Notas iniciais
"As tropas estavam a postos, cada fileira alinhada e armada, prontas para partir, mas algo faltava aos veteranos de mil batalhas. Faltava segurança, certeza, determinação, até que o silêncio foi quebrado - Marchem, agora! - ela deu a ordem e o exército avançou, com a certeza da vitória".

Obrigado, minha general, por sempre dar coragem e suporte as minhas tropas.

(-171)

Wulmhir sentiu a vibração sob os pés junto com a última expiração do jovem Bherin, seu último irmão em armas. Um toque longo. Manter posição. Ele deitou a cabeça do amigo gentilmente no chão pedregoso, cerrando os olhos agora livres da dor. Três pequenos cortes envoltos em carne enegrecida eram a única testemunha de sua derrota, mas haviam sido suficientes para ceifar sua vida. Mais uma vez amaldiçoou a crueldade dos deuses que criaram os Nayanyrr, os grandes lagartos bípedes que carregavam em suas garras um veneno capaz de matar rapidamente mesmo o mais forte entre o seu povo.

– Haverá uma coluna com seu nome, irmão, eu lhe prometo.

Ele sabia que seria difícil cumprir esta promessa. Estava muito longe de casa, todos eles estavam. O primeiro mês de combate viera e se fora, levando consigo a vida de milhares dos Filhos da Montanha, mas a verdadeira batalha havia apenas começado. Os batedores encontraram o lar dos Nayanyrr e agora, três dias depois, todo o exército estava reunido. Os malditos iriam pagar pela morte do Conselho em pleno coração de Khedzaer com cada gota de seu sangue frio.

Nenhum dos generais se importara quando alguns lagartos foram vistos nos túneis externos da Grande Casa Branca, alegando que eram encontros isolados e que os malditos eram facilmente caçados e mortos, mas a verdade se apresentara muito mais sinistra. Eles infiltraram-se em sua morada ao longo de meses, escondendo-se nas sombras dos elevados tetos das câmaras principais, até reunirem um número suficiente para atacar o próprio Salão dos Antigos, onde Mananam, o primeiro, um dia se sentara.

Desde que o Senhor da Montanha expulsara os Nayanyrr e fundara Khedzaer, há quase nove mil anos, os anões aos poucos abandonaram a vigília sobre eles e a caçada, antes um ritual de passagem, tradição e maioridade, perdeu o sentido e a importância, permitindo assim que seu número crescesse para além de qualquer controle. Trinta gerações se foram, seus nomes orgulhosamente gravados nas incontáveis colunas da Cidade Eterna e com elas também se fora a memória dos perigos sob as rochas.

Dois toques longos. Entrar em formação. Pesados passos apressados passaram por ele, vultos na escuridão das cavernas, acompanhados pelo tilintar de armaduras, martelos, machados e lanças curtas. Ele olhou uma última vez para Bherin, imaginando a dor de Bheran ao receber o corpo de seu único filho.

Wulmhir colocou o pesado elmo e correu com seus irmãos, passando pelos corpos de amigos e inimigos caídos, sentindo os pés escorregarem no viscoso solo. As cavernas dos Nayanyrr eram cobertas por um estranho musgo que emitia uma tênue luz na escuridão. Os refúgios menores haviam sido destruídos e os lagartos fugiram para o centro do vale, agrupando-se em torno de sua última fossa imunda, Chyrll, em sua sibilante língua. Os corredores desciam sinuosamente, até que a claridade do dia o recebeu, cegando-o.

Quando os olhos se acostumaram com a luz, o lado oriental do Vale de Lhair se abriu sob ele, tomado pelo grande exército de Kothar Nol. As fileiras reuniam-se lado a lado, alinhadas e maciças como as distantes cordilheiras brancas. Quinze mil anões batiam os pés sobre o poeirento solo e as armas nos pesados escudos, fazendo o próprio ar retumbar. Atrás deles enormes catapultas eram preparadas e os grandes tambores de guerra ecoavam, marcando o compasso das pisadas e das batidas de cada coração. Mürkharaker, o Grande Brado de Guerra, permanecia silencioso, repousando em toda sua glória dourada sobre seu berço feito da rocha do coração da Montanha.

Mas ao olhar para o leste, viu o resto do vale tomado por uma inquieta cobertura em tons de verde-escuro e um amarelo baço cercando um pico solitário, guinchando e chiando em uma assustadora desordem, e um tremor correu por seu corpo. Não era possível calcular o número dos Nayanyrr no vale, mas havia pelo menos dez para cada anão que via. E estavam prontos para matar e morrer para proteger seu último lar.

Wulmhir desceu a encosta rapidamente, procurando afastar aqueles pensamentos. Não podia morrer hoje, tinha uma promessa a cumprir. Correu por entre as primeiras fileiras, onde todos gritavam e ninguém parecia ouvir, mas havia uma inquebrável ordem em meio ao caos. Cada anão sabia seu lugar em qualquer formação, não importando onde ou sob as ordens de quem servira. Em pouco tempo, ele estava batendo os pés contra o chão e o martelo de batalha contra o escudo. Seus irmãos o receberam com confiantes sorrisos e acenos de cabeça, mas Wulmhir não conseguia se contagiar pela confiança deles. Entre aqueles que o cercavam, apenas ele avistara o exército inimigo.

Mürkharaker soou por baixo deles, duas vezes, sem conseguir sobrepujar os outros sons, mas eles não precisavam ouvi-lo. As vibrações que vinham do solo rochoso eram o sinal que os generais usavam para comandar as tropas, chegando a todos sem distinção, mais longe e veloz do que o som das trompas poderia, principalmente para aqueles que viviam sob o chão. Um terceiro toque vibrou e o tambor rugiu mais alto, assim como os corações dos guerreiros, que responderam com um intimidador brado em uníssono, iniciando a marcha na mesma cadência.

As batidas do tambor controlavam a marcha, assim como induziam a calma às tropas, não permitindo que os corações acelerassem antes do tempo. Eles não corriam ou desmanchavam as colunas, caminhando como um único corpo, gritando em resposta quando as batidas dobravam momentaneamente.

O inimigo também partira em direção a eles. Wulmhir não conseguia vê-los, mas sentia a desordenada trepidação crescente. Não conseguiu evitar a imagem de uma intransponível parede de escamas correndo contra eles, como uma imensa onda do temido oceano, ávida para afogar os anões sob seu frio abraço.

Grandes sombras passaram sobre os brilhantes elmos que refletiam o sol. Um grande estrondo que fez o chão tremer arrancou novos brados, quando pedaços da montanha caíam sobre o inimigo, arremessados pelas catapultas, seguidos por vários outros.

Dois toques curtos. Todas as fileiras prepararam os escudos. Quando o terceiro toque vibrou, cada anão colocou o escudo sobre o que ia a frente, enquanto a primeira fileira os mantinha firmes sobre o peito. Após alguns segundos, uma chuva de flechas voou sobre eles, procurando o inimigo, com apenas algumas caindo sobre os escudos erguidos. A cada novo toque, nova chuva. As hastes sobre os anões começaram a se tornar numerosas, indicando que o inimigo estava próximo.

Um toque longo. As lanças das primeiras fileiras foram baixadas e todos inclinaram o corpo a frente, preparando-se para o impacto. O primeiro choque sempre era o pior e toda coluna o sentiu. Ossos, elmos, escudos e lanças se partiram com um estrondo, enquanto o golpe se espalhava como as ondas em um lago. Os anões continuaram avançando, empurrando os que iam à frente. Mesmo os que já estavam mortos continuavam a enfrentar o inimigo, esmagando-o sob seu peso.

Mas então o exército parou, os pés derrapando no solo rochoso. Os corpos dos dois lados amontoavam-se entre eles, impedindo seu avanço. Alguns Nayanyrr escalaram a vanguarda e avançavam sobre as colunas, matando os que estavam espremidos demais para erguer as armas. Três toques, mas muitos escudos não puderam ser erguidos e as flechas dos anões beberam sangue quente e frio, indistintamente. Wulmhir não conseguia respirar direito, mas continuava a tentar empurrar a coluna em frente, sempre em frente.

Um toque longo e um curto surpreenderam os anões. Aquela era uma manobra difícil de ser executada e pouco usual, mas apenas um segundo separou o último toque do movimento do exército. Wulmhir olhou em frente e viu um braço coberto de escamas verde-escuras sobre o ombro de um irmão poucos metros à frente. Se ele podia ver o inimigo, ele faria parte da muralha. Firmou os pés no chão e segurou o escudo com ambas as mãos. Os que estavam mais atrás recuaram, reagrupando-se. Eles seriam a lança.

A muralha não poderia resistir sozinha por muito tempo, sendo empurrada para trás conforme os anões caíam. O inimigo avançou por cima da barricada de corpos, impune, cortando carne e metal com suas garras. Wulmhir já conseguia ver seus olhos amarelados e quase sentia o fétido hálito de seus guinchos. De pé, eram mais altos que os anões, abrindo largamente a boca de afiados dentes para abocanhar a cabeça inteira de um guerreiro, mesmo com o elmo posto. Suas costas estalavam sob o peso dos vivos, dos mortos e dos lagartos que avançam.

O curto toque passou por seu corpo dolorido como uma bênção. Cada anão na muralha colocou-se de lado, protegendo seu flanco com o escudo e abrindo um espaço entre as colunas, fazendo os atacantes perderem o equilíbrio e caírem uns sobre os outros, desordenadamente. Antes que pudessem se erguer, a lança avançou veloz em furiosa carga, pisoteando os que estavam caídos e esmagando os que ainda avançavam pelos corredores da muralha.

Após um exultante momento, Wulmhir percebeu que algo estava errado. A lança atingira com força as linhas inimigas, quebrando seu ataque, mas não conseguiu avançar muito além. Os inimigos ainda eram numerosos demais e o impasse os favorecia. Os anões não conseguiam lutar com os braços presos junto ao corpo enquanto que seus inimigos precisavam apenas de um pequeno corte, uma única mordida para, lentamente, retomar seu avanço.

Wulmhir não conseguiu mais negar o que sentia. Se Mürkharaker tentava lhe dizer algo, não conseguia mais ouvi-lo. O ar estava tomado por medo e ruína, as colunas estavam desordenadas e partidas, seus irmãos gritavam de dor e não mais de fúria, o grande tambor batia descompassado. A derrota lhe parecia certa agora. Não haveria música e bebidas esta noite, não escreveriam seus nomes nas colunas da Cidade Eterna. Apenas a fria escuridão sem fim os aguardava e, mesmo assim, o que o perturbava era a promessa feita.

Um som distinto surgiu sobre todos os outros. Imperceptível a princípio, mas este se repetiu várias vezes em muitos tons diferentes. Os Nayanyrr também pareciam surpresos, guinchando de raiva e medo. Um dos lagartos sobre Wulmhir girou a larga cabeça para o estridente som, dando a ele a chance para atacar e esmagar o crânio de seu inimigo, que tombou em um sibilo de dor.

Quando se ergueu, foi então que ele viu. Além do vale, por sobre os mortos e os vivos, ele viu uma maré sedenta e escura que descia pelas vertentes de Chyrll, jorrando por suas inúmeras entradas em uma cacofonia de cornetas descoordenadas e gritos de fúria e morte. Os lagartos chiavam em desespero, seu lar havia sido destruído enquanto os guerreiros estavam no vale, os ninhos quebrados e os filhotes mortos. Correram de volta à montanha, tentando subir a encosta, mas a avalanche selvagem não podia ser detida, esmagando todos que ficavam em seu caminho.

Wulmhir viu que ela era formada por milhares de Dhândin, os Anões de Pedra, bárbaros selvagens e incultos, sem qualquer disciplina ou honra, afastados dos Dhândûner há milhares de anos e que se acreditava que jamais se importariam com seus irmãos mais nobres ou que viriam em seu auxílio, esquecidos e desprezados por estes, mas, ainda assim, lá estavam, sangrando e morrendo por eles.

Em meio às barbas negras e proteções de couro escuro dos Dhândin ele viu um que se destacava, envolto em uma pesada armadura que brilhava em reflexos de prata e dourado, soprando um longo corno de guerra. O som era límpido e familiar, três toques longos. Avançar, avançar! Cada anão no vale reconheceu o chamado de Zartarian para a batalha que reverberava entre as montanhas. Ele convencera os Dhândin e os comandava. Através dele os Filhos da Montanha eram novamente um só povo, um só sangue, uma só rocha!

O tambor soou novamente, as batidas rompendo os grilhões do medo e da morte. Os anões reassumiram as colunas e a marcha, enfurecidos, motivados, ultrajados e envergonhados contra um inimigo que tentava agora apenas fugir. O vale era deles.

Ao fim do dia, Wulmhir estava exausto e coberto em frio sangue azul, vendo tristemente milhares de irmãos que nunca se levantariam novamente, caídos em gloriosa vitória. Aos seus pés, um deles tinha os olhos voltados para as estrelas que começavam a surgir, mas que não as veria mais. Wulmhir não o conhecia, mas aquele também era seu irmão e morrera para que ele e tantos outros vivessem. Abaixou-se e fechou com cuidado os olhos arregalados.

– Que retorne rápida e tranquilamente em glória aos seus, irmão.

Um moribundo lagarto ao lado do corpo tentou alcançá-lo, mas o anão inclinou o corpo para trás e o esmagou com seu o pesado martelo.

– Teremos que retomar as caçadas – pensou com firmeza – ou este dia se repetirá para nossos filhos.

Uma súbita dor subiu a queimar por seu braço esquerdo. Viu dois leves cortes em seu antebraço, com a carne já a escurecer em volta deles. O maldito o havia atingido.

– Não!

Olhou desesperado em volta e pegou um dos muitos machados que o cercavam, erguendo-o alto enquanto colocava o braço atingido deitado sobre a placa peitoral de um de seus irmãos caídos. A dor começava a enfraquecê-lo e turvava sua visão.

– Não posso morrer... Tenho uma promessa!

E assim o machado desceu, veloz e preciso.