Crônicas Do Mundo Real
9 O Garoto e o Molusco
Notas iniciais
Christopher não estava tão radiante ao fim daquela tarde nublada, diferentemente dos dias anteriores, onde, mesmo sendo no final de um dia letivo comum e cansativo, a alegria percorria seu rosto.
Durante todo o mês ele se deparava com um estranho molusco — nem sabia distinguir qual, um gastrópode talvez — que, estranhamente, percorria os trilhos de uma velha linha ferroviária, por onde o garoto transitava solitário a caminho da escola ou na volta pra casa. O animal era lento a tal ponto que durante um dia percorria não mais que cinco divisórias de madeira dos trilhos. Christopher passou então a ansiar o momento em que o encontrava, tentando notar o quanto o molusco havia progredido, dia após dia, criando um vínculo com a criatura.
Mas naquele dia, ao cruzar o portão de saída de escola, Christopher correu muito rápido em direção a linha do trem — que ficava a poucas quadras dali — numa velocidade que nem ele acreditava que alcançasse, numa ânsia incessante que cessou subitamente, somando-se as lágrimas em seu rosto e a terra que sujou suas mãos, depois que ele caiu no chão ao observar seu destino. Ele olhava apenas para o chão, sentindo-o fazer seu corpo tremer vagamente. Começou-se então um choro intenso e gritos fortes do pobre menino. Pensou que tudo o que ele era ou o que havia feito em sua vida não valesse nada naquele momento. Sempre espontâneo, educado com os pais, nunca os desobedecia. Mas naquele dia, ao ouvir sua professora falar a respeito da inauguração do novo trem estadual que haveria de funcionar naquela tarde, Christopher sentiu-se estremecer por dentro, reconhecendo um vazio que nunca sentira, algo incapaz de dizer em palavras — tanto minhas, quanto deles, que recolheu-se num canto até o momento do sinal tocar — e certamente não seria preenchido tão cedo, pois o amor que ele sentia por aquela criatura frágil, por aquele ser insignificante para a maioria das pessoas, que sumiria de sua vida numa simples chuva ou qualquer outra coisa, esse amor se expressou num choro que se tornou imperceptível ao ouvir-se a buzina daquela máquina a vapor; uma grandeza comparável ao dois seres, o garoto e o molusco, numa companhia instantânea e diária onde Christopher poderia a qualquer momento matá-lo facilmente. O animal agora estava realmente morto. Morto pela revolução industrial.
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