Crônicas Parabatai - o lobo e o feiticeiro
5 Os presentes que não esquecemos
Notas iniciais
O portal abriu em frente à casa do feiticeiro e todos esbarraram uns nos outros com a chegada quase similar a uma aterrissagem. Lucas olhou para trás e balançou a cabeça em reprovação à falta de experiência em viagens por portais dos nephilins e do lobisomem, enquanto Matheus já olhava ao redor do grupo desconfiado, como sempre prezando pela segurança dos demais.
– Algum problema, caçador? – Lucas perguntou intrigado.
– Silêncio, feiticeiro! – Matheus abaixou mais a voz e apontou discretamente para as árvores da praça logo em frente à casa – Tem alguém nos observando.
– Mundanos? – Felipe questionou com uma das sobrancelhas arqueadas.
– Claro que não, seu lobo inútil! Como se eu fosse abrir um portal em frente a minha casa sem um feitiço de disfarce! – O lobisomem rosnou com dentes afiados para o feiticeiro até Matheus pedir silêncio outra vez, já abrindo sua jaqueta.
Os chakrans voaram de suas mãos como raios de luz e se entrecruzaram no ar, atingindo algo em seu caminho. Então, ouviu-se um leve grito de surpresa e um gemido, mas antes que qualquer ser na sombra das árvores reagisse, os quatro caçadores já estavam ao seu redor, com armas apontadas em sua direção.
– Quem está aí? Mostre-se! – Matheus intimidou a vítima de seus chakrans.
– Bela pontaria, jovem Heartway – uma bela garota saía de dentro das sombras, com cabelos marrons cacheados, a pele branca, orelhas pontudas e olhos azuis tão claros que pareciam brancos, não fossem por resquícios castanhos que rodeavam a pupila, como se castanhos seus olhos tivessem sido um dia. – Mas certamente uma antiga caçadora das sombras saberia como evitar a fatalidade de uma arma assim.
– Caçadora? – Pedro tomou a frente do parabatai para questioná-la, enquanto Felipe e Lucas se aproximavam e ela curava seus ferimentos com raios de magia dourados. – Tem certeza de que você não é uma fada? Ou meus olhos estão enganados quanto à magia que sai das suas mãos?
– Ah, magia... As coisas que aprendemos com nosso próprio sangue, não é? Mas já fui caçadora uma um dia, Maíra Aspenfair, se bem me lembro... Metade caçadora, metade fada e levada para corte da rainha Seliee em acordos entre fadas e nephilins, que certamente nunca acabam bem para os mais jovens... Mas pouco importa agora meu sobrenome, tampouco vim falar sobre mim. Vim para alertá-los.
– Alertar-nos ou propor alguma barganha para a rainha Seliee? Ela não está em condições de novas tramas, você sabe, não depois de Nova Iorque... – Pedro ironizou, dirigindo-se a Maíra em uma tentativa de descobrir se seus pais estavam em poder do povo das fadas.
– A rainha não sabe que estou aqui, nephilim. Vim sem ser vista, mas não tenho muito tempo. Ao contrário do que você pensa, ainda tenho alguma preocupação com os caçadores de sombras; a corte pode ter trabalhado bastante com feitiços na minha mente, mas não exterminou toda minha essência. Por outro lado, antes que algum comentário irônico venha da sua parte, preciso pedir que tome cuidado, pois talvez mais de um povo passa ser prejudicado pela sua ingênua confiança em suas companhias – ela olhou diretamente para o feiticeiro Lucas, que arregalou os olhos e ficou estático, com um brilho incandescente por baixo da blusa, na região do coração, então retribuiu com olhos semicerrados para ela.
– Sentindo-se aprisionado, feiticeiro? – Maíra olhava para Lucas com certo ar de satisfação.
Lucas permaneceu em silêncio e Matheus percebeu o brilho por debaixo da blusa do rapaz, mas considerou ser a mágica do feiticeiro ou algum sinal de ameaça por estar diante de outro ser – ou meio ser – com poderes mágicos.
– O que você quer dizer com ingênua confiança? Se você acha que vamos confiar em você...
– Aproxime-se caçador. – Pedro foi interrompido pela garota-fada. – Veja, ainda não estou totalmente recuperada e certamente estou indefesa... Poderia ser gentil em me ajudar a levantar? Pedro Blackshadow, não é isso? – Ele se aproximou receoso com qualquer movimento da garota, enquanto os demais miravam com mais precisão as armas para ela. – Maíra sorriu satisfeita.
– É tão bom conhecer tantas famílias de vocês caçadores, sem vocês mesmos nunca conhecerem nosso povo mais a fundo. Mais fácil ainda quando um de nós já caminhou entre vocês. – Maíra falava para que todos a ouvissem claramente, ao mesmo tempo em que colocava discretamente algo plumoso nas mãos de Pedro, enquanto ele a erguia para ficar de pé. Em seguida cochichou algo ao seu ouvido e outra vez sorriu.
Subitamente, raios dourados rodopiaram subindo em espiral em volta da garota meio fada, meio nephilim e ela desapareceu diante deles. Lucas soltou um suspiro e balançou a cabeça negativamente, pronto a um comentário ácido.
– Vocês nephilins são loucos, mesmo que eventualmente sangue de fada corra nas veias de vocês. Na verdade, sangue de fada sempre causa algo interessante na sua raça...
– Sobre o que você está falando, feiticeiro? – Matheus pareceu confuso, não conseguindo fazer conexões entre o ocorrido e as palavras de Lucas, que logo fez um aceno com a mão dispensando a sequência da conversa e se virou em direção a sua casa, com os demais o seguindo sem opção sobre o que fazer.
– Eu vi o olhar que a tal Maíra deu para o feiticeiro – Pedro segurou o braço do parabatai e deixou Felipe ir mais à frente – e não sei por quê, acho que tem algo estranho nessa história; peças que me parecem ter conexão de alguma forma, mas que ainda não consegui juntar.
– Que bom que conseguiu perceber algo, porque eu mesmo fiquei meio impressionado com uma caçadora no meio das fadas, ainda por cima em algum tipo de... Acordo?
– Os Institutos do mundo andam sob alerta após as notícias de Jonathan Morgenstern e toda aquela confusão com os Crepusculares. A confiança no Submundo vem decaindo aos poucos e caçadores de sangue misturado não têm tido o melhor tratamento pelos Enclaves. Talvez Maíra tenha sido vítima de algum ato extremo e, você sabe, nem tudo que se faz entre os caçadores pelo mundo chega ao conhecimento da Clave. – Pedro terminou sua fala com certo pesar, especialmente pela expressão de decepção do parabatai ao ouvir tudo aquilo.
– Chegamos – Lucas abriu o portão e os fez entrar. Antes que pudesse fechá-lo, alguém o impediu com a mão segura no ferrolho e mirou nos olhos dele.
– Olá Lucas, tudo bem? – Perguntou a jovem sorridente.
– Por todos os elementos sagrados, será que todo mundo agora pode ver sob meus feitiços de disfarce?
– Ah! Eu não sou todo mundo. – A garota sorriu largamente. Era pequena, da pele parda, com cabelos pretos cacheados e olhos também pretos – Luana Heronstairs, prazer.
– Mas quem... – O feiticeiro segurou a língua. – Você não deveria estar aqui, deveria? – Ele inclinou um pouco a cabeça e viu o movimento de outra jovem atrás dela – Especialmente com uma mundana?
– Bom, não legalmente. Podemos entrar?
***
Dentro da casa de Lucas Draco, antigos amigos se reviam e se abraçavam em lágrimas. Matheus Heartway e Luana Redstorm, duas almas juvenis que se amavam como irmãos, ainda que outras histórias do passado tivessem dado a entender de outro jeito. Ali conversaram sobre toda a loucura dos últimos dias e como aquela pulseira guardada como presente foi essencial para que os dois se reencontrassem, símbolo de união fraterna entre órfãos unidos por um trágico incidente.
A conversa, contudo, foi interrompida pelo feiticeiro que adentrou a sala com duas novas companhias, para espanto dos demais que se imaginavam fugitivos em um esconderijo sigiloso.
– Caçadores, lobo... Não pude detê-las. – Lucas fez um floreio com uma das mãos em direção às duas jovens ao seu lado.
– Estamos perdidos! – Pedro exclamou com as mãos sobre a cabeça – Fomos seguidos e encontrados. O castigo de Augusto nos aguarda...
– Calma, calma, Blackshadow! Não fique tão tenso. Na verdade ninguém do Enclave de São Paulo sabe que estou aqui, ainda mais com uma mundana... Até porque faço parte do Enclave de Santo André. Luana Heronstairs, prazer.
– Como você sabe... – Pedro ficou estarrecido com a garota que sabia seu sobrenome sem nunca o ter visto, mas foi interrompido por Mayara, que questionou atônita.
– Uma mun... Mundana?
– Sim. Uma mundana – a garota respondeu sobre si. – Já fui nephilim, Joyce Carstairs, uma das mais tradicionais famílias no hemisfério norte ocidental e no Oriente, vocês devem saber. Meus avós e meus pais migraram para São Paulo, morávamos na Liberdade, bairro chinês da cidade, local onde nasci. Fui criada desde a infância como caçadora, mas na adolescência conheci um jovem que se tornou meu marido, hoje falecido – Joyce deu um leve suspiro e abaixou os olhos, então continuou. – Deixei tudo por amor a um mundano e construímos uma linda família aqui em Santo André. Mas agora... Agora sigo sozinha e vivendo receosa pelos meus filhos, dia após dia aguardando o momento em que caçadores baterão a minha porta e tentarão convencer meus pequeninos a se tornarem um deles.
– Ah! Agora está explicado porque você também me viu, mundana. A visão...
– Sim, senhor feiticeiro. Exatamente por isso.
– Ora, Lucas! Refira-se com mais respeito a minha amiga! – Luana falou com voz forte e olhar firme para o feiticeiro, que fez apenas um gesto apaziguador com uma das mãos, mas em silêncio.
– Então, o que acontece agora? – O lobisomem Felipe parecia agitado com a situação. – Essa Luana Heronsmith denuncia a gente e é o fim da linha?
– Não pretendo denunciar ninguém. E me chamo Luana Heronstairs.
– Luana? Sério? – Luana Redstorm olhava a garota de cima a baixo. – Heron... stairs? Isso existe? – Ela jogou os cabelos cacheados vermelhos para frente com um movimento de mãos e virou a cara, antes que a garota respondesse qualquer coisa, como se realmente não se importasse com ela; mas se importava. Em seguida, retirou um cigarro de uma finíssima cigarreira, que levava escondida em uma liga presa à coxa da perna esquerda, e foi em direção à porta. – Vou fumar.
– Estou boba! Você fuma? – Mayara ficou boquiaberta com a amiga.
– Você não acha mesmo que eu vou passar uma vida disfarçada de homem, no meio de homens, no que deveria supostamente ser um Instituto exclusivo para caçadores de sombras, acordando todo dia às cinco da manhã para entoar cantos gregorianos com um monte de monges e não surtar? O que seria de mim sem a nicotina! Deixa a mente mais calma, sabe...
– Maravilha! Me arruma um também? Vou com você.
– Será que posso contar minha história antes? – A jovem questionou as caçadoras que já saíam pela porta acendendo seus cigarros.
– Luana Redstorm tragou longamente o cigarro e soprou a fumaça pela porta. – Tudo bem, prossiga. – Mayara mal tinha acendido o seu e o apagou batendo a ponta na palma mão. – Ai, droga! Vai, pode falar!
– Em primeiro lugar, minha família não é brasileira, apesar de eu ter nascido aqui no Brasil. Meus pais são ingleses e foram ascendidos em Idris, depois de toda a baixa no número de caçadores devido aos episódios sangrentos envolvendo os Crepusculares. Eles cooperavam com informações ao Instituto de Londres; mundanos que possuíam grande influência na sociedade britânica por décadas. Pois bem, os dois sempre admiraram algumas famílias de caçadores pelos seus feitos, em especial os Herondale e os Carstairs. Daí vem nosso nome, quiseram prestar uma homenagem e foi algo bem aceito tanto pelas famílias, como pela Clave. Fazemos parte do Enclave de Santo André e hoje fui mandada para colher pistas sobre algumas fadas desaparecidas na região. Por outro lado, não resisti dar uma passada secretamente na casa da Joyce e visitar meus afilhados. Ela sempre foi minha amiga quando caçadora e me confiou o apadrinhamento das crianças mesmo após abandonar sua linhagem nephilim. Pois bem, vi a movimentação de vocês pela janela e resolvi segui-los. Desconfiava de que poderiam ser apenas duas coisas: fadas sendo perseguidas ou o grande assunto do momento, os parabatai fugitivos, afinal a maneira como estavam agindo na praça não era nada rotineiro para caçadores... E agora estou aqui com os procurados Pedro Blackshadow e Matheus Heartway – ela estendeu a mão direita apontando para cada um dos dois.
– Ou seja, somos completos marginalizados em comunhão! – O feiticeiro concluiu com ar zombeteiro – E agora oito procurados pelo Enclave.
– Oito? – Joyce admirou-se – Mas...
– Claro que sim! – O feiticeiro retrucou – Ou você acha que acobertar caçadores rebeldes não nos faz ser criminosos igualmente? Não pense que o Enclave não te arrastaria junto, Joyce, sabendo quem você foi e agora que sabe o paradeiro deles.
– Rebeldes? Criminosos? – Joyce pareceu confusa até que juntou as peças em sua cabeça – Oh, Deus! Meus filhos! Você precisa escondê-los, Lucas! Os caçadores vão levá-los para me forçar a falar.
– Você não vê que já tenho trabalho demais a fazer? – Lucas estendeu a mão em apontando em direção os demais, referindo-se ao fato de precisar esconder a todos eles.
– Acho que, nesse caso, posso contribuir com Augusto quando abrir a boca para falar dos serviços sujos que você vem fazendo neste buraco, trazendo fadas que entram e nunca saem; mundanos que pedem para invocar demônios e seres altamente duvidosos que têm passagem livre entre seu portão e a rua, além de umas coisinhas mais que seus serviços muito bem pagos pelos associados das empresas Pandemônio proporcionam...
Mayara soltou um longo assobio. – Uau! Nunca mexa com uma mãe que protege seus filhos! A mais pura verdade...
– Lucas! Se Augusto descobre isso, você é um homem morto! – Matheus gritava indignado com o feiticeiro.
– Ora vamos! Feiticeiros também precisam de trabalho para sobreviver! – Lucas virou-se para Joyce e continuou – Enquanto a você, daremos um jeito na sua língua. Traga seus filhos, vou escondê-los em um bolsão de espaço-tempo. Eles não verão passar cinco minutos e já estaremos de volta para resgatá-los. Os caçadores jamais vão achá-los dentro da minha magia.
– Então, eu estou oficialmente fugindo com vocês?
– Ah, claro! – Felipe tomou a palavra com uma expressão sarcástica – agora temos que fugir do Enclave de São Paulo, do Enclave de Santo André, por causa dessa outra curiosa, e ainda por cima proteger uma mundana no percurso. A Praetor vai a-do-rar meu relatório sobre como tenho conduzido essa missão de resgate.
– Resgate? – Um coro se fez na sala entre Mayara, Joyce e as duas Luanas presentes.
Pedro balançou a cabeça em reprovação, puxou uma cadeira para o centro e pediu a atenção dos “novatos”.
– Muito bem, a história que vocês precisam saber é a seguinte...
***
O salão estava outra vez decorado como uma festa luxuosa de máscaras, um baile de carnaval em Veneza, talvez? Homens e mulheres mascarados dançavam e dançavam, outra vez rodopiantes e em passos marcados, reverências e passos rodopiantes de novo e de novo. E lá Matheus estava dançando junto, rodopiando junto, reverenciando mais uma vez, sem controle do próprio corpo, apenas levado por uma força maior que sua vontade. Dessa vez, contudo, os detalhes estavam mais nítidos. Sim, lá estava o homem mascarado com as escamas aparecendo no ombro direito, a mesma marca do feiticeiro Lucas Draco. Espere! Era o feiticeiro, era ele o tempo todo! Matheus quis chegar mais perto, quis trocar os pares e se aproximar.
– Ele não é o que parece ser.
– Maíra? Mas como...
A garota meio fada, meio caçadora estava dançando com ele, com uma máscara cujo nariz era como de uma arara e ao centro da testa três penas vermelhas despontavam em direção ao teto. A região dos olhos da máscara era transparente, o que destacava ainda mais aquele azul esbranquiçado de traços castanhos que tanto chamara a atenção do rapaz quando a viu nas árvores da praça.
– Ele não é o que parece ser; ele não é o que parece ser... – A garota repetia a frase enquanto soltava as mãos do jovem Heartway e corria para fora do salão.
***
– Não vá! Volte, por favor! – Matheus gritou alto, no meio da madrugada, acordando os acomodados na sala: Felipe, Pê, Ryo, e Mei.
– Parabatai? Acorda, Teteus!
– Math! Math! Já falei que é Math, Pedro!
– O que foi gente? O que houve? – Ryo saltou de súbito do sofá, já com a mão em uma lâmina presa à coxa da perna direita, companheira de sono, por precaução.
– Não, não, não! Eu me recuso a acordar cinco da manhã de novo! – Mei virou o rosto em direção ao colchão e colocou o travesseiro por cima da cabeça, querendo tapar os ouvidos.
O único a continuar dormindo foi Felipe, aparentemente exausto com o dia passado, mas não por muito tempo, pois logo Joyce tropeçaria e cairia sobre ele, vindo correndo do quarto em direção à sala, descuidada e apavoradamente, devido ao grito de Matheus, seguida por sua amiga Luana, que tentava segurá-la pela mão, enquanto pedia em vão que tivesse calma.
– Por Fenrir! É um demônio! Matem! Matem! – Felipe levantou com o susto do tombo da garota sobre ele, já erguendo a mão direita com garras à mostra.
– Lobo mau! Mau! – Joyce gritava com o lobisomem, enquanto segurava uma parte do cobertor dele sobre o rosto, como se tentasse se esconder da sua garra.
Todos riram da cena.
Lucas chegou à sala poucos minutos depois, em seu hobby roxo com um dragão chinês enorme bordado na parte das costas e uma cara de total descontentamento por levantar tão cedo.
– E o motivo da gritaria... – Disse reticente, acompanhado de um floreio com a mão direita, enquanto a outra servia de apoio para o cotovelo do braço oposto.
– Um sonho. Apenas um sonho, Lucas. Nada mais.
– Um pesadelo, você quis dizer.
– Tudo bem, não preciso me explicar, apenas voltem a dormir. Pedro – Matheus olhou sério para o parabatai –, vem comigo tomar um ar.
Do lado de fora, Pedro olhava para o Matheus com uma sobrancelha arqueada, em um ar questionador. – E então?
– Sonhei com a Maíra Aspenfair, digo, a meio fada. Era uma mensagem.
– Fadas aparecendo em sonho... Realmente você pode estar certo.
– Não é a primeira vez que tenho esse sonho, Pedro. Mas uma fada invadindo o sonho de um caçador? E as nossas proteções de nascença?
– Você sabe muito bem que a magia das fadas é diferente e misteriosa, tem mais enigmas que respostas. Você mais do que eu deveria saber, senhor estudioso do Instituto!
– Ora, também não precisa apelar! Eu entendi o que quis dizer, então melhor contar meu sonho. Pois bem, eu estava dançando em um salão, um baile de máscaras, dançando e rodopiando como um feitiço que nunca me deixaria parar. Mas esta vez, diferente das outras, eu vi tudo com clareza: um dos mascarados com escamas no ombro direito, a Maíra usando uma máscara com bico e penas de arara, dizendo pra não confiar nele, enquanto dançava comigo. É como se ela tivesse tentado chegar a mim a cada sonho...
– Então acho que descobrimos o que ela estava fazendo escondida nas árvores da praça aqui em frente... Estava querendo ser vista por você e poder entrar no seu sonho, deixar algum aviso. Você tem alguma ligação com o povo das fadas?
– Há algo que meus pais nunca gostavam de comentar, quase como um segredo de família... Quando era pequeno, ouvia pelos corredores algo como proteção mágica das fadas os descendentes dos Heartway, mas nunca compreendi por quê.
– Pronto! Está aí por que a Maíra foi a você, sua família tem ligação com o povo dela!
– Mas como interpretar as penas de arara? O bico? Sinto algo muito confuso nesse raio de mensagem!
– Pois eu não. Espere aqui um instante – Pedro virou-se em direção à porta da sala e entrou correndo. Logo voltou com algo vermelho na mão, balançando diante dos olhos de Matheus.
– Onde você... Como você...
– A Maíra me entregou essa pena antes de desaparecer. Disse para esconder dos demais, especialmente se prezava pela segurança de todos ali presentes. Não pensei duas vezes.
– Mas o que uma pena? Espere, você está querendo dizer que esta pena e as da máscara que ela usava no sonho têm ligação?
– Não consigo pensar em nada diferente, Math... E veja: ao longo dela tem uma inscrição na língua das fadas, feita com mágica. Esperava que você pudesse me dizer o que significa.
– Você definitivamente não prestou atenção às aulas no Instituto, Blackshadow! Me dá isso aqui, vamos ver... Ah! Interessante, muito interessante...
– Você vai falar ou ficar fazendo o Sherlock Holmes misterioso enquanto analisa uma evidência?
– Sherl-quem?
– Esquece, você viveu trancado no Instituto... E então?
– Um delicado presente dos mais amados parentes – ou seja, brincadeira de fada.
– Não, não! Espere um instante – Pedro começou a juntar peças de um complicado quebra-cabeça: uma pena dada em segredo para a segurança de todos; um olhar desconfiado de Maíra para Lucas; o sonho do parabatai com a garota-fada dizendo para não confiar no feiticeiro; uma máscara com bico e penas de arara; um delicado presente dos mais amados parentes.
– Preciso falar com o Lobinho. – O jovem entrou sorrateiro na sala para não acordar ninguém e passou a pena no nariz de Felipe, que acordou aos espirros.
– Vocês devem estar querendo morrer rasgados hoje, só pode ser!
– Shiii! Vamos ali fora, Felipe, rápido! – Pedro falou baixo, mas foi incisivo. Logo o lobisomem estava ao lado dele na área frontal, próximo ao jardim da casa.
– Felipe, você disse que encontraria o Lucas para ele abrir um portal para Brasília, certo? O que tem acontecido na cidade que pode levar aos meus pais?
– Eu não deveria falar sobre isso, Pedro. São informações confidenciais da Praetor.
– Olha pra mim, meu amigo – Pedro colocou a mão sobre o ombro do lobisomem, que por uma fração de segundo estremeceu. – Cara, são meus pais! Por favor, me ajuda! – Felipe suspirou e concordou com um aceno de cabeça, colocando sua mão sobre a dele em consideração.
– Escuta, Pedro, tive informações da Praetor da região de que havia indícios de atividade demoníaca muito próximo à Brasília. Animais nunca antes vistos em ambientes urbanos começaram a migrar assustados para a cidade, especialmente araras selvagens. As autoridades falam sobre queimadas na região que estariam assustando os animais, mas sabemos que não se trata disso.
– Araras! – Pedro parecia não acreditar que finalmente uma lógica vinha trazendo sentido às peças antes apenas jogadas sobre o tabuleiro.
– Bom, além disso – Felipe continuou –, alguns lobisomens de bandos mais selvagens relataram terem ouvido vozes humanas pelo Cerrado adentro e boatos não confirmados de uso de magia negra em cavernas próximas igualmente.
– Pedro! – Matheus gritou o nome do nephilim que corria para dentro da casa desesperadamente, e logo seguiu o parabatai, deixando Felipe parado do lado de fora sem saber o que poderia ter havido. Os dois caçadores, contudo, se entendiam e Math sabia exatamente o que Pedro ia fazer.
Quando alcançou o parabatai, Matheus viu que o garoto já estava em cima do feiticeiro, segurando seu pescoço. Achou melhor fechar a porta do quarto antes de acordar a todos e a situação ficar ainda pior. Felipe, por sua vez, cogitou ainda ir atrás dos dois, mas pensou bem e chegou à conclusão de que Pedro teria ficado muito abalado com o que ouviu e que o amigo na certo foi consolá-lo. Melhor mesmo era voltar a dormir as últimas horas de sono que restavam.
– Fale, seu dragão imundo! Você sabe do paradeiro dos meus pais, não sabe? O que pretende atraindo a todos para cá? Fale!
– Meu... Pesc... Meu... – Lucas estava ficando sem ar.
– Pedro, Deixa ele falar! – Matheus pedia ao garoto ainda raivoso, já tentando retirar as mãos dele do pescoço do feiticeiro.
– Muito bem... – cof cof cof – Não esqueça, Blackshadow – cof cof cof – que sua amiga Luana quem me contratou para achar seu parabatai e foi o lobisomem que tinha a missão de encontrar comigo para buscar pistas, não é verdade? – cof cof cof – Lucas começava a se recompor, agora sentado sobre sua cama enquanto os parabatai estavam de pé em frente a ele.
– Sim, é verdade – Pedro começava a se arrepender de ter tentado estrangular o feiticeiro. – Mas a Maíra, a garota-fada, ela nos aconselhou a não confiar em você; além disso, atividades demoníacas tem surgido na região onde eu e meus pais moramos!
A essas palavras, os olhos de Lucas ficaram vazios e se fixaram em um ponto no fundo do quarto, como se estivesse olhando algo atrás dos rapazes. Sua postura ficou ereta e seu peito tinha algo brilhando cintilante, onde normalmente qualquer pessoa consideraria o lugar do coração.
– Lucas? Você está bem? – Matheus preocupou-se com o feiticeiro. Já tinha visto aquele brilho por baixo de sua blusa antes e agora, tinha certeza, era o coração do feiticeiro. Não sabia, de fato, se aquilo era sinal de alguma magia de feiticeiros ou consequência de centenas de anos de mágica acumulados que ele poderia ter; o que sabia, de fato, era que algo não estava certo naquele momento.
– Estou bem, não se preocupe – o feiticeiro sorriu. – É que vocês me fizeram perceber o quanto minha missão já está próxima de ser cumprida. – Enquanto ele falava, sua mão direita, apoiada sobre a perna e escondida pelo seu hobby de dragão, emitia pequenas faíscas roxas para a ponta do dedo indicador, discretamente concentrando energia.
– Missão? Você diz sobre encontrar meus pais, certo? Isso significa que você os localizaria com facilidade? – Pedro estava ansioso. – Me desculpe se agi sem pensar.
– Ah, não se preocupe com isso. Logo você vai estar com seus pais – Lucas deixou o olhar distante e agora falava diretamente a Pedro. – Já eu... – Ele voltou os olhos para Matheus e parecia que havia chamas roxas neles. – Eu terei o Arcus Cupinidis.
Não houve tempo para reagirem. Uma rajada de raios roxos atingiu os dois em cheio e de repente toda a casa estava com uma energia roxa, como eletricidade, caminhando pelas paredes e atingindo todos os presentes que ainda dormiam, incapacitando-os de despertar do sono em que se encontravam.
Lucas ficou de pé diante dos parabatai caídos e se dirigiu ao fundo, para onde tanto olhava, abrindo portas de madeira embutidas na parede, que passariam apenas por decoração. Pegou dois frascos que continham um líquido vermelho brilhante e fez os dois caçadores beber, antes de desmaiarem de vez, de tão fracos que se encontravam.
– Sangue de fada. Já ouviram falar dos seus benefícios? – O feiticeiro falava enquanto fazia os dois beberem – posso manipular a magia dele dentro de vocês e obrigar que façam exatamente o que eu disser. Agora durmam, temos algumas araras para espantar.
Matheus apagou completamente antes mesmo de o feiticeiro terminar suas palavras. Pedro, contudo, resistiu um pouco mais; resistiu a ponto de ter forças para tocar a pena dada por Maíra, que estava no bolso de sua calça, e deixar vir um último pensamento.
Um delicado presente dos mais amados parentes...
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