Então, era isso.

Tudo se resumia àquele momento, enfim tudo terminaria ali. Todo meu rancor, meu sofrimento, a minha dor finalmente teria fim.

Dava para escutar o barulho do relógio às minhas costas e o suor gelado descendo no meu pescoço. Não sabia se era agonia, ou se finalmente eu tinha chegado ao conforto.

A lâmina posicionava-se logo acima de meu pulso, permanecendo trêmula e ao mesmo tempo estática. Afiada como jamais nenhuma faca pudera ser apenas esperando um toque para provar de meu sangue vermelho e carregado de tristezas e ódio.

Fechava os olhos, estancando algumas lágrimas que permaneciam dentro dos meus olhos.

Aquilo estava demorando demais, com um só corte, tudo ficaria bem, eu sabia disso.

Fechei meus olhos, apertando-os o máximo que podia. Um filme passava na minha cabeça, todo o ódio parecia em fluxo contínuo ao longo da minha mente.

Lembrei-me dos meus pais, Meu pai que vivia maltratando as pessoas e destruía calculadamente os sonhos de todos que o rodeavam. Minha mãe, que me culpava todos os dias pelas suas desgraças e amaldiçoava cada dia de minha vida.

Lembrei-me dos maus colegas que me xingavam, que destruíam o que era meu, que faziam de tudo para que uma lágrima percorresse meu rosto.

Lembrei-me dos meus sonhos que acabei perdendo por não ser bom o bastante.

Lembrei-me de minhas derrotas, de meus medos.

Lembrei-me das minhas metas que nunca eram cumpridas, e das coisas que eu não tive, mas normalmente deveria ter.

Lembrei-me do mal, da perversidade. Enfim, lembrei-me da derrota. Da derrota que me levara a fazer aquilo a minha frente. A derrota que aceitei e estava quase confirmando.

Abri os olhos e respirei, como meu último oxigênio, minha última sensação boa prestes a passar pela terrível agonia da morte, que sempre é rápida e astuta.

Fechei os olhos que estavam cheios de lágrimas, apertei a lâmina e estava pronto para transpassá-la sobre minhas veias roxas e amedrontadas.

Nesse momento ouvi um som à janela.

Não era qualquer som, era um pássaro. Um pássaro cantava próximo à minha janela junto de outro. Começaram a cantar juntos, como que celebrando o sol, celebrando o dia, celebrando a vida. Os pássaros cantavam continuamente, uma melodia quase ensaiada, seguido de vôos rápidos e ágeis.

Lembrei-me que adorava o canto dos pássaros, que cantavam à minha janela periodicamente.

Um flash corria a minha mente novamente.

Lembrei-me que nunca mais iria andar na rua observando o pôr do sol.

Lembrei-me que nunca mais iria sorrir de coisas engraçadas ou de atitudes impróprias.

Lembrei-me que nunca mais iria escutar minha música favorita.

Lembrei-me que não andaria sobre às folhas caídas do outono, e que não mais sentiria os odores doces e saudosos da primavera florida.

Lembrei-me que deixaria de lado para sempre meus sonhos, minhas metas, que eu deixaria para sempre todo o trabalho que venho montando por toda a vida.

Lembrei-me dos cálculos chatos, dos relevos estranhos, da língua falada e escrita e dos planetas correndo naquele momento ao redor do sol. Eu perderia para sempre todo o meu conhecimento e toda a oportunidade de adquiri-lo.

Lembrei-me do quão a vida é boa, do quanto ela é bela e soube neste momento porque o passarinho cantava todos os dias.

Ele cantava para o Sol quente e refrescante.

Ele cantava para as estrelas frias e pequenas.

Cantava para as árvores misteriosas e aconchegantes.

Cantava para todos os pássaros, para todos os animais.

Cantava para a vida.

Voltei a mim depois de um longo tempo pensando. Eu havia deixado todo o mal levar o bem de mim.

Olhei para as minhas mãos e vi a lâmina prestes a destruir toda a minha vida, prestes a acabar com algo que não devia acabar ali.

Joguei-a longe como que por um impulso, lançando-a do outro lado do meu quarto.

Uma vertigem perdurou em minha cabeça por alguns segundos e eu finalmente voltei completamente a mim.

Vi tudo que iria acontecer, e tudo que eu evitei ter acontecido.

Levantei-me completamente erguido.

Decidi que a partir daquele momento as coisas iriam começar a dar certo para mim.

Decidi que iria lutar, para que o destino começasse a lutar a favor de mim.

Decidi que levaria uma vida menos complicada.

E decidi que viver seria a minha primeira meta a ser cumprida.

E dela, eu desistiria nunca.

Notas finais
Deixe seu comentário, críticas e sugestões são muito importantes no trabalho do autor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!