas de flechas reservas para os atiradores. Os arqueiros calçavam luvas de couro e utilizavam um colete de couro fervido sobre um camisão de algodão simples. O escudeiro não utilizava nada em especial que necessitasse ser notado.

Um tanto mais atrás aparecia a segunda parte do grupo perseguidor com dois cavaleiros a um trote rápido. Os cavalos chocavam vigorosamente suas patas com o chão que começava a ser tocado pelo orvalho noturno. O mais alto dos cavaleiros ostentava uma placa metálica prateada, moldada milimetricamente para proteger seu torso, um elmo aberto na parte frontal, deixando saltar para fora uma volumosa protuberância onde ficava o nariz naquela face larga. O segundo cavaleiro era poucos centímetros mais baixo que o primeiro, estava com o torso envolto por uma cota de malha prateada onde podia ser notada, na altura do peito, uma gralha negra de asas abertas que era o símbolo da casa Möldaw, vassala do Rei Baharon. Além disso, uma espada curta pendia em suas costas.

A perseguição àquelas sombras errantes continuava, incessante, com os perdigueiros próximos de abocanhar seus calcanhares, quando eles se aproximaram de uma das margens de onde antes passava um vau ladeado por um conjunto de arvores de médio porte. O vau era fundo e suas margens eram próximas o suficiente para um homem saltar de uma pra outra mas, ao mesmo tempo, distantes o suficiente para fazer um perdigueiro ou um cavalo sem treino se assustar e parar. Alguns meses antes o estreito vau era cheio de vida e desembocava em um pequeno vilarejo no Vale de Irme, agora ele não passa de uma vala seca e improdutiva.

O senhorio da casa Möldaw mandara construir um dique mais ao norte para desviar o riacho que passava por aquele vau, levando sua agua cristalina para um reservatório utilizado na irrigação de suas parreiras infindáveis.

Percebendo a possibilidade de escapar, ao menos por um momento, daquela fuga exasperante, os dois vultos aumentaram seu ritmo como quem corre para um salto longo. No instante em que foram saltar, o que parecia ser uma capa negra da grande massa corpulenta se enroscou em um galho e acabou por se soltar, revelando um homem de aproximadamente 20 anos e com músculos enormes cujas veias saltavam a cada movimento seu. O homem possuía cabelos dourados como fios de ouro que pendiam até o ombro e uma pele bronzeada naturalmente.

Saltaram os dois por sobre o vau sem maiores problemas e continuaram a fuga, agora em um ritmo mais lento para recuperarem o fôlego.

- Aquela flecha passou por mim e fez um furo na minha capa. Um mísero dedo mais para a direita e me acertaria em cheio. – disse o menor dos homens.

- Nem me fale sobre capas, perdi a minha de novo, desse jeito vou acabar sem pagamento no final do mês. – retrucou o recém revelado.

Percebendo que se encontravam próximos de uma depressão de aproximadamente uns 30 metros naquele terreno quase todo plano, os dois fugitivos discutiram um plano e então se separaram.

- Não se preocupe, eu ficarei bem. Vá pegar os cavalos e me encontre na outra extremidade. Vou confundi-los um pouco. – vociferou o homem de proporções taurinas para o outro.

O outro homem assentiu com a cabeça e correu para a direção leste, onde logo a depressão ficou menor e adentrava num pequeno bosque. Numa das árvores à margem de um lago cristalino e raso estavam amarrados os dois garranos castanhos, alimentados e descansados. Rapidamente montou em um deles e, segurando as rédeas do outro, partiu em disparada na direção oeste para a outra extremidade da depressão.

Buscando uma forma de tentar um vislumbre do companheiro na parte mais alta da depressão, o recém montado saiu do bosque e corria em campo aberto paralelo ao paredão escarpado. Quando se aproximava da outra extremidade da depressão viu seu companheiro cair de repente enquanto corria. Parecia ter sido acertado por uma flecha. Levantou-se e continuou a correr, agora com uma das pernas em ritmo arrastado e se aproximou mais da borda do pequeno penhasco.

O cavaleiro aumentou o ritmo da cavalgada como se a vida do outro dependesse de sua chegada. Foi então que viu aquela figura robusta ser acertada por outra flecha e despencar em queda livre pelo paredão. Aquela cena foi como um soco na boca do estômago que tira o fôlego e deixa a pessoa sem voz. Mas a dor que isso causou o inundou por dentro e foi possível ouvir ao longe seu urro desesperado:

- NÃÃÃÃÃÃOOOOOOO...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.