Crônicas de Andhara e além

7 A mensageira das cinzas


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Os primeiros raios de sol pintaram o cume das distantes montanhas de dourado, mas ela não se moveu. Ainda havia sombras no platô onde dormia preguiçosamente, pouco abaixo do pico nu, enrolada em grandes capas de um grosso couro. A primavera se fazia adiantada e o ar carregava o odor agradável do orvalho que dormia sobre a relva e a terra na silenciosa manhã. A tímida luz fazia as trevas de seu lar recuarem, refletindo em brilhos prateados nas poças pelo chão.

Nenhum som perturbava seu sono. Há muito que os pássaros haviam abandonado os campos abaixo, junto com os outros animais, quando as árvores se foram. Sua humilde montanha reinava soberana em um extenso mar de cinzas e grama. Uma pequena nascente entre as rochas tornava-as úmidas e cobertas de liquens, fazendo com que a aridez do inverno fosse abrandada, assim como o calor do verão, tornando seu lar sempre agradável.

O sol tocou seu rosto, fazendo-a cerrar os olhos com mais força, incomodada pela claridade. Girou a cabeça para o lado, buscando as sombras que desapareciam. Era cedo, cedo demais. De repente, arregalou os grandes olhos e os vultos de seu lar tomaram forma diante deles. Podia ver novamente! Ergueu a cabeça, piscando rapidamente, tentando espantar as névoas que ainda se agarravam a eles.

Seu corpo se queixou do súbito despertar, o frescor da noite ainda impregnado nele, tornando-o lento e preguiçoso. Sentiu saudades de manhãs passadas, quando acordava quente e pronta para descer a montanha e caçar, mas o inverno viera e sua armadura estava gasta e desconfortável, precisava de outra. Deixou-se banhar pelo sol, sentindo sua luz e calor. O límpido céu lhe dizia que este seria um belo dia e ela estava feliz. As caçadas matinais iriam recomeçar e estava faminta.

Quando se sentiu aquecida, espreguiçou-se longamente, o orvalho escorrendo em alguns pontos do corpo. A nova armadura, feita de fileiras cuidadosamente alinhadas de placas e escamas brilhantes, como se polidas avidamente, a cobria com perfeição em tons de vermelho e dourado. A velha estava espalhada pelo chão, rachada, baça e desgastada, carregando as marcas de muitos anos.

Aproximou-se da borda do platô, vendo os campos verde-acinzentados salpicados de flores abaixo se estendendo por quilômetros. Aspirou longamente, percebendo o frescor da primavera, a terra úmida, o doce aroma do solo queimado, as pequenas flores e mais verde do que achava prudente, fazendo-a arrepiar-se. Correu os olhos sobre seu pequeno reino, alerta a qualquer movimento, mas nada viu. Durante seu longo repouso várias ilhas de arbustos haviam crescido entre a relva baixa, assim como pequenas árvores que já atingiam os dois metros de altura.

Ela sabia que teria de queimá-los, mas nunca na primavera. Não quando o cheiro inebriante das flores a rodeava e a convidava, trazendo-lhe paz. Quando o outono chegasse iria queimá-los, para que seus inimigos não a surpreendessem. Não sabia quem eram, nunca os vira, apenas sabia que eles viriam um dia para matá-la. Os arbustos e as árvores não conseguiriam escondê-los de seus olhos quando viessem, mas iriam mascarar seu odor e ela fora ensinada a reconhecê-los. A promessa da primavera e as duras raízes sob a terra. Os usurpadores e os pequenos demônios, a relva e a rocha. Não poderia haver nada até onde conseguisse enxergar que os disfarçasse. Quando viessem, ela deveria estar atenta e pronta para eles.

Mas seu estômago a lembrou que a caçada deveria vir primeiro. Não haveria fogo sem força; força sem comida; comida sem caça. Encolheu o corpo na beirada do platô, para então saltar para frente, caindo ao longo da abrupta encosta. Gostava de sentir o vento contra o rosto, engolindo-o enquanto caía por uma centena de metros e ouvindo o estalar do couro contra o ar raivoso. Próxima ao chão, abriu as grandes asas e a relva passou veloz sob ela, em um tranqüilo mar de verde e cinza respingado.

Arqueando e alongando o corpo, elevou-se até ficar muito acima de sua montanha, vendo a brancura dos picos distantes, o longo verde escuro para além delas e o brilho dourado do mar para mais além. Abriu-se de frente para o sol em todo seu esplendor, fechando os olhos e mantendo os ouvidos atentos ao mensageiro do fogo. Havia vozes no ar, tão tênues que apenas ela percebeu. Sua língua sentiu o gosto de florestas queimadas, de pedras enegrecidas, de sangue e morte, mas de um nascimento também. Teria o herdeiro sido encontrado? Havia um nome pairando no calor do amanhecer, Rastan, escrito em cinzas tão negras que a entorpeceram, cegando-a por um momento. Não poderia haver dúvidas, este tinha de ser o herdeiro do fogo de Akarash e, com ele, a esperança renasceria.

Expirou fortemente, tentando cuspir as cinzas enquanto se deixava cair para ganhar velocidade e distanciar-se delas. Precisava comer, mas mais do que para se alimentar, queria tirar da boca o sabor que a enojava, um gosto almiscarado de excitação e medo. Lendas tão velhas quanto o tempo, surgidas ainda durante a Guerra da Criação, contavam que uma nova era nasceria com o herdeiro, uma era de calor e fogo, de glória e vida, uma era sem temores para aqueles a quem todos temiam, mas ela não acreditava mais no que apenas as cinzas contavam. Seu ninho não carregara o fedor da primavera morta. O tributo da Grande Mãe, mil vidas por uma, não fora pago e ela estava ali, eternamente solitária, mas viva.

Sob as nuvens o mundo se abriu por baixo dela, em uma miríade de tons de verde, marrom, amarelo, azul e pedras cinzentas. Seus eram o céu e a terra, reinando soberana. Nenhuma outra criatura em toda criação poderia desafiá-la. Todos tremiam sob sua sombra, tentando em vão fugir de sua fome, mas de que valia tanto poder se ele trazia consigo um medo ainda maior? Havia aqueles que se escondiam em suas cavernas escuras e sem odores, derretendo a rocha nua em fúria incontida, tentando fugir ao inexorável destino que os atormentava. Nunca houve outro tão poderoso quanto Akarash ou que houvesse matado tantos quanto ele, mas, mesmo em toda sua imponência, ele se fora, sua chama apagada por um único usurpador, que eles haviam ensinado a odiar e matar.

Esta fora a primeira lição que as cinzas lhe ensinaram, pouco depois de nascer. Todo fogo morreria. Mesmo a Chama Infinda iria se extinguir quando o último inverno chegasse. Cada nova vida poderia adiar sua vinda, prolongando a eternidade, mas para ela o preço parecia ser alto e injusto demais. Mesmo que o quisesse pagar, nunca percebera o odor deles em seu reino. Ela nascera solitária em uma vida a qual não tinha direito e lhe parecia que a Grande Mãe queria que também morresse solitária.

Um odor a alcançou, selvagem e cheio de vida, despertando sua curiosidade. Os grandes felinos malhados não costumavam ser encontrados tão distantes de suas florestas ou tão próximos às terras dela. Eram extremamente possessivos, nunca dividindo o território ou a caçada nem mesmo com seus pares, mas ela percebeu com surpresa que eram dois. Um estava carregado pela inebriante essência desafiadora e confiante da juventude. O outro era mais cauteloso e experiente, tendo erguido as cinzas do chão com as patas para mascarar seu odor. Mas havia algo mais que ela não conseguia definir, algo suave e doce, estranho ao seu reino, mas seu estômago não pareceu se importar, lembrando-lhe que ainda tinha frio e fome.

A umidade no ar lhe indicava que estavam no rio abaixo, tentando atravessá-lo. Ela decidiu que seria ali que os atacaria. A água deixaria seus corpos pesados e os pequenos seixos soltos os impediriam de correr e saltar. Fez uma longa volta pelo oeste, para ficar contra o vento e impedir que sua sombra a denunciasse. Viu as duas formas embaçadas deixando uma longa trilha de lama que descia o rio. A fina névoa em seus olhos ainda demoraria algumas semanas para se desfazer totalmente, mas não era prudente esperar mais, quando a fome poderia enfraquecer seu corpo a ponto de não conseguir voar.

Um veloz mergulho sem aviso sobre os dois, assim que saíssem da água e tudo acabaria rapidamente. Haveria misericórdia nestas mortes e isto a deixava satisfeita. Não tinha pena da caça, mas não encontrava prazer em sua agonia.

Fechou as asas e alongou o corpo, caindo como uma comprida flecha. Apenas pequenos movimentos para manter a direção correta perturbavam o silencioso mergulho.

Quando se aproximou, viu que eles não estavam sós. Não acreditava ser possível, mas havia um cavaleiro montado em cada um deles, como se os selvagens felinos não passassem de dóceis animais domesticados. Neste momento, um delicado aroma a envolveu por completo, transformando sua surpresa em terror. A promessa da primavera! Abriu as asas em desespero, tentando subir, mas era tarde demais. Estava muito veloz e não tinha altura para mudar sua trajetória.

Passou pouco acima dos cavaleiros, derrubando-os de suas montarias e vindo a cair duas dezenas de metros à frente, entre grandes vagas de terra, seixos e água, rolando sobre a parte rasa do rio. Tentou erguer-se rapidamente e voar, mas sua asa direita doía imensamente, arrancando urros de raiva, dor e desespero. Não conseguiria fugir, teria de enfrentá-los, mas estava fraca, amedrontada e ferida.

Suas garras afundaram no leito lamacento e ela escorregou quando tentou se virar na direção deles. Arqueou o longo pescoço, aflando com fúria, mas sua chama ainda dormia dentro dela. Não houve luz ou calor, apenas um urro rouco e trêmulo, respingando água, saliva e filetes de um escuro sangue.

Os felinos urravam de volta em desafio, começando a cercá-la. Ela não compreendia, já os havia caçado antes e eles nunca a enfrentaram. Estava maior e mais forte do que antes, mas mesmo assim eles não fugiram, arriscando-se para defender aqueles que os acompanhavam. Seus olhos dilataram-se em terror. Estava desequilibrada, o flanco exposto e em desvantagem, mas, se iria encontrar seu destino, não partiria sozinha. Iria pagar seu tributo.

Ergueu a cabeça, mostrando os longos dentes em um ardente sibilo. Arqueou novamente o pescoço, pronta para atacar, mas foi quando verdadeiramente os viu. Um deles ainda estava no chão, sentado com o tronco inclinado para trás, apoiado nos braços. O outro, de pé, segurava firmemente uma longa e trêmula garra negra nas mãos. Não ousavam mexer-se, estavam tão aterrorizados quanto ela.

Era fácil perceber que, assim como ela, também nunca haviam encontrado seu mais odiado inimigo, aquele que estavam destinados a matar ou a morrer por suas mãos. Foram eternamente estes os sussurros das cinzas, assim como nos ouvidos deles ressoavam antigas palavras e lendas carregadas de raiva, mas não havia ódio há ser encontrado entre os três, apenas medo. Um medo que tentava cegá-los e instigá-los a matar, mas por quê? Por quem?

Ela baixou cautelosa a cabeça, ainda atenta às grandes feras que a cercavam. O que estava caído se levantou e colocou-se ao lado de seu irmão. Eram idênticos em quase tudo, mas apenas ele se apercebeu da dúvida dela, fazendo o outro abaixar a garra que mantinha erguida. Deu um passo a frente, não por coragem ou atrevimento, mas por alguma coisa que ela não pôde precisar, mas que lhe passava confiança.

Ele colocou levemente a trêmula mão espalmada sobre o peito e respirou fundo, falando uma única palavra em uma língua que lhe lembrava uma música que ela nunca ouviu, Andaronthil. Este era seu nome, ela não sabia como podia ter esta certeza, mas a tinha. Olhando fixamente para ele, a palavra com a qual as cinzas a batizaram passou para ele, reverberando alto no ar, em um idioma que ninguém a ensinara, Dramlor.

Os felinos se aproximaram, deitando aos pés deles como animais domesticados. Havia outros poderes atuando ali, ela sabia, que não pertenciam a eles, mas àqueles que os enviaram. Não eram as cinzas que lhe contavam estes segredos, mas uma voz dentro dela.

Havia muito a ser falado e explicado, mas eles simplesmente montaram e partiram, sem nada mais dizer. Havia uma urgência maior em sua missão, ela sabia. Apenas assentiu e olhou em silêncio, até que eles tivessem se afastado. Girou a cabeça para olhar a asa dolorida, soltando um curto lamurio quando tentou movê-la. Não estava quebrada, mas teria de descansar até poder voar novamente. Olhou para sua distante montanha e com um contido rosnado, começou a longa caminhada.

Um sabor acre no fundo da garganta lhe lembrava que seu tributo não fora pago, da chance que havia desperdiçado, mas ela se recordou do odor de seu ninho, onde a morte da primavera não a havia tocado. Não havia então uma única verdade, se verdade fosse o que as cinzas contavam.

Talvez ela estivesse errada, talvez a vida só pudesse nascer da morte, como elas lhe disseram por tantas vezes, mas recusava-se a viver a eternidade com medo e a matar simplesmente por ele. Seria esta sua mensagem às cinzas e elas a carregariam para todos que quisessem ouvi-la. E para os que não quisessem também.