Notas iniciais
Demorou mas nasceu. Graças a paciência e sabedoria daqueles que me ajudaram a tornar algo comum em algo especial para mim. Todos os versos tem doze fonemas cada (desafio pessoal). Espero que gostem.

Um agradecimento especial ao bardo e poeta Harry Cavalcante, que trouxe luz às trevas e sem o qual eu não teria coragem de publicar este conto como estava.

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O primeiro acorde da harpa soou pelo salão real de Anandhys, ecoando no claro mármore e arrancando lágrimas das damas mais velhas e suspiros das mais novas. Este era o momento mais aguardado do jantar do Deus-Rei Mirandis. Todo o vasto clero estava em torno dele, em cadeiras de um macio tecido avermelhado, enquanto comandantes e convidados espremiam-se para ouvir a famosa canção sobre Ullys, o Matador de Dragões.

Apesar do salão de banquetes ser o maior cômodo do imenso palácio, capaz de acomodar confortavelmente mais de duas mil pessoas, Mirandis achara o número pequeno demais para a ocasião e para sua presença. Apesar do desconforto previsto e confirmado, nem mesmo uma palavra de protesto fora sussurrada em sua presença.

O Bardo de Fogo estava magnífico, envolto por uma comprida capa em tons alternados de vermelho e dourado. O longo cabelo escuro contrastava com o a pele alva do rosto. Os olhos brilhavam na sutil penumbra do capuz, enquanto um ávido silêncio aguardava para ser quebrado.

Sua fama o precedia. Sua balada fora ouvida em Inathys, Hanarys e na grande cidade portuária de Beleqys, onde atraíra a atenção de um Nobre Comandante, Cirwen, que o convidou à corte para aquela noite. Cantar para o Deus-Rei sempre fora seu objetivo, desde que criara a canção sobre os feitos quase esquecidos de Ullys, transformados em lenda pelo tempo.

Quando os exércitos de Anandhys mataram o rei de Édhulor, Talralin, o autointitulado Dragão Negro, Mirandis passou a ser chamado por seus homens de Ruína dos Dragões. Para muitos, apenas mais um título pomposo em uma lista infindável que muitos oradores foram chicoteados por esquecerem-se de anuncia-la em sua totalidade. Para o Deus-Rei, representava o novo brasão que mandara construir para o reino.

A guerra estava perto do fim. O único herdeiro de Talralin era muito jovem, o Pequeno Verme, como era chamado em Anandhys, e nunca conseguiu deter o avanço das tropas do Deus-Rei, que agora cercavam Andelnam. A vitória viria quando a fome e o desespero acabassem por destruir a capital de Édhulor.

Mirandis estava feliz e queria comemorar, eternamente sentado em seu trono dourado. O veludo azul-claro do assento e as enormes almofadas com a forma de nuvens douradas formavam o que deveria ser a morada de um deus. Esta era uma noite de festa e fora para esta ocasião que o Bardo de Fogo havia criado sua canção, para contar à Ruína a saga do Matador.

O fogo ardia forte dentro do círculo de pedras no meio do salão, assim como em várias tochas por toda a volta. Incensos queimavam em braseiros suspensos por finas correntes, tornando o ar leve e adocicado. As altas janelas estavam fechadas para manter afastado o noturno frio de outono e todas as espadas naquele salão pertenciam à Anandhys. Havia conforto e segurança para ouvir e uma bela voz para ser ouvida.

Ullys era o senhor da fortaleza,

Mas um prisioneiro em seu coração.

A filha de Mallgor em sua beleza,

Fez o grande monarca perder a razão.

Mulheres suspiravam, enquanto os homens franziam a testa. A voz do bardo era incrivelmente bela e cativante, mas onde estavam os dragões e a fúria de Ullys? Não estavam ali para ouvir uma canção de amor. Apenas Cirwen sorria.

Nos tempos do herói quase esquecido,

Amor e desejo juntos flamejaram.

Humilde súplica, orgulho vencido,

Nos ouvidos de Mallgor não ecoaram.

“Teu preço então, senhor, irei pagá-lo!

A minha vida não mais me interessa.

Minha alma é tua, sou teu vassalo!

Pela tua filha, tens minha promessa.”

O Bardo de Fogo deteve-se por um momento, a alongada nota da bela harpa morrendo lentamente no ar. As mulheres tinham brilhos nos olhos. Os homens começavam a volta-los para o chão e para as sobras já frias do jantar, procurando algo que os interessasse. Chegara o momento.

Levou os dedos a frente, dedilhando selvagemente a harpa. Quando o braço ficou esticado, abriu a mão em direção ao fogo, como se arremessasse algo. Imediatamente as chamas explodiram em um brilho azulado, tingindo o salão em uma única cor. Sua voz veio soturna, pesada como um austero pai a desenhar o futuro da única filha.

“Que preço queres estimar, cavaleiro?

De minha riqueza já tens o coração.

Pagarás pelo que levas, forasteiro,

Por minha filha, um coração de dragão!”

A última palavra foi cantada em uma voz rouca e áspera, em uma maldição. O fogo rugiu feroz com ela e, por um momento, todos pararam de respirar, em fascínio e temor.

“Assim me ordenas, terás teu tesouro”,

Sem temer ou hesitar, Ullys respondeu.

“Vendeste o que não se compra em ouro

Assim eu prometo, terei o que é teu”

Despediu-se dela, coração partido.

A filha sem fala, chorava calada.

“Eu tenho teu amor, não serei vencido,

Dragões são só fogo e vento, amada.”

A caçada começara. Com um sorriso cheio de cumplicidade para Cerwin, o bardo sabia que todos os olhos e ouvidos no salão eram agora seus cativos.

Para a morte certa Ullys cavalgou.

Escudo e trompa, lança e espada.

Mas um tesouro roubado também levou,

Em negro com a casa dela gravada.

Invernos vieram e verões se foram.

E sempre a espera, a dama ficou.

Juventude perdera, anos passaram.

Solitária saudade seu amor deixou.

Quando a esperança era perdida,

A promessa feita, triste recordação,

A trompa cantou uma nota ferida.

Um herói voltava de sua provação.

Outra explosão em chamas azuis cegou a todos por um momento. Quando abriram os olhos, a capa dourada jazia no chão. O bardo estava agora coberto em esplêndidas vestes de um vermelho esmaltado, feitas de escamas sobrepostas, brilhando como vidro polido, rivalizando-se com a luz do salão. As chamas pareciam dançar em seu peito a cada respirar.

A angústia cavalgava ao seu lado,

O fogo azul do monstro o tocara.

O braço perdido, o corpo queimado,

Escuro como o aço que levara.

O horror era visível nas expressões daqueles que tentavam imaginar a cena do retorno de Ullys. O bardo apenas sorria com o medo nos olhos deles.

Era metade do homem que partira.

Quebrado, queimado, ainda querido,

Por paixão infinda que ninguém previra,

Encontrou amor o guerreiro ferido.

Mas Mallgor não via sua vitória.

Por sua promessa foi ele cobrado.

“Dor e pesar não contam tua história,

Exijo provas de teu voto sagrado.”

Outra explosão azul arrancou gritos penetrantes de gargantas apertadas, nem todas femininas.

Sobre a carroça que presa trazia,

Mostrou a todos, sob o toldo manchado.

A grande cabeça do monstro jazia,

Aço negro em sua fronte cravado.

Sob o duro olhar do pai da amada,

De um saco escuro e ressecado,

Trouxe à luz a cruel peça cortada,

Um coração negro, de fogo tomado.

Ullys tomou então sua prometida

E voltou para sua grande morada.

A vida vazia então preenchida,

Em amor, glória e honra renovada.

Um pesado silêncio recebeu os acordes finais da harpa, reverberando nas altas colunas do salão. Apenas o abafado choro de algumas mulheres maculava o momento. Um murmúrio com o nome de Ullys surgiu timidamente, para em seguida ser gritado pelos homens, rapidamente sendo substituído por brados de “Mirandis” e “Ruína de Dragões”. O Deus-Rei sorria satisfeito.

Acima das vozes dos homens, um som estridente fez todos se calarem, levando as mãos aos ouvidos em dor. O bardo arranhava selvagemente a harpa, sorrindo cruelmente para eles. Quando os protestos se iniciaram, a voz do bardo voltou a cantar, poderosa como a de uma centena de homens, mas gutural como a de um demônio.

A história aqui não se encerra

Ullys não teria a absolvição

Sua sombra estava estranha, densa, alterando-se sob a luz bruxuleante da fogueira, parecendo crescer contra o claro mármore atrás dele. Cerwin estava confuso, nunca ouvira aqueles versos da música. Uma escura fumaça começou a subir timidamente das chamas azuis, intensificando-se rapidamente. O doce aroma dos incensos não conseguia mais esconder um estranho odor que tomava o salão.

Dragões lembram, a vingança é eterna!

As tochas queimavam altas, a fumaça tomando à abóboda acima como uma nuvem de tempestade, enquanto uma fina chuva de cinzas caía lentamente. Os olhos azuis do bardo estavam fixos sobre o trono dourado de Mirandis.

Nenhum matador ficará sem punição!

– Chega! – o grito desesperado do Deus-Rei foi ignorado pelo bardo – Façam-no se calar, agora!

Uma grande tapeçaria atrás do trono onde um dragão jazia morto por uma lança incendiou-se em chamas de várias cores, mas poucos perceberam. Os olhos ardiam e o calor sufocava a todos. Convidados deixavam rapidamente o salão por cima dos que caíam, em gritos que não conseguiam abafar a poderosa voz do bardo.

A ferida aberta, nunca sanada.

Cirwen desembainhou a espada e caminhou para o centro do salão, seguido por três soldados. Havia dor e medo no rosto dos homens.

– Calado, maldito.

Um dragão caíra e sete voaram.

– Cale-se ou eu o calo! – ergueu a espada, mas algo vindo pelas grandes janelas o deteve. Os gritos da guarda sobre a muralha se uniram aos do salão real. Gritos de alerta e desespero, asfixiados pelo bater de uma dúzia de poderosas asas de couro e o silvo de milhares de demônios. Dor e morte azul cavalgavam nas muradas da fortaleza de Mirandis. Os coloridos vitrais explodiram em luz e cascatas de vidro enegrecido.

A casa altiva, em cinzas tornada,

Ante a chama azul todos calaram.

Um dos soldados caiu de joelhos, chorando como uma criança. Quando Cirwen se virou, sentiu as forças lhe abandonarem. Dois grandes olhos anis de serpente haviam tomado o lugar dos do bardo e seu hálito azulado carregava o cheiro de fogo e danação, enquanto as belas vestes desmanchavam e subiam em pequenos redemoinhos de chamas. Sob elas a pele rasgava e caía como um ressequido trapo velho, sem mais utilidade. A voz se tornara um apavorante sibilo estridente.

Dragões não são fogo e vento, amada,

De escamas e carne, são morte carmim.

Cinzas e ruína, em dor transformada.

De homens a perdição, de deuses o fim!