Crônicas da Estante: A Caravana da Esperança

4 Dar-te-ei os acessórios escondidos, e trarei os colegas de série distantes, para que saiba que eu sou o Demiurgo, o Deus dos Brinquedos


Capítulo III

“Dar-te-ei os acessórios escondidos, e trarei os colegas de série distantes, para que saiba que eu sou o Demiurgo, o Deus dos Brinquedos, que te chama pelo teu nome!”

– Mei Feng! Mei Feng!

A boneca ficou meio assustada com o chamado, pois achava que Victor ainda estava no quarto – porém logo percebeu que se distraíra e o garoto humano os deixara fazia alguns minutos. Voltando a cabeça para trás, girando-a sobre a articulação do pescoço, constatou que fora chamada por Dick Graham – a figure caminhando até ela com sua fiel espingarda numa das mãos. A arma em miniatura passava tanto tempo encaixada aos dedos do boneco que estes já estavam manchados com o marrom de sua cor.

Chegando mais perto, ele lhe falou, numa voz baixa para não ser ouvido pelos demais brinquedos na curta extensão da estante:

– E então, o que acha da novata?

Dick Graham era um boneco da linha Zombie Frenzy!, e fora baseado no personagem principal da popular história em quadrinhos de apocalipse zumbi: um sargento do exército norte-americano que perde todos os seus companheiros num ataque das criaturas e passa a vagar pelo país em busca de sobreviventes. A camiseta regata branca sob uma jaqueta preta remendada, as calças verdes camufladas e os coturnos nos pés haviam sido fielmente reproduzidos na figure, além do boné de um time qualquer de baseball à cabeça e a cara de poucos amigos com barba por fazer. No entanto, ao menos aquela peça contrariava o personagem original e era bem amistosa – só muito dada à prática de fofocar.

Por “novata”, Dick referia-se à tal Boudica, que chegara à estante na tarde daquele dia. Horas tinham se passado desde sua introdução no meio deles, a noite chegara – porém ainda tentavam assimilar a personalidade da boneca. Como ela mesma demonstrara, acreditava ser a rainha Boudica de verdade, a mesma que governara os celtas, sem dar conta de não passar de um brinquedo baseado nela – uma versão fanservice de anime, ainda por cima. Nas cruéis palavras de Amika, “uma iludida”. Mei Feng sabia bem que a piloto tivera medo de perder seu posto de “preferida da coleção” para a guerreira, coisa que para alívio de Amika – e infelicidade deles – não havia acontecido. A arrogância da piloto vinha irritando muito Mei Feng nos últimos tempos, e a estante precisava de renovação, alguém novo tomando para si os holofotes.

Não fora daquela vez...

– Ela parece ser um bom brinquedo – a lutadora de kung-fu respondeu ao caçador de zumbis, olhando de relance o canto isolado da cômoda em que Boudica se mantinha estática em sua pose, mesmo Victor já tendo saído. – Amika está sendo terrivelmente cruel com ela e insensível ao seu problema... E o resto dos bonecos adere por moldar seu comportamento no dela.

– Amika é a líder, isso é até normal... – Dick procurou justificar num tom conciliador.

– Acho essa coisa de “líder” entre os brinquedos tão idiota! Ela é como nós, não é? PVC, puro plástico! Todos aceitam que ela mande na estante só por causa de umas articulações a mais, ou por representar a personagem que o garoto mais gosta? Acha que ela não seria triturada pelos dentes de um cachorro ou se espatifaria em dezenas de pecinhas se caísse de muito alto como todos nós? O que ela tem de diferente? O que, afinal, a torna melhor?

Dick suspirou, antes de replicar:

– Você representa uma personagem chinesa e também foi fabricada por aquelas bandas, como esse “Made in China” na sola da sua bota não deixa enganar. Deve ser por isso que está tendo essas ideias comunistas. Sabe por que a Amika se tornou líder? Porque ela não reclama tanto de sua situação quanto você, Mei Feng. Ela a aceita e segue vivendo, fazendo o possível para que todos nós aqui da cômoda também fiquemos bem.

– É fácil aceitar a situação quando se é a “queridinha” comprada com quase todo um salário do Victor... – a lutadora remoeu. – Bem, pense e faça o que quiser. Vou lá falar com a Boudica. A cabeça dela deve estar uma confusão e precisa de alguém para conversar. Ela merece no mínimo a mesma acolhida que vocês me deram quando cheguei, e que agora não estão oferecendo...

Assim falando, Mei Feng desencaixou cada um de seus pés dos pinos da base em que fora fixada, deu as costas a Graham e prosseguiu até o canto da estante em que a guerreira se encontrava, passando por alguns outros bonecos no caminho que não a perceberam – ou fingiram não perceber. Lançou breve olhar a Amika, cercada pelos bonecos da Wonder Select numa conversa animada, como sempre amando ser o centro das atenções. Depois, a chinesa focou sua visão apenas em Boudica, vencendo o resto da distância que as separavam. Era a única que merecia sua empatia.

A guerreira de estética mangá continuava parada, como se houvesse morrido devido ao abandono pelo dono e não passasse de uma estátua sem consciência. Mei Feng, no entanto, sabia não ser o caso, já que Victor há pouco voltara ao quarto para manusear a nova figure mais um pouco, testando suas articulações e poses com uma expressão maravilhada. Aquilo era medo – tão intenso a ponto de se tornar paralisante.

– Hã... Olá?

Não foi a melhor das aproximações, mas ao menos Mei Feng tomou a iniciativa. Ao seu chamado, a outra boneca voltou lentamente os olhos em sua direção, como se as articulações travassem... e ficou a fitá-la sem expressão, do mesmo modo que encarando o nada.

A lutadora esperava não tê-la assustado, e julgou que nada em sua aparência poderia provocar tal reação: o tradicional vestido chinês esverdeado que usava, contendo estampas de flores e cortes de ambos os lados para exibir suas torneadas pernas cobertas por meia-calça, caía-lhe até quase os pés de botas brancas – cano alto e cadarços enormes. O cabelo negro, preso num rabo de cavalo, estendia-se por todas as suas costas até a cintura; e as mãos, de pele branca pálida assim como todo o resto de seu corpo, encontravam-se revestidas por meia-luvas pretas, deixando os dedos expostos.

Não sou nenhum “Monstro do Armário”, não é mesmo? Além do mais, poderia ser alguém pior: a Amika.

– Olá – Boudica finalmente respondeu, só aparentando fazê-lo quando se certificou de que não havia perigo algum a si.

Por um ou dois segundos, Mei Feng sentiu dúvidas sobre como achar assunto; mas logo retomou a palavra, tentando soar simpática:

– Você causou sensação aqui na estante. Todos estão comentando a seu respeito. Além disso, parece ser a nova peça favorita do Victor, dono da coleção. Deveria se orgulhar.

Agora estou soando como a Amika, se ela fosse boazinha. Não sei se isso é bom ou não...

– “Dono”, é assim que chamam aquele gigante... – Boudica murmurou com ar vago. – Se vocês se curvam, saibam que não farei o mesmo. Meu lugar não é aqui, meu mundo não é este. Tenho de sair deste pesadelo e reencontrar meu povo, único e verdadeiro dono de mim, que resiste contra Roma.

Tá, ela não se ajuda. Como ajudar alguém que não se ajuda?

– Olhe, eu sei que os outros bonecos já falaram com você, então não vou repetir o sermão, apenas pedir que acredite neles – Mei Feng respondeu com bastante paciência. – Você não é a verdadeira rainha Boudica, e sim um brinquedo fabricado por seres humanos, esses gigantes que andam por aí, inspirado nela. Aceite a realidade: só irá sofrer tentando abandonar sua forma de boneca atrás de algo que não existe. Este é seu novo lar, nós somos seu povo agora. Nem tudo por aqui é justo e perfeito, isso é verdade, mas podemos nos esforçar para melhorar...

Súbito, a guerreira celta ergueu sua espada e apontou a lâmina para a garganta de Mei Feng, a ponta chegando a resvalar em seu plástico. A lutadora de kung-fu por pouco não caiu de costas para trás, suas articulações quase perdendo o equilíbrio devido à manobra rápida que efetuou para se esquivar da arma. Não que ela fosse capaz de causar-lhe algum mal, visto que não era de metal como uma espada verdadeira; porém a expressão agressiva surgida no rosto de Boudica assustaria qualquer um.

– Tudo isto é uma ilusão, uma punição dada a mim por nossos deuses ou então um sortilégio conjurado pelas divindades dos romanos – a guerreira vociferou nervosa, forçando cada vez mais a extremidade da espada contra o pescoço da chinesa. – Escaparei daqui e retornarei à minha terra, está claro? Por mais que vocês, marionetes das trevas, tentem me impedir!

Mei Feng pensou em erguer uma das pernas numa voadora e chutar aquela maldita espada para fora das mãos de Boudica; mas, mantendo a política amistosa, apenas assentiu com a cabeça – o que fez a guerreira abaixar a lâmina. Ela agora tinha a atenção de todos na estante, que pararam o que faziam para testemunhar o princípio de briga. Como esta não se desenrolou, Boudica tornando a se recolher em seu canto, logo voltaram ao papo-furado, com direito a Amika lançando um olhar de desdém na direção das duas bonecas.

Será que estou sentindo uma ponta de arrependimento por ter vindo aqui oferecer ajuda?

Conforme voltava a se retrair, Boudica passou a tremer – todo seu corpo articulado emitindo estalos plásticos de modo a pensar se seus pinos e encaixes não se soltariam e a boneca desmoronaria num monte de membros e peças. Mei Feng, mesmo desestimulada, estendeu um braço para tentar ampará-la – quando a guerreira soltou, numa explosão de voz:

– Há como voltar! Ele me garantiu, em minhas visões!

Agora a lutadora estava realmente confusa.

– “Ele” quem? – questionou, cruzando os braços.

– O vulto, a silhueta que aparece em meus sonhos desde que despertei neste mundo de gigantes... – o tom de Boudica transitava pelo abismo entre o desespero e a esperança. – Ele tem uma voz de velho, de ancião, e sempre me chama até ele. Provavelmente deve ser um druida de meu povo tentando me contatar, tirar-me desta prisão.

Era fato universalmente sabido que brinquedos dormiam e sonhavam quando permaneciam em estado estático por muito tempo, na presença ou não de humanos. Mais que um disfarce para que não soubessem que podiam se mexer, os brinquedos sentiam também necessidade de descansar, a energia gasta em seus movimentos e comunicação precisando ser resposta. Já os sonhos – ou pesadelos – eram consequência direta de possuírem consciência; embora Mei Feng tivesse conhecido no passado uma miniatura bem falastrona do doutor Sigmund Freud, na estante do filho de um psicólogo ao qual pertencera, que lhe explicara como os sonhos eram na verdade produto do inconsciente, das coisas mais bem guardadas e escondidas dentro das mentes dos humanos ou brinquedos.

Sonhar com uma flanela nova para limpeza, que pó não existia; ou uma queda da estante que, estando o boneco bem próximo do chão, convertia-se na habilidade de voar... Mas uma silhueta de ancião chamando o brinquedo pelo nome? Não era devaneio dos mais comuns, ao menos Mei Feng nunca tendo ouvido coisa alguma parecida.

– Nos seus sonhos, o velho tem um nome? – insistiu na ideia, mesmo tendo consigo que levaria a nada. – Algo que possa identificá-lo?

Boudica baixou a cabeça, pensando por um momento. Quando respondeu, sua voz transparecia certeza:

– Ele se apresentou no início de algumas das visões... Ao que me lembro, o nome era “Demiurgo”.

Certo. Mesmo achando não ser um brinquedo, ela era devota da religião deles. Estranho, mas reconfortante. Meio caminho andado para que a guerreira aceitasse o que era.

– E ele só a chama, nas visões? Não diz mais alguma coisa?

A celta não precisou pensar nem por um instante para esclarecer:

– Afirma que pode me converter em carne e osso, além de dar-me tamanho para me equiparar aos gigantes. Eu deixarei de ser marionete. Voltarei ao posto de rainha do meu povo.

X — X — X

– O Demiurgo não existe! – Sub-Man exclamou com tamanha veemência, que os demais brinquedos na roda soltaram suspiros assustados, e bastante desaprovadores. – É apenas um mito contado para que os brinquedos aceitem melhor sua condição de vida. Alguns de nós somos fabricados em molde de ouro, mas não é fácil para todos. Na loja de departamentos em que fui vendido, uma estátua de resina do Padre Cícero vivia pregando sobre o Demiurgo para os pobres brinquedinhos lacrados dentro dos Ovos Kender, aliviando o desespero da espera para serem libertados por mãos de crianças descuidadas todas lambuzadas de chocolate ao leite; quase todos ficando com claustrofobia pelo resto de sua existência, por sinal.

– Seu ateu! – o cow-boy Jack Red Kid falou num tom de brincadeira, mas manifestando as sérias impressões dos colegas. – Se o Demiurgo não existe, como é que nós temos alma?

– O que você chama de alma, eu defino como “capacidade de raciocínio”, “razão”, fruto de um processo de seleção natural. Qual brinquedo conseguia escapar do cachorro da casa ao ser esquecido no chão ou das garras maléficas do priminho de três anos quando vinha em visita: o capaz de correr ou o que só permanecia parado? A Lei do Quarto é implacável, meu amigo.

– Quanta besteira! – Dick Graham balançava a cabeça em desaprovação, e seria capaz de disparar com a espingarda contra algum deles se a arma realmente atirasse. – Estamos mesmo tendo esta discussão por causa de sonhos da maluca da Boudica?

– Eu concordo com ele – Amika salientou em tom altivo, e seus cabelos rosa estavam parecendo chifres aquela noite, ainda que ela não houvesse percebido. – A recém-chegada é uma lunática, perdida em devaneios de ser a verdadeira rainha Boudica. Não devemos lhe dar ouvidos; é o melhor caminho para que ela caia em si e perceba não passar de uma boneca edição limitada.

– Como uma figure não se convence de ser uma e ainda assim sonha com o Demiurgo? – Mei Feng não abandonava seu argumento. – Ninguém falou sobre isso antes a ela, é algo que veio de sua própria cabeça. Será que não estamos diante de um sinal? Alguma força maior agindo? E se for algo comum a todos os brinquedos ditos “iludidos”, que aqueles ao redor não perceberam antes por ignorá-los?

– O que está insinuando? – para irritação de Mei Feng, Amika rebatia-a na pose mais petulante que suas articulações permitiam-na fazer. – Que iludidos como ela carregam o segredo de os brinquedos conseguirem se transformar em humanos? Ora, faça-me o favor! É pior que a trama do meu anime!

Talvez você devesse ter ficado só no anime mesmo, mocréia, ao invés de fazerem bonecas suas...

– Eu insisto que devíamos falar mais com ela – a chinesa não recuou. – Descobrir qual é a origem desses sonhos, o porquê de ela ter visões do suposto Demiurgo. Pode ser algo útil a todos nós... uma nova esperança à nossa vida sujeita à ameaça do abandono.

– Estamos tranquilos com o Victor – Graham murmurou bonachão. – Se pertencêssemos a uma criança, poderíamos temer ser deixados de lado quando ela crescesse, porém nosso dono já é adulto. Ele nos comprou para fazer coleção, e nos trata muito bem. Dá para contar nos dedos os bonecos agraciados com uma situação dessas!

– Você não pensa a longo prazo, Dick... – Mei Feng replicou nervosa. – O Victor não durará para sempre. Nós temos mais cem anos de vida útil, mas e ele? Nem precisamos ir tão longe, até a época em que ele morrer: e se acontecer algo antes? Ainda mora com os pais, mas uma hora irá se casar. Quem garante que terá uma esposa nerd? Ou espaço para nós na casa em que se mudar? Conservará para sempre os mesmos gostos? Poderemos acabar passados aos filhos dele, existindo chance de serem uns pestinhas que nos maltratariam por diversão... ou acabarmos estáticos para sempre dentro de nossas antigas embalagens, no fundo de um guarda-roupa, enquanto Victor aguarda sem pressa respostas aos seus anúncios de venda no eBay.

Um desconfortante silêncio tomou os bonecos, muitos desviando o olhar da lutadora de kung-fu; aqueles que continuaram a fitá-la assumindo expressões de desacordo – a do Sub-Man sendo sem dúvida a pior, algo de genuína fobia misturado a ela.

– Como você é pessimista! – Amika era puro deboche. – Isso me parece um “complexo de mal-amada”! Tanto rancor é por nunca ter sido a preferida, é?

Mei Feng ia mesmo partir para cima da piloto de mecha, porém foi contida por Sub-Man e Jack Red Kid – cada um segurando-a por um braço, de modo tão brusco que seus pinos estalaram.

– Nós não devemos perder a cabeça agora... – o cow-boy sussurrou ao seu ouvido.

– Ah, é? A minha cabeça vai se desencaixar mesmo é se vocês me sacudirem outra vez desse jeito!

Os dois super-heróis a soltaram, mas Amika já tinha deixado a roda, rindo triunfante. Concluindo que não valia a pena persegui-la, Mei Feng olhou ao redor em busca de Boudica. Visualizou-a de novo parada num canto da cômoda, imóvel tal como antes. Agora compreendia que talvez ela se esforçasse para dormir e sonhar, tornando a encontrar o Demiurgo.

Os outros negam, mas, assim como ela, todos nós nos agarramos a alguma esperança...

A lutadora aproximou-se de Boudica. Tamanho era o grau de imobilidade da guerreira que Mei Feng desta vez realmente temeu que ela não voltasse mais a se mexer. Desacelerou os passos quando chegou perto o bastante da celta, examinando-a, imaginando o que poderia ter-lhe acontecido... e dessa vez seus reflexos falharam. Sem mais nem menos, a chinesa caiu sentada quando Boudica saltou para frente, dando a entender que a agarraria ou a sacudiria com os braços – exclamando, como se saída de um transe:

– O Demiurgo! Eu sei onde encontrá-lo! Ele me disse!

Acrescentou, aproximando bem seu rosto plástico da face da lutadora caída:

– Temos que ir atrás dele!

CONTINUA...

Notas finais
Notas do capítulo: Fanservice – Termo usado principalmente para animes e mangás que descreve cenas, situações ou caracterizações desnecessárias ou não condizentes à trama em questão, servindo apenas como “agrado” aos fãs. Quase sempre envolve cenas ou visuais de conotação erótica de personagens femininas. Druida – Denominação geral dos antigos sacerdotes celtas. Além de organizarem os ritos religiosos, os druidas tinham papel social mais profundo, como funções jurídicas. Ovos Kender – Uma referência ao “Kinder Ovo” do mundo real, que fez parte da infância de muitas pessoas e recentemente tornou-se alvo de controvérsia devido ao aumento de seu preço.