Crônicas Di Angelo
1 Capítulo 1
Bianca di Angelo simplesmente sentia-se irritada. As lágrimas ainda escorriam de seu rosto, e o carro em que estava era muito apertado. Ainda assim, seu irmão Nico parecia se divertir, brincando alegremente com um dos soldadinhos de plásticos que sua mãe comprara para ele dias atrás.
Ah, bons tempos em que a vida de Bianca não passava de uma vida normal! Ou pelo menos, tão normal quanto uma vida poderia ser. Sim, Bianca não tinha se esquecido das coisas estranhas que já tinha visto. Bonitas garçonetes que viravam seres com garras e rosto franzido, homens que de repente tinham mais de uma cabeça, cobras (ou seriam dragões?) que rastejavam pelas ruas...
_Bianca, Bianca!! – Exclamou Nico, interrompendo os pensamentos de Bianca. A garota olhou para o irmão, sem saber o que dizer. Não saberia como avisar a ele que sua mãe estava, bem...
_O que, Nico? – Respondeu ela, secamente.
_Você quer brincar comigo de soldadinhos? É simples...
_NÃO! – A resposta da garota foi curta e grossa, embora nem Bianca soubesse o por quê. Afinal, não era culpa de Nico se sua mãe estava morta. Não era culpa dele que sua vida estivesse uma porcaria. Então, por quê culpa-lo?
Nico se encolheu no canto.
A viagem durou mais alguns minutos, e então o carro parou. O motorista, ou advogado, tanto faz, olhou para o banco de trás e sibilou com a voz rouca:
_Preciso fazer uma parada rápida, crianças! Fiquem aqui. – E saiu do carro. Simples assim. Bianca viu o homem andar pela calçada até virar a esquina. Quando fez isso, Nico se levantou de um salto.
_Vamos fugir! Rápido!
Bianca franziu o cenho.
_Fugir? Por quê?
_Nossa mãe, Bianca. Ela deve estar morrendo de preocupação com o nosso sumiço. Afinal, fomos raptados.
Bianca grunhiu lentamente. Sequestrados? Nico às vezes tinha uma imaginação tão... fértil.
_Nico, olhe bem. Mamãe, ela... Ela não está mais aqui. Ela, e-ela...
_Ela deve estar muito preocupada, isso sim! – Nico não esperou Bianca terminar e abriu a porta do carro, saindo em disparada pela rua.
_NICO! – Gritou Bianca. Ela não podia deixar seu irmão. Simplesmente não podia.
Bianca saltou do carro, e saiu correndo atrás de Nico. A rua de Las Vegas estava brilhando com as lamparinas brilhantes, o que fazia os olhos de Bianca doerem.
Nico era apenas um pontinho correndo, metros à frente dela. Bianca correu para alcançá-lo, mas ainda assim estava um pouco complicado de acompanhar os passos do irmão.
Então Nico sumiu pela lateral de uma rua. Bianca, logicamente, foi atrás, embora ainda não soubesse que seguir por ali seria um dos maiores erros de sua vida.
Dobrando a esquina, Bianca entrou numa espécie de estalagem. Ela não sabia ao certo como, mas sentia que Nico tinha entrado ali. Quando a mãe deles ia para Las Vegas e os levava junto, aquele era o primeiro lugar onde passavam.
Estava certa. Logo no final do estabelecimento, após as salas e os quartos, num depósito escuro e doentio, Bianca encontrou Nico parado, ajoelhado atrás de uma pilha de revistas velhas.
_Nico! – Esbravejou Bianca, puxando sua orelha. Nico nem pareceu ter se importado muito, pois sua atenção estava direcionada para outro lugar.
_B-bianca... – Nico gaguejou. Bianca seguiu o olhar do irmão, e imediatamente se arrependeu. No fundo do galpão, havia uma espécie de fonte, e o advogado que os trouxera até ali estava parado em frente a ela, parecendo conversar com alguém.
_Vamos embora, Nico. Rápido, antes que ele nos veja! – Exclamou Bianca, puxando o irmão pela gola do suéter.
Tarde demais. O advogado pareceu ter ouvido os dois conversando, pois se virou para encara-los. E foi aí que as coisas começaram a desandar.
A roupa do homem se fez em fiapos, e sua pele começou a ficar enrugada. Enormes asas de couro nasceram nas suas costas, e garras surgiram em seus dedos. A coisa – fosse o que fosse – escancarou a boca nada humana e cheia de presas, berrando algo em uma língua estranha.
_Bianca – Disse Nico, com a boca entreaberta e os olhos arregalados – Acho que é hora de correr!
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