Crônicas de Andhara e além
5 A Sombra da Noite
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Ela apertou as pernas dormentes sem senti-las, mas não ousou mexê-las. Tirou vagarosamente outra folha de Laran da pequena bolsa e a colocou na boca, deixando-a dissolver-se. O gosto era horrível, mas manteria sua barriga quieta, apesar de em nada aplacar a fome. O silêncio era tudo.
Quantas horas já haviam se passado? Doze? Quinze? Ela parara de contar em seis. Não fazia diferença. A noite se fizera dia e o dia novamente noite. A dor em seu corpo era testemunha de sua espera.
Paciência e disciplina, lições duras para uma jovem irrequieta, mas são estas as pequenas diferenças entre a vida e a morte. Entre a sua vida e a morte do alvo ou entre a vida do alvo e a sua morte, caso falhasse. Sempre acabaria em morte.
O alvo saíra cedo da casa. Não vira seu rosto, pois não deveria vê-lo. A morte era escura e no escuro não há rostos, apenas vultos. O observara de cima antes de o sol sair, e gravara suas roupas e seu andar, seu jeito desconfiado de andar na rua, o leve e constante movimento de cabeça, reparando em tudo e em todos.
O alvo sabia que havia sido marcado, ela tinha certeza. Não confiaria em ninguém nem seria pego desprevenido. Não era uma presa fácil, mas ela fora avisada. Sua missão era clara, sem testemunhas, sem outras mortes e sem venenos. Era sua primeira noite e sabia que seria observada.
A morte deveria vir apenas pelas armas que lhe deram, duas pesadas adagas sem fio, mal balanceadas e de ponta pouca aguçada. Difíceis de arremessar e só conseguiriam perfurar um corpo com muita força e pouca distância. Teria de se aproximar.
Mas havia outro arsenal ao seu dispor e procurava usá-lo sem moderação. A discrição, a surpresa e a paciência. Mas a mais poderosa era o silêncio. O quieto rato ao seu lado na viga do teto fazia mais barulho que ela.
Entrar na casa havia sido fácil, mais fácil do que imaginara. Uma portinhola alta oferecera pouca resistência, pequena demais para um homem passar. Abaixo, o único cômodo era amplo e escuro, mas com pouca mobília. Apenas uma cama desarrumada em um canto, uma larga mesa e sua solitária cadeira sob a posição que escolhera, coberta com frascos vazios, pergaminhos, tintas e penas. Seria o alvo um escriba? Um homem de números ou...
“Não!” Ela se repreendeu. O alvo não era ninguém, não tinha nome, rosto ou afazeres. Era apenas seu alvo. Nada além de uma morte ainda não entregue. A missão era tudo que interessava, as ordens haviam sido claras. A Irmandade a observava, ela sabia.
Não sorria mais quando se lembrava daquela tarde, na praça de comércio de Athmor, quando era ainda mais jovem do que agora, nada mais que uma criança e ele era uma figura furtiva, quase invisível, talvez por isso tão fascinante. Caminhava no meio da multidão e parecia estar sozinho. Ninguém parecia vê-lo ou ficava em seu caminho. Mas ela o vira.
Olhava a praça de cima, buscando sua próxima vítima. Deveria ter parado, já havia moedas suficientes em seus bolsos para se gabar, mas aquela sombra em forma de homem esgueirava-se com tanta habilidade que tinha de esconder algo precioso. Mas fora o prêmio ou o desafio que chamara por ela?
Um leve som na porta trouxe sua mente de volta do passado. Quando fora aquilo? Já haviam se passado três anos? Quatro? Não, não, não! A missão! Ela gritava dentro de sua mente. Os Decapitados não se lembram de quando estavam vivos. Um homem sem cabeça não tem memória, remorso ou consciência, mas ela não era um homem...
A porta abriu levemente, com desconfiança. O homem encapuzado entrou. Era o alvo, ela soube assim que o viu. As roupas, o andar, o jeito desconfiado. Trazia um saco sujo em uma mão e pelo andar ela podia quase sentir o peso que carregava. Ele deteve-se por um instante, baixando levemente a cabeça para a ponta dos pés, depois seguiu até a mesa logo embaixo, como ela esperava.
Tocou quase inconscientemente o peito, onde um pequeno bolso interno guardava o presente que ele lhe dera. Não sabia por que ainda o fazia. Para ter sorte? Coragem? Ou por respeito? Ele havia sido o melhor, mas, com um corte rápido e um sutil movimento, um pequeno saco mudou de mãos e a vida dela também.
O alvo estava embaixo dela, absorto em seus papéis. Um salto simples e tudo acabaria. Deixaria sua vida e seu nome para trás. Já sabia onde deveria enfiar as adagas, a primeira em seu pescoço, usando o peso da queda. A segunda, logo abaixo das costelas, de baixo para cima, quando tocasse o chão e erguesse o corpo, em um único movimento. O pulmão seria perfurado, o alvo não conseguiria gritar, sem ar e afogando-se em sangue. A morte seria rápida e limpa. Uma bênção.
Quando ia saltar, alguma coisa a deteve. Misericórdia? Receio? Ou instinto? Algo estava errado. A madeira sob o alvo rangeu levemente, como quando ele chegara, mas agora o pesado saco repousava sobre a mesa. Olhando para onde ele se detivera ao entrar, ela viu um pequeno fio de tecido colorido no chão, exatamente abaixo da portinhola que usara. Esperou por um momento e o alvo não saiu debaixo dela, remexendo inquieto um frasco vazio pela terceira vez.
Ele sabia que ela estava ali e a aguardava, colocando-se onde seria mais fácil de ser atacado, uma isca tentadora demais para ser recusada. Era uma armadilha, agora sabia, mas isto mudava pouca coisa. A noite tinha de acabar em morte. Teria de improvisar. Lembrou-se de Athmor e dele, e o medo desapareceu. Sorrindo, saltou sobre o alvo.
Seus pés sentiram o duro impacto quando aterrissaram com força sobre a parte de trás da cabeça do alvo, fazendo-a se chocar violentamente contra a mesa, quebrando vidro, pena e madeira. A tinta manchou o rosto escondido sob o capuz, mas não ouviu o som de ossos ou dentes a se quebrarem.
Ele estava usando um elmo, como ela imaginava. Dobrou as pernas sobre ele enquanto caíam, voltando a saltar no instante em que chegaram ao chão, quebrando a viseira do elmo. Sentiu uma comprida lâmina raspar levemente sua bota, enquanto voava de costas por cima de outro assassino que a atacava, saído das sombras atrás dela.
Girou o corpo no ar, caindo agachada atrás dele, mas o novo inimigo era mais ágil do que imaginara e já havia se virado, tentando novamente espetá-la, mas ele a ensinara a esperar o que ninguém mais esperaria.
Mesmo assim era difícil desviar-se dos rápidos ataques ou sequer ver quem a atacava. As sombras o encobriam de forma estranha, mesmo onde havia alguma luz. E de sua escuridão partia a veloz lâmina, sem aviso. O assassino parecia brincar com ela, conduzindo a dança das sombras por onde queria, não lhe dando tempo ou apoio para que recobrasse o equilíbrio.
Não havia opção senão enfrentá-lo. Não conseguiria fugir, teria de lutar. Sempre acabaria em morte, assim ele lhe ensinara, mas havia outras lições. Não desvie do golpe, ofereça-se e ele virá para onde você o quer.
Ofereceu o pescoço desprotegido e a lâmina veio, veloz e sedenta, mas ela arqueou o corpo para trás, fugindo de seu beijo. Em um contínuo giro, passou para as costas do assassino e o atacou com uma das adagas, enroscando-a no leve tecido de uma capa que não se rasgou. Quando ele puxou, a adaga desapareceu, engolida pelas sombras do cômodo.
Ela sabia que ele desviaria de seu golpe, mas para isto o assassino havia perdido a iniciativa do combate, passando a se defender de uma única adaga que atacava como muitas mais, dada a velocidade de suas investidas.
O assassino recuava, tentando escapar para os lados, mas encontrava o caminho sempre fechado por ela. Quando ficou encurralado contra uma das paredes, girando o rosto para desviar-se de um golpe ascendente, ela viu seus olhos por um momento. Eram claros e estavam calmos e confiantes, parecendo olhar para algo além dela.
O alvo! Ela curvou-se rapidamente e uma afiada lâmina decepou a pequena trança no topo de sua cabeça. Esticando a perna para trás, acertou o alvo com toda força que tinha na altura do abdômen, ouvindo o ar lhe escapar dos pulmões em um grito contido. Ela também praguejava silenciosamente, tanto pela dor que subia ondulando pela perna, revelando que uma pesada armadura de couro o protegia, quanto pelo cabelo perdido. Fora ele que a ensinara a trançá-lo assim, para não atrapalhar os movimentos, sempre dizendo com troça como ela ficava bonita.
A lâmina do assassino raspou suas costas, abrindo um corte de um ombro a outro. Ela mordeu com força o lábio, sentindo o gosto de sangue, mas não gritou. Ele dissera para nunca gritar. Se tivesse de morrer, que o fizesse em silêncio.
A fúria surgiu, mas ele a ensinara a controlá-la. A fúria era boa, lhe deixava alerta e motivada, a tornava forte, mas não podia virar ódio. O ódio a faria perder o controle e se desesperar, a tornaria fraca. Mas nem sempre era fácil.
O assassino sabia e viu a dúvida no olhar dela. Atacou seu ódio, mas encontrou sua fúria, que a desviou da lâmina e segurou o punho da espada, enquanto desferia um golpe com a única adaga. A ponta atravessou o grosso couro de uma armadura e cortou a pele abaixo dela, não se aprofundando mais pela agilidade do assassino, que saltou para trás, desvencilhando-se da mão da menina, mas perdendo sua arma.
Foi então que ela ouviu, no silêncio que se fez. Não era um som que lhe chamou, mas a ausência dele. Respirações foram contidas no limiar da percepção, quando o assassino voltou para as sombras. Eles estavam ali, vários deles. Não sabia mais o que fazer. Pensava no que ele faria.
“Não! Concentre-se”. Ela se esforçava para deixar de pensar nele, não estava mais ao seu lado, mas era tão difícil. Ele representara tudo, fora seu norte e seu mundo, sua força e sua verdade, até que eles os encontraram.
Olhou para a espada que tinha nas mãos. A lâmina era levemente curvada, parecendo uma folha alongada, fina e de comprimento médio, fácil de ser escondida. Era escura, como todas as armas dos assassinos, pintada para não refletir a luz.
Ela conhecia esta espada! Ele lhe falara dela! Ela tinha um nome, mas não conseguia se lembrar qual era, apenas que ele a admirava, mas havia outra e era essa que ele temia...
O suave deslizar de uma lâmina contra o anel de uma bainha vindo das sombras quase encobriu os outros sons em volta dela. Passos que se aproximavam, mais suaves do que ratos, e cabos de adagas espremidos por luvas de couro. Estava cercada, sem ter para onde ir. O corte queimava em suas costas, sentindo os filetes de sangue descerem por elas.
Mas se a espada estava ali, a Sombra da Noite também estava! Compreendeu subitamente o que devia fazer. Ajoelhou-se, esticando os braços com as palmas voltadas para cima, oferecendo a espada às sombras.
– Eu falhei, mestre – a voz era suave, sem indício do medo que sentia.
A Sombra se aproximou na forma de um homem alto e esguio, coberto por uma longa capa negra. Esticando a mão esquerda, pegou a espada das mãos dela. O pouco que a capa abriu permitiu ver uma armadura de couro levemente umedecida de sangue e o outro braço junto ao corpo, empunhando uma longa lâmina estranha, ainda mais escura que as sombras que a cercavam.
– E por que falhou? – a voz dele era um sedutor sussurro.
– Sempre deve acabar em morte – esticou a cabeça, oferecendo-lhe a garganta.
A ponta da espada curva encostou levemente na base do pescoço dela. Mesmo com o sutil toque ela pôde sentir o aguçado fio da lâmina.
– Sempre deve acabar em morte – ele repetiu, e a espada correu.
O golpe foi rápido e preciso, quase não o sentiu. Uma fina linha vermelha apareceu lentamente em seu pescoço, circundando-o. As outras sombras se aproximaram, murmurando uma fúnebre melodia.
– Você está morta, não tem mais memória, remorso ou consciência – os claros olhos amendoados brilhavam sob o capuz – E qual será seu novo nome, Decapitado?
– Kuchun – era o nome que havia sido dele...
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