Crônicas de Andhara e além
8 A travessia
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Ele olhou uma vez mais para o menino correndo alegremente pela folhagem, ainda sentindo surpresa ao vê-lo. Qymper era filho de seu filho, seu neto, mas a palavra ainda era estranha para ele, mesmo depois de tantos anos nesta nova terra. Esller nunca esperara viver para ver o filho de seu filho. Os homens que conhecera não viviam para ver muitos invernos. Poucos chegavam ao vigésimo ainda com forças para lutar e nenhum com a vontade para isto, mas não havia escolha. Mesmo assim, ali estava ele, guardando a forragem para enfrentar seu quadragésimo inverno.
Qymper girava o pequeno graveto nas mãos como se fosse uma desajeitada lâmina, imaginando-se um guerreiro como o pai. Esller resmungou algo ininteligível ao imaginá-lo indo para as cidades no oeste, seguindo os passos do pai. Fazia anos que Esller não ia para lá. Não queria mais ir. Os homens começavam a se reunir em torno de seus líderes em seus jogos de poder, carregando armas, desenhando brasões, erguendo cercas, criando leis e esquecendo-se de quem eram. Há trinta anos seus pais chegaram a esta mesma costa, assustados, famintos e doentes, mas haviam sido um só povo.
Esller largou a pesada saca na pequena gruta que usava como depósito e ergueu a cabeça, sentindo as costas doerem. Inspirou profundamente, deixando o salgado ar marinho preencher seus pulmões, revigorando-o. As ondas batiam com força nas pedras abaixo, entoando a mesma melodia com que os recebera e os acolhera. Não havia a canção e o cheiro do mar nas cidades do oeste, este era seu lugar e era aqui que iria cumprir seu dever, até seu último dia.
Ele sabia que não podia culpar Qymper ou mesmo seu filho pelas escolhas que fizeram. A culpa era sua. Sua e de todos os sobreviventes da travessia. Eles não contaram a seus descendentes o que acontecera. Não falaram da dor e da guerra. Mesmo Esller não saberia ao certo o que dizer, apesar de que já tinha oito anos quando se lançaram ao mar. As crianças não compreendiam totalmente e os adultos tinham medo de falar. Assim, uma velada promessa de silêncio fora feita. Eles eram milhares quando chegaram, menos da metade dos que partiram, mas não restava agora mais do que uma centena dos que vieram do outro lado do Mar do Leste. Em breve não haveria mais nenhum deles, apenas seus filhos nascidos aqui. “Se não falarmos do mal, o mal não se lembrará de nós”, repetia em sua mente. Esller esperava que, com seu silêncio, os pesadelos pudessem morrer também.
Qymper deu uma estocada em um arbusto com um grito de raiva, sentindo-se feliz por ter derrotado seu inimigo imaginário. Esller olhou melancolicamente para o menino, lembrando-se de um tempo que queria esquecer. Devia ter a idade dele quando pegou sua primeira arma, uma pesada clava de madeira rachada e envelhecida que algum morto deixou para trás, e com ela matou seu primeiro inimigo, um pequeno homem de pele cinzenta e dentes afiados, que lhe arrancou metade da mão esquerda com uma dentada.
As memórias desta época eram confusas e imprecisas, quase sempre carregadas pelo forte odor da fumaça, pelo som dos gritos de raiva e dor e pela constante risada sinistra de uma mulher que permeara o sufocante ar, mas a lembrança mais forte era sempre do medo. O medo fora seu fiel companheiro de infância, não o deixando dormir nas poucas noites tranquilas, permeando seus sonhos quando caía de cansaço, despertando-o bruscamente quando o inimigo estava sobre ele. O medo o mantivera de pé, atento e vivo.
Ouviu a alegre risada do menino em sua fantasia de duelos, fazendo-o lembrar-se da única vez em que rira antes de chegar a esta terra. Fora uma risada tímida e contida, mas havia sido muito para quem jamais esperara qualquer alegria nesta vida. Foi quando viu a Grande Cidade dos homens pela última vez, de cima uma distante colina. Mesmo obscurecida pela fumaça dos inúmeros incêndios, ela se erguera majestosa, ocupando todo o horizonte de norte a sul. Suas maiores construções rivalizavam-se com as montanhas que ela engolia e as poucas estátuas que ainda permaneciam de pé assemelhavam-se a invencíveis gigantes em eterna vigília, mas todos haviam sido vencidos e a cidade fora perdida.
Eles fugiram para o oeste, em direção ao Oceano Cinzento, mas a morte cavalgara veloz atrás deles. A imensa planície que se estendia entre a colina e a cidade havia sido tomada por dezenas de milhares de guerreiros e monstros que se enfrentavam sobre um número ainda maior de corpos, enquanto no escuro céu asas negras caíam como uma chuva mortal. Apesar de toda a loucura que o cercara, Esller se lembrava nitidamente dos olhos rasgados do demônio que mergulhara sobre ele e das enormes presas claras como marfim que buscavam seu pescoço. Seu velho companheiro tirou-lhe sua arma das mãos e o abraçou, não permitindo que fechasse os olhos ou se movesse, sentindo apenas as longas garras atravessarem seu peito e surgirem rubras em suas costas.
O próprio sol parecera então nascer em ondas de luz e calor que ele nunca sentira, vindas do oeste. As asas dos demônios se transformaram em pó sob aquele brilho, assim como a carne e os ossos enegrecidos. Um gigantesco guerreiro passou velozmente sobre ele, muito maior que a maior estátua que ele já vira, ceifando dezenas de seus inimigos com cada golpe das espadas gêmeas que trazia e esmagando tantos outros sob as imensas sandálias. Sua armadura era maior que uma casa e resplandecia com luz própria, fazendo as enormes armas que o atingiam parecerem gravetos atirados contra uma fortaleza. Esller não sabia quem ele era. Apenas que não era um dos membros da Tríade. Alguns homens gritaram seu nome, mas ele não os ouvira. Não tinha mais forças, não tinha mais vida.
Ele mal sentira a suave mão sobre seu ombro, quente e pulsante, retirando dele toda dor e expulsando o medo e o frio de suas entranhas. Quando ergueu a cabeça, viu um homem comum com uma espada nas mãos, vestido apenas com roupas simples, sem qualquer adorno ou distinção. Não havia nada de imponente ou nobre em seu aspecto, mas, mesmo assim, Esller soube que aquele era o maior entre todos os homens e que ele os comandaria contra o inimigo. Não se recordava bem das palavras que ele dissera, pela fraqueza que sentira e pelos gritos e sons da guerra, mas os enviara em direção ao oceano e lhe dissera algumas palavras antes de partir em direção à cidade, para enfrentar o inimigo. Naquele dia Esller ousara ter esperança. Naquele dia, ele sorrira como uma criança.
Esller piscou, sentindo a espuma carregada pelo vento irritar os olhos. As ondas haviam subido, arremessando seu véu muito acima da relva quando explodiam contra as rochas. O vento leste chegara, uivando como um monstro faminto, e as chuvas não tardariam a segui-lo. As crianças tinham medo deste vento e as mães contavam que ele carregava o lamento dos mortos, mas Esller o respeitava. Era o mesmo vento que inflara as velas dos três mil navios que se jogaram contra o Oceano Cinzento e sua infinita raiva. A capacidade de cada um deles excedida muitas vezes e mesmo assim tantos ficaram para trás. As ondas, as tempestades, as escondidas pedras afiadas como lâminas e os monstros que se ocultavam da luz sol o escuro mar carregaram muitos para o fundo, mas estes foram o que tiveram a maior sorte.
O oceano escondera seus peixes dos homens e nunca houve o suficiente para alimentar a todos. Rapidamente a fome e as doenças haviam se tornado tão comuns como o carregado ar salgado que o vento chicoteava em suas costas. Sacrifícios foram feitos, mas, qualquer que tenha sido o deus daquelas águas sem piedade, este se mostrara surdo a qualquer apelo. Os navios dos fortes passaram a caçar os navios dos fracos por sua comida e, após algum tempo, por seus mortos também. Nunca contaram a Esller de onde havia vindo a escura carne fibrosa que comera no meio do mar, mas ele também nunca quis saber.
Quando os mais fracos e jovens passaram a desaparecer, toda a humanidade que ainda restava aos homens ameaçou desaparecer com eles. Uma guerra eclodiu sobre as águas, tingindo-as de vermelho. Vários se declararam piratas e senhores de seus reinos de espuma, enquanto outros se tornaram monstros ainda piores. Navios foram afundados e outros fugiram em todas as direções, carregados com mulheres e crianças raptadas, como prêmio, diversão, sacrifício ou condenadas a um destino ainda pior. Os que permaneceram se uniram em uma única frota, jurando solenemente defender o que ainda os tornava humanos, mas os cruéis deuses que os haviam perseguido até ali continuaram a testá-los. Quando toda esperança parecera perdida, uma escura linha fora vista no oeste e a terra surgiu diante deles, rica naquilo que mais lhes faltara, alimento, paz e fé.
Esller se lembrava da chegada à nova terra e de tantos que morreram pelo desespero em desembarcar daqueles navios amaldiçoados por entre as mesmas pedras que ele agora guardava. Os sobreviventes se tornaram tão gratos que passaram a adorar todo tipo de divindade na nova terra, creditando a cada um deles seu papel em sua salvação. Passaram a cultuar o sol, a lua, as estrelas e o mar inquieto, assim como o vento, as ondas e os estranhos animais que encontraram. Esller cuspiu em desprezo quando a lembrança lhe veio. Nenhum deus, novo ou velho, merecia seu respeito. Ainda do outro lado do oceano ele havia ouvido as histórias sobre os antigos deuses, a Tríade dos homens, opostos e complementares. Havia sido por estes deuses que os homens haviam perdido sua cidade, matado e morrido. Cuspiu novamente, em uma pequena maldição.
Olhou para o fim do mar, vendo-o aproximar-se rapidamente, carregado de pesadas nuvens. O leste estava constantemente cinzento e enevoado pelas tempestades que o marcavam, de um horizonte a outro, trazendo sempre um tardio amanhecer para a rochosa costa, assim como a luz de seus relâmpagos teimava em iluminar a noite que não tardaria. Subiu a pequena encosta atrás de Qymper para voltarem para casa.
Ficou surpreso quando o viu sobre uma árvore, perseguindo um pequeno esquilo malhado. O menino estava crescendo rápido. Esller nunca escalara uma árvore. Em verdade, ele nunca as vira até chegar a esta terra. Nas memórias de sua infância havia apenas campos rachados e escuros, onde uns poucos arbustos lutavam para sobreviver. A relva era baixa e ressecada e quase não havia frutos. Toda a madeira para fazer os navios vinha de terras cada vez mais distantes que ele nunca veria, pois os homens e a guerra as haviam destruído como vorazes gafanhotos. Mesmo os esquilos da costa, tão abundantes quando eles chegaram, foram caçados até quase desaparecerem, para alimentar a horda faminta que invadira seu lar.
Esller ajudou Qymper a descer e seguiram para o grande forte de pedras que lhes servia de morada, projetando-se sobre o mar revolto. Havia vários ao longo de toda costa, já abandonados em sua maioria. Muitos haviam desabado, devolvendo suas pedras às praias rochosas. Haviam sido construídos às pressas para vigiarem a costa, procurando por perigos e por outros sobreviventes. Os navios foram queimados para tentar apagar todo o mal que estes traziam do outro lado do oceano. Houvera o temor de que seus inimigos os seguissem através das tempestades, mas quinze anos se passaram em que apenas pedaços de navios e cadáveres chegaram a eles, em um misto de dor e alívio. A vigília fora abandonada e a maioria seguiu para o oeste com suas famílias, onde havia frutas, animais e campos cultiváveis.
A chuva chegou quando eles entraram no abrigo, batendo violentamente contra as peles que cobriam as janelas. Esller escutava o vento uivar úmido e salgado por entre as pedras, enquanto tentava acender o fogo. Qymper começou a falar de como as casas nas cidades do oeste deveriam ser quentes e confortáveis, com camas, mesas e cadeiras de verdade, pelo que ouvia dos que chegavam de lá. Esller mandou que se calasse e viesse deitar perto do fogo que começava a crepitar.
– Vou subir – o olhar que o menino lhe dirigiu deixava claro o quanto ele o achava um tolo por ainda insistir naquilo, mas Esller não se importava. Era seu dever – Descasque as raízes e ferva a água. Descerei quando formos comer.
Ele subiu a estreita escada de pedra e se colocou em seu posto de vigília. Sentiu-se culpado pelo desgastado sino ao seu lado, muito enferrujado para produzir qualquer som se fosse necessário. “Ainda posso gritar”, pensou.
A chuva formava um espesso véu sobre o mar, tingindo a tudo de sombra e cinza. Não havia como avistar nada e havia nada para ser avistado, ele sabia, mas era seu dever. A noite seria fria, sentia isso nos ossos dos dedos que seu comandante lhe devolvera naquele dia, junto com a promessa de que viria por eles. Ele não pudera escutar, mas ouvira a promessa, juntamente com seu nome.
– Kaalutor – sussurrou.
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