Crônicas de Andhara e além
4 As sombrias Terras da Luz
Notas iniciais
Um agradecimento especial a um anjo chamado Letícia.
(-512)
Sinto a leve respiração dela em meu braço, os finos cabelos deslizando entre os dedos quando os acaricio. Lembro-me de quando sua pele ainda carregava um pouco do sol que aqui não existia, antes do tom pálido que tem agora, que todos temos, mas não me importava. Ela era a criatura mais bela que já tinha visto.
Le’lah. Sorrio quando recordo de quanto tempo demorei para pronunciá-lo corretamente, terminando em um suave suspiro que escapa quase sem forças, levando meu último fôlego. Achei estranho quando a conheci. Hoje não há som mais lindo. Seu nome me eleva e me acalma, trazendo uma paz que não creio que qualquer outro guerreiro seja capaz de sentir.
Procuro respirar devagar, para não perturbá-la em meu peito. Há muito que já não usava armadura, elmo ou manoplas, apenas para senti-la mais perto de mim, para sentir o calor de seu corpo contra o meu, para não machucá-la com meu toque. Minha pesada mão passeia leve pelos contornos do rosto que amo, os calos e cicatrizes a fazendo parecer tão indigna contra a pele macia. Mãos de espada, treinadas para a guerra, mas que aprenderam por ela a acolher e a acalentar.
Aperto suavemente minha cabeça contra a dela, envolvendo-a por inteiro. Ela retribui meu abraço, o cabelo envolvendo meu nariz. Adoro o cheiro que exala dele. Não é doce, mas carrega o aroma da vida, de promessas a cumprir, de um novo amanhã. Nada poderia ser mais precioso aqui. Contra nossas peles pálidas, os longos fios são tão escuros como a noite deveria ser.
Não me lembro mais da noite, apenas de seu abençoado silêncio, sem o constante tinir dos martelos dos ferreiros e os estalos das cordas a erguer pesadas pedras. Mesmo o sol é uma vaga lembrança, pouco mais que as pinturas em tantos escudos a nossa volta ou nos grandes mosaicos da muralha.
Inconscientemente ergo os olhos para a imensa amurada atrás de nós, alva como tudo o mais que havia para ver, erguendo-se contra um pálido céu sem nuvens. Os homens eram pequenos pontos a caminhar em seu topo e ela ainda estava crescendo.
Parecia eterna, intransponível, mas sua face ostentava inúmeras fissuras, marcas e cortes, feitas por pedras, garras e presas. Rachaduras estendiam-se como longos rios, nascendo nas grandes rochas quebradas por catapultas ou pelos golpes dos gigantes. E nunca havia tempo suficiente para repará-las, apenas para fazê-la crescer.
Ela já estava ali quando atravessei, não mais do que cinco metros de pedras pálidas quando a vi pela primeira vez, sempre crescendo sob o atento olhar do Venerável Construtor Ludië. Contam que houve uma época em que a antiga muralha não fora necessária, mas um sussurro ainda mais antigo dizia que o número dos inimigos havia crescido para muito além de qualquer contagem e que uma vez chegaram até os portões sagrados, matando um dos Doze.
Lembro-me bem de como esta história costumava acelerar meu coração em um misto de raiva e medo, de como me motivava em batalha, mas estes sentimentos estavam mortos em mim, substituídos por ela. Sei que não perdi a fé, nem me arrependo da escolha que fiz, mas, quando estava com Le’lah, tudo o mais perdia a urgência. Tudo que queria era continuar ao seu lado, um momento a mais de seu calor, mais um segundo de seu toque.
Ela não deveria estar aqui, nenhum deles deveria, mas sua fé se mostrou tão grande quanto a nossa e eu era grato todos os dias por isto. A pequena vila que construíram para eles dentro da muralha teimava em tornar-se ainda menor enquanto mais acólitos continuavam a chegar, como estrelas arrancadas do límpido céu. Não sei em que dia ela chegou, mas tenho gravado a ferros em minha alma o dia em que a conheci.
Sei que não teve medo, que não amaldiçoou o destino ou as verdades que esconderam dela, como vi em tantos outros, como quase vi em mim mesmo nos primeiros anos, apenas acatou o que sua fé lhe reservara, inabalável. Sua força era maior que a minha, eu sempre soube. Em pouco tempo minha obrigação se transformou em uma agradável incumbência, o respeito em admiração e o carinho em algo que não consigo mais descrever.
Não me recordo de como tudo era antes de Le’lah, não quero me recordar. Os guerreiros fazem uma promessa de nunca falar do que havia antes de atravessarem, para não viverem em saudade, perda e sofrimento, para nunca se desviarem de seu novo propósito, mas realmente não lembro.
Não me recordo de quando atravessei, mais de mil anos atrás, pela crença e pelo sacrifício. Também não me lembro de minha derrota ou de quem me derrotou, mas isto não importava. Encontrei vida onde só havia morte, encontrei piedade onde só havia confronto, encontrei uma razão onde só deveria haver fé.
O começo de cada dia era sempre inquieto, com construtores apressados em consertar o que havia sido quebrado, entre preces entoadas àquele que os fizera desejar estar ali.
“Aqui estou e rogo por tua força,
A escuridão mais densa não pode diminuir tua luz,
A noite mais escura não pode esconder teus inimigos de mim,
Por minhas mãos o mal deve cair, pois sou tua fé e tua vontade,
Teu martelo e tua ferramenta, teu escudo e tua espada.
Teu propósito é meu dever e vem antes de minha vida
E que a Eterna Chama me envolva quando meu espírito falhar”
Eu me recordo das palavras e do juramento solene. Quando estou sozinho consigo ainda me lembrar da Luz, da Chama e da Torre, mas não lembro como caí, onde falhei. Ainda vejo a face de amigos que não estão aqui e ouço suas risadas, mas seu calor se desvaneceu, perdido em uma vida que não existe mais.
Le’lah parece despertar subitamente, erguendo a cabeça e olhando para meu rosto temeroso. Ela sempre sabe antes de mim, sempre soube. Fecho os olhos e coloco as mãos com força sobre os ouvidos, rezando pela graça que sei que não irei receber. Sinto as lágrimas descendo, mas não consigo segurá-las. Meu coração se aperta no peito, quase parando. Tenho raiva e medo, e vergonha por senti-los.
Sinto as suaves mãos em meu rosto, secando as lágrimas, erguendo meu queixo. Abro os olhos e vejo seu sorriso. O maravilhoso sorriso dela, que me dá ânimo, coragem e constrangimento.
Por tudo que é sagrado! Ela pode estar morta antes deste dia acabar, como pode sorrir enquanto me escondo? Eu sou o guerreiro, o escudo e a espada! Meu é o dever, a fé e a promessa, mas é ela a força, minha luz na escuridão por vir.
Liberto meus ouvidos e o silêncio me recebe. Não há mais martelos, pressa, cordas ou pedras, apenas a enganosa paz como testemunha do que não tardará. Todos oram e aguardam, mas em verdade poucos ousam ter esperança nestes dias. Ou no amanhã. E no dia depois dele.
A trombeta soa imponente, rasgando o silêncio, rapidamente seguida de outras, muitas outras, mas sempre menos do que seria necessário para apaziguar o receio que eu carrego, que outros também sentem. Chegaria o dia em que não conseguiríamos vencer, em que falharíamos em nosso sagrado dever, mas não era este o momento para esses temores. O aviso era claro e inequívoco, o inimigo estava sobre nós.
Ergo-me, sem vontade ou pressa. Todos correm a minha volta, em um ordenado caos. Cada um sabe para onde deve ir, o que deve fazer, dia após dia, ano após ano, século após século. Também sei meu dever, mas permaneço ali um último instante, olhando sem ânimo em direção aos portões. Sinto o chão começar a tremer com as passadas dos exércitos e ouço os gritos e rugidos já não tão distantes, mesmo assim eu permaneço ali.
Ela me entrega a espada que repousava ao nosso lado, sempre com um sorriso. Depois de tantos anos ainda me surpreendo quando estamos de pé, sua cabeça pouco abaixo dos meus ombros. Não há qualquer justiça nisto, ela é muito maior do que eu jamais serei.
Le’lah se coloca na ponta dos pés para me beijar. Eu a abraço com força, erguendo aquele pequeno corpo que desaparece sob meus braços. Nossos lábios se tocam, formando apenas um, indivisível, mas que tem de se separar.
Silenciosamente prometo mais uma vez que serei o guerreiro que ela espera de mim, que colocarei nossa fé antes de nosso amor. E mais uma vez me penitencio por saber que os mil anos de verdade não apagarão estas pequenas mentiras.
Olho para ela com a eterna dúvida em meu rosto. Seríamos os dois abençoados ou teríamos de esperar por outro amanhecer? Ela percebe minha inquietação e ri dela. Eu também rio, mas sem vontade. Sei que não tem importância, mas não consigo evitar. Ela sempre estaria a minha espera, não importando o que nos acontecesse.
Parto para os portões sem olhar para trás, sem me despedir. Se o fizesse, tenho medo de que poderia desistir, de que trairia nossa fé e o que lutamos tanto para proteger. Ela se dirige para a vila, para junto dos outros acólitos, para esperar pelo meu retorno. E mais uma vez prometo que vou voltar.
Todos estão em suas posições. O ar está pesado de tensão. Cada vez há menos sorrisos confiantes, menos esperança. Para a maioria, há apenas o dever. Vejo armas e armaduras que não existem mais, homens com estranhos bigodes trançados e outros com os corpos pintados em línguas que já se perderam ou que são novas demais para mim. Somos guerreiros muito diferentes, de povos e de eras distintas, mas nossa crença é comum, assim como nosso objetivo. O inimigo não irá chegar até os Portões Sagrados, ele não pode chegar.
Os gritos do outro lado da muralha cessam, assim como sua marcha. O silêncio pesa em nossos ouvidos. Com um grito gutural, a ordem é dada e eles avançam contra os portões com um trovejar de passos, correntes e asas. Os primeiros blocos atingem com força nossas defesas, que pagam seu preço em novas marcas e fissuras, mas resistem. Centenas de flechas voam de cima da muralha e ouço o rolas das grandes pedras por toda sua extensão, atingindo com força as primeiras fileiras do inimigo.
Um estrondo irrompe nos portões que gemem como uma besta ferida. Desembainhamos as espadas, aguardando. Um segundo golpe, maior que o primeiro, arranca grandes lascas que caem a nossa frente. Grandes asas cruzam os céus por cima da muralha, derrubando os homens que a protegiam. Os que tiverem sorte estarão mortos antes de atingir o chão.
Os portões se quebram e um grito de guerra surge de nossas fileiras. Todos gritam um único nome, eu grito o nome de Le’lah. Os gigantes que seguravam o descomunal aríete caem como folhas secas sob nosso avanço, mas os outros nos esperavam. Eles sempre nos esperam. Os demônios caem dos elevados ombros como aves de rapina, quebrando nosso avanço. Dezenas dos nossos morrem em segundos, mas conseguimos empurrá-los para trás, ganhando a entrada dos portões.
Todo o imenso campo que se abre para nós está tomado até onde se pode ver pela horda negra. Homens que viveram milhares de anos antes de mim caem uma vez mais pelas espadas em chamas, assim como outros que minha era nunca viu nascer. Incontáveis bestas de guerra, monstros saídos de pesadelos, demônios do Abismo e homens de todas as cores e feitios enfrentam uma vez mais a Luz que trazemos e uma vez mais perecem sob ela.
O dia se arrasta em sangue e morte. Nosso avanço é lento, mas constante. No final eles já não atacam unidos, sob nenhum comando ou estratégia. Apenas o desespero os impulsiona, como só a certeza da ruína pode trazer. Quase sorrio. Quero acabar logo com isto, quero voltar para os braços de Le’lah.
Os primeiros gritos de vitória irrompem timidamente, para então se alastrarem pelo campo. Ainda havia luta, a morte ainda cavalgava veloz dos dois lados, mas o desfecho não podia ser mais negado. Todos correm para as linhas mais avançadas, exultantes, Eu corro para Le’lah.
Passo por mais corpos que uma vida pode contar e pelos portões destruídos. Mal percebo os construtores começando a erguer as grandes pedras para a muralha ou os ferreiros recolhendo as espadas e armaduras em meio aos mortos, mas vejo a vila dos acólitos e meu coração é tomado de agonia, parando de bater. Um grande pedaço da muralha se desprendera e esmagara algumas das casas, inclusive a nossa.
- Baltur não permita...
Mas ele não estava mais ouvindo naquele dia, depois de tantas preces atendidas. Devia estar celebrando a vitória com os Onze ou já se preparando para o combate de amanhã, ocupado demais para se preocupar com as súplicas de um único Paladino quando tantos outros morreram em seu nome.
Não, Não blasfemarei. Eu sei de meu dever e do sacrifício. Le’lah também sabe. Pela minha fé e a dela não vou fraquejar, apesar da dor e do ódio que me tomam.
Encontro seu corpo entre os destroços, estranhamente sereno e quase sem ferimentos. Parecia dormir, aguardando o despertar que viria no próximo dia. Agradeço silenciosamente a Baltur por esta pequena indulgência.
Beijo os pálidos lábios frios e, por um momento voltamos a ser um. Tomo-a nos braços e a envolvo em um terno abraço, apesar de não mais sentir o calor de seu corpo contra o meu, apenas as lágrimas que caem como chuva em seu peito.
Não fomos abençoados hoje, mas amanhã será um novo dia, assim como todos os infinitos dias que nos aguardam nas sombrias Terras da Luz.
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